Segunda, 09 Março 2015 05:58

A Morte de Lampião

 
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Em recente correspondência com um amigo, esse lamentava a morte do terrorista bin Laden, por não lhe ter sido dado o “direito” de ser julgado por um tribunal internacional. Lembrei-o de que no Brasil tivéramos um Bin Laden, todo nosso, que fora o cangaceiro Lampião. Não me lembro de ninguém que tivesse lamentado sua morte. Ao contrário, a mesma fora recebida com um suspiro de alívio em todo o Nordeste, especialmente entre as crianças, para quem ele fora o “bicho-papão” mais temido. Fui criança naquela época, e sei disso de experiência própria. Uma vez ele invadiu a vila de Serrinha, perto de Garanhuns, e fez ameaças à cidade de Garanhuns, onde morávamos. Dificilmente ele teria ido até aquela cidade grande, onde facilmente cairia numa emboscada de fogo cruzado, mas assim mesmo nos amedrontou muito, pois éramos crianças e nada sabíamos desses detalhes.

 

Lembrei-me então de que até agora eu pouco tinha escrito, do que me fora confidenciado pelo tenente David Gomes Jurubeba, testemunha ocular da morte de Lampião. Na época em que o entrevistei, por dois dias seguidos, Jurubeba já tinha 99 anos. No entanto estava totalmente lúcido, ainda que cego e com problemas de estômago, que ele procurava mitigar limitando-se a comer apenas mingau de maisena, em todas as refeições.

O tenente David Jurubeba fora um “nazareno” – ou seja, um dos garotos da antiga vila de Nazaré, que dedicaram suas vidas a perseguir Lampião. Sentaram praça nas chamadas forças volantes pernambucanas, e passaram a perseguí-lo. Todos tinham mais ou menos a mesma idade que Lampião, e o tinham conhecido quando jovens. Lampião se desentendera com as pessoas de Nazaré, assim me contou Jurubeba, por chegar naquele local em dias de feira praticando violências e desordens, mesmo antes de se tornar o famoso bandido do Nordeste.

De acordo com o tenente Jurubeba, fora difícil “pegar” Lampião, não apenas porque ele era um gênio militar, mas também porque o mesmo montara uma rede de protetores políticos, e “coiteiros” que lhe davam todo apoio. Esses coiteiros compravam para ele as melhores armas e munições disponíveis, melhores até do que as da polícia – inclusive as balas supridas a ele tinham projétil de cobre, e não de chumbo, como os velhos rifles americanos “papo-amarelo” usados pela polícia. Esses coiteiros também serviam como tesoureiros do cangaceiro, guardando o dinheiro e as jóias que ele roubava, bem como comprando os perfumes e vinhos finos franceses, que o bandido tanto apreciava. Não se pode negar que Lampião tinha muito bom gosto. Era um sertanejo de “bom gosto”, ainda que bem primitivo.

Entre seus coiteiros políticos, em Pernambuco, ele contava com o apoio do prefeito de Águas Belas, Audálio Tenório, primo distante dos Gueiros de Garanhuns. Outros eram da polícia alagoana, como o coronel João Bezerra - que depois seria seu algoz na chacina de Angicos - sem falar da poderosa família Brito, de Sergipe, que lhe dava respaldo.

De tempos em tempos, afirmava Jurubeba, Lampião ia descansar na fazenda de Audálio Tenório, em Águas Belas, onde se encontrava com o coronel João Bezerra. Lampião adorava jogar cartas, de modo que ele e o coronel passavam a noite toda carteando, num ambiente iluminado apenas por uma fumegante lamparina de querosene. Na manhã seguinte, e ainda jogando cartas, os dois amanheciam com os rostos cobertos da fuligem da lamparina, “e Audálio só faltava morrer de rir, mangando (sic) deles”, contava o tenente Jurubeba. Lampião reclamava que João Bezerra roubava nas cartas, acrescentou meu informante.

Nessas ocasiões de jogatina, os dois combinavam encontros de batalhas faz-de-conta. As vezes que Bezerra “lutou” contra Lampião foram apenas tiroteios combinados antecipadamente, apenas com tiros para o ar, e ninguém saía ferido, assim afirmava Jurubeba.

Quando acossado pelas forças volantes de vários estados, Lampião fugira para Sergipe, por uma boa razão: ali mandavam os Britos, seus aliados, praticamente “donos” de todo o estado. Deveria, portanto, estar a salvo.

Ocorre que, em 1937, após a criação do Estado Novo Getúlio Vargas dera ordens para que todo o Nordeste fosse “pacificado”, com recomendação de serem mortos todos os cangaceiros e rebeldes que não se redessem. Isso resultara na chacina de Pau de Colher, na Bahia, em janeiro de 1938 - com 450 fanáticos religiosos mortos - da qual participara o próprio David Jurubeba, sob o comando do tenente Optato Gueiros, oficial da volante pernambucana. Essa campanha contra o banditismo resultaria também na morte de Lampião, em julho do mesmo ano, na gruta de Angicos, em Sergipe.

As ordens expressas de Getúlio Vargas eram para prender ou matar o velho companheiro de carteado do coronel João Bezerra. De acordo com o tenente Jurubeba, coronel João Bezerra preferiu matar Lampião, não em batalha, mas à traição, com vinho envenenado. O bandido adorava vinhos franceses, bem como perfumes franceses, com os quais praticamente se banhava.

A história do vinho fora que, como sempre, Lampião mandara buscar vinho francês de um comerciante sergipano, seu coiteiro de total confiança, chamado Pedro Cândido. Informado disso, João Bezerra dera ordens para que o vinho fosse envenenado. Isso foi feito com uma agulha de injeção, cuidadosamente enfiada nas rolhas das garrafas, e o veneno nelas colocado com uma seringa, sem que as rolhas fossem retiradas. O vinho envenenado foi fatal para Lampião e seu bando. Morreram todos do veneno, e não dos tiros da volante alagoana, assim me afirmou o tenente Jurubeba.

Destarte, em seus últimos dias, por ordens de Getúlio Lampião estava sendo acossado pela volante alagoana, sob o comando do próprio coronel João Bezerra, seu velho companheiro de carteado. A volante alagoana, por sua vez, estava sendo acompanhada, a certa distância, pela volante pernambucana, na qual estava o tenente Jurubeba.

David Jurubeba contou que os da volante pernambucana ainda ouviram de longe o tiroteio na gruta de Angicos, mas quando chegaram ao local Lampião e seus companheiros já estavam mortos, e as cabeças dos mesmos já estavam sendo decepadas. O tiroteio aparentemente fora apenas para dar impressão, à volante pernambucana, de que uma batalha de fato ocorrera. As cabeças decepadas foram levadas em latas cheias de álcool, por todo o estado de Alagoas, a fim de convencer o povo de que Lampião de fato estava morto. Nessa época morávamos em Palmeira dos Índios, onde meu pai era pastor da Igreja Presbiteriana local. As cabeças de Lampião e do seu bando foram trazidas para lá, mas minha mãe muito corretamente nos proibiu de ir olhá-las, como estavam fazendo todos os nossos colegas de escola.

A fortuna que os bandidos levavam, em dinheiro e jóias, foi então dividida entre os policiais alagoanos. A morte de Lampião também fez a fortuna de vários outros coiteiros, que atuavam como seus tesoureiros, que se apoderaram de tudo o que o cangaceiro guardara com eles.

Anos depois, conheci um dos oficiais alagoanos que participara da morte de Lampião, o coronel Francisco Ferreira. Esse adquirira uma grande propriedade, na praia do Poxim, em Alagoas, e por muitos anos vivera ali nababescamente, em uma propriedade com milhares de coqueiros, e um harém de 25 mulheres. Quando o conheci, lhe restava apenas um grande diamante, “de estimação”, que ele guardava como lembrança. As mulheres também tinham sido mandadas embora, ao passo que sua fortuna fora se acabando. O coronel perdera tudo no carteado, pois era fanático pelo jogo das cartas.

A propriedade deste ex-policial alagoano era contígua à da sogra de meu irmão Fanuel Gueiros Vieira, uma propriedade de 175 quilômetros quadrados. A casa onde ficávamos era na vila do Poxim. Essa vila era localizada entre as duas grandes propriedades: a de D. Elsa e a do coronel. Da casa de D. Elza nós víamos o coronel todos os dias, sentado em frente à sua própria casa tomando sol, mas com um rifle atravessado nos joelhos. Por onde ele andava levava aquele rifle, e uma bolsa estilo “capanga” a tiracolo, cheia de balas. Não tinha um só minuto de tranqüilidade, pois sempre esperava ser morto por algum ex-capanga de Lampião. Meu filho David Jr., que hoje é pastor da Igreja Maranata, e economista da Organização dos Estados Americanos (OEA), em Washington, DC, me conta que nas férias que passava na propriedade da sogra do meu irmão, freqüentemente ele e o tio iam caçar nas matas da vizinhança, e que o tenente Francisco Ferreira lhes servia de guia.

Morrera Lampião nas grutas de Angicos, em 1938, mas a sua memória, 20 e tantos anos depois, ainda assombrava os viventes. 

Lido 1471 vezes Última modificação em Terça, 26 Maio 2015 19:59
David Gueiros Vieira

PHD em História da América Latina, Mestre em história dos Estados Unidos da América, conferencista e um dos maiores especialistas brasileiros em História da Questão Religiosa do Brasil.