Sexta, 06 Março 2015 09:55

Conferência do Engenheiro Sebastião Barreto Campelo

 
Avalie este item
(0 votos)

Permitam-me iniciar esta palestra, com a afirmação, a primeira vista paradoxal, de que o problema nordestino não se resume ao fenômeno das secas. Sem dúvida é ele um componente do problema, porém, não creio que seja o principal, nem mesmo a causa mais importante do dramático fenômeno do êxodo de retirantes.

O problema desta Região é conseqüência de uma estrutura frágil e de uma organização social arcaica. A fragilidade econômica da Região decorre das transferências feitas, por mais de um século, de capitais do Nordeste para o Centro Sul, transferência esta feita sem que a nossa classe política, sequer tomasse consciência dela. Sem querer me alongar muito, numa matéria que foge ao conteúdo deste seminário e que já foi denunciado anteriormente por mais de uma vez, chamo a tenção para o fato de que na atualidade ainda persistem as seguintes sangrias na nossa economia: as alíquotas interestaduais do ICM, que este ano estará transferindo mais de três bilhões de cruzeiros do Nordeste para o Centro Sul; o comércio triangular que nos obriga a vender a nossa produção a preços competitivos e a adquirir as nossas necessidades, a preços alfandegariamente protegidos e que nos custará, este ano, mais de oito bilhões de cruzeiros; - poderíamos comprar um galaxie por US$ 3.500, mas, somos obrigados a pagar US$ 12.000 – e o sistema bancário cujo controle é, na sua quase totalidade, situado no Centro Sul e que aplica as disponibilidades em favor dos interesses daquela região. Assim, a nossa frágil economia, instavelmente organizada e socialmente deficiente, se desmorona com qualquer fenômeno adverso que a perturbe. Acidentes adversos existem em qualquer agricultura mundial, entretanto, havendo outras opções de trabalho, a população rural consegue superar os períodos de crises, com maior ou menor prejuízo, até que volte à normalidade atmosférica. Tanto isto é verdade que a última geada paranaense, cujos prejuízos se desdobrarão nos próximos cinco anos, não provocou qualquer êxodo rural, porque lá o rurícola capitalizado, pôde superar a fase adversa, inclusive porque a pequena indústria, existente no interior paranaense, absorveu a parcela mais marginal da população atingida. No aspecto social, lá também, há um número muito maior de proprietários rurais, o que estimula os investimentos na terra, que permitem superar, com menos prejuízos, a época adversa.

Pode-se constatar isto, com o exemplo da última estiagem. As áreas mais atingidas por flagelados – como Irecê (BA) e Ouricuri (PE) – não têm qualquer outra atividade produtora. Enquanto isso Pedra (AL), Espírito Santo (PE) e Petrolina (PE), cidades situadas nas vizinhanças das já citadas, porém, com atividade extrativa mineral ou industrial, pouco sofreram. Numa macrovisão, verifica-se que Pernambuco que tem parte do seu sertão com a precipitação pluviometria abaixo de 400mm/ano (Anexo I), tendo quase toda a sua região semi-árida com 400/600mm e com uma pequeníssima parcela entre 600/800mm, sofre muito menos os efeitos das secas que o Ceará, cujo território semi-árido tem uma parcela de sua área com precipitação pluviométrica entre 600/800mm, por ano, tendo a sua grande maioria entre 800/1.000mm e algumas áreas significativas em extensão, com a excelente precipitação compreendida entre 1.000/1.200mm. A razão disto é que Pernambuco, por razões históricas, é um Estado muito mais industrializado e capitalizado do que o Ceará, tem uma estrutura econômica mais forte e várias opções de emprego.

A estrutura social da Região, também, tem sua parcela de culpa no êxodo rural, pois predominando o latifúndio, onde se pratica a pecuária, e permitindo os proprietários, que os trabalhadores rurais plantem cereais e outras lavouras de curto ciclo, para deixar a rama para alimentar o seu gado, os rurícolas não se sentem estimulados, por não serem proprietários, a utilizar técnicas de defesa do solo e de preservação hídrica, as quais exigem muito dispêndio de mão-de-obra. Deste modo, trabalhando praticamente há quatro meses por ano, sem qualquer outra opção de trabalho, basta uma estiagem de alguns meses para deixá-los totalmente desamparados.

 Os Efeitos da Evaporação

 Outro ponto, a primeira vista desconcertante no sertão nordestino, é que a sua precipitação pluviométrica média (700mm/ano) é bastante superior a da maioria das regiões semi-áridas do mundo e até mesmo superior a regiões consideradas climaticamente satisfatórias. O sertão de Pernambuco, um dos mais secos do Nordeste, com a média de 630mm/ano está bastante acima dos 150mm/ano do cinturão seco africano, - constituído da Mauritânia, Senegal, Mali, Niger, Tchad, Alto Volta e Sudão – e dos 300mm do Novo México e Arizona, nos Estados Unidos. Há, mesmo, vários países europeus cuja precipitação pluviométrica média é de 600mm/ano e que não são considerados semi-áridos. O problema toma outra conotação, no entanto, quando comparamos a evaporação. Da água precipitada no Nordeste somente 6,5% é retida no solo, sofrendo o restante a evapo-transpiração, enquanto na Europa, 42% permanece no solo. Aqui, a forte insolação e os constantes ventos alísios, provocam esta intensa evaporação. Assim, podemos concluir, que seria possível amenizar muito a situação do nosso sertão, se combatêssemos a ação dos ventos e a incidência dos raios solares.

Sem pretender me arvorar em técnico agrícola, assunto que não tenho qualquer conhecimento, gostaria de lembrar algumas idéias que me ocorreram, quando fiz um curso de irrigação no “Salc River Project”, no Arizona. Neste Estado e em New México, partindo do princípio que a irrigação é uma técnica cara, os fazendeiros americanos passaram a adotar, mais extensamente; as técnicas de lavoura seca (Dry Farm), técnicas essas já aplicadas na Austrália. Consiste, na realidade, em reter no solo a umidade proveniente da precipitação pluviométrica. Para isso, utilizam várias técnicas simples, tais como, cavar sucos no solo, segundo curvas de níveis, para que as águas infiltrem-se por eles; cobrir o solo com gravetos e folhas para diminuir a evaporação; passar o arado após cada chuva, cobrindo a terra molhada; plantar árvores que criem barreiras contra a ação do vento, etc. O cientista Guimarães Duque, a quem rendo minhas homenagens pela sua dedicação e competência, estudou e adaptou ao Nordeste estas técnicas, preconizando uma cobertura vegetal aérea com algaroba e plantas xerófilas frutíferas e, no solo, gramíneas e palmas para a pecuária, no que ele chamou de cultura de dois andares! O Infaol utilizou os estudos de Guimarães Duque com surpreendentes resultados.

 A Irrigação

 Sem dúvida a irrigação pode ser uma solução, para as regiões secas, em determinadas condições favoráveis, de topografia e de reservação hídrica. Aceita esta premissa, o Nordeste deveria receber um tratamento prioritário da União, neste campo, pois aqui estão as maiores áreas semi-áridas do País, com uma concentração demográfica apreciável. Entretanto, tal não vem se dando, em virtude da fragilidade da nossa reivindicação política, conforme podemos constatar pelos seguintes exemplos:

Atualmente 65% da área irrigada do Brasil encontra-se no Rio Grande do Sul.

Até a previsão climatológica, que deveria se maior no Nordeste, verifica-se o contrário, conforme se pode observar pelo número de estações metereológicas em funcionamento no País (ANEXO II). Em Minas Gerais constatamos a existência de 42 estações, em São Paulo 39 e no Rio Grande do Sul 25, enquanto no Ceará estão instaladas 12, no Rio Grande do Norte 6, em Pernambuco 11 e em Alagoas

 O Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, que todos associam ao Nordeste, entre 1971 e 1974 perfurou em Minas 384 poços tubulares (ANEXO III), enquanto que no Rio Grande do Norte perfurou 111, na Paraíba 211 e, em Pernambuco 96. O único Estado do Nordeste cujas perfurações foram maiores do que em Minas, foi o Ceará. Ressalte-se que a média da precipitação pluviométrica em Minas é de 1.300mm/ano.

A Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco – CODEVASF - , cuja imagem está ligada, também, ao Nordeste, deverá irrigar em Minas Gerais, até 1979, mais de 346.000 há. – (ANEXO IV), enquanto que em Pernambuco só se irrigarão 48.133 Há., 9.000 Há.

 Em Alagoas e Sergipe e 136.000Ha. na Bahia, ou seja, só em Minas irrigará quase duas vezes o total do resto do Nordeste.

No momento o Departamento Nacional de Obras e Saneamento está implantando o projeto CAMAQUÃ, no Rio Grande do Sul, que irrigará 96.834 Hectares de terra, tornando-se este projeto, juntamente com o Jaíba (MG) e o Paracatu (MG), nos três maiores projetos de irrigação do País e, sintomaticamente, todos três estão situados fora do Nordeste.

 Conclusão

 Temos apontado várias causas responsáveis pela nossa pobreza, muitas delas demonstram um tratamento discriminatório e injusto da União em relação ao Nordeste. Entretanto, não se deve concluir que a culpa cabe ao Centro Sul, que vem procurando nos esmagar. Na realidade os culpados somos nós, que não temos sabido defender os nossos direitos. A nossa representação política, com honrosas exceções, oriunda do meio rural, com vinculações feudais, reagindo sempre a qualquer alteração do “statu quo”, que tem, devido ao seu despreparo, permitido todas essas medidas injustas contra a Região. Em lugar da preocupação pelos graves problemas do Nordeste, a descapitalização provocada pelo confisco cambial, não foi sequer percebida pelos nossos representantes – canaliza as suas energias para as questiúnculas municipais, tais como, a nomeação da professora, a designação do Delegado de Polícia, ou a transferência do Juiz de Direito.

Há necessidade de mudanças urgentes e, na sociedade moderna, as lideranças estratégico-intelectuais, técnicos, jornalistas, federações patronais, sindicatos, etc., têm tido maior força reivindicatória do que a representação política. Precisamos mobilizá-las, dar consciência do tratamento injusto e dos nossos problemas e lutar para resolvê-los. Espero que uma reunião com esta, seja o início de uma luta neste sentido.

Lido 982 vezes Última modificação em Quarta, 13 Maio 2015 08:57