Quarta, 06 Maio 2015 00:07

História e Historiadores Num Mundo de Conhecimento

 
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O texto foi escolhido por se tratar de uma análise evolutiva da história e suas prospecções futuras. A contribuição da professora com essa pesquisa é sem dúvida um bom marco teórico para desenvolver qualquer pesquisa. As contribuições que podem se desdobrar, não apenas no momento atual, mas em toda a carreira de um pesquisador, são muito importantes. Pode-se ver proposições inclusive de rumos que se abrem para o historiador.

 

A professora Luciara propõe no texto uma reflexão sobre o lugar da história entre as Ciências Humanas. Puxando o ponto primordial dessa área do conhecimento e distendendo até a sua conformatação como disciplina, vemos um desenrolar evolutivo do campo. Começando com a filosofia, a ciência mãe de todas as Ciências Humanas, ao final vemos quais são as prospecções da pesquisadora quanto ao futuro da História, enquanto disciplina e campo do conhecimento.

            Abrindo a discussão com a relação da história com a filosofia, a autora nos mostra como na verdade houve um hiato nessa proximidade. Nos primeiros filósofos a relação era direta, porém é apenas entre os séculos XVIII e XX que se começa a falar de uma filosofia da história de fato. Trazendo pensadores como Kant, Hegel, Herder e Fichte a autora nos mostra como com eles de fato desenvolve-se uma disciplina da história, com métodos e conceitos. Até então essa formalização era pouca, e a contribuição desses pensadores foi cabal para essa solidificação.

            Ao mesmo tempo somos então lembrados de como houve um rompimento negativo das áreas. Com o afastamento da história dos demais campos, perdeu-se a relação crítica construtiva. O campo teórico acaba ficando enfraquecido e deixa-se de se inquietar metodologicamente sobre a saúde da história como disciplina científica. Trazendo os apontamentos de Carr e Marrou, a autora nos mostra como precisamos de um senso crítico na construção da história e no ato de fazer história como disciplina.

            Todos esses questionamentos, saudáveis e que vinham a construir e reforçar as bases da história como disciplina, acabaram perdendo força nos anos de 1970. Em função de uma mercantilização do ensino, o ensino da história passou a ser encarado de maneira mais instrumental, deixando de lado sua função contemplativa e explicativa de toda uma realidade. Os alunos queriam se preparar para o mercado de trabalho, sendo a história desse modelo anterior pouco aplicável nas ciências puramente pragmáticas, cada vez mais ela foi colocada de lado.

            A autora por sua vez identifica que: “Na verdade as crises são quase sempre a manifestação sintomática de uma doença já existente e não tão prontamente reconhecível minando as forças e a vitalidade dos seus profissionais.” (P.122). Logo esse afastamento do campo especulativo da história acaba por também nos desabituar com o manejo do material fundamental do historiador, a fonte e o objeto. Tendo identificado essa problemática, a autora então segue o texto identificando as “questões voltadas para a investigação histórica”.

            A primeira está centrada na compreensão que o historiador tem sobre a sua disciplina. Como o indivíduo que realiza a pesquisa entende a disciplina da qual ele faz parte e com a qual ele lida. Já a segunda se foca no como se sustentam as afirmações que surgiram a partir da pesquisa, buscando sempre a objetividade e a verdade.

Trazendo a interpretação das palavras de Braudel, feitas por Luciara, pode-se entender qual a utilidade da história, permitindo que se entenda assim as duas questões: “... explicar a história, explicar o mundo é uma árdua tarefa, pois na sua visão a história é muito mais do que relatos, do que uma coleção de fatos, pois está em relação direta com a vida e na sua convicção de ser a própria vida.”

            Fazendo um breve histórico do pesquisador francês a autora mostra então a importância desse pensador para o desenvolvimento da disciplina. Demarca assim o posicionamento de Braudel quanto à interdisciplinaridade e à relação com os demais campos das Humanas. Luciara nos indica com essa breve discussão dos pensamentos de Braudel o quanto a história não teve o mesmo desenvolvimento que as outras áreas, quando comparadas.

            É reivindicado como função do historiador compreender a duração social. Diversos campos das ciências humanas convergem quanto à impossibilidade de cercar um único tempo, logo caberia ao pesquisador da história saber como alocar essa questão de espaço-tempo. A centralidade da disciplina aqui debatida repousaria, portanto,na criação de metodologias para “clarificar com a nova luz” o tempo e as relações sociais.

            Adentrando uma nova questão, o texto trata da verdade na história. Objetivo caro deste campo do conhecimento, a autora nos mostra, como a partir da teoria do reflexo, há uma sobreposição de várias verdades parciais, que vão progressivamente se acumulando. Usando dos argumentos de Engels e Schaff quanto ao conhecimento como um todo, vemos: “...um processo infinito que acumula verdades parciais nas várias fases do seu desenvolvimento histórico. Nele, vai-se alargando, limitando, superando essas verdades parciais.”

            Entende-se assim que o conhecimento, e a história em especial, estão num constante processo de reinterpretação e complementação. Não há uma única verdade estática, mas sim diferentes visões de um mesmo fato, sobre o qual o historiador trabalha e analisa. Cabe ao pesquisador, então, discutir e fazer com que a sua proposição converse com as demais, de maneira a se construir sempre uma nova verdade parcial. Não há, sob essa ótica, um fim na história como disciplina que estuda um recorte, sempre haverá uma nova ”verdade”.

            Conforme nos mostra o texto é por volta do ano de 1925, em especial nos Estados Unidos da América, que se discutiu com maior intensidade a interdisciplinaridade. O livro “New Historyandthe Social Studies”, em especial, teve a função de mostrar como haviam os mais distintos campos dos Estudos Sociais e em que ponto cada um se completava e se diferenciava. Cabe à história, de acordo com o autor H. E. Barnes, ser um campo de teste e experimento das teorias desenvolvidas pelas demais ciências.

            A autora nos indica um dos principais problemas dos pesquisadores do campo da história do período: “Faltava aos historiadores, como se pode inferir, uma melhor compreensão do desenvolvimento das ciências sociais e mesmo das ciências físicas.”. O campo analisado pelo texto, nos anos de 1920 e 1930, estava atrás dos demais, de maneira a não contemplar as questões que eram vigentes no período. São então pensadores como Diderot e Comte que irão assumir a vanguarda e transformar o campo.

            Sem deixar de lado a influência de Marx e do marxismo, Luciara nos deixa claro a dificuldade de usarmos essa linha de pensamento. Mesmo sendo muito rica em possibilidades e muito difundida, o pensador alemão não se dedicou exclusivamente ao estudo da história, logo existem defasagens. Inclusive o conceito mais objetivo e sóbrio de história, encontrado nos escritos do autor, é oriundo das suas pesquisas de crítica da economia política. A intenção de Karl Marx era majoritariamente garantir que a luta de classes seria a força motriz da história, e isso por si só já causou inúmeras mudanças e uma verdadeira revolução no campo da história.

            Um ponto interessante que o texto traz a tona na sequência é a questão da sequencialidade da história. Em um rompimento claro com a história positivista, que via cada fato como isolado, a autora nos apresenta pensadores que mostram como tudo é construído a partir da influência de outros fatos e de indivíduos no processo. Pode-se inferir, portanto, que a história não acontece no passado meramente, mas sim é consequência de uma infinidade de fatores e assim como é construída, constrói novas situações.

            Uma vez que o texto dá especial atenção à historiografia americana, a autora se detêm para discutir sobre o “presentismo” e seu impacto na área da História. Tendo desabrochado nos anos 30 e 40, fez com que a história de fato ultrapassasse as ciências sociais e fosse congregar no campo das ciências humanas. A teoria leva em consideração, portanto, o presente e o presente no qual o fato se desenrolou, de maneira que evita anacronismos.

            “Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, a situação para a história e os historiadores progrediu sem a morosidade precedente do último q  uartel do século XIX e na categoria de autônoma foi incorporada à estrutura departamental.” É nesse momento, conforme mostra a autora, que a história poderia ganhar ainda mais corpo e uma maior interação com outras áreas, mas ao contrário, ela acaba se tornando ainda mais instrumental e acaba inclusive perdendo muito da sua relação com ciências antes muito próximas como a filosofia e a literatura.

            Essa abertura para novas áreas ainda gera outro ponto. O historiador, ao dialogar com outros campos, deve buscar ser acessível ao máximo, ao mesmo tempo em que é um especialista. Uma dualidade necessária para que a história seja plena como ciência em sua interdisciplinaridade característica. Como aponta a autora: “O que permanece são as questões de inteligibilidade do passado, frutos dos diversos ramos não históricos do saber humano.”.

            Trazendo então a nova história francesa, de Braudel, Le Goff, Labrousse e tantos outros, a autora nos mostra como houve uma nova interação a partir dessas proposições teóricas. Os objetos de estudo podem ser mais diversos, além de fontes e métodos inovadores. Usando-se de Marc Bloch e Perrin vemos “A atribuição do homem como objeto de estudo da história enquanto integrado num grupo social”. A história passa a ser contada a partir do indivíduo, mas como parte integrante de um grupo.

            O acontecimento é superado. Estuda-se o todo, uma vez que tudo é acontecimento. Deve-se ultrapassar o tempo breve e analisar o movimento interpretativo da história. A disciplina passa a ser a compreensão da relação do indivíduo com o seu ambiente e outros indivíduos dentro do seu contexto de tempo. Uma amplificação de um ponto menor de maneira a abarcar toda uma maior complexidade.

            A velocidade e efervescência sob a qual a história transcorre desde o período moderno até os dias atuais, mostra uma necessidade de cada vez uma maior capacitação do historiador para analisar e lidar com as informações. Passamos, portanto, por uma crise inovadora. “Vivenciamos o medo da separação do nosso passado num tipo de sociedade onde a massa dos acontecimentos e a sua repercussão são difíceis de reintegrar a nosso cotidiano.”.

            Aproximando, portanto, a história dos acontecimentos internacionais, Luciara nos dá indícios de que para compreender a história com toda a sua complexidade, devemos buscar analisar em maior perspectiva e em períodos, não apenas em fato. Trazendo para a discussão a proposta de Hobsbawn, de uma história de “Eras”, a autora nos mostra como podemos observar as grandes oscilações.

A autora vê nas relações internacionais (RI) um caminho de compreensão da história mais recente. Uma vez que ela tenta levar em consideração as questões tanto no âmbito dos indivíduos como entre os Estados, no sentido formal, a história das relações internacionais seria assim um campo em franca expansão e absorção. O campo das RI seria, portanto, um filho direto da história, que engloba suas técnicas e as aplica de forma a investigar e examinar o tempo presente.

            Mesmo com todos esses desenvolvimentos e aprimoramentos, a história ainda é dependente de suas fontes. Sem o documento a história não pode ser validada ou comprovada. É necessário sim buscar novas formas de interação e novos objetos, mas as técnicas mais fundantes não podem ser deixadas de lado. Cabe aos estudiosos do campo encontrar os caminhos e as prospecções da onde a História pode e deve chegar.

 

 

Contribuições da Disciplina para a pesquisa e críticas

            Sem dúvida as contribuições foram imensas, principalmente pelas discussões em sala. Minha pesquisa se relaciona diretamente com a representação, logo a disciplina é uma das que mais adentrou questões pontos que farão com que meu desenvolvimento seja ainda maior. Os textos servem desde já como pano de fundo para as minhas discussões. Os que eu ainda não utilizava, agora passam a compor esse panteão. Mesmo que alguns tópicos não tenham sido tão centrais para mim, o conhecimento adquirido será de suma importância para a minha carreira docente.

Quanto aos trechos selecionados para leitura, apenas alteraria uma seleção. Ao invés do texto selecionado de Raymond Williams, escolheria o texto “Para ler Raymond Williams” da professora Maria Elisa Cevasco. No artigo a pesquisadora de Estudos Culturais faz uma resenha do texto “CultureisOrdinary” de Williams, que ao meu ver é um dos mais completos e complexos para compreender a cultura como conceito. Infelizmente o texto no qual a autora se baseia não tem tradução, o que seria a contribuição perfeita. Se não for um empecilho um texto em inglês, seria ainda melhor essa obra do que a resenha.

            Textos como o do Foucault e do Benjamim serviram para comprovar ainda mais o quanto a cultura e o estudo da representação são centrais na história. Grandes pensadores que também figuraram na disciplina, como Thompson, só reforçam essa construção de um História Cultural. Valorizar cada vez mais o que é produzido pelo indivíduo e como isso representa uma realidade foram os principais ensinamentos que pude tirar.

            As palestras, tanto de convidados como dos meus colegas, foram de grande valor. Pude ver como outras pessoas fizeram e fazem relações das diversas questões que discutimos. A oportunidade de fazer uma arguição para o trabalho de um colega e assim aprofundar meu conhecimento sobre outra temática é imprescindível para desenvolver nossas habilidades docentes. A disciplina foi mais do que um aprendizado conceitual, mas também um desenvolvimento prático.

Lido 1363 vezes Última modificação em Domingo, 24 Maio 2015 12:54