Quarta, 01 Abril 2020 00:00

Entrevista Dr. Guimarães Duque

 
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Fortaleza, 05 de agosto de 1976

Entrevista com o Dr. José Guimarães Duque, agrônomo, detentor da medalha do pacificador, por serviços prestados ao Exército Brasileiro em 1960, do grande prêmio Moinho Recife em 1962, da Medalha do Primeiro Decênio da Sudene em 1970, da medalha da Abolição outorgada pelo Governo do Estado do Ceará em 1973 e Doutor “Honoris Causa” pela Universidade Federal do Ceará.[1]

 

Entrevista  concedida para o Programa de História Oral da Universidade Federal do Ceará em Convênio com o Arquivo Nacional.[2]

 

                                                                                       L.F. LUCIARA FROTAG.D. GUIMARÃES DUQUE

 

L.F.

Doutor Guimarães Duque, embora nós saibamos muitos dos seus dados biográficos, nada mais interessante do que o senhor mesmo contar para nós onde nasceu, o nome de sua esposa, dos seus filhos, algum episódio interessante da sua infância, ou qualquer outro dado que o senhor considere interessante ou importante a uma biografia do senhor para o futuro.

 

G.D.

Eu nasci a 20 de setembro de 1903, em Lima Duarte, Minas gerais. Sou filho de Manuel Jorge Duque e maria Pia Guimarães Duque. Fiz o curso primário em Juiz de Fora, em 1911 a 1915. Estudei no Instituto, Juiz de Fora, 1916 a 1918. Curso ginasial preparatório no Instituto Lavras, Minas, 1922 a 1924. Curso superior de agricultura, Minas, 1925 a 1928. Diplomei-me em Agronomia em dezembro de 1928. Sou casado desde 1935 com Maria Laura Moreira Duque. Tenho quatro filhos homens: Marcelo, economista; Sérgio, engenheiro civil; Sílvio, engenheiro civil; José Guimarães Duque Filho, engenheiro civil. Depois de diplomado em Agronomia fui professor na Escola Superior de Agricultura de Viçosa, Minas, nos anos de 1929 a 1932. Em janeiro de 1933 a convite do Agrônomo José Augusto trindade, quando era Ministro da Viação o Dr. José Américo de Almeida, eu assinei contrato e ingressei na Comissão de Serviços complementares da antiga Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas, onde trabalhei de 1933 até 1938. Naquele período foi a formação dos postos agrícolas nos açudes e eu cheguei no Nordeste em janeiro de 1933 e fui morar no açude Cruzeta, região do Seridó, Rio grande do Norte. Lá foi iniciado os primeiros viveiros aproveitando a água do açude que já estava construído. Em seguida foi iniciado o Posto Agrícola do açude Condado, ainda em construção, também com a formação de viveiros. Em seguida o açude de São Gonçalo, Sousa-Paraíba, também ainda em construção pelo engenheiro Estevão Marinho, foi iniciado os primeiros viveiros e trabalhos hortícolas com água de irrigação de cacimba. O serviço do Posto Agrícola de Lima Campos foi iniciado em março de 1934 também com o açude e os canais ainda em irrigação. No mesmo ano foi iniciado o serviço de irrigação no rio Parnaíba – Piauí próximo a Teresina, era uma irrigação por meio de ligação de água com bomba. No período de 1933 a 1934 foi feito também um trabalho extensivo de plantio de campo de palha forrageira por determinação do senhor Ministro José Américo. Este serviço abrangeu os Estados do Piauí até Bahia onde foram instalados em cooperação com as prefeituras duzentos e vinte e dois campos de palha. Outros serviços instalados foram também o serviço de açude de Mundo Novo, em Caicó e Dange, também em Caicó. O serviço de irrigação à margem do Rio São Francisco, no lugar denominado Icó, município de Floresta, 40 quilômetros acima de Itaparica foi iniciado em 1937 por uma irrigação por meio de bombas, e o serviço de lavoura irrigada propriamente dita começou em 1940, com o agrônomo Trajano Nóbrega. Infelizmente, no ano de 1941 faleceu o chefe de serviço, engenheiro José Augusto Trindade a quem o Nordeste deve assinalados serviços. Fui então chamado a me tornar chefe de serviço da Comissão dos Serviços Complementares da IFOCSEC, no ano de 1941. Para ser justo devo lembrar que em 1939 eu fui professor de Hidráulica e Topografia na Escola de Agronomia do Ceará. Em 1941, fim de 40 e o ano de 41, fui Secretário de Agricultura do estado da Paraíba. Esse período eu estive fora do Departamento de Secas. Com a morte então do saudoso Dr. José Augusto Trindade, em fins de 1941, eu assumi a chefia do serviço e continuamos então os trabalhos da instalação do Instituto José Augusto Trindade em Sousa - Paraíba, obra começada em 1937 e inaugurada em 1941 onde trabalharam até 1960, cinco químicos na análise de solos, de águas e de plantas. Aquele laboratório prestou relevantes serviços ao Nordeste pela análise dos levantamentos agrológicos das bacias, 25 bacias de irrigação do Nordeste no total de 180.000 hectares. E, na análise de plantas forrageiras no total de 120 espécies de plantas. Também a água de muitos açudes e poços profundos foi analisada naquele laboratório. A instalação da irrigação do Posto Agrícola de Cocorobó, no município de Euclides da Cunha na Bahia, foi feita um pouco mais tarde, logo que terminaram o açude e a construção de canais foi iniciada a irrigação. No Ceará foi iniciada a irrigação também na era de... tempo de Guerra, 40 a 45, no açude Santo Antônio de Russas, próximo a Fortaleza e açude de Joaquim Távora no município de Jaguaribe-Mirim. A irrigação do antigo açude do Cedro passou para o serviço após 1950. Ele, foi iniciado, falo da construção, no tempo do Império e terminado nos primeiros dias da República. Começou a irrigação logo em seguida, mas passou à administração do nosso serviço somente muitos anos depois. No Ceará foi iniciada a irrigação também no açude Araras, no município de Sobral e outro açude, próximo a Sobral que eu não me lembro o nome agora. Durante estes anos, de 1933 até a aposentadoria em 1964, tomamos parte ativa em cinco secas: a de 1933, a de 41, 51, 53, 58. A tragédia das secas com a ocorrência de flagelados e suas famílias aos açudes em procura de trabalho e de alimento e de água é um fato impressionante que somente pode sentir e avaliar aquelas pessoas que assistiram na poeira e no calor aquelas lutas. Nem sempre tudo corria bem. Muitas vezes o afluxo de flagelados e famílias aos açudes e às obras era muito superior à capacidade de emprego de ferramentas e mesmo de abastecimento de gêneros. Naquela época o pagamento não era em dia, então havia os fornecedores que forneciam gêneros aos operários, mediante uma tabela de preço aprovada pelo serviço. Mas havia demora muito grande nos pagamentos. No ano de 1939, por exemplo, eu me lembro que não só os operários, mas também os agrônomos e o próprio chefe do serviço passaram nove meses sem receber salário. Ou melhor, o salário de janeiro de 1939, foi recebido em fins de setembro de 1939. As secas... há muito desconforto na população, principalmente, o problema de habitação, porque falta material para casas e as latadas com galhos de árvores, o abrigo debaixo de árvores, não permite uma satisfação de comodidade, está muito longe disto, e naquela época, antigamente, havia ocorrência de doenças, principalmente tifo e verminoses. Houve naquele período muita emigração de flagelados de um Estado para outro, a contaminação de doenças em regiões onde dantes não havia.

 

L.F.

Dr. Guimarães, o senhor fez referência ao Sr. Trajano Nóbrega. Este senhor foi ou pode ser considerado um pioneiro no método da irrigação de açudes?

 

G.D

O Doutor Trajano Nóbrega ingressou no serviço, ele era agrônomo do Departamento de Secas, trabalhava em serviço de estrada de rodagem. Ele ingressou no serviço já o serviço iniciado, mais ou menos em fins de 1936, salvo engano, iniciou o serviço. Agora, ele foi no nosso serviço o pioneiro de irrigação no Rio São Francisco, quer dizer, pioneiro por parte do Departamento de Secas, no Rio São Francisco. Ele fez a instalação lá num período muito difícil. O período em que Lampião atravessava aquelas caatingas constantemente e ele trabalhava com os operários de metralhadoras. Mas era um homem valente, e era um homem muito corajoso e trabalhador, e conseguiu iniciar a irrigação lá naquelas terras muito despovoadas à beira do Rio e muito áridas. O êxito que foi em vida e ação nas margens do Rio São Francisco é sem dúvida devido ao agrônomo Trajano Nóbrega.

 

L.F.

Isto é notável. O senhor teve algum tipo de contato com o cangaço ou com cangaceiros?

 

G.D.

Pessoalmente nunca tive contato com cangaceiros. Embora sabia que entre os flagelados e entre operários do meu serviço havia alguns homens que em tempos passados haviam sido cangaceiros.

 

L.F.

E nunca estes homens levaram ao senhor algum tipo de problema ou lhe causaram algum problema ou ao trabalho que o senhor desenvolvia?

 

G.D.

Não; eles eram homens pacíficos. Eles tinham verificado que o cangaço não compensava. Agora, havia alguns do tempo de Lampião, havia ainda os seguidores de Lampião, principalmente nas caatingas de Pernambuco, Alagoas e Bahia. Aquele reduto continuava sendo vítima do cangaço de Lampião, porém, nos Estados de Paraíba, nos Estados do Rio Grande do Norte e Ceará, devido à construção de estrada de rodagem e redes telegráficas, o cangaço não existia.  Existia ainda homens que tinham pertencido ao cangaço, como já falei, mas que estavam pacificados e estavam trabalhando em obras do governo. Eles não causaram nenhum distúrbio nas obras.

 

L.F.

E  quando de fato o senhor iniciou as suas experiências profissionais no nosso Estado, aqui no Ceará?

 

G.D.

O serviço do Posto Agrícola de Lima Campos foi o meu primeiro trabalho feito no Ceará. Foi iniciado ainda com um viveiro da produção de mudas, porque o açude de Lima Campos, antigamente chamado açude Estreito, ainda estava em construção e os canais também estavam em construção. As atividades dos primeiros açudes, Santo Antônio de Russas, Cedro, açude Joaquim Távora, açude Forquilha,  no Norte, perto de Sobral e açude Aires de Sousa, também perto de Sobral, começaram posteriormente.

 

L.F.

O senhor se referiu ao papel do intermediário na época das secas, rapidamente o senhor falou sobre o assunto. Eu gostaria que o senhor detalhasse mais alguma coisa, como vê a figura do intermediário à época da seca, em termos de sua vivência pessoal sobre o assunto?

 

G.D.

No tempo antigo em que o governo não pagava em dia, o único recurso era atender à alimentação dos flagelados, mediante fornecedores particulares de gêneros alimentícios, com tabelas aprovadas pelo chefe de serviço de cada local. Aconteceu muitas vezes que o pagamento atrasava e o fornecedor fixava sem recursos, mesmo bancário, para comprar novas partidas de gêneros, surgiam muitas dificuldades. No caso de fome, algumas vezes, os flagelados atacavam os barracões de fornecimento e tiravam alimento para comer, mas isto sem haver combate sangrento, sem uma luta mais cruenta. O fornecimento era feito na base de 80% fornecido em mercadoria e 20% ficava para o operário receber quando viesse o pagamento em dinheiro. Acontecia muitas vezes que o trabalhador  não tendo o dinheiro, mas tendo a facilidade de tirar gêneros no fornecedor, ele comprava alguns gêneros, vendia fora e comprava aquilo que ele queria. Isto não era possível fazer o controle, dada a multidão de gente que trabalhava nas obras.

 

L.F.

Eu gostaria de saber o que  pensa a respeito das frentes de serviço, que de uma maneira ou de outra, me parece, favorece o surgimento do intermediário.

 

G.D.

Bom, em toda frente de serviço vão os negociantes ambulantes, os biscateiros e intermediários para vender produtos aos flagelados, principalmente nos dias de pagamento. Não se pode evitar que esta venda, este comércio, às vezes, a preço exorbitante se faça junto das obras, porque a fiscalização é muito difícil. Antigamente, houve alguns casos de indivíduos que compravam as cadernetas dos operários. O operário tinha uma caderneta de fornecimento de gêneros alimentícios. Eles compravam estas cadernetas para receber depois o dinheiro do governo. Isto era punido, mas nem sempre era possível evitar dada a quantidade de gente para atender, a escassez de engenheiros para as obras e a escassez de pessoal administrativo. A senhora pode pensar, um açude, uma obra com 10.000 homens fora,  as famílias, 5.000 homens, 8.000 homens, é muito difícil evitar estas irregularidades. Quem viu, quem assistiu, quem tomou parte numa seca, sabe o que foi isso no tempo antigo. Hoje, a situação da frente de serviço está muito melhorada, há mais pessoal administrativo, há outra organização e o pagamento é feito em dia. Neste ponto de vista melhorou muito.

 

L.F.

O senhor considera que a organização melhorou, mas como? Qual foi o nível de melhoria sofrido pela organização?

 

G.D.

Porque os flagelados são selecionados quanto aos seus serviços. Os doentes, as mulheres são dados serviços proporcionais, quando podem trabalhar. Aqueles que não podem trabalhar recebem assistência do governo. Além disto, hoje, numa frente de serviço, quando chegam os flagelados, há mais ferramenta, já tem gente esperando para determinar o serviço, já tem o escritório montado para fazer a classificação e as listas do nome de cada um para figurar em folha de pagamento, e sendo o pagamento feito em dia, vamos dizer, não há oportunidade de haver fraude porque o flagelado é o primeiro a se defender, porque ele recebe dinheiro em espécie e compra como quiser a quem ele quer. Tem esta liberdade. Ora, se existe mais planos de obras de emergência, se existem mais engenheiros e mais pessoal técnico para atender, mais pessoal administrativo e escritórios organizados, então o serviço corre de uma maneira mais harmônica, sem os atropelos de antigamente em que o afluxo de gente às obras era feito muitas vezes sem ter ainda escritório organizado e sem controle adequado.

 

L.F.

O senhor presenciou algum indício desta mudança já na seca de 1958?

 

G.D.

A seca de 58 foi uma grande seca. Tinha mais organização do que as secas anteriores, é verdade, mas também houve algumas fraudes porque a ocorrência de gente atingida foi muito grande, foi maior do que nas secas anteriores. E por mais que se fizesse, a classificação, a ordenação de serviços, não foi possível evitar aqui e ali algumas falhas. Então podemos falar que não foi como o esperado.

 

L.F.

O senhor se deteria na apreciação de alguma destas fraudes?

 

G.D.

Bom, uma delas é a compra de caderneta, outra delas são cadernetas que muitas vezes não significava realmente aquilo que o operário comprava, mas era gente demais, não era possível fiscalizar tudo.Foi uma falha abrangente do tipo conjuntural.

 

L.F.

Pelo visto, esta nova organização, ela diminuiu o valor do papel do intermediário. O senhor concorda?

 

G.D.

Ah! Sem dúvida, nas últimas secas a influência do intermediário sobre a vida e o trabalho do flagelado diminuiu muito. Foram problemas de outra natureza.

 

L.F.

Bom, penso que estamos concordes quanto ao fato de que as secas geram problemas políticos,  econômicos e problemas sociais. Dentro dessas repercussões quais o senhor reputaria mais importante? Quais destes fatores, o fator econômico, o político ou o social? Acha que eles estariam superpostos, acha que algum deles seria mais importante que o outro dentro da vivência do senhor sobre o problema?

 

G.D.

O mais importante deles é o econômico. É o fato de o sertanejo perder as colheitas, ficar sem sustentação e ser obrigado a sair de sua casa para procurar trabalho, emprego. Isso afeta não só ao operário como ao proprietário, à Economia como um todo. Agora, do ponto de vista social é o problema do congestionamento dos transportes, o problema da transmissão de doença, é aquele em que muitas vezes no desespero, ou por razões quaisquer o pai abandona a família e aparece então um número incontável de crianças abandonadas. O político é aquele em que na época de eleições, outrora, os prefeitos, os políticos locais não queriam que os flagelados se locomovessem para fora do município, para não perder o voto nas eleições. Mas, não era possível estabelecer frente de serviço em cada município. Era desumano ver isto

 

L.F.

Dentro deste critério a gente estabeleceria então uma ligação entre seca e política?

 

G.D.

Sim. Havia consequências políticas nas secas, sem dúvida, esta movimentação de gente, o esvaziamento do município, esvaziamento de cidade do interior, essa questão de eleições e muitas vezes até rixas, xingamentos ,acusações, tantas coisas,  por razões que ora eram de origem econômica, ora eram por razões sociais e má compreensão da política. Isso havia.

 

L.F.

O senhor poderia acrescentar alguma coisa referente a este problema, dentro de sua visão pessoal de vivência do assunto das secas, ,nos dizer mail  a respeito do assunto?

 

G.D.

O que aconteceu nas cinco secas que eu tomei parte, o que vi foi o seguinte: estávamos trabalhando, veio a seca, como se seca fosse um improviso e as obras  se encheram de flagelados, suas famílias e tudo. O governo deu assistência, demos trabalho, todo o disponível e evitamos a morte de muita gente, mas, na realidade, depois da seca aquele pessoal voltou à mesma condição antiga. Não foi providenciada uma forma de colonização ou uma forma de trabalho para uma vida permanente aqui ou em outros lugares .Nada de política

 de fixação ao solo.

L.F.

O senhor teria alguma sugestão a propor dentro deste esquema que o senhor termina de expor?

 

G.D.

Os inquéritos feitos nos períodos de secas demonstraram que 87% dos flagelados vêm de fazendas, eram agricultores de milho, feijão e arroz, em que não tendo chovido eles ficaram sem a safra. Então, a lavoura antiecológica de milho, feijão e arroz, na terra seca, onde não há irrigação é a grande geradora de flagelados. É preciso dar trabalho permanente, trabalho fixo, lavouras que deem safra quer chova ou faça sol, são as lavouras resistentes às secas, são as lavouras xerófilas. Enquanto no Nordeste não se estabelecer na terra seca um grande programa de plantio de arvoredos, de bosques, de árvores xerófilas para produzir alimentos e matérias primas que deem estabilidade financeira ao lavrador, e melhoramento de pasto ao criador, enquanto não houver isso, nós teremos flagelados embora o progresso das cidades seja grande.

 

L.F.

O senhor tem publicado muitos trabalhos em que levanta problemas de solos, problema de água na nossa região. Eu pergunto como o senhor vê os solos no Ceará e se também dentro de sua experiência de Nordeste observa alguma diferença em termo de agravante para o Estado do Ceará com relação aos outros Estados do Nordeste?

 

G.D.

Os solos do Ceará, grosseiramente, podem ser classificados em dois tipos: o solo arqueano de origem granítica gnáissica e os solos de formação sedimentar. Os solos do tipo arqueano são os solos da região central do Ceará, onde o solo é raso, duro, muito seixo rolado, muita pedra. Este solo tem escassa capacidade para guardar água, seca muito depressa. São solos ondulados e são solos aqui e acolá desnudos, onde a erosão cada ano se acentua mais. Os solos sedimentares são aqueles da Serra de Araripe, parte do Cariri a Serra do Apodi, alguma parte do litoral e parte dos solos da Serra da Ibiapaba. São os solos formados de areia. Solos arenosos, mais profundos, porém, mais pobres quimicamente. O Ministério da Agricultura dez um levantamento agrológico de todos os solos do Ceará a tipo de classificação internacional de solos porque eles são muitos e de tipos variados e de um modo geral, falando sobre solos arqueano e solos sedimentares a gente dá uma visão geral do Estado. Quanto à devastação de vegetação no Ceará ela é mais ou menos igual à do Rio grande do Norte e da Paraíba. Há uma devastação muito grande na vegetação nativa. Nos últimos vinte anos não tem havido aumento da produção de lavoura por hectare. O aumento de safra cada ano é devido ao aumento de área plantada, cada ano mais 3% do solo é cultivado, então as caatingas são derrubadas para fazer novas lavouras e este sistema de agricultura nômade está cada vez mais empobrecendo o Estado. A forma de agricultura xerófila seria um meio de revestir o Nordeste com árvores produtoras de alimentos, de frutos e de matérias primas para a indústria. As xerófilas são plantas de mais de cem anos de duração, são árvores nativas adaptadas e esta região seca e úmida que dão safras, faça sol ou chuva. A cobertura dos solos, como meio de proteger os solos, não só contra o sol, mas também contra a erosão é um dos meios de conservar os recursos naturais.

 

L.F.

 Existe,  uma teoria de que a maneira indígena de queimar o solo seria adequada. O que o senhor pensa disso dentro de sua formação profissional?

 

G.D.

A tese da queima está em discussão ainda no Congresso de Ciências do Solo, no Paraná, há alguns anos passados um agrônomo apresentou uma tese favorável à queima dos solos. Na minha prática de agrônomo de 44 anos eu digo o seguinte: há casos em que a queima é recomendável e há outros em que ela não é recomendável. Isto é um problema local.

 

L.F.

Poderia exemplificar quando ela é e quando ela não é recomendável?

 

G.D.

Quando há um excesso de vegetação alta, quando há um excesso de espinhos, quando a queima é feita em condições moderadas, nas horas não mais quentes, também, não nos dias mais quentes, quando não se deixa a vegetação queimar de todo, pode-se fazer a queima porque será uma queima parcial e a matéria orgânica fica em parte em cima do solo. Quando a queima é feita sem obediência de uma certa técnica, o solo é calcinado superficialmente, a matéria orgânica é toda ela incinerada, só fica a cinza que o vento carrega. Então ocorre um empobrecimento da fertilidade do solo no segundo ano, porque no primeiro ano há um aumento de produção. A queima traz um aumento de produção no primeiro ano. No segundo, terceiro e quarto a produção começa a cair.

 

L.F.

Então seria o caso de se tomar medidas de prevenção de solo e de orientar corretamente o lavrador, não? O senhor, no início da entrevista se reportou ao ex-ministro José Américo de Almeida. Como era o José Américo de Almeida como homem, como ministro, como profissional que o senhor conheceu de perto?

 

G.D.

O ministro José Américo de Almeida era um homem enérgico, ele impunha muito a disciplina, visitava constantemente as obras e cobrava o serviço que ele mandava fazer. Ele sempre fazia questão de ver as obras “in loco” para ter uma opinião pessoal, ele não se baseava somente em relatório. Após a Revolução o Ministério da Viação teve um papel muito preponderante no Brasil, principalmente na parte relativa a transporte, correios e telégrafos, em grande parte se deveu à ação não somente enérgica, mas também vigilante do Ministro José Américo de Almeida.

 

L.F.

E as relações pessoais do senhor com ele?

 

G.D.

O senhor ministro José Américo de Almeida não era meu chefe direto, ele se entendia com o chefe de serviço José Augusto Trindade, e eu como inspetor do Serviço de Irrigação do Nordeste, me entendia com o Doutor José Augusto Trindade, mas tive diversos contatos com ele em viagens, e no Rio de Janeiro, no Gabinete, e sempre pude apreciar não só a bondade e o caráter humano daquele homem como também a sua energia.

 

L.F.

Doutor Guimarães Duque, o que o senhor recomendaria para a propagação e melhoria das lavouras xerófilas no Ceará?

 

G.D.

Nós temos no Ceará e no Nordeste árvores nativas como o cajueiro, a oiticica, a carnaúba, o umbuzeiro, o faveleiro, o pequizeiro, a maniçoba, a manipeba, uma variedade de mandioca muito venenosa e muitas outras que resistem às secas, ou melhor, resistiram há 34 secas nos últimos 400 anos que o homem branco está aqui no Nordeste. Ora, tendo estas árvores sobrevivido a este longo período de estiagem e continuando a produzir, é possível a aplicação da genética e dos instrumentos modernos e dos agentes mutagênicos para provocar mutações hereditárias, modificações, transformações nestas árvores para torná-las mais produtivas e com frutos de melhor qualidade. A oiticica, por exemplo, foi estudada desde 1937 a 1941 no Laboratório José Augusto Trindade e lá está produzindo todos os anos. A plantada em 41, a partir de 45 começou a produzir. A plantada em 1950, em 1956 começou a produzir e produz todos os anos. E a oiticica nativa não produz todos os anos. Ela falha dois, três, quatro anos sem produzir. Então, nós podemos transformar um umbuzeiro numa ameixa, reduzindo o caroço do fruto, diminuindo a casca, aumentando a polpa e secar lá na caatinga para fazer ameixa seca e exportar. A favela, uma árvore que dá um óleo alimentício de primeira ordem, já analisado no Instituto José Augusto Trindade, uma torta depois de tirado o farelo, uma torta tem 36% de proteína, quando a carne verde de boi só tem 22%, e mais, esta tem 4% de ácido fosfórico.  Ora, uma planta que ocorre nativa numa área de cerca de mil km2, no Nordeste e produz estes valiosos produtos, por que não melhorá-la? O trigo não era um capim perdido lá no centro da Ásia e hoje não é um cereal que alimenta a humanidade? O café não era um arbusto perdido nas montanhas e hoje não é a lavoura mais extensiva do mundo? O tomate e a batata inglesa eram duas ervinhas venenosas entre os altos dos Andes e hoje são as maiores culturas em peso do mundo! Se o homem transformou estas plantas, se todas as plantas que o homem hoje utiliza na agricultura vieram da natureza, eram selvagens, por que o Nordeste desperdiçar estas árvores nativas que são fontes de produto de alto valor alimentício e matéria-prima para a indústria, por que? Alegam alguns que demora, mas o que são dez anos numa civilização nordestina? A oiticica em oito anos estava reproduzindo todos os anos. A mesma coisa pode-se fazer com as outras plantas selvagens. Hoje, que a genética tem muito mais conhecimento, a citologia está muito mais avançada, a troca de cromossomos é muito mais conhecida, os agentes mutagênicos estão surgindo cada dia nos laboratórios, por que esta ciência que levou o homem à Lua e desintegrou o átomo não pode ser aplicada para na agricultura matar a fome de milhões de pessoas no mundo, por que?

 

L.F.

 O senhor diria que estes entraves que não são de fato limitações científicas, seria então má vontade dos homens que dirigem o governo, seria falta de esclarecimento dos líderes, seria falta de dinheiro ,vontade política, a que o senhor atribuiria?

 

G.D.

Cada governo tem seus planos e estes planos eles querem levar até o fim de sua administração. O problema das plantas xerófilas é mais um problema de compreensão para os técnicos, de um modo geral de todos os técnicos do Nordeste, para fazer ambiente, criar ambiente junto as administrações das autoridades federais e estaduais para que sejam feitos trabalhos experimentais. Um agrônomo pregando as lavouras xerófilas, como eu estou pregando durante vinte anos, não consegue nada. É preciso haver uma multidão de gente que se entusiasme por isso. Por exemplo, o desenvolvimento econômico é mais um mito de um povo que decide arrancar de si todas as forças para vencer as pedras do caminho. Enquanto não houver o mito das lavouras xerófilas, não haverá cultura xerófila no Nordeste, porque estes grandes movimentos de grandes áreas, porque são mais de 10 regiões naturais são mais de 10 espécies de planta, cada uma adequada a uma determinada região. Não adianta melhorar uma e deixar as outras, porque as outras regiões também merecem. Então, é preciso um programa amplo, um programa grande. Atualmente, o governo criou o Centro de Estudos do Trópico Semiárido com sede em Petrolina. Essa entidade que começou a trabalhar agora, vai ter sede em Petrolina, Pernambuco e está cuidando de organizar um programa para estudos das plantas xerófilas. Eu acredito que com uma medida deste porte é possível se obter alguma coisa nos próximos 10 anos.

 

L.F.

Como sente, onde foi que o senhor percebeu uma maior sensibilidade às suas ideias?

 

G.D.

É difícil dizer. Nas conferências, livros e entrevistas que tenha dado e eu não sei onde foi que houve maior repercussão. Na última reunião, no Rio, do Centro de Estudos do Trópico Semiárido, a ideia teve muito boa receptividade. Eles vão adotar o programa e eu senti que naquela reunião já havia mais compreensão do problema.

 

L.F.

O senhor nos falaria das dificuldades que encontrou com relação às suas ideias iniciais para encontrar, vamos dizer assim, receptividade, acolhida?

 

G.D.

Quando eu cheguei ao Nordeste em 1933, eu fui morar no Seridó, no Açude Cruzeta, eu tive um choque muito grande, porque eu vim de Minas e encontrei o Seridó muito seco, muito desnudo, muito erodido e muito cheio de pedras. Foi muito chocante para mim aquela estada no Seridó. Depois comecei a percorrer por necessidade de serviço de outros Estados, e durante os anos fiquei então com um conhecimento relativamente bom das condições do interior dos estados, desde a Bahia até o Piauí. E eu verifiquei então, comecei a verificar que o Nordeste não era uniformemente seco como diziam lá no Sul “Terra da Seca”, mas que o Nordeste tinha aqui e acolá ambiente ecológico muito diferente dos outros, ou melhor, tinhas regiões naturais bem diversas e que a solução do problema da seca, que foi primeiramente compreendida como uma solução hidráulica, uma solução pela água não era uma solução completa. A necessidade de resolver cada problema local como ele se apresentava, indicava que a água é importante no Nordeste, mas, não é tão importante como à primeira vista se julgava. Basta ver a quantos séculos o Rio São Francisco corre em terra semiárida e somente agora, muito recentemente, ele começa a ser irrigado. E lá, vive uma das populações mais pobres do Nordeste. O Rio Parnaíba corre no Piauí numa extensão de mais de 400 quilômetros, muita água! Ainda agora é que se está começando a irrigação porque o que nós começamos lá nos anos 30 e tantos, foi uma irrigação muito pequena e não foi continuada pelo meio do estado. Então, nós começamos a desconfiar que embora a água fosse importante ela não é tudo. Por exemplo: na época, o Estado do maranhão, chuvoso, tinha uma renda “per capita” mais baixa do que o Rio Grande do Norte, seco. Por quê? Então se um Estado chuvoso como o Maranhão tinha uma renda mais baixa do que um Estado seco, então havia fatores outros mais importantes que a água, no subdesenvolvimento da região. Era preciso procurar estes fatores. E eu, então, comecei a procurar esses fatores e com o auxílio de 15 companheiros elaboramos um mapa das regiões naturais do Nordeste com seus graus de aridez. É o mapa que acompanhou o livro “Nordeste e as lavouras xerófilas”, e cheguei à conclusão que a grande terra seca onde não chega a água da irrigação carecia de uma forma de agricultura típica nordestina. Uma forma de agricultura que gostasse deste solo e deste céu como eles são: eram as lavouras xerófilas. As lavouras que já os índios aqui aproveitavam os frutos e ainda hoje aí estão, árvores seculares, o umbuzeiro é uma árvore secular, a oiticica é uma árvore secular, a carnaúba é uma árvore secular que estão dando safra desde que o homem branco chegou aqui e estão aí, não morreram. Então, por que não as aproveitar? Então, daí nasceu a ideia de uma agricultura, de uma região semiárida ou regularmente seca que desse arbitrariedade ao agricultor e o sistema de melhoramento de pastagem nativa que desse garantia da alimentação do gado aos criadores. Com isso é possível enfrentar os impactos de uma seca, porque nós estamos aproveitando o solo ecologicamente. Conhece o mapa das regiões naturais do Nordeste com os graus de aridez? Já viu? Pois bem, aquele mapa nos diz que nós temos vinte milhões de hectares adaptados para lavouras xerófilas, que nós temos mais de quarenta milhões de hectares adaptados para melhoramento de pasto. O Piauí até a Bahia, tem uma área de 120 milhões de hectares, ou seja, um milhão e duzentos mil quilômetros quadrados. Desta área, 75% dela, é semiárida, a área úmida é a Região da Mata da Bahia até a Parnaíba. Litoral é a região do agreste, serras e bacias de irrigação. Nessas terras úmidas não intensificaríamos a produção de gêneros alimentícios e na terra seca, no interior, onde periodicamente falta chuva, onde não chega água de irrigação, esta grande área, extensas levas, nós encheríamos com lavouras xerófilas já melhoradas, já selecionadas e formaríamos grandes bosques. Então, nós tornaríamos o Nordeste mais verde, além de mais produtivo e mais agradável e estas árvores cobririam o solo para evitar a erosão da chuva e a erosão do vento.

 

 

L.F.

Então, a irrigação seria uma solução parcial, não?

 

G.D.

Sim, a irrigação é uma solução parcial porque nós não podemos elevar a água a uma altura maior do que aquela que a economia indica. Segundo: as áreas planas do Nordeste são limitadas. Terceiro: a irrigação é de instalação muito cara e sendo de instalação muito cara é preciso aproveitá-la com lavouras de grandes rendimentos.

 

L.F.

O senhor concorda com o fato de que o Ceará está por inteiro dentro da área do Polígono das Secas?

 

G.D.

Sim, isto é verdade porque a seca vem até a onda, até a praia, aqui. A seca de 1941 aí em Messejana, cacimba de dez, doze metros de profundidade secaram. Nunca tinham secado. Além disto o Ceará não tem uma região como a Região da Mata de Pernambuco, não tem uma Região de Agreste como o Agreste Pernambucano, que seja frutífera não tem. Tem o Sertão, tem a Caatinga, tem o Cariri que é parcialmente seco e tem as áreas úmidas da serra, onde há lavouras de cana, lavoura de café, mas áreas pequenas, de modo que eu considero todo o estado do Ceará incluído no Polígono das Secas, ecologicamente, está e deve estar no Polígono das Secas.

 

L.F.

 Haveria algum planejamento de aproveitamento do caroço de jaca, o senhor  tem algum conhecimento....

 

G.D.

Que eu saiba, não. Pode existir aí algum curioso trabalho em laboratório, mas eu desconheço qualquer trabalho de pesquisa nesse sentido. Agora, a jaca é uma árvore de clima úmido, quente-úmido. Ela não é uma árvore para plantio em larga escala aqui no Ceará, salvo nas regiões úmidas das serras .Então, à primeira vista não parece viável

 

L.F.

 Poderia ser uma solução de aproveitamento para as áreas úmidas da serra, se resolvessem industrializar o caroço como a exemplo do que se faz com a castanha do caju?

 

G.D.

O cajueiro dá muito bem no litoral do Ceará. O cajueiro é semi-xerófila, ele resiste à seca aqui nas condições de litoral do Ceará. E, essa faixa de 30 Km de largura por 400 Km de extensão na costa cearense, adapta-se muito bem à cultura do caju. Agora, há problemas com a cultura do caju. É o fungo que ataca a flor e reduz mais da metade das safras cada ano. É preciso selecionar um tipo, uma variedade de cajueiro imune à doença e ao fungo. Com a  jaca, as possibilidades reais parecem remotas. Só um aproveitamento local, mas não voltado à industrialização .Decerto  na fabricação de doces , servindo a um pequeno comércio.

 

 

 

 

 

 

 

 

L.F.

 Uma outra coisa que eu gostaria de colocar para o senhor é que eu  vi na Revista Manchete o nome do senhor citado por um ecologista pernambucano que eu não consigo lembrar agora.

 

G.D.

Vasconcelos Sobrinho?

 

L.F.

Vasconcelos Sobrinho, este!. E, eu gostaria de saber até que ponto o senhor partilha das ideias dele a respeito da situação ecológica do Nordeste, da possível progressiva baixa de nível da água do Rio São Francisco?

 

G.D.

É verdade que está havendo um lento xerofilismo, uma lenta condição de  saarização  no Nordeste e de sobrevivência da espécie no ambiente regional. Nesse ponto o Doutor Vasconcelos Sobrinho tem razão. Ele tem alertado para este problema porque não só a erosão como também a devastação da vegetação tem contribuído muito para a diminuição das fontes d’água que abastecem os rios. Daí porque a vazão do Rio São Francisco está diminuindo. Acontece que partes do Rio São Francisco em Minas está muito devastado. O Rio está diminuindo de curso, então, ele diz que a saarização  está penetrando no Brasil Central através do cerrado. Eu creio que em parte isso é verdade, embora eu não conheça bem o cerrado de Goiás, mas acredito que o cerrado é uma região meio seca, que sofre de períodos de pouca chuva. É possível que essa saarização esteja também penetrando na região do cerrado.

 

L.F.

Quem o senhor diria é um outro grande ecologista do Brasil?

 

G.D.

O professor Ferrer da Universidade de São Paulo tem escrito muito sobre, não só cerrado, mas sobre as caatingas do Nordeste. Ele, em mais de um período esteve aqui estudando a transpiração das plantas e a razão da resistência das plantas às secas. Eu esqueci de dizer que no período inicial do nosso trabalho, de 1933 até 1939, nós tivemos o concurso, xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx Felipe  xxxxxxxxxxxxxxxxxx que foi quem melhor estudou o xerofilismo da vegetação nordestina. Ele tem trabalhos notáveis que foram mandados para a Alemanha e um grande xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx que foi mandado para Nova Iorque e a outra parte desse trabalho está na Escola de Agronomia do Ceará.

 

L.F.

Doutor Guimarães, eu sei que o senhor inclusive já representou o Brasil em Davos, no Colorado, na Califórnia, participando de congressos internacionais, participando de simpósios. Que contribuições o senhor acha que esses congressos deram para aumentar não só a sua experiência, os seus conhecimentos, mas a título de emprego prático para a solução do problema regional, nossos problemas, problemas do Ceará?

G.D.

Nos Congressos internacionais, principalmente aqueles realizados em países adiantados, como foi o caso do IV Congresso Internacional de irrigação e depois o Congresso feito quando do Jubileu de Ouro do departamento de Secas dos Estados Unidos, esses congressos cientificamente avançam muito os conhecimentos. Mas acontece que, nas regiões subdesenvolvidas, como é o caso do Nordeste, quando a gente volta, a gente sente a diferença de meio. Nem sempre tudo pode se aplicar aqui. O técnico que frequenta congressos internacionais precisa ter muita prudência quando volta, na adoção de trabalhos aqui, porque o que é bom para os Estados Unidos nem sempre é bom para o Nordeste. O progresso tem que obedecer a realidade das comunidades nos seus anseios, nos seus deveres, nas suas necessidades prioritárias.

 

L.F.

Sempre se fala na importação de modelos para a solução dos problemas brasileiros, quer regionais, quer se tomando o Brasil como um todo. Quando se fala em seca no Ceará, ouve-se que não se soluciona o problema porque há uma falta de interesse geral e de esforço individual e ouvimos sempre: “ Olha o caso de Israel onde há macieiras no deserto”. O que é que o senhor pensa disso?

 

G.D.

Israel é um país muito pequenino, que está sendo colonizado por homens de alta sabedoria. Médicos, advogados, agrônomos, cientistas, professores, homens de alto nível que estão imbuídos Da mítica de formar a sua pátria, que estão imbuídos do ideal de criar lá a terra deles a  todo vapor. Recebem dinheiro, contribuições de todos os judeus do mundo. Então, as condições de Israel são muito diferentes das condições do Nordeste, porque aqui o que nós temos é um conjunto de homens do governo, um conjunto de homens técnicos de administração, mas uma grande massa de população de escassos conhecimentos para corresponder aos planos do executivo do governo. Nós não temos aqui os recursos por área que tem Israel. Então, não se pode comparar Israel com o Nordeste. O que nós precisamos é de um processo de agricultar a terra que seja típico do Ceará e do Nordeste. Não adianta nós querermos trazer de fora as soluções que muitas vezes não podem ser aceitas e em geral não são aceitas pelo nosso povo do sertão. Porque muitas vezes quando o agrônomo inadvertidamente aconselha uma determinada prática ao lavrador, ele diz: “Isso é bom, senhor, mas não é bom para as minhas condições”. Então, o que é preciso é ouvir o homem simples do sertão, nos seus anseios, nas suas necessidades e ajudá-lo naquilo que ele julga prioritário e não aquilo que o agrônomo ou o técnico julga prioritário .É uma questão de aceitação da realidade e aceitar transformá-la aos poucos.

 

L.F.

Então, o senhor veria fundamentalmente aí uma explicação não  técnica para o caso de Israel, concorda?

 

G.D.

É uma explicação em parte técnica, em parte política e em parte econômica, porque há um afluxo de dinheiro, há um mito político religioso e há um povo preparado e inspirado num objetivo..

 

L.F.

Será  que com relação ao diálogo do agrônomo com o homem do campo não haveria uma falha na formação do agrônomo? O que talvez sobrasse no cientista social, um possível relacionamento melhor com as pessoas do campo, talvez faltasse ao  agrônomo. Ele  está preparado muito bem  no aspecto técnico, mas quanto às relações humanas?

 

G.D.

Quando eu me formei, nos idos de 1928, o ensino agrícola era deficiente. As relações entre estudante e o homem do campo eram não muito boas do ponto de vista da prática agrícola. Através dos tempos houve pouca melhoria no ensino prático do agrônomo nas nossas escolas quanto ao seu relacionamento com o homem da produção, o lavrador. Via de regra, não só o agrônomo, mas também o engenheiro e o médico, porque todos têm influência sobre a agricultura, eles conhecem relativamente pouco as condições de vida da nossa gente, têm pouca habilidade e pouca diplomacia para angariar amizade, angariar a confiança e a cooperação da gente do campo. Um agrônomo recém-formado ele não deve ou não pode logo se transformar num extensionista. Ele precisa trabalhar primeiramente num setor que não aquele de relacionamento com o lavrador, para ele adquirir mais experiência e fazer um curso de relações humanas para melhor compreender as condições das comunidades do interior, e que aquilo que o povo mais deseja é aquilo que via de regra nós devemos auxiliá-lo, não aquilo que nós queremos, porque são eles que vivem lá e que sentem o problema na carne.

 

L.F.

Como professor universitário, acha que a Universidade tem desempenhado bem o seu papel? Quanto a extensão, por exemplo?

 

.

 

 

.

Falo da extensão ligada à solução do problema que nós estamos falando, na criação dos técnicos e medidas  adequadas..

 

G.D.

As nossas Universidades herdaram um defeito antigo das Universidades primeiramente formadas no Brasil. Eram elas, Universidades de ensino muito teórico. Tem melhorado bastante o ensino teórico com o ensino prático, mas está demorando muito a harmonização da experimentação da Universidade com a extensão na parte agrícola. Eu acho que nós já devíamos a essa altura, termos uma experimentação universitária mais harmônica com a extensão ou com as práticas do lavrador. Na América do Norte a experimentação agrícola é feita pelas Universidades e o serviço de extensão é coordenado com as Universidades. No Brasil está custando muito. Eu não sei se são as sucessivas reformas de ensino que têm causado isso, talvez seja. Ou seja, também aquela falta de contato dos homens da Universidade com o ambiente sertanejo, uma convivência mais íntima para sentir melhor os seus problemas e a prioridade das questões do ruralismo é que tem dificultado esse entendimento.

L.F.

E quanto a ações ou sobre a ação de órgãos como o DNOCS, o BNB que  vê assim... os problemas do Nordeste de uma maneira bem geral, e não somente os problemas do Ceará e ainda a atuação da Sudene. Como o senhor situaria,  a atuação de cada um desses órgãos?

 

G.D.

Até onde eu sei no momento, a atuação da Sudene, do BNB, do DNOCS tem sido até um certo ponto satisfatória. Acontece que foram criados no governo central tantos órgãos lá em Brasília, e existem tantos órgãos financiadores, e aqui no Nordeste tantos órgãos executores que esse grande número de órgãos somados, está tornando difícil a execução dos convênios.

 

L.F.

Então seria um problema administrativo, de organização administrativa?

 

G.D.

Eu não sei se é um problema administrativo ou um problema político, o que eu sei é o seguinte: nós temos leis demais, nós temos decretos demais, nós temos órgãos administrativos, órgãos executivos, órgãos financiadores em número demasiado e quando aumenta o número para o brasileiro que é pouco amigo da cooperação, então, os trabalhos em cooperação tornam-se mais difíceis. Um projeto por exemplo, demora mais tempo a ser executado do que devia demorar, um projeto custa mais caro do que deveria custar e eu julgo que o número excessivo de órgãos talvez seja uma das causas.

 

L.F.

Há pouco falávamos sobre a questão da importação de modelos. O que me diria sobre a missão francesa, sobre a atuação da missão francesa no vale do Jaguaribe?

 

G.D.

A missão francesa, ela executou trabalho de estudos, fez estudo sobre água, sobre solo, sobre vegetação, organizou mapas, etc., e repentinamente os serviços foram suspensos e a missão retirou-se. Deixou trabalhos mimeografados sobre esses estudos, mas são estudos e não ainda realizações de obras. De modo que eu reputo muito parcial, não sei se a culpa foi nossa ou foi deles. Rendeu poucos frutos.

 

L.F.

 O senhor está entre os que  consideram que o conceito de minifúndio não é um conceito físico? O que r pensa a respeito da questão de minifúndios, dessa política de divisão de terras em Morada Nova?

 

G.D.

O minifúndio, ele tem um caráter físico. É o tamanho muito pequenino de uma determinada área ocupada por uma família. As consequências do minifúndio geram a pobreza da família, porque o minifúndio não pode dar rendimentos, “superávit”. É sempre deficitário. Ele resultou... o minifúndio é resultante das subdivisões de heranças, das compras de pequenas glebas. Com o aumento da população foi se adensando esses grupos como acontece no município de Caruaru, Pernambuco, em que a situação chegou a tal ponto que lá ou faz uma industrialização para dar trabalho, ou estimula o artesanato. Ou então, leva uma parte daqueles mini fundiários para a colonização do Amazonas e aumenta as áreas cultivadas por cada família sob o sistema cooperativista. É o que eu penso do minifúndio. Agora, nas bacias de irrigação o governo federal divide os lotes para as famílias. Tem uma parte que é irrigada e uma outra parte seca, fora da irrigação para efeito de pastagem, efeito de lavoura resistente à seca e  também fonte de lenha.

 

L.F.

E  quanto a pecuária, ao problema de pastos para a pecuária?

 

G.D.

A pecuária é muito importante no Nordeste e o melhoramento de pastos é decisivo para o bom êxito da criação de gado, porque é a fonte mais barata de alimentos. Nas secas o gado come farelo de algodão, mas a preço exorbitante, não compensa. Nas regiões em que a palma forrageira cresce bem. As regiões de noites úmidas, a palma oferece um meio de misturar com capim seco, misturar com o caroço do algodão para alimentar o gado. Mas, naquelas regiões de noites... de ar muito seco, noites quentes, a palma não prospera bem, então, o pasto seca mais rápido. O que é preciso é um melhoramento de pasto em escala muito grande. Nós temos mais de 40 milhões de hectares de pastos que precisam ser melhorados no Nordeste para sustentar a pecuária em crescimento. Se nós fizermos o melhoramento de pastos de 2 milhões de hectares por ano, nós gastaremos 20 anos para melhorar os pastos do Nordeste. E assim sendo, eu já calculei que começando agora, somente em 1987, nós teremos forragem bastante para o nosso gado em crescimento, que está aumentando. E somente em 1993 nós teremos forragem bastante para guardar feno e guardar silagem, alimentar o gado. Então, é um problema urgentíssimo, começar já, neste instante, o melhoramento das pastagens, porque está faltando alimentação proteica para o povo. A população está crescendo muito e embora a pesca também esteja aumentando, a pesca nos açudes, pesca no mar, mas a grande fonte proteica é ainda o pasto, através da criação de bovinos, caprinos etc.

 

L.F.

E a criação do gado próximo ao algodão, o que o senhor pensa disso?

 

G.D.

O fazendeiro usa cultivar o algodão e quando colhe algodão ele coloca o gado no algodoal para aproveitar a forragem e o capim entre os pés de algodão. Porque algodão mocó sendo arbóreo admite somente limpar o terreno antes da colheita e fica então a vegetação de capim para alimentar o gado. O êxito depende de quanto tempo aquele gado pasta dentro do algodoal. Levado a um longo prazo, no ano seguinte a produção cai muito. Se for de pouco tempo ainda há possibilidade com chuva, do algodão reabilitar-se. O fazendeiro muitas vezes é obrigado a colocar o gado entre o algodão, por necessidade, porque não tem mais pasto.

L.F.

O senhor estipularia esse prazo de tempo?

 

G.D.

Eu acho que o gado não... depois da colheita do algodão o gado não pode ficar no algodoal mais de dois ou três meses.

 

L.F.

Dentro dos trabalhos que o senhor publicou e dos pontos de vista que o senhor esposou nesses trabalhos, quais deles considera mais importantes, algum deles deveria ser reformulado?

 

G.D.

Sobre  que assunto, algum  específico? 

 

L.F.

Sobre.os trabalhos do senhor de um modo geral. Qual lhe parece ser o mais importante de seus trabalhos?

 

G.D.

Eu acho que foi o livro “O Nordeste e a lavoura xerófila” com o mapa das regiões naturais e seu grau de aridez. O livro “Solo e água no Polígono das Secas” é um livro de caráter mais geral. Pode ser sempre consultado e gostei de escrevê-lo.

 

L.F.

Com relação ao “O homem e a produção”, publicado pela Secretaria da Agricultura da Paraíba, muitos falam deste seu trabalho....

 

G.D.

Este foi um livreto em que, quando secretário da Agricultura abordei em parte, o problema agrícola da Paraíba, está esgotado. Foi só o problema de colonização do Vale úmido da Paraíba. Quem estuda a fixação do homem ao solo naquela região sempre se interessa por ele.

 

L.F.

Parece que acontece o mesmo sobre a apreciação feita sobre os solos do Nordeste que é Separata dos Anais do Instituto do Nordeste, 1950.

 

G.D.

Esse estudo procura uma primeira... vamos dizer... uma primeira classificação... ou não é bem assim... primeiro a apreciação sobre os solos do ponto de vista de que eles podem reduzir a fertilidade parcial de certas áreas, o problema da irrigação na bacia dos açudes, e a questão das áreas de formação sedimentar. Os solos nordestinos, considerando da Bahia até o Piauí, variam demais, desde os tipos intemperizados  até os solos mais ácidos das regiões sedimentares do Piaui.

 

L.F.

Alguma reformulação de algum ponto de vista do senhor nesses trabalhos? O senhor prepara algum novo trabalho?

 

G.D.

No momento, não. Eu já tinha começado um livro, já tinha bem avançado, mas não pude publicar e agora tenho que rever a parte estatística e por isso eu já perdi o ânimo de fazer .Sempre me ocupo com o aproveitamento racional dos recursos do Nordeste, tanto dos hídricos como os pedológicos do Nordeste. Fiz agronomia por vocação e é um desafio viver e trabalhar numa região  tão diversa da minha em Lima Duarte ,onde eu nasci.

 

L.F.

Sem dúvida.  E o assunto do livro que o senhor pretendia fazer, iria se prender a qual desses aspectos do Nordeste?

 

G.D.

Era a uma perspectiva do desenvolvimento do Nordeste, mas neste mesmo tempo a equipe do Banco do Nordeste fez um estudo muito profundo das perspectivas do desenvolvimento da região, de modo que eu parei com meu trabalho .Estou sempre me ocupando em externar as minhas ideias e esperando que elas se tornem úteis.

 

L.F.

Bom, já que o senhor iria falar das perspectivas de desenvolvimento do Nordeste, que tal o senhor nos dar uma alternativa para o desenvolvimento do Ceará, alguma sugestão?

 

G.D.

O desenvolvimento do Ceará está caminhando mais ou menos bem quanto à parte de industrialização, infraestrutura etc. O problema é o problema agrícola. A questão da produção de gêneros alimentícios e matérias-primas para a indústria. E o Ceará como Estado muito seco precisa desenvolver rapidamente as lavouras xerófilas e melhorar a pastagem para poder dar impulso ao setor primário. O setor secundário e o setor terciário estão se desenvolvendo, mas o freio do desenvolvimento do Ceará está no setor primário, que é o da agricultura e pecuária. É preciso cuidar muito seriamente de uma produção regular, mesmo nas secas, uma pecuária que não sofra o embate, que tenha bons pastos durante o período de estiagem para dar estabilidade. Porque enquanto houver a instabilidade haverá flagelados, embora as cidades estejam sendo industrializadas.

 

L.F.

O senhor acrescentaria alguma coisa nessa sugestão? Acha por exemplo que haveria ou deveria haver um melhor planejamento por parte do governo?

 

G.D.

Eu não estou a par dos últimos governos depois que eu me aposentei e eu não tenho acompanhado os planos dos governos. De modo que eu não estou capaz de fazer uma apreciação plena  sobre esses planos. Agora, uma coisa que eu lembraria é a necessidade de preparação de pessoal de nível médio e de nível inferior. Por exemplo, capataz rural, técnico agrícola de nível médio para ajudar o agrônomo nas suas tarefas junto ao lavrador. Temos poucas escolas de iniciação agrícola e de nível técnico e essas escolas às vezes precisam ser muito melhoradas para preparar o capataz rural, que não seja desambientado da fazenda, que faça seu curso, que aprenda lá e volte a trabalhar na fazenda. Isto me parece fundamental. 

 

L.F.

 O que o senhor mais gostaria de acrescentar a essa nossa conversa, o que  consideraria importante deixar registrado?

 

G.D.

Há um desejo muito grande da parte do governo, governo central e do governo dos estados, nos seus planejamentos, nos seus esforços de cima para baixo, de um desenvolvimento mais acelerado do país. Mas, eu noto que de baixo para cima, não  há uma correspondência por parte do povo, então não está sendo tão eficaz como deveria ser. Esse entrosamento dos planos governamentais com as necessidades locais depende muito de ouvir a população das comunidades. Nós fazemos um melhoramento num determinado princípio, não podemos fazer de acordo com o que o povo quer, e não aquilo que nós achamos que deve ser feito. Então, este entrosamento, essa harmonia entre o comando de planejamento de cima para baixo, do governo central, governos estaduais, ia de encontro à vontade, o desejo, os anseios do povo cá em faixo, precisa ser melhorado. Isso é o que eu noto de mais importante e eu penso que os governos estaduais, o governo central através dos seus órgãos, dos seus projetos, precisa ouvir mais os desejos, os anseios e as vontades das comunidades locais.

 

L.F.

Nós agradecemos a gentileza de sua colhida. Agradecemos a sinceridade das informações que o senhor nos prestou. Agradecemos a esta entrevista com o Doutor Guimarães Duque, no dia 05 de agosto de 1976, realizada em sua residência ,à rua Carapinima, em Fortaleza-Ceará.

L.F.

Doutor Guimarães Duque, embora nós saibamos muitos dos seus dados biográficos, nada mais interessante do que o senhor mesmo contar para nós onde nasceu, o nome de sua esposa, dos seus filhos, algum episódio interessante da sua infância, ou qualquer outro dado que o senhor considere interessante ou importante a uma biografia do senhor para o futuro.

 

Lido 165 vezes Última modificação em Quarta, 01 Abril 2020 13:28