Domingo, 11 Janeiro 2015 18:09

Lembrando Retirantes 1944

 
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Nas férias escolares de 1944, com 15 anos de idade, fui passar uns dias em uma das fazendas do meu tio médico, Dr. Othoniel Furtado Gueiros, em Canhotinho, Pernambuco.

Recentemente passei por aquela cidade em busca daquela fazenda, mas não consegui localizá-la, tais têm sido as modificações ocorridas naquela área, com o crescimento urbano.

Lembro-me apenas que havia naquele sítio uma lagoa, sempre coberta de musgo e com água muito fria. O vaqueiro que tomava conta do local fora criado na fazenda de José Ferreira Leite, marido de minha tia-avó Amélia Gueiros. Na infância ele conhecera Nehemias, Esdras e outros filhos de meu tio-avô Jerônimo Gueiros, quando esses iam passar férias em Canhotinho, assim ele nos contava.

Lembro-me apenas que era tempo de seca no sertão, e alguns retirantes começavam a aparecer, fugindo da mesma. O programa das “Obras Contra a Seca” do começo do século, bem como as rodovias de terra batida, construídas pelo governo de Getúlio Vargas, tinham melhorado muito as condições no Nordeste, permitindo passagem de carros e caminhões pelo interior. Mas quem perdera tudo, não podendo pagar o preço da passagem do transporte, tinha mesmo que caminhar. Uma família daqueles retirantes caminhantes pediu à minha tia Franciskinha permissão para se arranchar num casebre abandonado, na beirada da propriedade, alegando que uma filha estava muito doente e que não podia prosseguir na caminhada.

Ocorre que Francis Clide, filha mais velha do Dr. Othoniel, estava também muito doente, com febre altíssima. Isso deixara minha tia Franciskinha bastante nervosa, na ausência do marido médico, que fora ao Rio de Janeiro para fazer um curso de especialização. Não lembro que enfermidade Clide tinha, naquele momento.

Não deu outra - dentro de poucos dias a filha dos retirantes morreu. Como sempre acontece, todos habitantes da vizinhança se congregaram em solidariedade à família da morta. Chegada a noite, as carpideiras começaram a cantar as “insalenças”, encomendando a alma da falecida. Suas vozes eram horrorosas, lúgubres e fanhosas como diz o povo serem as vozes das almas penadas. Cantavam com sua linguagem estropiada: “Lá vem a barra du dia, cum dois anjinho ao seu lado pra sê vossa guia”. Ou ainda outra insalença que parecia ser apenas a repetição do alfabeto: “É um A, é um B, é um C”, e por aí afora. Numa terra onde ainda havia 76% de analfabetos, como no Brasil de então, a simples repetição do alfabeto era considerada uma espécie de formula mágica.

Francis Clide, queimando em febre, se assustou com a cantoria das insalenças, que podiam ser ouvidas claramente desde a casa da fazenda, e começou a chorar. Minha tia Franciskinha, do outro lado também chorava e soluçava, vendo a filha chorando amedrontada. Em breve ela me chamou, e ao filho do vaqueiro – um garoto também da minha idade – e ordenou que fôssemos ao rancho, onde estavam os retirantes, para mandar que se calassem. Eu armado com uma garrucha, e o garoto com uma espingarda -dois idiotas perfeitos - seguimos em direção do casebre para cometer uma violência: fazer parar o canto das carpideiras.

Era noite. Chegando ao terreiro do casebre, descobrimos que não havia apenas carpideiras. Os homens da região estavam todos lá, bebendo cachaça. O cheiro da cachaça “Pitu” pernambucana se espalhava por todo lado.

Entramos, e jamais me senti tão constrangido em toda minha vida. Não havia um único móvel naquele casebre de um só ambiente. No meio da sala, deitada no chão batido, com um vestido de chita, rasgado e sujo, estava o corpo da mocinha falecida, com duas velas acesas ao seu lado, enfiadas em garrafas. Nem mesmo um lençol para cobri-la eles tinham. E o mulherio continuava cantando as insalenças, lúgubres e assustadoras.

Ambos nos sentimos extremamente constrangidos. Ficamos ali apenas uns poucos minutos. Balbuciei algumas palavras de condolência, e voltamos para casa, para explicar que era uma situação impossível. Se minha tia Franciskinha queria mesmo que as carpideiras se calassem, seria necessário mandar chamar a polícia. Nada foi feito, evidentemente.

Passamos então a noite toda ouvindo aqueles cantos lúgubres, cantados por aquelas terríveis vozes fanhosas: “Lá vem a barra du dia, cum dois anjinho ao seu lado pra sê vossa guia”.

Não sei onde enterraram a mocinha. Sem dúvida no cemitério público, numa cova de indigentes. Pelo menos esse serviço o governo municipal prestava aos pobres.  

Lido 1147 vezes Última modificação em Domingo, 31 Maio 2015 22:43
David Gueiros Vieira

PHD em História da América Latina, Mestre em história dos Estados Unidos da América, conferencista e um dos maiores especialistas brasileiros em História da Questão Religiosa do Brasil.