Domingo, 11 Janeiro 2015 18:12

Lembranças da Seca de 1934

 
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Em 1934/1935 morávamos na cidade de Gameleira, na Zona da Mata em Pernambuco, onde meu pai era pastor da pequena igreja presbiteriana local. Esse foi um tempo de seca no Nordeste, que me ficou na memória, apesar de minha tenra idade, de quatro ou cinco anos. Aliás, as secas não ocorrem em um ano apenas. Em geral se alastram por um período de tempo. Essa, dita “de 34”, começara anos antes, mas naquele ano ela se intensificara.

 

A cidade fora invadida por retirantes, vindos do sertão, praticamente morrendo de fome e sede. Perambulavam pelas ruas, buscando auxílio de casa em casa. Era um tempo de dificuldades econômicas para o mundo inteiro. A Bolsa de Valores de Nova Iorque entrara em colapso em novembro de 1929. Desde então bancos faliram aos montões, não apenas nos Estados Unidos da América, mas também na Europa. Muitas pessoas em Nova Iorque, em desespero pelas perdas econômicas e financeiras, se suicidavam pulando dos altos edifícios. O Brasil, país que sobrevivia unicamente da exportação de produtos agrícolas, passava por maus bocados. A indústria açucareira da Zona da Mata praticamente deixara de produzir, por falta de compradores internacionais. E para piorar as coisas, veio a seca, a grande inimiga dos nordestinos desde tempos imemoriais. Há registros coloniais de secas tremendas, afetando inclusive os índios bravios, que chegavam à costa quase que mortos de fome e sede, em busca de água e comida.

Para sobreviver, com o mísero salário que recebia como pastor, meu pai plantava batata doce e macaxeira no terreno da igreja. Que eu me lembre, comíamos batata doce e macaxeira de manhã, ao meio-dia e à noite, preparadas de várias maneiras, evidentemente. Mas havia sempre batata doce ou macaxeira à mesa, pois davam muito bem no terreno em que foram plantadas. Como falava bem o inglês, e fora tradutor do consulado americano no Recife, meu pai começara também a dar aulas particulares daquele idioma a pessoas locais. Isso sem dúvida reforçava um pouco o orçamento familiar. Mas eram poucos os alunos.

A pequena igreja presbiteriana de Gameleira de alguma maneira conseguia sobreviver. Alguns de seus membros trabalhavam para as usinas da redondeza, e ainda se mantinham trabalhando, apesar da crise. A congregação então tomou providências para ajudar os retirantes, no que fosse possível. Comprou sacos de feijão e de farinha, para distribuir entre os mesmos, o que era feito por mim e pelo meu irmão mais novo. Minha mãe colocava a mim e a meu irmão – que na época tinha apenas três anos de idade - à porta da casa, com canecos na mão para distribuir feijão e farinha aos retirantes que passavam por ali.

Perto da casa onde morávamos havia uma grande ingazeira, com galhos que se espalhavam bem longe, e davam sombra a todo aquele pedaço de rua. Era debaixo dessa ingazeira onde muitos dos retirantes procuravam abrigo. Esses chegavam aos montões, com roupas rasgadas, e cheirando muito mal – disso me lembro muito bem, pois o cheiro deles me nauseava. As mulheres retirantes, ao passar por nossa casa, diziam: “Benza Deus! Parece dois anjinho”. E tocavam na gente, para horror de minha mãe. Como resultado desses contatos e manuseios, apanhamos um terrível caso de sarna, depois curada com um remédio caseiro de mau odor, feito de vaselina misturada com enxofre.

Certa feita houve uma grande gritaria no grupo abrigado debaixo da ingazeira. Um homem, não se sabe se louco ou se embriagado, começara uma briga, e um policial foi prendê-lo. O homem reagiu e deu no policial um golpe de peixeira, dito “pernambucano”, que lhe cortou a barriga de um lado ao outro. Seguido de um grande número de pessoas, o soldado voltou correndo e gritando, tentando apanhar com as mãos as entranhas que lhe caiam. Minha mãe, ao saber do que ocorria, ainda tentou nos puxar para dento de casa, pois estávamos à porta, com os sacos de feijão e farinha, colocando canecos cheios desses produtos nos sacos de aniagem dos pedintes, que por ali passavam. Mas a ação dela fora tardia, pois testemunháramos tudo.

Depois disso, ela não mais nos permitiu ficar à porta dispensando aquela caridade. Especialmente porque tínhamos apanhado um terrível caso de sarna, pelo manuseio carinhoso das mulheres retirantes.

Dias depois, não sei quantos, passaram pela nossa casa umas crianças choramingando, pedindo esmola e dizendo: “Uma esmolinha, pelo amor de Deus, que meu pai morreu puquê tava debaixo da ingazeira.” Um destacamento da polícia fora lá e matara o homem, em vingança da morte do companheiro que levara a facada.

Tempos terríveis aqueles, com o colapso da economia, e ainda mais a seca, trazendo fome e miséria. Outras secas ocorreram no Nordeste, durante minha infância, mas essa foi a primeira que testemunhei, e que me ficou gravada para sempre na memória.

Lido 1578 vezes Última modificação em Domingo, 31 Maio 2015 22:42
David Gueiros Vieira

PHD em História da América Latina, Mestre em história dos Estados Unidos da América, conferencista e um dos maiores especialistas brasileiros em História da Questão Religiosa do Brasil.