Sexta, 06 Março 2015 09:56

Exposição do Empresário José Dias Macedo, no Conclave Promovido pela FACIC, em 17 de Fevereiro de 1977

 
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Autoridades presentes,

Minhas senhoras e meus senhores:

 

Cumpre-me, de início, agradecer o honroso convite formulado pelo ilustre Presidente da FACIC, Sr. João Luiz Ramalho de Oliveira.

Organizando este conclave, demonstra a nossa Federação estar à altura dos seus objetivos estatutários.

 

Há séculos vêm os nordestinos buscando soluções para o problema das secas em nossa região.

Não é necessária uma análise muito acurada para verificar que, realmente, grande progresso foi já obtido.

Ao tempo do Império, em 77 e 88 a par do colapso da agricultura, a par dos rebanhos dizimados, morreram milhares e milhares de cearenses.

Em que pese a lírica disposição de D.Pedro para utilizar as jóias da coroa, a calamidade, àquela época, tinha conseqüência muito mais catastrófica.

Um grande investimento foi feito na açudagem, de tal forma que as reservas hídricas disponíveis efetivamente constituem um patrimônio do Nordeste.

Reconhecemos, entretanto, que o volume represado nem do ponto de vista quantitativo, nem do ponto de vista de sua distribuição geográfica pode tranqüilizar o sertanejo ameaçado.

Queremos apenas demonstrar que a abordagem da problemática das secas, com a passagem das décadas, deve ser cada vez mais sofisticada, como o enfoque da sobrevivência física sendo substituído pelo da sobrevivência econômica.

Acreditamos que, dentro do contexto da sobrevivência física, seja a chamada frente de trabalho a remanescente arma do arsenal governamental. Preferia o Governo, preferíamos nós, os empresários, poder dispensar esse tipo de tratamento.

Mas, deflagrada a seca, reconheçamos, necessitaremos sempre mobilizar as frentes de trabalho, enquanto uma política econômica preventiva não for elaborada e implantada.

Que o nosso fazendeiro reclame da frente de trabalho é justo e é natural. Ao se remunerar o trabalho não produtivo ao lado da deseducação do povo, ao lado da inflação salarial, estamos convidando nosso sertanejo a despreocupar-se com seu futuro.

Como atestou a FACIC, em seu convite para esse conclave, as tradicionais frentes de trabalho pouco de positivo deixam em sua esteira. Mas, é verdade, mantêm o sertanejo vivo.

Pensemos em alternativas.  Ainda no campo das medidas de emergência, não devemos absolutamente, desprezar os recursos federais carreados para as frentes de trabalho.

Cabe-nos, isto sim, reivindicar uma aplicação mais planejada e mais produtiva para esses recursos.

Que trabalho poderia ser feito, qual a melhor destinação para esses recursos? Convoquemos a imaginação criadora dos homens do Governo, dos técnicos, do nordestino.

Entretanto, mais importante que as medidas de emergências, as decretadas diante do regime de calamidade pública, é a política a ser adotada nos melhores anos, em tempo de invernos satisfatórios, diante de boas colheitas.

Deveria o Nordeste dispor de uma fonte permanente de recursos: nas crises, seriam eles destinados a solução dos problemas de sobrevivência física, e, nos períodos de bonança, à preparação da infra-estrutura básica, essencial à redução dos efeitos das secas. Lamentavelmente, nos anos bons, descuidamo-nos, nós os nordestinos, da próxima seca.

 É bem verdade que existem programas em andamento. Projetos de porte, como os de irrigação do Jaguaribe e no Curu, representando grandes investimentos. Se, do ponto de vista da propriedade privada, um projeto de irrigação tem rentabilidade duvidosa, em escala governamental e com recursos a fundo perdido, representa uma obra de grande valor, função da produção ali gerada, função da estabilidade e remuneração daquela mão-de-obra, função do processo educativo desencadeado.

Não há menos dúvida que o nível de tecnologia efetivamente utilizado no processo de exploração agrícola daqueles grandes projetos de irrigação há de contribuir grandemente para a melhoria de nossa agro-pecuária.

Não são, porém, os projetos de irrigação do tipo, hoje, em implantação que irão atender às necessidades do empresário rural. Faz-se necessário seja criada para estes uma nova metodologia, uma nova abordagem sistemática.

É obvio que, a par do trabalho a ser desenvolvido, somos obrigados a pensar em fontes de recursos. Paradoxalmente, os principais problemas econômicos que hoje afligem o nosso País, o desequilíbrio da balança comercial e o petróleo, não são problemas do Nordeste.

Salvo melhores informações, pensamos que o Nordeste encaminha para o exterior mercadorias em valor superior ao das suas importações. Além disso, produz o Nordeste mais petróleo do que consome. Não nos passa pela mente a idéia de que dever-se-ia, no Nordeste, abolir o depósito restituível. O petróleo do Nordeste, na realidade, pertence ao Brasil. Mas, talvez não seja demais solicitar que os recursos aqui captados sejam aqui aplicados. Parte deles poderia ser alocada no desenvolvimento do Programa Nacional do Álcool, no Nordeste. Com o restante poderia ser composto um Fundo voltado para a problemática das secas.

A título ilustrativo, apenas uma hipótese de trabalho, poderia pensar na criação de um programa de estocagem de forragem para o gado. Num programa desses o nosso pecuarista receberia recursos a fundo perdidos para as imobilizações fixas necessárias a uma capacidade de armazenamento, em silos-trincheiras, suficiente para alimentar todo o seu rebanho num ano seco. A par disso, poderia receber o fazendeiro recursos a juros subsidiados para o plantio e colheita das forrageiras necessárias.

Estamos apenas no terreno das hipóteses, cuja viabilidade, evidentemente, não foi testada. Mas, o que queríamos transmitir era a idéia de que devemos reivindicar fontes adicionais de recursos e novas políticas para a sua aplicação.

Outro programa que poderia ser estudado é o da irrigação dos aluviões, não ao estilo atua, em Jaguaribe e Curu, mas beneficiando a empresa rural. Acreditamos que, se fosse possível dotar de irrigação 5% da área de cada fazenda hoje razoavelmente explorada, os efeitos duma seca seriam sensivelmente reduzidos. Para tanto seria necessário ratear entre o Estado e a empresa rural o valor do equipamento necessário, além de financiamento para a parcela a ser paga. A preparação do terreno e os custos de manutenção poderiam ser de responsabilidade do particular, enquanto que a açudagem correria por conta do Estado.

Cumpre, também, que sejam pesquisadas novas culturas agrícolas para o Nordeste, com preferência para aquelas menos vulneráveis às irregularidades no regime das chuvas. No setor de pecuária, como regra, o sertão nordestino terá sempre dificuldades para competir economicamente com o pantanal mato-grossense, com os campos baianos, goianos e maranhenses.

Nossos escassos recursos deveriam ser destinados simplesmente à manutenção dos rebanhos, em lugar de ambiciosos planos para sua expansão.

Há de desenvolver uma economia estável no Nordeste, intensificando a mineração, a indústria, os serviços e, entre estes, especialmente o turismo. Devemos ser realistas quanto à escassez de solos férteis e profundos e quanto ao volume desmedido de recursos necessários a solução definitiva do problema das secas.

Quando da intensificação do processo industrial no Rio e em São Paulo, de 1930 em diante e, em particular, após a Segunda Guerra, clamavam os proprietários rurais daquela região por programas de fixação do homem no campo. Baldado esforço, pois era irresistível a atração que a urbe exercia sobre os camponeses.

Da mesma forma, com o crescimento industrial do Nordeste, com a melhoria nas comunicações e nas vias de acesso, será cada vez mais difícil manter os tradicionais sistemas de exploração agrícola, cuja rentabilidade se baseava na baixa remuneração da mão-de-obra. Com a urbanização, crescerão continuamente os preços dos produtos agrícolas e seus custos, obrigando-se o empresário rural a sofisticar a tecnologia adotada. Salvo melhor juízo, os riscos decorrentes das irregularidades climáticas irão sendo, cada vez mais, transferidos do colono, do meeiro, do morador, para o proprietário, para o fazendeiro.

Deverá esta classe, conseqüentemente, organizar-se, de tal forma a fazer face às suas maiores responsabilidades, requerendo mais alto apoio governamental.

Já o litoral, de características diferentes, merece, também, a melhor atenção. A decisão da OPEP em elevar o preço do petróleo poderia ter sido um grande incentivo ao plantio da cana de açúcar e da mandioca, através do Programa Nacional do Álcool, que, entretanto, não alcançou ainda a velocidade desejada.

A produção brasileira de trigo cresceu, em poucos anos, de menos de 20% para mais de 60% do consumo nacional, mesmo com a ocorrência de geadas prejudiciais. Tal proeza pode ser creditada ao sistema de subsídios. Poderíamos supor, da mesma forma, que, se ao produtor de cana e de mandioca fosse garantido um preço estimulante, subsidiado a partir do depósito restituível da gasolina, haveríamos de conseguir um explosivo crescimento na produção de álcool.

Claramente, interessa muito mais ao Brasil consumir álcool caro, porém circulando internamente sua receita, do que pagar aos exportadores do petróleo. Imaginemos o que seria do ceará se todos os seus tabuleiros litorâneos fossem intensivamente explorados com a mandioca.

Meus senhores:

Gostaríamos que considerassem estas singelas observações apenas como um exercício mental de quem não é especialista no problema das secas. Façamos todos nós um esforço de imaginação, na tentativa de promover o desenvolvimento do Nordeste.

Conformar-se com uma suposta pré-destinação à pobreza não é a vocação do cearense. E mais vale o ânimo forte e a capacidade de luta de um povo que uma constelação desfavorável de condições naturais. Podemos confiar no futuro do Ceará, que as novas gerações saberão sempre honrar as que as antecederam.

MUITO OBRIGADO

Lido 1652 vezes Última modificação em Domingo, 31 Maio 2015 22:41