Quarta, 03 Abril 2013 12:46

Cíclicas Cheias e Secas das Águas

 
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De minha infância, em Ipueiras, guardo o dialético jogo das águas, por entre cheias e leitos secos dos ricos, a nos falar dos surtos entre o solidário e o solitário. Moacir daqui emi­grante, fui compreender "além, muito além daquela serra", a dos Órgãos, a divisão entre os homens que teria visto nascer Rousseau, com seu pacto social, quando um deles cercara um pedaço de terra ao rotulá-lo de  "isso é meu"....

 

Tal jogo aí está, cíclico, a nos marcar da arte à política: dos Oiteiros aos Clãs e Siriarás, a literatura, à vida social e política, para ficarmos nos mais recentes: a "União pelo Ceará", em torno de Virgílio Távora, a pacificar os velhos PSD e UDN, quando o Ceará pautou-se pelo acordo sob Planos de Metas Governa­mentais, dando saltos evidentes, nos anos '60.  E, nos anos '80, quando, a partir dos debates com Celso Furtado, no Seminário "Perspectivas para o Desenvolvimento da Re­gião Nordestina", unia-nos todos, no Auditório Castelo Branco, na reitoria da UFC, em torno de um projeto que ter­minaria por colocar em cena os então "jovens empresários do CIC - Centro Industrial do Ceará": na caudal do movi­mento pela redemocratização do País e, entre nós, para aqui "acabar com a miséria e o clientelismo político".

Dão-nos conta os da APESC - Associação dos Professo­res de Ensino Superior do Ceará - de encontro nacio­nal que aqui, já nos anos '60, reunia o mundo acadêmico, abrindo espaços para escalada mais madura, a nos vir, nos anos '80, com o Simpósio "Para onde vai a universidade bra­sileira?", sob o olhar "de dentro" e "de fora" dos "jardins de Academo" como "indústria do conhecimento" a formar capital social e humano, na oitiva, em diálogo, de empresários e integrantes da CUT, entre atores diversos outros.

Ao final dos anos 90, aqui recebíamos o então embaixa­dor do Brasil na Indonésia, Jadiel de Oliveira, após 40 anos pelos "quatro campos do mundo" a nos falar do soci­alismo do século XXI, então se esboçando a partir dos "ti­gres asiáticos", onde a precedente prática afinal resvalaria em teoria. Lembro-me de indagação minha se o modelo era válido para o Brasil. E ele: "Sim, se a partir do Ceará". Pergunto-lhe por quê.  "É que o sol libertário sempre nasce mais cedo, no Ceará" - res­pondeu-me. Depois, no Plenário 13 de Maio, no Legislativo Estadual do Ceará, ouviria, de Cristovam Buarque, a insistên­cia desse mesmo conceito, ao longo de nossa história. E, de nosso folclore, depois, olharia as cenas do "Ceará Moleque", a aguardar, sob vaias, o preguiçoso e retardado sol, em plena Praça do Ferreira, em Fortaleza.

Agora, queixas de novos surtos do solitário quando o Ceará é visto bem atrás no contexto do País e da região.   He­gemonias, em cacos.  Nossa educação, em coro com o Brasil, entre as piores do mundo. Agricultura, nem mesmo a fami­liar. Indústria, tão só a da construção civil, de curtos fôlego e pernas. Emprego e turismo, em baixa.  Febre, apenas a efê­mera das bolsas - as do mercado e as do tipo família.  O mundo acadêmico, sobre falsos pisos e sem horizontes, insu­lado em seus castelos, sem o abraço das inteligências múlti­plas para o desenho dos valores a nos nortear e dar verbo ao projeto e ao amanhã, em nossa caminhada.

De volta, agora, os reclamados surtos do solidário. O CIC a insinuar-se resina a untar-nos. Críticas, porém: "O CIC já não é o mesmo, hoje carente do carisma de um Celso Furtado, que via, entre nós, em ciclos de 15 a 18 anos, nossa economia e política. À época, ninguém mais já aceitava depender do es­tado, as coisas ditadas de cima p'ra baixo". E nos citava o ímpeto intuitivo de Ulisses Guimarães sobre as eleições diretas: "ele levantou a bandeira e saiu sozinho correndo na frente".

Hegemonias, no Ceará, eis que afinal em cacos. Agora, são esses cacos o produtivo caos, novo sal da democracia do agora não mais "império da maioria", mas diálogo das mino­rias, nos atuais tempos do "pensamento complexo" a tomar por base o "caos produtivo". Nesse clima, novo contrato so­cial, onde as inteligências múltiplas (da verbal à transcen­dente), em diálogo, pactuam valores e dão verbo ao projeto social, rumo ao amanhecer de um sustentável desenvolvi­mento: "Quando o projeto social dá prioridade à efetiva me­lhoria das condições de vida da maioria da população, o cres­cimento se metamorfoseia em desenvolvimento. Ora, essa metamorfose não se dá espontaneamente. É fruto da realiza­ção de um projeto, expressão de uma vontade política"  (Celso Furtado).

Novo tempo e hora de recíprocas grandezas, cicatri­zando descabidos arranhões e narcíseas posturas entre os três mundos ora em infante "monólogo coletivo": o intelectual, com suas múltiplas inteligências por se abraçarem; o dos gestores (sociais e estatais); e do tato político, em novo pacto social, sob valores de agora.  Por lema, a clás­sica reedição da "unidade na diversidade", ocasião para o reencetar passos. Não apenas no Projeto Rondon, em sua inicial e histórica missão, a do "integrar para não entregar", mas em novo e mais alto degrau nos tempos de agora: o do reconhecer que a educa­ção, em todos os seus níveis e formas, é "indústria do conheci­mento", a formar capital social e humano. E, sob essa ótica, contribuir para que retomemos as experiências de responsa­bilidade social, com o status de lei, as instituições educacionais a ter assento em nossa FIEC:

Lido 1719 vezes Última modificação em Domingo, 31 Maio 2015 22:45
Marcondes Rosa de Sousa

Jornalista e professor