Quarta, 19 Agosto 2015 10:07

A Biografia Íntima de Leopoldina

 
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A Biografia Íntima de Leopoldina.  A Imperatriz que Conseguiu a Independência do Brasil- resenha e comentários

 

               O livro de Marsilio Cassoti, cientista político e internacionalista, com especialização em Relações Internacionais pela Universidade Católica de Buenos Aires é o que se pode chamar um primor. Refiro-me a um primor de bom gosto por sua linha de apresentação e por sua fidedignidade à documentação histórica. São cartas de Leopoldina ao pai Francisco I da Áustria, a sua irmã Maria Luísa que foi a segunda esposa de Napoleão, dentre outros destinatários e ao próprio D. Pedro I.

O livro é dividido em vinte e três capítulos com um desfile de figuras e fatos que retratam a vida de Leopoldina, desde o berço até a morte. Com uma rica e ampla bibliografia,uma árvore genealógica da imperatriz e a organização de uma Dramatis Personae ( por ordem de aparição na obra),  além de  fartamente ilustrado, não pode faltar em nossas bibliotecas públicas e particulares oferecendo uma leitura atraente sobre a vida da artífice mor de nossa independência.  

         Como pano de fundo desfilam aos nossos olhos as figuras de Napoleão, Carlota Joaquina, Metternich e seus esforços para apaziguar a Europa, Maria Ludovica, a madrasta de Leopoldina, o marquês de Marialva em quem confiava, D.João VI que a admirava dentre tantos outros.

        Carolina Josefa Leopoldina Fernanda Francisca, a nossa imperatriz Leopoldina, da casa dos Habsburgos, é uma personagem decisiva na história brasileira. Seu casamento com D. Pedro I colocou o Brasil à altura das grandes monarquias europeias. Filha de Maria Tereza, a grande, a imperatriz do Brasil foi a quarta filha de Francisco I. Loura, de olhos azuis, “de uma beleza que jamais se perderia” (sic).  Cassoti vai das minuciosas descrições às grandes linhas da política internacional influenciadas na Áustria por Maria Ludovica, madrasta de Leopoldina que conduziu a corte

austríaca a uma política antifrancesa transformando-se no coração da resistência a Napoleão.

       O autor relata a grande influência de Ludovica sobre Leopoldina incutindo-lhe valores religiosos, morais e intelectuais. Instruída, firme e culta, ávida leitora de clássicos latinos e versada em economia, política, etnologia, zoologia e botânica, instruía e orientava o marido tanto em cultura como em refinamento, dando-lhe aulas e, mais tarde, forçando-o , junto aos Andradas, à ruptura com Portugal.Apesar do imenso desejo de retornar ao seu país,  à época do episódio do “fico” , manifestou-se diretamente a favor de “conservar o Brasil.”No ato de 1822,Leopoldina representou um papel testemunhal no juramento do consorte como imperador do Brasil.Por antiquíssima tradição portuguesa as consortes dos reis não eram coroadas nem proclamadas e,menos ainda consagradas e o novo império do Brasil herdou o uso. De modo significativo, o protocolo cortesão a havia situado à frente do seu marido, revestindo-a com um longo manto verde e amarelo bordado em ouro, para destacá-la “de outras pessoas, também com o fim de disfarçar a sua gravidez de sete meses”. (sic). O amarelo, em termos heráldicos “é uma das cores dos Habsburgos. O secretário alemão da imperatriz, Dr. Schaffer já o havia escolhido como cor nacional brasileira e com o verde sinople de Portugal “em homenagem à arquiduquesa por conta de sua participação no movimento separatista” (sic).

          Segundo o autor, o apoio de Leopoldina ao ato de consagração e coroação do imperador fez com que a Áustria não enviasse representante por considerar que se estava ferindo os princípios da Igreja Católica Apostólica Romana. A imperatriz não conseguiu convencer Viena da necessidade de separação do Brasil porque feriam as regras da Santa Aliança, independente de que Deus, Pátria e Império, as três palavras principais para a sua família, estivessem presentes no juramento de Pedro. Em carta escrita ao pai, ela afirmou que era preciso, com a coroação,desviar do povo as ideias republicanas. Sua ação política permitia-lhe a nítida visão da necessidade de conciliar o povo.

     A marinha brasileira deve-lhe muito. Considerava-se protetora dos marinheiros afirmando que os colocava sob o seu manto. A imperatriz inspecionava barcos e marinheiros na companhia do marido intervindo para apaziguar querelas entre portugueses e ingleses. Do ponto de vista político, intentou conter a cisão de D. Pedro I contra os Andradas, iniciada por uma carta anônima. A imprudente decisão do marido expulsando – os, partiu da sua não aprovação dos escândalos do imperador com a sua amante Domitila de Castro, a Marquesa de Santos. As crises subsequentes com exaltação de ânimos levou o próprio partido monárquico de colocar a coroa na cabeça da primogênita real, Maria da Glória,mais tarde rainha de Portugal.

   A coerência e lealdade da imperatriz influenciaram a não deposição do imperador. Concorde o autor, amigos dos Andradas chegaram a oferecer a coroa à imperatriz alegando-se os altos interesses do Brasil. D. Leopoldina negou-se se declarando cristã e alinhada aos interesses dos seus filhos e do marido.

    Depois do juramento da Constituição liberal ela trabalhou para alicerçar a instituição imperial por meio do recrutamento de tropas europeias fazendo suas solicitações a seu pai e ainda incentivou a imigração de países de língua alemã ao Brasil. Schaffer chegou a publicar um livro de caráter propagandístico idealizando a vida doméstica do casal imperial e apontando Goethe como o seu autor favorito.

    No mesmo estilo intimista de Stephan Zweig, Cassoti elabora um relato político sobre o percurso de D.Leopoldina desde a pequena arquiduquesa austríaca, no período das guerras napoleônicas contra a Áustria, ao Congresso de Viena ocasião em que se aventou seu casamento com o príncipe do Brasil. O autor detalha algumas humilhações infligidas a D. Leopoldina e as rusgas que a fizeram pensar em recolher-se ao convento da Ajuda até que seu pai a viesse buscar.

   Coincidindo com a “pompa nunca vista” do enterro do pai de D. Domitila e com o casamento da filha, Maria da Glória, efetuado com poderes pelo infante D. Miguel, irmão do imperador, ato com o qual a imperatriz não concordava intimamente, surgiram os primeiros sintomas de sua doença. Para alguns pesquisadores, a doença de Leopoldina que a levou a morte surgiu durante a sua gravidez de três meses. Os vomitivos aplicados a imperatriz grávida de três meses a impediram de ir à inauguração da Academia de Belas- Artes, embora fosse comemorativo do nono ano de sua chegada ao Brasil.

O autor nomeia as versões do episódio do beija-mão, clímax dos seus traumas e consequente agravamento e debilidade do seu estado, salientando a ausência de prova documental. Citando o comentário de Mareschal, em 20 de novembro, o seu estado era preocupante, mas testemunha depois, do pesar de D. Pedro I ante o imperativo de viajar a Cisplatina, tendo que abandonar a imperatriz doente. Numa correspondência da imperatriz a sua irmã Maria Luísa, embora não aceita por todos os historiadores, Domitila não seria a única culpada pelas desditas da imperatriz, mas o “seu adorado Pedro” que “a maltrata na presença daquela mesma que é causa de todas as minhas desgraças” (sic). De um modo romântico, o autor encerra o seu livro com a descrição da amada imperatriz consoante ao que escreveu o mesmo Mareschal no despacho sobre a morte de D. Leopoldina: “parecia ter adormecido pacificamente, na posição mais natural”.

 

     A Biografia Intima de D. Leopoldina – A imperatriz Que Conseguiu A Independência do Brasil. (Tradução de Sandra Martha Dolinsky) Marsílio Cassoti. RJ Editora Planeta. 2015- 287 páginas.

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Irene Mota

Defensora Pública e articulista.