A História Oral na Universidade

 

 

 

Entrevista com a historiadora Luciara de Aragão.

 

Y. D. - Luciara há muito que eu queria uma oportunidade assim com essa de hoje, com você visitando São Paulo, terra que eu sei que é a do seu coração, para falarmos um pouco do inicio de sua carreira universitária na Universidade Federal do Ceará e dos seus primeiros contatos com a História Oral.

 

L. A. - Quando falo do passado é que percebo que eu já trilhei muito da estrada, hein? E com certeza o tema central do seu interesse é de como o início da minha vida universitária tem uma íntima relação com esse a história oral. De fato, ao prestar concurso para o magistério superior, na área de História, tive entre os meus examinadores o que hoje,  trazendo o passado até mim diria que se constituiu num dos meus ídolos. Era o Professor Geraldo da Silva Nobre, uma enciclopédia viva, um laboratório oral de maravilhosa memória e de uma bondade e colaboração inexcedível. Sempre encontrava um tempo para me estimular e me dar apoio, sugerindo temas para a minha pós-graduação na USP, pois vibrava com a ideia de que eu traria como trouxe, para o Ceará, o primeiro mestrado em História. Foi conversando com esse sábio professor que percebi, na prática, a necessidade de gravar o que ele me dizia. Ia eu quase todas as tardes pesquisar no Instituto do Ceará tomando chá de cidreira e me beneficiando, na prática, com um orientador notável. Assim, quando iniciei a carreira universitária já possuía o título de mestre e já tinha feito muitas gravações com o meu emérito professor já  dos meus tempos de graduação na Faculdade de Filosofia.

 

Y .D. - E vocês conversavam sobre métodos de estudos.? Ele aceitava bem o gravador?

 

L. A. – Bom, esqueci-me de dizer que ele era também um erudito jornalista que me deixava usar o gravador como melhor me parecesse. Parecia a nós dois que isso era fácil, prático e moderno.  Eu também já escrevia desde os 13-14 anos, pequenos artigos e poemas em jornais locais como o Nordeste e a Gazeta de Notícias. Achava jornalismo a mais bela profissão do mundo. Então, para mim era uma doce atribuição transcrever as fitas e as informações para facilitar o meu trabalho. Minha mãe era a maior incentivadora e, ás vezes, ouvia as fitas comigo para que a descoberta do mundo das palavras fosse mais rápida na apreensão do conteúdo. Noutros termos, ele ditava pra mim o texto gravado. Enfim, quando já dando aulas no curso de História da UFC, após minha aprovação em concurso público, considerei normal o uso do gravador. O Curso de História era pequeno e ainda inexpressivo e creio que possuía um só professor que se chamava Pedro Alberto de Oliveira Silva. Creio que com ele fomos, na prática, os reais fundadores do Curso. Bom, mas como eu já possuía o grau de mestre, fui selecionada, junto com outros colegas, para a instalação do mestrado em Sociologia do Desenvolvimento, uma idéia acalentada por professores como Eduardo Diathay Bezerra de Menezes, Paulo Elpídio de Menezes Neto e pelo professor Hélio Góes de Campos Barros, depois um dos melhores administradores da CAPES. Foi nesse momento, então que me surgiu uma grande oportunidade de mergulhar no que eu já fazia e que era a História Oral.  De gravador em punho eu estava sempre às voltas com histórias a resgatar, tinha o interesse em ouvir Cruz Filho, o príncipe dos poetas cearenses, Francisco Sadoc Araújo, o fundador da Universidade Vale do Acaraú, que levou a  interiorização da Universidade no Ceará.. E enfim, entrevistar personalidades dentro de temas de interesse coletivo. Agora, como primeira oportunidade de inserir-me entre os percussores da História Oral no Brasil eu creio que precisei de um pouco de sorte. Em primeiro lugar, veio para o Mestrado em Sociologia do Desenvolvimento um convite do Curso de História da Universidade de Brasília, convite feito pelo historiador brasileiro, mas com formação em universidades norte-americanas, David Gueiros Vieira. Foi uma sorte ser indicada para ir.  Muito entusiasmado, o Professor David conseguiu passagens para os convidados com a Fundação Ford e reuniu na UnB todos os professores brasileiros que já se interessavam pelo uso da História Oral no Brasil, tais como Carlos Humberto Correia e Ondina Bossle da Universidade de Santa Catarina, Cecília Vestphalen e Altiva Palheta, da Universidade Federal do Paraná, o professor Luis Henrique da Bahia .... Lembro que se lamentou a ausência de  Fernanda Pacca de Almeida Wrigt, que havia sido minha orientadora do mestrado e depois seria do doutorado;   Presentes estavam professores americanos como William Moss, George Brown e iniciou-se, então ali, pela primeira vez, uma discussão sobre como sentar as bases para a História Oral no Brasil e sobre a sua legitimidade como ferramenta e como fonte de pesquisa. O professor William Moss   falou sobre a linha que pode separar o entrevistador de História Oral da entrevista jornalística e sobre o fato de que  Allen  Johnson  dizia  que  no  caso  do  chamado  jornalismo moderno explora-se alguém por uma boa história. Afirmação que me deixou o que pensar...... Lembro que fiquei ainda encantada em saber, da palestra do professor David que as gravações podem ser estudadas por laboratórios especializados, o que já era feito nos Estados Unidos transformando a voz em sinais luminosos, podendo estabelecer se a pessoa estava conscientemente dizendo uma mentira ou se acreditava no que dizia. Não parava de pensar em como tinha sorte em participar desse grupo. E creio que bendisse o Professor Hélio Barros por me indicar mesmo sendo eu, então, muito jovem.

 

Y. D. - As discussões então lhe aguçavam um senso de uma grande responsabilidade por representar uma Universidade como a Federal do Ceará, não? Ainda aí você deve ter percebido que o uso da História Oral era mais além e mais profundo do que só coletar entrevistas gravadas  mesmo quando as fazia para publicação no caderno especial de sábado de jornais cearenses com  a Tribuna do Ceará e da Gazeta como me dizia antes, não é certo?  Imagino que foi a partir desse encontro o nascimento da idéia, que depois se propagou pelo país, da criação de requisitos influentes para o uso e a seleção do material gravado... Imagino  a distância percorrida para transforma-la numa documentação de relevo.

 

L. A. – Certamente. Sabe, a partir daí liguei pontos das conversas sérias com o meu mestre Geraldo Nobre, refletindo e compreendendo melhor o que ele dizia sobre caber ao historiador a síntese do todo social e que ele também tem a missão  de preservar, em última análise, sua participação na História vivida no seu próprio tempo.Mas, como eu dizia antes, tive muita sorte de ir a esse encontro em Brasília. Os contatos da liderança desse grupo frutificaram e se transformaram no primeiro  curso de especialização em História Oral dado no Brasil num convênio entre a Fundação Getúlio Vargas e a Universidade Federal Fluminense coma coordenação das Professoras Aydil de Carvalho Press e Ismênia Lima. Além de alunos     brasileiros, o curso recebeu alunos argentinos, venezuelanos e da América Central. Os professores, coordenados pelo Professor George Brown, foram James e Edna Wilkie além da professora mexicana, integrante do Museu Antropológico do México, Eugenia Mayer.

 

Y. D. Presumo que o curso teve um desdobramento nas universidades de origem dos participantes, pois os cursos de especialização requerem as extensas 360 horas entre trabalhos teóricos e práticos. Em que consistiu a natureza prática desses trabalhos? Imagino do que foi dito e da nossa experiência vivida na PUCSP como é cara a implantação de um Programa de História Oral se uma Instituição não o patrocina. Como se arrumou no Ceará?

 

L. A. - A Universidade era prestigiada e eu havia recebido bolsa de estudos da Ford Fondation. O mestrado em Sociologia tinha credibilidade e eu um projeto sobre as secas no Ceará. Sempre me causou espécie que o problema das secas pudesse ser um empecilho ao desenvolvimento do Estado, mesmo porque havia órgãos  bem atuantes como o DNOCS e o Banco do Nordeste. Assim, preparei um projeto onde requeria basicamente gravadores, fitas e material de escritório que fosse útil para as transcrições. Formulei ma listagem de governadores, ex-governadores do Estado,, técnicos, secretários de desenvolvimento e sábios como o Dr. Guimarães Duque em dos maiores conhecedores das xerófilas no mundo e o laureado biólogo Ruy Simões de Menezes um crânio em questões de açudagem e piscicultura, ambos já falecidos.. Antes do início da segunda parte do curso, eu fiz a prova prática com o diretor do Arquivo Nacional, Dr. Raul Lima e imaginei que ao Arquivo poderia interessar essas Memórias da Secas. A essa época eu já alinhava idéias para o doutorado e o tema que me aconselhavam era Seca e Política no Ceará, tema no qual eu aproveitaria todas as entrevistas feitas.

 

Y. D. - Ah! Já sei, parte dessas entrevistas estão no site do nehscfortaleza, o www.nehscfortaleza.com  que você coordena com a janela à esquerda da primeira página do site, Memória das Secas, não é isso? Lembro de haver lido parte de uma entrevista com o então governador Virgilio Távora, fruto de um conveio entre a UFC e o Arquivo Nacional.  

 

L. A. - Boa memória visual a sua. É isso mesmo. Pena que após tanto tempo, estamos aqui falando dos anos setenta, muita coisa tenha se perdido. De qualquer forma vemos como no plano das secas algumas coisas se modificaram. Não sei se é possível falar de menos assistencialismo, mas ao menos de uma visão mais objetiva de tratar o problema. Para ser sincera, não creio que a implantação da História Oral na UFC tenha tido resultados tão eficientes como os logrados em Santa Catarina, criado em 1974 dando subsídios para a história e a evolução política desde 1930, por exemplo. De qualquer modo, representou uma experiência positiva e deu-se como dizer, o lançamento de uma pedra fundamental para os que trabalhariam com História Oral depois. A grande experiência do Curso de História, com as primeiras bolsas concedidas aos alunos veio da Sudec-Superintendência de Desenvolvimento Econômico que em convênio com a UVA-Universidade Vale do Acaraú, organizou farto levantamento de livros de tombo pecuários na Zona Norte do Ceará, favorecendo o contato deles com a documentação de fonte primária existente. Você deve está querendo que eu lhe conte como foi o meu ingresso na PUC quando você era a coordenadora do Curso de História, ou seja, como saí do Ceará e fui implantar a história Oral na PUC/SP.

 

Y. D. - Adivinhou meus pensamentos, moça. Sei que fui das primeiras a lhe dar as boas vindas, mas conte para registro. Lembro muito do entusiasmo do Dr. Joel Martins ao recebê-la, pois havia pedido ao professor Hélio Barros, então na coordenação da CAPES, uma ajudante para o curso de História e para a pós-graduação. Você já tinha então concluído os créditos e a tese de doutorado e aguardava a marcação da defesa com a Fernanda Paca, não é isso?

 

L. A. - Exatamente isso. Creio que vou lhe nomear minha biógrafa.. Já estava vindo de uma experiência como instrutora na USP traçava planos sobre como iria publicar a tese com tanto material de História Oral nela usado. Havia preparado esses documentos, excelentes fontes orais contemporâneas com agrônomos, jornalistas e técnicos da Sudene, DNOCS e Banco do Nordeste. Depois já vinha estudando sobre entrevistas e a forma como ela é trabalhada nos vários ramos de conhecimento. Na prática, todos nós somos entrevistados, seja na escola, na admissão ao emprego ou na anamnese médica. Todos se interessam por entrevistas, sejam antropólogos, cientistas sociais ou assistentes sociais. A questão residia, no meu entendimento na criação de um documento espontâneo e ao mesmo tempo confiável para que pudesse ser usado como um documento fonte para a História e que recebesse a aceitação dos historiadores. Quando queremos produzir ciência o mais importante é a produção cientifica. Não podem, portanto deixar de ser importantes os métodos, as técnicas e as formas de sua escolha e emprego. Ora, a primeira mostra sociológica voltada para a história de vida é se não me falha a memória, de 1918. Não tenho dúvidas, sobre a importância dos ensinamentos que recebi nos cursos e treinamentos de História Oral. Creio que me inclinei para isso de forma quase instintiva. Ainda hoje, há uma tendência de julgar a História Oral como um registro de atualidades. Olha Yvone, são muitas as categorias no emprego da História Oral para que se fique só perguntando se ela é História, se é Oral ou se ela é um elemento de um contra história como quer Paul Thompson. Creio que essas preocupações ele as codificou, mas foram todas pensadas por esse grupo gerador da implantação da História Oral no Brasil do qual fez parte também a Tereza Malatian Roy da Universidade de Franca. Lembro muito bem das minuciosas inquisições do Professor Manoel Nunes Dias e de como isso podia ser enriquecedor no campo teórico do emprego da técnica. Mais tarde, as constantes evoluções e elaborações sobre História Oral levaram-na a ser considerada método levando a polarização e disputas das várias áreas que a utilizam com os nome os mais diversos. Só para ilustrar, fui, na prática afastada de uma banca de doutorado por ter posições discordantes da orientadora da tese de uma psicóloga  na área de Educação e usando  Historia Oral. Tal fato me remeteu   às teorias de Oscar Handlin, da Universidade de Harvard e que nos ensina tão bem a ler as evidencias e tudo o que elas significam,  quer num livro quer numa palavra.  Fugirá a História Oral do conceito de evidência?                                                                                                                      

 

Y. D - Conheço bem a teoria. Trata-se do livro da Martins Fontes e que ambas traduzimos. Na verdade, os que assim pensam não se detiveram a pensar sobre com essa documentação é elaborada pelo historiador e nem mesmo se há uma preocupação na coparticipação de resgate/criação do documento contemporâneo. Como você diz sempre a maior validade da História Oral, desse conjunto de documentação Oral reside na interdisciplinaridade. Isso explica, pelo menos em parte, as suas idas à Franca para opinar na confecção do Estatuto do  Laboratório  de Documentação Oral que se seguiu ao da PUC/SP. Sei que poderíamos falar horas sem fim sobre esse tema que domina bem e que sempre acompanha os seus trabalhos, os seus livros..

 

L. A. – É verdade Yvone, aqui mesmo na PUC, o então meu orientando de Mestrado o Jean Claude Silberfeld me proporcionou uma grande alegria. Ele era então aluno do Curso de História Oral. Eu estava preparando o livro Empresários e Políticos na Industrialização do Nordeste e ele me proporcionou a assessoria necessária no planejamento e confecção do plano de entrevista. Ainda marcou, acompanhou e coadjuvou a entrevista com o Dr. José Mindlim e com Keith Bush da Empresa Alpargatas, muito atuante em Recife. Isto só diz bem do acerto da introdução da História Oral no Setor de Pós-Graduação da PUC/SP quando era o querido Dr. Joel, presidente da pós-graduação e você a chefe da Coordenação de História. Tem grande domínio do uso da História Oral e sabe aplica-la muito bem na área econômica, Aliás, outra vantagem do Curso de História daquela época era a adaptação do aluno de outras áreas de conhecimento ao mundo do mestrado em História. Eram aceitos alunos graduados em Economia, Direito, Arquitetura, Filosofia o que era muito enriquecedor. O Curso de Leitura Sistemática voltada à atualização do conhecimento e compreensão do sentido da História era de muito valor. Muitos deles queriam apresentar seus projetos utilizando a História Oral Lembro-me que o interesse despertado foi tanto que quando apresentei o plano central do CURSO A entrevista nos vários ramos do conhecimento humano, eles mesmos se propuseram  entusiasticamente a pesquisar voltando para a sua área de  interesse os textos pesquisados. A partir dessas leituras, puderam estabelecer similitudes e diferenças no trabalho do historiador ao tratar com as entrevistas orais. Em sua segunda fase, o Curso de Leitura Sistemática tinha também a proposta de ajudar o aluno a formular e redigir o seu projeto além de organizar entrevistas para o seu trabalho monográfico. As constantes palestras de advogados como Eduardo Muylaert, Manoel Alceu Afonso Ferreira e Renan Lotufo, ajudaram muito a que aprendessem sobre a importância de um Programa Oral de uma Instituição e sobre os direitos de facultar ou não, as entrevistas doadas em sua integralidade. Aliás, foi essa interdisciplinaridade do Curso de  Mestrado de  então, a mola propulsora para a criação do Laboratório de Documentação Sonora e Gráfica da PUC/SP, englobando todos os alunos da pós-graduação que fossem utilizar em suas monografias entrevistas orais. Lembro-me muito bem de como o projeto elaborado por mim foi aceito e aprovado pela Comissão de pós Graduação. O Laboratório proposto tinha u projeto mãe: a história da PUC/SP. Os alunos de leitura Sistemática adoraram a idéia e se tornaram exímios colaboradores, lendo e se preparando par fazer entrevistas com professores e funcionários. Formou-se um corpo de entrevistadores incentivados respectivamente, pelas coordenações de Pós-graduação  do Mestrado em História. Professores com Geraldo Pinheiro Machado, Maria do Carmo Guedes, da psicologia. Carmem Junqueira, da antropologia, Maria Luiza da educação além de ouros professores como Lucrecia Ferrara da semiótica e de tantos outros que nos concederam entrevistas pra o PROJETO.

 

Y. D. - Sei perfeitamente da importância do projeto como um todo aglutinador das mais variadas experiências dos vário saberes agregados num programa de pós 6 graduação. Sei também o quanto o Dr. Joel Martins prezava e incentivava esse projeto que foi gerado no começo dos anos oitenta sob a inspiração dele. Sei também que ele a convocou já quando reitor para que você retomasse o projeto dentro do projeto maior PUC ANO 2000. Infelizmente, o homem põe e Deus dispõe e perdemos, nós, um grande amigo, a universidade um grande cientista.

 

 L. A. - Pois é Yvone, uma lástima o que aconteceu e vem acontecendo. Tantas entrevistas feitas com homens como Franco Montoro, Dra.Aniela, Dr. Joel Martins, D. Paulo Evaristo Arns... Homens e mulheres que ultrapassaram os muros dessa universidade. Trabalho cuidadoso e amoroso de tantos alunos que por aqui passaram. Alguns também já se foram como o José Carlos, o arquiteto, Naturalmente entrevistas com imperfeições das próprias condições inerentes às dificuldades de pesquisa, custos onerosos financiados por eles próprios.. Fitas, gravadores, custos das transcrições.É inacreditável que tanto desvelemos e revelamos nesse trabalho, tocando em seus pilares, talvez os seus segredos e após tantos anos nada se publique... Pra mim pessoalmente ficou o registro da convivência com seu Luís Kubinsk da Biblioteca, o sorriso franco de Pinheiro Machado ou o Dr. Joel a me relembrar que o recurso aos testemunhos orais era antigo. Do tempo de Michelet adiantava. Eu redarguia, pois é Dr. Joel, mas quem redescobriu tudo isso foi esse Allan Nevins da Universidade de Columbia, depois da guerra, em 1948. E começava o papo...

 

Y. D. – Lembro-me bem que fomos entrevistar a reitora de então, a Dra. Nadir Kfouri que nos contou os detalhes da invasão da PUC...

 

L. A. – Bem grande é a nossa persistência para publicar esse trabalho tão volumoso de cerca de 400 páginas. Uma história contada pelos que fazem, fizeram a PUC e resgatada pelos alunos desse Curso de História Sistemática. Tantos professores, alguns ex-reitores como Severino, Casemiro, Wanderley... Todos torciam pela publicação desse trabalho importante na área de História Oral. Seguimos esperando. Gostei de tratar desse assunto. Nem precisa agradecer. Nem sentimos o tempo passar quando fazemos  aquilo que gostamos.                                                                                                                               

O Que é de Fato a Fortaleza Bela

Meu entrevistado é Paulo Roberto Pinto, nome literário de Paulo Roberto Coelho Pinto, Professor  Catedrático do Curso de Economia da Universidade Federal do Ceará, Bacharel e Licenciado em Filosofia, Bacharel e Licenciado em Pedagogia, Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela UFC e Bacharel em Ciências Econômicas pela mesma Universidade. Com livro premiado pela Academia Brasileira de Letras em 1972, foi diretor do Instituto de Pesquisas Econômicas desde a sua criação até o encerramento de seus trabalhos. Nessa condição elaborou em Washington, junto à OEA (Organização dos Estados Americanos), o Projeto de Funcionamento  do CETRED (Centro de Treinamento em Desenvolvimento Econômico), que funcionou inicialmente sob sua direção. Igualmente coordenou a elaboração em New York junto à Fundação Ford o Projeto de criação do CAEN (Centro de Aperfeiçoamento de Economistas do Nordeste) e depois transferido para a Faculdade de Ciências Econômicas. Superintendente da Superintendência do Desenvolvimento do Estado do Ceará (SUDEC), de 1971 a 1974. Secretário de Planejamento do Município de Fortaleza, de 1975 a 1979. Foi ainda Presidente do Conselho Estadual de Economia e Presidente do Conselho Regional de Economia da 8ª Região (CORECON). Paulo Roberto é ainda escritor e colaborador de vários jornais.

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Anistia: As Indenizações


Entrevista com a historiadora Luciara de Aragão pela jornalista Nara Lopes.

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Carapinima: A História de Uma Rua, Um Bairro nos Anos Dourados

Meu entrevistado é Paulo Maria de Aragão, advogado e professor universitário, Mestre Pela Universidade São Marcos–SP, especialista em Direito Público pela Universidade de Fortaleza–UNIFOR e Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Ceará–UFC. Professor de Direito do Trabalho e de Deontologia Jurídica na UNIFOR e de outras faculdades, ministrou, a convite, aulas de Segurança do Trabalho no curso de Medicina da Universidade Federal do Ceará – UFC. Palestrante e conferencista em sua área profissional, dentro e fora do Ceará é advogado militante. Suas atividades forenses iniciaram-se na Companhia Docas do Ceará, da qual foi advogado e Diretor. Atuou no Tribunal de Ética e Disciplina da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção do Estado do Ceará, como Conselheiro no período de 1997 a 2003. No Exército Brasileiro foi Oficial R-2 da 1ª Turma de Artilharia do CPOR de Fortaleza. Cumulou as funções de oficial da arma, no antigo 10º Grupo de Obuses, com as de relações-públicas da 10ª Região Militar. Foi eleito presidente da Associação de Oficiais da Reserva–Assores, no triênio 1970-1972. Membro da Associação Cearense de Imprensa-ACI, escreveu mais de uma centena de artigos para os jornais O Povo, Diário do Nordeste e Gazeta de Notícias, inclusive a movimentada coluna: O povo pergunta e o advogado Paulo Maria de Aragão responde. Pelo jornal Gazeta de Notícias venceu um concurso de reportagem durante as comemorações da Semana da Asa , titulada “O vôo É uma Enseada de Felicidade apesar de a gravidade não perdoar”. É autor de diversos impressos e do hilariante O Clarim os cães e outras Histórias editado pela Imprensa Universitária da UFC (1968), do resumo histórico Mallet, o Patrono da Artilharia, (1980), retrato histórico de uma importante figura do Exército Brasileiro e de diversos artigos técnicos e científicos em revistas e sites especializados, além do recente Rua Carapinima Ecos e Ícones editado pela Imprensa Universitária da Universidade Federal do Ceará.

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Boanerges Cisne Saboia Farias e a Educação no Ceará

 O meu entrevistado é um dos nomes mais renomados quando o assunto é a história da educação no Ceará. Trata-se do professor, advogado, escritor e memorialista Boanerges Cisne de Farias Sabóia. Nascido em Crateús nos sertões do Ceará e vindo desde muito cedo para Fortaleza, estudou no renomado Instituto São Luis do então Professor Francisco de Menezes Pimentel, depois eleito Governador do Estado, dentro de um período de intensa atividade partidária em luta pelo poder no Estado. Presenciou toda a efervescência cultural e política da década de 30 em fases de predominância de movimentos pró-comunismo e os de direita representados pelo integralismo. Ali, no São Luis, ensinou e integrou a diretoria da Instituição, o que depois faria no consagrado Liceu do Ceará. Dono de elevado prestigia por suas atuações na área de educação, o Professor Boanerges Sabóia, como é mais conhecido, é autor de um dos mais importantes livros sobre o velho Liceu, onde narra suas memórias  centrando-se nos aspectos históricos e em suas lembranças da Instituição. O seu livro, O Liceu do Ceará é um documentário  para a educação pública do estado do Ceará. Sua longa experiência no magistério e na administração tendo ingressado no Liceu em 1935 e ali permanecido durante 27 anos, sublinham a autoridade do seu testemunho sobre temas relevantes e correlatos como  a história do Liceu,considerado o berço da cultura cearense desde a sua fundação em 1845.

 

L.A. – Prezado Professor, Dr. Boanerges Saboia, sinto-me muito honrada em ser recebida tão gentilmente em sua casa e sei que muitos se beneficiarão das  suas informações  sobre a educação no Ceará. O senhor diz muito de perto ao meu coração ainda porque sei o quanto meu pai, Luis Rodriguez de Aragão ,o apreciava. Quero registrar aqui esta bela tarde de sol do  dia  25 de março de 2009  onde, da janela  do seu apartamento, temos uma bela vista do mar.  Desse ambiente tão acolhedor deixemos nesta entrevista o relato do  significado do seu trabalho,erudição e contribuição para a história da Educação no Estado.

 

B.S. - Fico feliz de que me considere assim, pois sempre soube do  do equlibrio dos seus julgamentos . Seu pai tinha grandes esperanças no seu futuro. Ele apostava em você  e assim, suas palavras me alegram. Sabe, eu nasci em Crateús aqui no Ceará e  la fiquei até 13 anos de idade.                        

 Noivei com a Edith no dia 25 de novembro de 1936 dentro do figurino dos costumes austeros daquela tempo. Saiamos sempre acompanhados e  no ano seguinte,em 28 de novembro nos casamos.

Fui estudante de Direito. Contudo, sempre desejei ser professor. Como professor do Liceu ganhava  como um desembargador, acredite. No inicio, a Faculdade de Direito funcionava no mesmo prédio da Assembléia, depois ela se muda para a Praça da Bandeira, onde está hoje.

 

L.A. Falando-se de educação no Ceará, cresci ouvindo falar sobre o Instituto São Luis do advogado e politico Francisco de Menezes Pimentel e sei que o senhor também lá estudou.....

 

B.S.- Realmente. Falando-se em educação no Ceará e na nossa falta de memória educacional, logo lembramos do Instituto, depois Ginásio São Luis. Foi um colégio e muito bem afamado  e era mesmo o único colégio particular importante funcionando com internato e semi- internato. Ali, havia rigor e disciplina tendo sido um marco na educação secundária do Ceará.. Ainda hoje, relembro os horários estabelecidos para o alunato.O período da manhã principiava as 7 horas e terminava às 11 horas. De 8 até 9 horas guardávamos uma hora de silêncio. No primário já se lia contos e poesias. Os nomes de Coelho Neto e de Olavo Bilac nos eram familiares ,bem como Casimiro de Abreu com Os Meus Oito Anos que nos soava quase como um hino à infância.. Posso citar grandes professores como José Valdo Ribeiro Gomes, Otávio Terceiro de Farias e Antonio de Menezes Pimentel. O professor Antonio Pimentel era irmão do Dr. Pimentel  um grande geógrafo chegando a publicar uma aclamada Geografia do Brasil.Havia também um outro professor, acho que era Luís Pimentel que foi lente no Ginásio Santa Cecília. Depois, o irmão dele, Antonio, ele foi para o Rio de Janeiro voltando para visitar o Ceará já casado com D. Rosalba. Lembro que no curso primário se estudava Português e História, Geografia e Francês.Ainda recordo parte do hino do São Luis:

“ Vem do saber / a vida do porvir/ que a resplandecr na luz se traduz.”..

 

 Outra coisa que não é uma novidade é a de que  o diretor do Colégio São Luis foi um dos interventores no Estado por ordem do Governo Federal. Para registro, digo que o  primeiro interventor no Ceará foi Fernandes Távora, mas ele governou por pouco tempo. Continuou com  o que hoje chamam de práticas clientelistas que  é o que era possível fazer pelas comunidades e quanto a corrupção que nunca foi sanada no Brasil, se ontem houve,no que se chamou República Velha , com certeza hoje está longe de está extinta. A propósito outros nomes  políticos se destacaram no período como o de Severino Sombra que  em 1932, foi perdendo parte do seu poder. Isto é quando ele voltou  do exílio, abandonou a LCT e fundou a Campanha Legionária, mas o sucesso foi pequeno.  A  Igreja  Católica quase toda  apoiava  à AIB e  já começavam a surgir  movimentos e entidades operárias de esquerda entre nós. Mais ou menos em1937,  as associações  tidas como de orientação fascista  como a LCT, AIB e a Campanha Legionária foram extintas pelo Estado Novo.

 Quero lhe dizer que os alunos eram bem informados sobre esse temas. Na revista Estimulo que lhe dei, há inclusive um pequeno artigo de um aluno de então, o Geraldo Pinto Magelem da 5ª, série sobre a guerra. Esse moço fazia parte do corpo redatorial da revista.Há um outro também sobre a guerra salientando a agitação continental, de um outro aluno, Valdemar Correia Lima. Assim, os assuntos se ligam e vou diretamente  puxando pela memória e voltando ao assunto do São Luis. Quero  aproveitar a oprtunidade para acrescentar que fui um observador das ações do Dr. Pimentel, digno diretor  e proprietário do Colégio São Luis, pelas sua maneiras gentis e elegantes,porte delgado e esguio e sempre muito bem trajado, aliás como era de se esperar de um homem na sua posição.Ele foi um precursor da educação privada em Fortaleza ,um tipo de  inovador em matéria intelectual e educativa. De fato, o colégio era para ter a sua memória preservada e ser citado como um marco na história da educação do nosso estado. O mais importante é que ele era um grande amigo dos estudantes e trabalhava com dedicação e desvelo. Todos nós, alunos e funcionários,tinhamos  por ele um grande respeito,nutrindo uma  grande admiração quanto  ao perfil intelectual do Dr. Francisco de Meneses Pimentel e do seu Instituto S. Luiz ,o qual, quero registrar aqui, foi fundado em 1º. de junho de 1907. Eram então  diretores, além dele  o Dr. Pimentel, o Dr. Otávio Terceiro Farias, erudito professor da lingua portuguesa. O vice –diretor era o Crisanto  Pimentel, filho do Dr. Pimentel, o qual apoiava bastante as atividades gremistas dos alunos e as atividades físicas da ginástica. Mais  tarde, coomo você sabe, pois sua mãe trablhou com ele la, fez concurso pra la, ele foi  Delegado Regional do Trabalho no Ceará. Quanto a mim eu era  o secretário do colégio e já me esforçava para tuar como um educador moderno, sendo amigo e orientador dos alunos, conforme a própia linha de trabalho que  a direção implementava. Tenho muitas saudades daquele estabelecimento escolar. Veja que o Instituto S. Luiz mantinha os cursos primário,admissão e secundário e ficava no centro da cidade, ali na rua do Imperador no no. 605 e os seus alunos estavam sempre com suas fardas em ordem e bem disciplinados.

 

L.A. - Sem dúvida as suas lembranças são muito enriquecedoras e ficarão registradas  por sua importância.E o que mais  me diz o senhor sobre as atividades literárias do colégio?

 

  B. A-O Instituto tinha essa  revista a Estimulo a que  me referi e que em 1941, contava com muitos colaboradores e com uma significativa tiragem de cerca de mil exemplares. O  inesqucivel Instituto S. Luiz,de fato, estimulava nos alunos o amor aos estudos. Veja só! Nós tínhamos um Grêmio Literário e uma Galeria de  Honra. Os artigos da revista eram os mais variados possiveis e incluiam desde poesias a pequenos artigos  dos alunos das várias séries . Esses  trabalhos dos alunos, não eram propriamente artigos  do ponto de vista formal, mas eram colaborações, produções  que refletiam o interesse dos alunos pelos colégio, pelos colegas  e algumas contavam dos seus progressos opiniões  e lembranças de férias. Pra que se tenha uma idéia da ebulição intelectual do alunato ,em 1941, em plena guerra prevalecia e era discutido no Gremio Pe. Tabosa  as ideias e pontos de vista sobre a sobrevivencia das civilizações, história e memória.Alguns alunos davam as suas impressões sobre as suas visitas as suas cidades nas férias, como eu já citei, enquanto outros narravam pequenos trechos de suas experiências juvenis e de sua chegada ao Instituto.  A revista  Estímulo foi muito importante como instrumento para despertar idealismos  e se mantinha por meio de anúncios.Era uma forma de aprender e de se praticar o exercício de liderança.Mas, como eu dizia antes, a revista necessitava de anúncos para manter-se. Esses anúncios eram os  de conceituados estabelecimentos comerciais  como as alfaiatarias. Havia a  do Manoel Bezerra Lima, A Elegância Cearense  que ficava na Rua São Paulo e era muito conceituada, mas haviam outras também como a Alfaiataria Rodrigues., imagine que ele era um alfaiate diplomado. É de se entender que  o vestuário masculino e mesmo feminino, pois era a época do uso dos tailleurs pelas mulheres, privilegiava as roupas sob medida. Também colocavam anúncios estabelecimentos como  a Casa Veneza de sapatos, os calçados Clark, a Casa Tupy, a Confeitaria Palmeira, a mercearia Santa Fé, além de anúncios de  vários consultórios médicos como o  do Dr. Otávio Lobo, especialista em tuberculose, uma das mazelas de então. Também outro médico  muito conceituado era o Dr. Fernando Leite que tratava de olhos, nariz e garganta. Ora, isso demonstra muito do interesse da sociedade, da interação melhor dizendo com os estudantes e a valorização de iniciativas culturais como a revista.

 

 

L.A.- Muito interessante. Pode falar um pouquinho sobre os aspectos de saúde em Fortaleza? Sempre se diz que educação e saúde devem andar de mãos dadas...

 

B.S.- O que sei sobre os aspectos de saúde na Fortaleza de então, já que você está tão interessada na memória das cidades, no caso, da cidade de Fortaleza, é que no problema da tuberculose, havia o sanatório de Messejana,emtão uma vila distante de Fortaleza cerca de sete quilometros,numa grande área de mais ou menos uns seis hectares. Havia então o Instituto de Previdencia do Estado do Ceará, hoje transformado. E os seus assegurados tinham direito a uma redução de preços, como é lógico..O que sei bem é que as freiras da ordem franciscana eram muito atuantes e tanto administravam como exerciam vários  serviços de enfermagem. Exemplo curioso é de que o Dr. Arnaldo Neves, por exemplo, que  foi diretor lá, morava,  no próprio sanatório. Apesar da minha área de trabalho, da  minha vocação ser a de magistério, fui professor por convicção, não  se pode negar a ligação entre saúde,as boas condições de saúde e uma mais efetiva aprendizagem.

   Há um episódio curioso que desejo relatar aqui, antes que me esqueça, referente  a uma assombração que era o assunto de ordem entre os alunos do Instituto, mais tarde Ginásio São Luiz. Tratava-se dos passos de uma alma penada que subia a escada todas as noites.Alguns achavam que era um sinal do além,segundo  outros tratava-se der uma brincadeira de mau gosto. O certo é que ficou resolvido que se faria uma surpresa a alma ou fosse la o que fosse. Tudo combinado entre todos, ficamos acordados com a luz apagada para  surpreendermos os passos súbito acandendo as luzes e descobrindo quem seria o autor ou autores das passadas. Assim, todos ficaram a postos para surpreender o brincalhão. Luzes apagadas, mas todos despertos  e prontos para pegar o espertinho. Ao soarem as passadas  de sempre, súbito todas as luzes se abriram,mas....la não estava ninguém. .... Soube-se que um padre ou ex- padre, não lembro bem, teria ali praticado suicidio segundo diziam. O certo é que  uma brincadeira programada para assustar os outros é que  não pode ter sido. Imagine que ninguém mais dormiu tranquilo. Também não era para menos.

 

 

   L.A. - Nossa! Imagino o nível do susto! Rsrsrsrs... Bom, o senhor foi ex- aluno e mais tarde, professor do Liceu do Ceará até as modificações sofridas, por volta de 1958, com Juscelino Kubitscheck como nosso presidente, sendo governador do Ceará o Dr. Parsifal Barroso. O que o senhor pensa do papel do então governador Parsifal Barroso quanto às políticas educacionais para o  Ceará nesse período?

 

   B.S.-  Bem, agora, estamos falando do final da década de 1950 quando de qualquer modo havia impulsos positivos e negativos para a educação no estado. Como positivo eu apontaria a construção de algumas escolas voltadas para o nível médio. Uma delas criada em Sobral, outra no Crato e ainda uma terceira na cidade de Quixeramobim. O interior ficou mais ou menos agraciado, pois com certeza havia necessidade de mais escolas desse gênero. Contudo, como sabemos a educação nunca foi uma prioridade em nosso País. No caso, Sobral é uma cidade de tradição cultural e foi muito bem acolhida a sua escolha. Não se pode esquecer que a interiorização da Universidade seria feita ali com a UVA- Universidade Vale do Acaraú, graças ao dinamismo do Monsenhor Francisco Sadoc Araújo. Veja, não estou falando que as cidades escolhidas não merecessem as escolas. Historicamente, o Crato é uma das cidades mais importantes do Ceará e o mesmo é o que se pode dizer de Quixeramobim.  Na mesma época as escolas de administração veterinária, em nível superior também foram instaladas. Já era uma tentativa de adequação ao momento histórico vivido como diz você, não é?

 

  L.A.- Sim. O que o senhor quer dizer que deveria ter havido um melhor planejamento nessas mudanças agraciando outras cidades?    

 

   B.S.- Além disso, sublinho a questão de um tipo de clientelismo, dando-se um jeito, certo  tipo de improviso clientelista eivado de uma ausência plena de planejamento. Não se pode negar que a falta de planejamento administrativo, as coisas improvisadas não dão bons frutos. Digamos que o efeito é quase imediato quanto à ausência de qualidade nas organizações de qualquer natureza. Observe como essas coisas não são práticas novas.

 

  L.A. - E quanto à menina dos seus olhos, o Liceu do Ceará propriamente?

 

  B.S. - Claro que também ali não poderia ser diferente. A mania de trocar nomes já foi indesejada e o velho e respeitável Liceu do Ceará, recebia à época, a denominação oficial de Colégio Estadual do Ceará.  Veja só! Como se uma mudança de nomes pudesse ter alguma eficácia. Sempre gostei de ser verdadeiro comigo mesmo, coisas que aprendi desde os tempos do Colégio São Luiz, uma excelência em matéria de educação no Ceará de então. Aprendi também a fazer com retidão o meu trabalho e a discordar se preciso for. Respeitar opiniões diversas, mas mostrar o incorreto quando se instala num sistema delicado como a educação oficial. Nomeações de professores não são negociáveis por clientelismo e isto me deixou indisposto, em alguns momentos com o que se queria fazer, então da educação...

 

 L.A. - Acredito ter sido este o motivo principal da sua exoneração do Liceu no início dos anos sessenta, não?  Sempre se tem dito que a eleição do governador Parsifal Barroso com o apoio do PTB- Partido Trabalhista Brasileiro teve um alto preço quando o partido cobrou o preço do seu apoio configurado em nomeações e cargos.

 

  B.S.- Assim é. O partido exigiu do governo nomeações para os seus apadrinhados para cargos na administração estadual, não sendo o Liceu uma exceção nesse quadro de investidas do PTB. Desejavam preencher as possíveis vagas existentes no corpo docente com nomes do seu interesse. Naturalmente, o governador tinha que nos participar os seus planos e não o fez. Assim, o tipo de pressão sofrida ficou evidente. Acompanhado do Secretário de Educação, Dr. Joaquim de Figueiredo Correa, e atendendo a uma convocação do governador rumamos para uma reunião no Palácio da Luz no centro da cidade. Um belo palácio onde hoje figuram importantes grêmios literários, mas infelizmente cindido em dois graças a nossa falta de memória histórica.  Ali fomos chamados para tratar de nomeações de professores do Liceu.  Dirigindo-me ao Dr. Parsifal expliquei-lhe que as aulas já estavam iniciadas e que, naquele momento, em pleno ano letivo, seria impossível o atendimento a solicitações dessa natureza sob pena de ter de dispensar e demitir colegas professores. Chamei a atenção para o ponto de vista ético, explicando ser tal fato não condizente com as normas até então seguidas pelo venerando Liceu. Como é de supor-se esse acontecimento deu inicio a um desconforto recíproco, a um mal-estar entre nós.  Infelizmente, o governador Parsifal Barroso não pode ter apreciado a minha atitude e o clima tenso continuou até o momento de minha exoneração ocorrida em março de 1962. Esclareço aqui que foi a pedido. Eu mesmo pedi para sair. Acreditei sempre na necessidade de se trabalhar num clima harmônico e visando o interesse maior do ensino.

 

 

L.A- Tem razão. Uma mudança de nome não reflete de fato uma mudança. É só uma roupagem nova. A propósito prefiro o antigo nome Palácio da Luz do que o novo batismo de Palácio da Abolição. Então, por sua exposição, Professor Boanerges, podemos concluir que o pedido do então governador Parsifal Barroso, por ingerência dos petebistas não vingou?

 

 B.S.- Pelo menos não cedi até a minha saída. Era uma prática a aprovação dos professores pela Congregação, então composta pelos professores catedráticos e pela própria direção. Não significa dizer que as tentativas de ingerência externa não existissem então. Elas, algumas vezes eram aceitas. Refiro-me principalmente a questão de contratação de professores. Havia normas internas e elas deviam ser respeitadas.

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   L.A.- Professor, e quanto ao fato de que durante o ano letivo de 1961 as aulas no Liceu tenham sido reduzidas há apenas cem dias, embora a legislação em vigor determinasse o mínimo de 140 dias letivos não significa um tipo de ingerência externa para o senhor? O senhor considera que o panorama nacional do período poderia justificar esse tipo de ação por parte do governo Parsifal?

 

 

  B.S- Bom... . Vamos por partes, não é? Em primeiro lugar não se pode negar a necessidade de ingerências dessa natureza em casos específicos como justificou o governador. De fato, o Governo Parsifal Barroso solicitou à Inspetoria Seccional do Ensino Secundário, órgão do Ministério da Educação, o exame da situação de ensino do Ceará no que tange à questão da infraestrutura em função dos permanentes e periódicos racionamentos de luz elétrica. À época, a SERVILUZ, deixava a cidade às escuras no todo ou em parte, impondo restrições à segurança individual e coletiva. Foi o inicio de alguns episódios dos chamados rabos de burro que amedrontavam principalmente, as moças da cidade de Fortaleza. Naturalmente, havia também o peso da crise político-militar que se esboçava após a renúncia do ex-governador de São Paulo, o presidente Jânio da Silva Quadros. Ninguém desconhece as dificuldades trazidas por uma greve e os movimentos grevistas ocorridos durante o segundo semestre letivo de 1961, trouxeram muitas dificuldades para os alunos, notadamente para aqueles que estudavam no período noturno. Do ponto de vista prático é evidente que as dificuldades tinham que ser contornadas. Claro fica, pois a incoerência. Como poderiam eles frequentar o colégio com a assiduidade pedida? Decerto, o então inspetor da seccional de ensino, o também professor Lauro de Oliveira Lima, deve ter analisado os motivos do pedido governamental e considerou de bom alvitre atender ao pedido. Não se nega que poderia ter havido um tipo de horário referente a um melhor aproveitamento dos alunos repondo-se as aulas, todavia o abono de 40 dias faltantes para complementar o ano  letivo  solucionou um impasse. Isto não só porque os alunos não quisessem perder o direito às férias escolares, mas cumprir a carga horária exigida em lei não pareceu propicio naquelas circunstâncias. Acresça-se o fato de que mais além do teoricamente falando, a aprendizagem era muito maior graças ao alto nível dos professores do Liceu do Ceará. Mesmo no inicio dos anos sessenta, a instituição sobressaia-se por um alto padrão de qualidade, sem favor um dos melhores do estado, quiçás do Brasil.

 

   L.A. - Naturalmente este alto padrão de professores está ligado ao estímulo proporcionado pelos seus altos salários. A uma política salarial voltada especificamente para eles ou o senhor não pensa assim?

   

 B.S. - Os salários dos professores do Liceu eram então, condizentes com os salários dos desembargadores. Em 1961, os professores do Liceu podiam discutir e até mesmo aprovar a nova tabela de níveis de vencimento para o magistério. Isto acontecia por meio de uma comissão designada para tal fim. A comissão opinava que um professor não poderá dar mais de vinte aulas semanais em um só estabelecimento oficial de ensino. Ora, este foi um dos segredos do bom funcionamento do ensino e do status de ser liceista. Os alunos do Liceu não precisavam frequentar cursinhos e passavam diretamente no vestibular. O respeito que o Liceu desfrutava na comunidade advinha não só da sua política salarial própria, em tudo diversa da dos outros professores da rede pública estadual de ensino. Eles eram preparados, estudiosos e renomados pelo saber. O liceu foi um grande aglutinador de ótimos professores a alunos talentosos e ali estudaram pessoas das mais variadas classes sociais.

 

 L.A.- Pelo que se examina aqui o Liceu foi um centro de saber e de projeção do saber, não é assim?

 

 B.S. -Sem dúvida. Os professores, em linhas gerais, eram bem remunerados e isto era de justiça: um professor catedrático podia ganhar em média cerca de Cr$ 32.000,00 e um professor de Função – Cr$ 26.000,00. A diferença salarial não era tão grande O professor também ganhava por aulas excedentes a razão de Cr$ 320,00 cada, ou seja, como pode ver aqui cerca de 1/100 do valor da cadeira que ministrava.. O número de aulas da cadeira era regulado bem como o da função exercida. Para que você tenha uma ideia, os demais professores da rede estadual de ensino, aspirantes a professores do Liceu, prestavam concurso de provas e títulos exclusivamente para ensinar no Liceu. Inclusive, não era permitido o seu deslocamento para outras escolas ou funções. O Liceu era detentor de alto padrão de qualidade. O Liceu e a política educacional ali aplicada refletiam-se no alto índice de aprovação nos vestibulares aos cursos superiores dos candidatos como já lhe afirmei. Enfim, era uma honra ser liceista.

 

 

L.A.- Mas, os alunos sempre se manifestavam, não? E quanto aos ecos do movimento estudantil liceista?

 

B.S.- Os alunos eram- em sua maioria- atuantes e contestadores. O colégio era tomado por um fervilhar de ideias e do ir e vir de tantos alunos, pois o colégio funcionava nos três turnos. Sempre existiram os que contestavam grandes e pequenas coisas passando pela rapaziada que se opunha ao aumento de passagens e se insurgia contra as empresas que serviam a linha de transportes. O corpo de bombeiros comparecia e a água fria desestimulava um pouco os gritos da estudantada. Coisas de estudantes. No fundo, o que posso afirmar é que a maioria daqueles estudantes estava ávida por aprender e professores que ali trabalhavam eram vocacionados para o ensino.

 

L.A.-  Pode nos falar um pouco sobre o quadro político de então?

 

 
B.S.- Bom, posso tentar uma retrospectiva. Principio por situar o  diretor do Colégio São Luis, Dr. Francisco de Menezes Pimentel, o qual,  foi um dos interventores no Estado por ordem do Governo Federal. Para registro, digo que o  primeiro interventor no Ceará foi Fernandes Távora, mas ele governou por pouco tempo. Continuou com  o que hoje chamam de práticas clientelistas que  é o que era possível fazer pelas comunidades e quanto a corrupção que nunca foi sanada no Brasil, se ontem houve,no que se chamou República Velha , com certeza hoje está longe de está extinta.

     Os interventores  eram da elite intelectual e assim, não existiu uma   política de acomodação  com as elites locais e sim deu-se uma consequencia natural dentro de um quadro poítico. Ora,o  quadro político cearense esteve, nesse período, era influenciado pela  Liga Eleitoral Católica (LEC), que, como o nome diz tinha uma vínculação religiosa  e era apoiada pelos donos de terra ,agora arrolados com o pomposo nome de  latifundiários interioranos.O governo de Vargas apoiou de saída  os fascistas e o governo local seguia a política do governo Vargas Essa pergunta  eu devolvo  para voces complementarem. O certo é  que  se obteve em todo o Brasil um crescimento do Integralismo  que teve também grande penetração no eleitorado cearense. Agora, deixe-me  dizer que  esse integralismo de Plinio Salgado tinha um quê de nacionalismo e entusiasmava pelas bandeiras de amor à Patria ,uma noçâo que hoje se apaga do ensino e dos ensinamentos aos mais jovens.Agora, se a LEC  apoiou segmentos fascistas  aqui em Fortaleza e no resto do estado era normal que participasse da  organização da  Ação Integralista Brasileira (AIB) no Ceará, não? Todos devem ter direito a asumir suas escolhas. Pois se assim não fosse não existiriam lutas de opinião nem registros históricos sem os quais não se pode fazer história séria. Não acho que a  Legião Cearense do Trabalho (LCT),  que era uma organização operária deixasse de ter valor por ser conservadora  e contra o comunismo. Claro que os desejos da Igreja são diversos do comunismo  e quase todas as associações são corporativistas.Assim,essa críticas ao intervencionismo no Ceará  no governo Vargas  sobre   antiliberalismo  existente no Ceará  nese período de e 1931 e 1937 só pode ser vista dentro das concepções de uma época . Não é você que fala sobre a importância do momento histórico vivido? Nessas análises, alguns nomes tendem a ser esquecidos como o de  Severino Sombra, o qual após o   exilio por ter apoiado a Revolução Constitucionalista de São Paulo em 1932, foi perdendo parte do seu poder. Quando ele voltou  do exílio, abandonou a LCT e fundou a Campanha Legionária, mas o sucesso foi pequeno.  A  Igreja quase toda  apoiava  à AIB e  já começavam a surgir  movimentos e entidades operárias de esquerda entre nós Acho que foi em1937, que todas as associações que diziam ter orientação fascista  como a LCT, AIB e a Campanha Legionária foram extintas por Getúlio Vargas e seu Estado Novo porque o Brasil já se ligava aos aliados.Uma exigência interna depois de afundamento de navios nossos.  O fato é que com a deposição de Getúlio em 1945, o educador Parsifal Barroso elegeu-se deputado constituinte pelo Partido Social Democrático (PSD). Infelizmente abandonou o magistério, creio que em 1949 e passou a se dedicar só a política e foi eleito deputado federal pelo mesmo PSD. Depois, ele ingressou no Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), e foi senador naquele período difícil do suicídio de Vargas em 1954. Depois de cumprir o mandato de deputado federal em 1955, assumiu o Senado. Com o advento das tensões da renúncia de Jânio Quadros e a posse de Juscelino na presidência da República, foi ministro do Trabalho, Indústria e Comércio. O trabalho do ministério nessa fase conturbada da república complicou a definição política do Dr. Parsifal. Ele tinha compromissos estabelecidos com a coligação de partidos que levara Juscelino à presidência da República. A força das ideologias o levou a tentar evitar a uma maior participação política da classe operária. Para isso precisou usar o controle do governo tanto o da estrutura como o das   lideranças sindicais.Tomou medidas  para dificultar que os da esquerda assumissem o controle dos sindicato. Em 1958, tivemos uma das nossas grandes secas, numa reunião do presidente Juscelino com os governadores regionais, foi designado membro da comissão  para coordenar o auxílio.  Nesse ano, em outubro, elegeu-se governador do Ceará na legenda das Oposições Coligadas. Não sei se você sabe, mas elas eram  formada pelo PSD, o PTB e o Partido de Representação Popular (PRP).  Então  em 25 de março de 1959,  passa a ser governador do estado. O governador atravessou três presidências: de Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart e em 1964, retirou-se das funções públicas.

L. A.- Realmente, as coligações cobram grandes preços. Curioso é que o Dr. Parsifal Barroso com o currículo de contenção da esquerda tivesse se afastado no movimento de 1964. E ele só volta em 1970 com a ARENA não é?

B.S.- De fato. Olhe outra coisa, não se confie tanto na minha memória. Talvez seja bom verificar todas essas datas que menciono aqui. Falo disso para que fique claro como um professor e admirador do Liceu pôde modificar a situação vigente pelo peso dos pactos políticos vigentes.. O que eu não posso deixar de, hoje, sublinhar aqui é que desde os  seus  inícios, tanto o Instituto São Luis como o Liceu do Ceará consolidaram o seu grande prestígio, eu diria um prestigio reconhecido pela sociedade do Estado. Ambos, cada um na sua dimensão, foram colégios que se  empenharam  na formação do aluno. Assim, os que  lá estudaram constituíam um tipo de  elite intelectual aqui no Ceará. Posso até citar outras instituições de ensino que também tiveram destaque, como o Seminário ali na Prainha e o próprio Ateneu Cearense, mas na esfera do ensino privado e do ensino público esses dois foram os grandes expoentes. Depois, lamentavelmente, a memória dessas instituições de educação no Ceará não teve ainda os seus biógrafos. Tenho que ressaltar também que o São Luis tinha o sistema de internato. Certamente não havia como no Liceu, uma tão grande quantidade de alunos e o quadro de professores e de  funcionários, igualmente não poderia ser tão grande. Ressalto aqui, que naquele momento, a  maioria da população, de forma geral, não tinha maiores interesses pela educação formal.

 

 L.A.- Professor, e quanto à disciplina aplicada no Colégio São Luis e do Liceu do Ceará, elas se equivaliam, não? A minha impressão é a de que a o rigor da disciplina, embora houvesse certa camaradagem entre alunos e professores, conforme me narrava meu pai, Luiz Rodrigues de Aragão, era necessária para a aprendizagem e mesmo para a necessária ordem do recinto.

 

B.S.- A tônica da educação pedia uma disciplina rigorosa, mas não implicava em desrespeito nem em maus tratos. Havia o objetivo de garantir o bom funcionamento das aulas e certamente tentava-se preservar a tradição dos colégios. Aliás, isso vai bem avante inclusive os colégios para moças tipo o de freiras  como Dorotéias, Santa Cecília, Imaculada Conceição. Mesmo educadores como Filgueiras Lima, outro grande nome da educação no Ceará, mantinham um regime disciplinar interno que colaborava para a projeção, o nome do colégio e a de seus alunos. Estávamos falando sobre os ecos das movimentações liceístas e muitas vezes elas se ligavam ao problema do aumento de vagas e a oferta de horários dos cursos. Havia público para que a instituição operasse nos três turnos.

   No Estado Novo, o Liceu do Ceará já era um estabelecimento maior, com a ampliação do número de vagas, e oferecimento de turmas suplementares nos três  turnos  e o curso ginasial noturno.Isso respondia a uma tentativa de valorização do ensino dentro  de uma estratégia maior  para tirar o Brasil  do atraso, ausente que era de modernização Em suas dimensões e enquanto funcionou, o São Luis também mantinha uma demanda significativa, pois no meio de um processo de urbanização parte da sociedade já compreendia a necessidade e importância da educação. No caso do Liceu do Ceará a procura por vagas aumentou historicamente a partir da década de 1930. O crescimento populacional de nossa cidade contava com uma classe média emergente que via na educação, uma forma de conquista de melhores condições de vida. A experiência no Instituto e depois Ginásio São Luis, me ensinou o quanto a educação conferia prestigio e facilitava a ascensão, social, política e também econômica. Todos os colégios da época mantinham o desafio de manter a mesma qualidade de ensino e firmar suas  tradições.

 

 L.A.- Nesse sentido, respondiam-se as mudanças propostas nas reformas educacionais de dois dos ministros da Educação e de Saúde, Francisco Campos em 1931 e a de Gustavo Capanema em plena Segunda Grande Guerra em 1942. Aliás, Professor Boanerges, na chamada Era Vargas, tanto o ensino secundário como o ensino superior, estava sob o controle direto do Governo Federal, não é assim?

 

B.S. -Sem dúvida, o fato é que além dessa variação  estrutural, não se ligava como se pode pensar só  na condução da disciplina escolar ou só no papel dos professores . Os esforços para ampliar vagas e ofertar melhores serviços, nem sempre foram vitoriosos. No caso do Liceu, absorver toda a procura e ao mesmo tempo tendo que adotar os exames de admissão para os que pretendiam uma vaga ao curso ginasial não foi tarefa fácil. De qualquer forma, foi um processo seletivo útil para que entrassem, em tese, os mais preparados. Um tipo de seleção baseada no mérito e que mantinha certo nível de saber no ensino  secundário. Quero dizer aqui que uma boa parte dos alunos era atraída pela fama da instituição, grande parte dos alunos do Colégio São Luis
que procuravam cursar o ensino secundárioera não só daqui de Fortaleza, mas  alguns deles,vinham também  de outros Estados.O que não posso deixar de lhe dizer é que todos estes  meus anos de mestre, são anos são por mim lembrados com muito carinho e como um tempo de muito rigor na disciplina, pensava-se que uma certe austeridade combinava melhor com a receita do saber. Você conhece o meu livro sobre o Liceu do Ceará e continuo achando até hoje que nada igualou a importância do Liceu que foi no seu início uma instituição itinerante por quase meio século. Alegavam-se parcas condições financeiras e assim ele funcionou em, pelo menos cinco locais diferentes.

 

LA. - De fato, creio que a primeira sede própria foi por volta de 1849. A história do Liceu e do próprio Instituto, depois Ginásio São Luis está inserida, portanto, no movimento de valorização de um movimento maior, que era a valorização do ensino como estratégia de modernização estreitando o período de atraso. Concorda?

 

B.S.- Esclareço que essas ideias existiam também no plano federal. Havia a ideia, já por volta de 1887, e até os anos de 1910 e 1920, da expansão da rede escolar e do cumprimento de uma tarefa de diminuição do analfabetismo do povo.  Nos anos seguintes os de 1920 /1930, passou-se a dar uma ênfase maior aos aspectos qualitativos nas questões educacionais. Tanto era assim que em 1907, por pioneirismo do Dr. Pimentel em 1º de Junho já havia uma tiragem de 1000 exemplares da revista O Estimulo, órgão do Grêmio Literário Monsenhor Tabosa. A essa época eu era já secretário do Ginásio São Luiz fundado, como já disse em 1º de Junho de 1907. O Ginásio fundou e manteve os cursos Primário, Admissão e Secundário e mantinha um corpo docente idôneo e selecionado, funcionando na Av. do Imperador,605. Até hoje relembro o número do telefone do ginásio... 1511. Também O Estimulo recebia patrocínios como o do advogado Autran Nunes e do Banco Popular de Fortaleza S. A. O Banco fazia propaganda também pelo rádio e tinha um slogan: o banco da confiança. Isto vem demonstrar os passos gigantes dados em Fortaleza beneficiando como um todo a educação no Ceará. Também acho que esse interesse em patrocinar os órgãos literários do colégio como os grêmios indicam uma interação e uma participação, mesmo que pequena de parte da sociedade.

 

L.A.- Acredito que se sublinhava o valor da disciplina e do respeito aos mestres como medida educativa e valorização da aprendizagem. Como ela era mantida em momentos difíceis como vimos aqui?

 

B.S.- Os pais dos alunos se preocupavam com os internatos  e dentro de uma perspectiva preventiva a vigilância era vital. Raramente se falava em advertência e  suspensão. A autoridade dos mestres, a cordialidade com os alunos, o controle da direção direcionava-se aos mecanismos de como premiar e como distinguir.
 Dentro do Liceu a vigilância do diretor do Liceu meu  querido amigo  e parente, Otávio Terceiro de Farias, e o inspetor-chefe de alunos, João Pedro da Silveira era importante para manter tudo no lugar. O Luis Aragão, seu pai, foi inspetor de alunos no Colégio São Luis e depois deu também algumas aulas de matemática no velho Liceu. Acertadamente, o tio dele e fundador do São Luis, O Dr. Pimentel como era chamado, criou o Batalhão Escolar, em 1937. Foi mesmo uma recomendação que partiu dele, do Dr. Pimentel, então Interventor Federal no Ceará. O Dr. Menezes Pimentel, considerava inovador o batalhão aos quais muitos desejavam integrar. Eles vinham no início das aulas, acompanhando a entrada de alunos, às vezes no horário de aula, nos intervalos e também nos recreios. Isto foi muito usado no Liceu. Era comum que a fiscalização existisse extramuros do colégio, pois o aluno poderia ser identificado, pela farda ou pela identidade estudantil. As penalidades eram leves, e poderiam ser amenizadas quando o aluno tinha bons antecedentes. Havia cordialidade naquele tempo. O seu pai, por exemplo, era chamado carinhosamente Aragão. Ele era polido, brincalhão e não criava casos.

 

L.A.- Certamente, as ideias políticas de alguma forma, sempre ali fermentavam, não?


B.S.-  Sim. Havia mesmo como uma recomendação aos movimentos estudantis, com o golpe de 1937, e esta era a de que evitassem atividades de cunho político. As reuniões de alunos fossem ou não do Liceu, não era proibida, mas o controle, por parte da Direção, era certo e visava preservar o respeito à autoridade. Em vez de promover discussões políticas, o que na época poderia gerar instabilidade, estimulava-se uma formação literária de lideres e de amor ao civismo. De certa forma, estes movimentos colaboravam com o trabalho disciplinar da direção, participando da vigilância ou preparando os alunos para os eventos cívicos. Mais uma vez saliento que, se falando de penalidades aplicadas aos alunos, lançava-se mão daquelas mais leves, sempre que possível atenuada pelos bons precedentes do aluno. A cordialidade entre alunos e professores aproximava-os, tornando-se mais fácil formatar a ideia comum entre os  educadores  que era a de preparar e projetar líderes em vários campos de atuação. Essa ideia avança no tempo e vamos encontrá-la nos anos cinquenta no Colégio 7 de Setembro na mesma Rua do Imperador. Ali nós também vamos ter alunos para aprender e professores vocacionados para o ensino.

 

L.A. - O senhor gostaria de acrescentar mais alguma coisa sobre a história do nosso velho Liceu?

 

 

B. S- Quero registrar uma vez mais que todos os ex-liceistas falam dele com carinho, respeito e emoção. Neles se prepararam para vestibulares, concursos e outras atividades profissionaos. No período de 1959 a 1962, o Dr. José Galba Menezes Gomes me disse  que  as atividades de muitos liceístas mesclavam atividades de classe e as político –ideológicas. Ele, o Dr. Galba, trabalhou para a fundação da Cooperativa Escolar dos Alunos do Liceu e nisso foi ajudado pelo Tito Alencar, Dimas Barreto e pelo jornalista Antonio Frota Neto.

 

L.A.- O senhor acha que o Centro Liceal de Educação e Cultura, o CLEC que se destacava tanto nas atividades desportistas, também se envolveu nos temas político-ideológicos próprios daquela época?

 

B. S. -  A direção do Liceu era conservadora e tida como tal para o momento político que se vivia bem próximo da eclosão da ditadura militar. O liceu tinha uma estrutura rígida administrativamente falando.Creio que se envolveram e segundo me falou o Dr. Galba, mais com a esquerda.Mas, se justifica a estrutura, pois uma escola centenária não se manteria sem uma estrutura séria. Veja que foi a 13 de outubro de 1845 que o Dr. Thomás Pompeu expediu convites para a instalação e abertura do Liceu no dia 19 daquele mês e ano. Não começou com instalações próprias, pois circulou por diversos prédios indo da Santa Casa ao antigo Quartel da Força Policial. Foi só no governo do Coronel José Freire Bizerril Fonetenele que passou a ter prédio próprio,na praça dos Voluntários em 1894. Tudo isso que estou aqui falando está no meu livro sobre o Liceu  e anote que foi só em novembro de 1935 que por obra do interventor, coronel Felipe Moreira Lima o Liceu teve edifício próprio na praça Fernandes Vieira. E não foi só isso, pois o prédio na hoje praça Gustavo Barroso, só foi concluído por outro interventor, o educador Francisco de Menezes Pimentel. A história do Liceu é a história de muitas correntes políicas e visões de educação. Permanece o interesse em contar a sua história como o fez o historiador Mozart Soriano Aderaldo, ex-liceísta, numa série de reportagens no jornal O Povo.São muitos anos marcados pela inteligência e destaque de tatos alunos.

 

L.A.-  Sinto que é muito importante para o senhor fazer este registro sobre o Liceu e a educação no Ceará.Também não poderia ser de outra forma com tantos nomes ilustres que por ali passaram como Farias Brito, Clovis Beviláqua, Austregésilo de Atayde e governadores como Plácido Castelo, não é assim?

 

B.S. -Folhas e folhas de papel seriam poucas para nomear os nomes que passaram pelo velho casarão do Jacarecanga. Professores como Martins Filho, Thomás Pompeu de Sousa Brasil são intelectuais de renome. Lembrar o Liceu é refletir sobre o quadro atual da educação no Brasil. Dentro de uma perspectiva histórica, os governos federais investem pouco ou investem mal em educação. A educação é considerada custeio e não investimento. Não se trata de um problema novo, mas é de suma gravidade o nosso atraso edcacional.Quando pensamos nisso creia, sinto-me profundamente contrangido. Sou um educador e a situação da educação no Ceará é apenas uma pálida sombra do que foi no passado.

 

L. A.- O senhor gostaria de registrar  algo mais, alguma  coisa a mais a nossa entrevista?

 

B. S.- Gostaria de fazer um apelo à reflexão. Comparo a educação com um enorme edifício, com uma diferença: a sua grandeza maior não será atingida, mas a grandeza dos seus resultados estará sempre a serviço do povo.Quero agradecer a sua visita e interesse por mim e pelo meu trabalho. Desejo-lhe éxito. Sempre foi voltada aos estudos e isto é o fermento que liga todos os que amam a educação e o saber no nosso país. Obrigado. Fico feliz que divulgue as minhas ideias e o meu testemunho sobre o velho Liceu e a minha ótica do que foi a educação naquela época.

 

 

ADENDO :

 

O Professor  Boanerges Sabóia morreu aos 95 anos, em 14 de Novembro de 2011.

 

Professor Boanerges Sabóia com sua esposa Edith.