Carapinima: A História de Uma Rua, Um Bairro nos Anos Dourados

Meu entrevistado é Paulo Maria de Aragão, advogado e professor universitário, Mestre Pela Universidade São Marcos–SP, especialista em Direito Público pela Universidade de Fortaleza–UNIFOR e Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Ceará–UFC. Professor de Direito do Trabalho e de Deontologia Jurídica na UNIFOR e de outras faculdades, ministrou, a convite, aulas de Segurança do Trabalho no curso de Medicina da Universidade Federal do Ceará – UFC. Palestrante e conferencista em sua área profissional, dentro e fora do Ceará é advogado militante. Suas atividades forenses iniciaram-se na Companhia Docas do Ceará, da qual foi advogado e Diretor. Atuou no Tribunal de Ética e Disciplina da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção do Estado do Ceará, como Conselheiro no período de 1997 a 2003. No Exército Brasileiro foi Oficial R-2 da 1ª Turma de Artilharia do CPOR de Fortaleza. Cumulou as funções de oficial da arma, no antigo 10º Grupo de Obuses, com as de relações-públicas da 10ª Região Militar. Foi eleito presidente da Associação de Oficiais da Reserva–Assores, no triênio 1970-1972. Membro da Associação Cearense de Imprensa-ACI, escreveu mais de uma centena de artigos para os jornais O Povo, Diário do Nordeste e Gazeta de Notícias, inclusive a movimentada coluna: O povo pergunta e o advogado Paulo Maria de Aragão responde. Pelo jornal Gazeta de Notícias venceu um concurso de reportagem durante as comemorações da Semana da Asa , titulada “O vôo É uma Enseada de Felicidade apesar de a gravidade não perdoar”. É autor de diversos impressos e do hilariante O Clarim os cães e outras Histórias editado pela Imprensa Universitária da UFC (1968), do resumo histórico Mallet, o Patrono da Artilharia, (1980), retrato histórico de uma importante figura do Exército Brasileiro e de diversos artigos técnicos e científicos em revistas e sites especializados, além do recente Rua Carapinima Ecos e Ícones editado pela Imprensa Universitária da Universidade Federal do Ceará.

 

P: Quero agradecer a sua boa vontade em aquiescer a esta entrevista. Sei de perto como os advogados são ocupados... Gosto muito da expressão” Anos Dourados”... O que você chama exatamente de “Anos Dourados”?

R: Antes de tudo foram anos de inocência passamos pela euforia da redemocratização com a queda de Getúlio Vargas, chegando ao entusiástico Juscelino Kubistchek modelando o processo de modernidade brasileira. Contudo, não esqueço os benefícios feitos por Vargas ao trabalhador brasileiro, a sua luta nacionalista o Petróleo é nosso e sua resistência aos interesses econômicos representados, então, pelos Estados Unidos da América. Havia à época uma extremada valorizacão da cultura e do saber. A educação, o ser educado era uma meta perseguida e incutida nas crianças pelos pais e educadores. A escola era vista como uma continuação do lar, os professores eram respeitados pelos alunos, as agremiações escolares como o Clube Pan-Americano, do excelente Colégio Sete de Setembro e o seu Grêmio Estudantil exercitavam os alunos na liderança, oratória e valorização do Brasil dentro das Américas. As belas moças de então não usavam silicone, não tinham preocupações com lipoaspiração nem utilizavam excessiva maquilagem. Os moços de então usavam um linguajar mais adequado ao vernáculo e a gíria, quase sempre era banida para os bares e esquinas. O mundo parecia mais doce, sublinhando-se respeito, admiração e solidariedade para com os humildes. Foram anos que hoje conduzem a uma reflexão sobre os espaços ocupados pela idéia do doce lar, das igrejas e do seu papel religioso tudo sacramentado em todos que viveram esses anos pelo tempo sagrado da infância e da adolescência. Luzes e bailes, vestidos rodados, cinturas finas, jardins e praças sem violência o exercício do lúdico e os encontros de poesia porque o belo então eram a prosa e o verso bem escritos. O fundo musical que ainda ecoa em minha mente, tem solo de Ray Connif e das famosas orquestras locais e regionais...um passeio musical num mundo de lindas melodias ouvindo Johnny Mathis, Tony Bennett, Kenny Rogers e José Feliciano, era a época em que se podia dançar de rosto colado, segredando–se românticas juras de amor. Os que viveram naquela época podem relembrar sucessos românticos marcantes em suas vidas. A linguagem, o que se queria dizer, podia ser desde dito desde a eloqüência do olhar até as letras de músicas escolhidas pelo maestro, às vezes incomodado de tantos pedidos. As letras eram aproveitadas para dar recados e fazer declarações de amor. Para dar um exemplo, posso falar da música Crazy, grande sucesso da carreira de Willie Nelson, e a versão Kenny Rogers em When a men loves a woman. Gosto de Rogers porque ele viveu o romantismo dos dourados anos 50 em temas como Unchained Melody que voltou ao sucesso após o lançamento do Filme Ghost - do Outro Lado da Vida. Foi ainda o tempo em que namorados andavam de mãos dadas em que se podia ver Elvis Presley no filme Ama-me com ternura ao som do clássico Love me Tender. Enfim, o romance, os acordes musicais, as melodias divinas, os filmes românticos e os grandes faroestes, suspenses, todos made in Hollywood tornaram a época singular...

P: Realmente, o seu conhecimento me fez fazer uma viagem de regresso no tempo...levou-me a excursionar por Fortaleza , imaginando como seriam essas tertúlias e cinemas das tardes de sábado e domingo que tanto deve ter alegrado os jovens da cidade...

R: Sem dúvida alguma. Um desses dias vi um filme com Christopher Reeves, aquele ator famoso que faleceu em conseqüência de uma queda e fiquei a pensar em como seria bom poder fazer um corte no tempo e viajar ao passado. Aliás, vou-me embora pro passado é o título de um e-mail que circula na Internet e que traduz bem algumas das doçuras dos anos dourados e até de uma época um pouco mais além. Creio, que o seu propósito na elaboração desta entrevista é fazer um pouco de História Oral comigo para utilizar como referência histórica. Acho muito válido e eu próprio me vali desse recurso quando elaborei a minha monografia de mestrado. Fiquei muito emocionado pois à medida que colhia as entrevistas, observando o impacto emocional de cada um, obtive a certeza de que essa forma de contar a História, de fazer e recriar a história é das mais válidas. Agradável e válida, alias, pois essa aproximação me proporcionou o contato e o reencontro com alguns dos meus mais caros amigos. Nos debruçarmos sobre o mesmo tema, tentando buscar e recriar àquele passado comum a cada um de nós, exercitar a memória para fazer renascer o pequeno mundo da nossa infância, meninice e juventude. Tantas lembranças vívidas, ao mesmo tempo tão próximas e tão recentes... Bom, voltando ao assunto do e-mail do qual lhe falava e que me tocou muito é que o li com muita atenção pois se treta de uma revisão, uma súmula perfeita de vários aspectos que não podem ser descurados por um estudioso dos costumes de uma época , de uma cidade e das múltiplas falas ali sintetizadas.. Trata-se de um e-mail evocativo... vou testar minha memória para ver o que assimilei... que trechos mais assimilei...Vejamos: No passado tem Jerônimo, aquele herói do sertão, tem passeio de lambreta, de Vespa e de lotação. Tem meninas requebrando e todas elas cheirando a Coty, Royal Briar, saem de saia plissada, vestido tubinho, tecidos de organdi de laise e de tafetá..Na Tv tinha Bat Masterson, “aquele que nasceu no velho Oeste e entre bravos se criou, seu nome em lenda se tornou”,o Túnel do Tempo e o Zorro e os shows de Ângela Maria, “a sapoti” que vinha para cantar na Ceará Rádio Clube , emissora de Fortaleza e na recém-criada TV Ceará , da Hebe Camargo que fez tantos shows em Fortaleza e que, à época era morena. Dizia-se que era namorada do radialista, João Ramos, uma das mais belas vozes de locutor no Brasil.Acrescento que essa parte da , a da Ângela Maria e a da Hebe Camargo não estão no e-mail, são associações mentais minhas....O fato é que o e-mail referido parece um roteiro do passado. Ele retrata os tempos da radiola de madeira dos assovios de Besame-Mucho da caligrafia para embelezar a letra e do uso da Seleta e da Crestomatia nos exames de admissão ao Ginásio.Era o tempo da Revista “O Cruzeiro “com suas variadas reportagens nacionais e internacionais , como a condenação dos Rosenberg nos Estados Unidos, acusados de crime de traição , dos artigos de Davi Nasser e o tempo dos fabulosos concursos de miss. Tempos de miss com maiô de Helanca em concursos patrocinados pelo “Leite de Rosas”.... e em que as mulheres não eram magricelas...elas até tinham polegadas a mais, como foi o caso da eterna Marta Rocha diverso da linda cearense Emília Correia Lima que, igualmente Miss Brasil, fez um sucesso bem mais discreto, justo porque, como dizia a imprensa, “ela não tinha polegadas a mais”.. Tempos em que o uso dos medicamentos era mais restrito e os índices de mortalidade eram maiores. Usava-se Capilotônico para a queda de cabelo e as mulheres usavam Antisardina, Creme de Alface pomada Minancora e leite de colônia. As crianças bebiam Emulsão de Scott e biotônico Fontoura, medicamentos que têm atravessado o tempo...Tempos de propaganda em caixas de sabonetes e rótulos de medicamentos como o xarope que estampava a foto de Olavo Bilac dizendo que ele “curou-se com Bromil”. Abrindo aqui um parêntese, indago se você, tão preocupada com o tema linguagem já leu o soneto “Ouvir Estrelas” de Bilac? Diria que ele é perfeito e pense: quem ouve estrelas, decerto conversa com elas.. e naquela poeta perfeito a magia dessa fala implícita no poema é deveras imperdível!

P: Conheço o poema de Bilac e concordo: é de fato muito lindo! Ele se refere à Via Láctea como um Pálio aberto, cintila e abre a janela pálida de espanto...

R: Perfeito, perfeito! A poesia é uma linguagem rica e completa. Você sabe que nos anos dourados havia clubes de poesia e declamação aqui em Fortaleza? Lembro o nome de uma das mais famosas declamadoras: Conceição Weyne. Os versos eram usados, então como uma forma de comunicação, de declaração e até de despedida. As cartas então escritas quase sempre continham citações de escritores e de poetas. Com certeza,o saber era mais restrito e seletivo, não tivemos um alto grau de alfabetização popular, mas bastava que se soubesse ler, mesmo no sertão, que os livrinhos dos cancioneiros e cantadores vendidos mesmo nas feiras do interior e nos mercados populares também em Fortaleza fossem objeto de desejo e memorização. Nesses “romanços” como a linguagem popular os designava eram comuns às biografias de homens como o celebrado Padre Cícero, Lampião e o seu bando de cangaceiros e histórias como a “Princesa das Pedras Finas” e outras histórias celebrando as obras do maior indianista brasileiro o nosso José de Alencar.Também o uso de brilhantinas do tipo “Glostora”, sabonetes Lifeboy, Lever e Eucalol chegava ao interior do Ceará. Vale observar que a tradição dessa literatura de Cordel é muito importante na preservação da cultura do povo cearense. Quero ressaltar que essas reminiscências, todas essas lembranças aqui relatadas, integram a realidade dos chamados “Anos Dourados”. Anos que vivi na Rua Carapinima que a propósito bem mereceria o homenageado, Feliciano José da Silva Carapinima, que lhe deu o nome, um Cordel que celebrasse a sua bravura na épica Confederação do Equador em 1824 que tanto desejou a implantação da República no Brasil. O belo Passeio Público vivendo hoje um momento de recuperação foi tinto do seu sangue assim como de outros mártires como Azevedo Bolão , Padre Mororó, Pessoa Anta e Feliciano José Ibiapina. A propósito Carapinima era Alferez, oficial da tropa de linha, nasceu em Minas Gerais e era Secretário do Governo de Francisco Alberto Rubim, Governador do Ceará Colonial.

P: Vamos então falar da Rua Carapinima onde você viveu a infância e a adolescência e que está retratada no seu livro Carapinima Ecos e Ícones. Conforme diz o acadêmico Dimas Macedo a sua linguagem é fragmentária “como as objetivas cinematográficas” ao mesmo tempo em que “faz-se estrutural e inventiva na sua unidade semântica e morfológica”. Ao ler o seu livro eu também, como ele, tive a impressão de que um livro com componentes como os seus mantém-se fiel à tradição e é contemporâneo de todas as idades.

R: A Rua Carapinima de hoje já não é a mesma. Principia pelo fato de que longe estão de fazer parte do mundo em que hoje vivo, as aventuras ali ocorridas. Quanta felicidade em mim havia por ter visto um ninho no jardim da Professora Dido Facó, maravilha da arquitetura do rouxinol, que só foi descoberto pelo piá de seus filhotes sem plumas. A Carapinima de então tinha casas com jardins de belas flores, volteando entre elas abelhas e borboletas sob o sol dos nossos quentes verões. Era uma rua tal como hoje integrada no bairro do Benfica onde os leilões, as novenas de maio, as quermesses instaladas na rua adjacente, a Rua Padre Francisco Pinto, no trecho entre a Igreja dos Remédios e o Dispensário dos Pobres até hoje existentes, eram as grandes atrações.O Dispensário era uma instituição Filantrópica mantida pela Congregação das Irmãs de Caridade de São Vicente de Paulo, voltada para à assistência aos pobres e aos idosos, além de promover a educação para as pessoas carentes. Ali ainda vivem pessoas que conheci, dobradas pelos anos e que talvez lembrem com enlevo o tempo que passou mas não ofuscou as imagens. A minha memória refaz, com nitidez,as figuras refesteladas nas cadeiras de balanço e espreguiçadeiras para animadas conversas em que de tudo se falava: futebol, festas, discos voadores, notícias da política e se externava o receio pelos rumos da economia brasileira numa frase única:“dessa vez o Brasil cai no buraco!” Originalmente, o bairro do Benfica abrigava os segmentos mais expressivos da sociedade fortalezense que morava em bangalôs e palacetes. O bairro era muito visitado e nele estava o hipódromo do Prado onde se dava a prática do hipismo isto desde 1920 sendo que hoje este hipódromo e campo de futebol é a sede da Escola Industrial do Ceará. No Benfica estavam os clubes Maguari, de onde saiu a Miss Ceará e depois Miss Brasil Emilia Correia Lima em 1955; o Gentilândia, Nacional, Ferroviário e Fortaleza, esses últimos, agremiações futebolísticas, decerto, a escolha do local de construção do nosso Estádio Presidente Vargas deveu-se à proximidade dos clubes mencionados. Muitos diretores e torcedores do Ceará, outro clube de futebol, freqüentavam o Benfica, embora o Ceará ficasse em Porangabuçu, bairro vizinho. Mas, a importância do Benfica refletia-se também no elevado número de escolas públicas e particulares. Àquela época as escolas públicas eram mais bem conceituadas e um exemplo disso era o Grupo Escolar Rodolpho Theóphilo, grande autor de Libertação do Ceará; Queda da Oligarquia Acioly onde é contada a saga da sua luta pioneira contra a cólera e o tifo no estado. O colégio religioso mais conceituado era o Santa Cecília, de freiras vindas de Garanhuns, em Pernambuco e Damas da Instrução Cristã. Outro colégio religioso, o de Nossa Senhora das Graças, foi precedido pelo Colégio Americano onde estudei quando criança. A Rua Carapinima, modernamente elevada à categoria de Avenida, nascia na confluência da Avenida do Imperador com a Avenida Tristão Gonçalves perfazendo cerca de três quilômetros. Aproximadamente duzentos metros do seu curso margeavam a linha férrea, terminando na Rua Padre Cícero, no mencionado bairro de Porangabuçu a poucos metros do campo de futebol do Ceará. A Carapinima, então uma bela rua, transformou-se, hoje, numa via de tráfego intenso com seu antigo cenário quase todo destruído. Na verdade, ultrapassando o seu espaço físico, a Rua Carapinima concentrava em sua órbita as ruas e bairros adjacentes como Gentilândia, Granja e o mesmo Porangabuçu. Morei numa rua que era de fato um símbolo do Benfica.

P: Estou cada vez mais interessada em saber como uma rua, que não era ainda uma avenida importante, pode polarizar tanto as áreas circunvizinhas...Você se referiu ao fato de que o bairro era habitado primordialmente por uma classe social mais privilegiada ou existiriam mais razões?

R: Talvez você interprete as minhas respostas, pelas lentes de um puro saudosismo. Realmente, tudo permanece bem vivo em minhas lembranças... chegamos hoje a tal ponto em que já é difícil recordar como era antigamente. Saudades vivemos dos anos de 1960 e lá bem no fundo indagamos se a velha cultura humanística terá de fato ido pelos ares... A Rua Carapinima tinha mesmo era um que de interior e encarnou uma época de amor e fortes relacionamentos humanos. Uma das razões é que a Igreja dos Remédios assentada solenemente em 08.12.1878, nasceu de um sonho do português João Antonio de Amaral, devoto de Nossa Senhora. Ele faleceu sem realizar seu sonho e foi a sua esposa Maria Correia do Amaral quem o concretizou cumprindo a sua promessa. A conclusão da obra foi feita com a ajuda de José Gentil Alves de Carvalho com a primeira missa rezada em 1910. Sei tudo isto porque fui coroinha da igreja e a sua imagem de Nossa Senhora dos Remédios, é uma das mais belas do Brasil. Esta igreja tinha na época um efeito aglutinador. As missas e as novenas bem como os leilões eram acontecimentos sociais no bairro, pois bem, os fundos da edificação davam justamente para a Rua Carapinima funcionando, na prática, como uma passagem alternativa para os que não desejavam vir pela Rua Francisco Pinto. Muitas pessoas passavam pela Rua Carapinima tornando-a uma espécie de corredor para dirigir-se aos bairros e ruas circunvizinhas. A rua era também o caminho para o Colégio Capistrano de Abreu e o Colégio Sete de Setembro na Rua do Imperador. Era praxe as famílias do bairro estarem integradas aos movimentos sociais de evangelização da paróquia. Numa época em que não existiam supermercados muitos iam ao estabelecimento de Sr. Moisés, pessoa bondosa e muito querida no bairro. Ele instituiu no bairro a venda por caderneta onde as pessoas pagavam por mês, na base da confiança. Tudo isso passava pela Carapinima. Ainda pela passagem mencionada da Igreja dos Remédios, andavam moças e rapazes que iam se encontrar no patamar da igreja, bem ao lado da “Capelinha de Santa Liduína”, em frente à “Gruta de Lourdes”... o que posso lhe assegurar que muitos namoros e casamentos começaram ali. Também bem próxima era a famosa Farmácia Arthur de Carvalho que era a única do bairro e muito boa. Até hoje se usa as Ghottas Arthur de Carvalho, criadas pelo seu proprietário. Era ali que os meninos recebiam os primeiros socorros por conta de brigas e pedradas. Todos tomávamos, apesar do medo, injeções. Ah! E havia ainda a velha Maria Fumaça que atraia a criançada toda, arrastando-se como uma cobra nos velhos trilhos, soltando fumaça preta e como que cantando uma música que repetíamos aos gritos: “café com pão, bolacha não...piúúúú” Hoje a velha Maria Fumaça foi substituída pela máquina a diesel e o seu atraente apito deu lugar a uma estridente e incômoda buzina, deixando em nós a saudade de sua passagem pela nossa rua. Outro motivo de atração da rua era a proximidade do chateau da Santa, palavra vinda da influência francesa bem nítida naquela época, como eram chamados os cabarés de luxo. No chateau da Santa, moravam e trabalhavam lindíssimas mulheres, vindas de São Paulo, Rio de Janeiro, Maranhão e de outros Estados, dava uma fugida no final da noite para ver o vai e vem dos carros importados no local. Eu era então um rapazote, tinha mais ou menos uns dez anos, estou falando dos meados dos anos 50. Estou falando de tempos em que as galinhas passavam até de um quintal para o outro...tempos singelos onde os moradores se integravam. Estava também a Carapinima próxima ao REU, Residência dos Estudantes Universitários, onde tanques enormes eram destinados à criação de peixes. Numa época em que ninguém falava da preservação do meio ambiente os peixes eram intocáveis, as árvores eram protegidas e nas escolas todas as crianças plantavam uma no dia da árvore. Mas, para ser sincero, do ponto de vista da preservação dos pássaros, muitos passarinhos eram capturados como rolinhas, galos de campina e até pássaros grandes, todos vendidos na feira do bairro da Gentilândia. Havia ainda o que chamo ágora, uma esquina da Rua Carapinima, a ágora Carapiniana fazendo esquina com a Rua Francisco Pinto. Ali tudo se discutiam todos os assuntos e se planejavam alguns namoros. Este ponto tinha um efeito de reunir os jovens da rua. Era um território neutro para os debates das lideranças radicais ou não. Era também um ponto onde se discutia a vida privada, onde se procurava descobrir segredos da vida alheia, enfim, um ponto estratégico de interação entre jovens e adultos que vinham de outras ruas como a Dom Jerônimo, Joaquim Feijó, Valderi Uchoa, João Gentil e Francisco Pinto, formando um elo entre os rapazes dos bairros próximos. Esses encontros, marcados por tantas histórias, funcionava em frente a Bodega do Seu Chiquinho. Era um ponto bem sortido sobre uma alta calçada implicando na subida de alguns degraus que serviam de assento principalmente para aqueles que haviam bebido alguma coisa e estavam tontos ou ligeiramente ébrios. Gente de todos os níveis ali se reunia José Brasil, um dos fundadores do Clube Nacional, agremiação dos Correios e Telégrafos, estava sempre por ali fungando e tomando rapé. E foi um dos descobridores de craques do nosso futebol, como Pacoti, um grande artilheiro do Vasco da Gama...

P: Creio que só a existência desta ágora Carapiniana já justifica a atração exercida pela rua Carapinima. Posso perfeitamente imaginar esse grupo de jovens todos reunidos de forma ampla e irrestrita. E nos dias chuvosos como se reuniam?

R: Só havia dispersão dos encontros em dias de muita chuva...Os assuntos principais além da política, futebol e mexericos, eram música e cinema os temas preferidos. As chanchadas da Atlântida eram imitadas e alguns pretendiam copiar Oscarito e Grande Otelo. Quanto aos filmes de Hollywood, os épicos religiosos de Cecil B. de Mille com os “Dez Mandamentos” e “Cleópatra”. Outro diretor consagrado era o mestre do suspense, Alfred Hitchcock “O Sexto Sentido” e “Os Pássaros”. Também havia os interessados em música clássica e gostavam de se destacar pela sua cultura. Adotavam um linguajar excêntrico e enchiam-se de vaidades para falar de Mozart, Strauus, Beethoven, List e Tchaikovski. Alguns cantavam imitando Mario Lanza. Ali aprendi que Lanza foi o maior tenor popular depois do italiano Caruso, consagrado como o maior cantor de ópera de todos os tempos. Havia ainda gente fascinada por carros. Discutia-se a qualidade de marcas, mecânica e o efeito da maresia sobre os veículos. Em Fortaleza já existia a FORMASA revendedora da linha FORD. A sensação do final da década de 60 foi o Ford Gálaxie 500, belo e imponente. Este exemplar, o primeiro modelo de Gálaxie a chegar a Fortaleza, foi recuperado pela família do empresário Gerardo Matos, proprietário da dita revendedora, e é uma relíquia para exposições. O Gálaxie começou a ser fabricado no Brasil na década de 60, tinha bancos inteiros, ar condicionado e direção hidráulica. Naquela esquina cada um se sentia importante, um tipo de dono do mundo... As vezes os transeuntes, mesmo os mais respeitáveis, não escapavam as sátiras. Contudo os freqüentadores da esquina tinham o mérito de exaltar as pessoas do bairro. Era o caso do Sr. Moisés Laerte Pinto que eu já mencionei e que por conta de sua atividade religiosa kardesista, excluía a idéia de ambição comercial e o Professor Antonio Viana Filho, professor, poeta e poliglota e um dos homens mais cultos que eu já conheci. Este homem não recebeu o reconhecimento do mundo intelectual e da mídia, pois mereceria assento na Academia Cearense de Letras. Outro assunto também cogitado era falar de Artes. Havia unanimidade com relação a obra do cearense Antonio Bandeira, celebridade da pintura internacional que quando vinha de Paris visitava sempre a sua irmã Julia que morava em frente a minha casa. Dizia-se que ele era o único pintor brasileiro a viver do produto de seu trabalho. Além de se comentar da sua finura e paciência no trato. Em 1960 o seu sobrinho Dandão, nosso amigo Francisco Ivan, mais tarde, uma vítima do latrocínio em nossa Capital, hospedou-se com um amigo na casa do tio na Rua República do Peru em Copacabana. Depois de muitos goles, chegaram ao apartamento do pintor onde encontraram muitas telas armadas destinadas à inauguração de um órgão do governo em Brasília. Bisnagas à mão, desfiguraram toda a obra do pintor. Mesmo assim, Bandeira manteve alojado o sobrinho em atenção à irmã, mas dispensou seu amigo. Podemos desse episódio concluir sobre o caráter generoso do grande Bandeira. Infelizmente ainda não mereceu do povo brasileiro o reconhecimento pelo seu inegável talento artístico, e sequer seu nome foi indicado na relação de Cearense do Século XX pelos nossos próprios conterrâneos...

P: Professor Paulo Maria de Aragão, sei bem o quanto lhes são gratas as lembranças da sua querida Carapinima, contudo particularmente parece e eu percebi isso ao ler seu último livro, que as emoções lhe invadem ao relembrar os tempos da locomotiva Maria Fumaça. Sei também que o seu escrito na contra-capa do livro, mereceu da crítica os maiores louvores...Será que gostaria de registrar esse trecho aqui para nós?

R: Olhe, não me reconheço um tímido... Até me sinto muito honrado com a sua colocação. O que posso fazer é ler esse trecho para que o grave e o reproduza depois. Combinado? Vamos lá, então: “ Ao longe despontava um minúsculo ponto de luz, que se ampliava lentamente. Antes de atingir a parte curvilínea da via férrea, o possante farol alumiava a rua. Deslizando imponente e mítica, sobre duas paralelas de aço, a Maria Fumaça dividia os bairros do Benfica e Porangabuçu.O barulho cadenciado e sinfônico opunha-se ao silêncio. Um terremoto prazeroso. O apito ecoava. A cortina fumígena deixava o gostoso cheiro da lenha queimada. Foram-se seus tempos gloriosos. Ficaram as saudades. A velha “Maria” não mais viaja pachorrenta pelos trilhos, mas viaja pelos caminhos da alma sobre os dormentes do coração, das lembranças, talvez mais reais que a própria realidade.

P: Do meu ponto de vista, os críticos tem razão, é uma prosa que reflete poesia, aliás, guardar recordações é um hábito antigo como a própria existência. Creio que conseguiu retratar a arte do riso e da comicidade como um traço característico dos jovens da Carapinima. Você quer acrescentar mais alguma coisa sobre a identidade da Carapinima?

R: Veja, falar da Rua Carapinima é mesmo sem querer, registrar o passado e compará-lo com o presente. Quando olho a Avenida de hoje em que a pacata Rua Carapinima se transformou, vejo o desaparecimento da maioria das casas de então, tudo imposto em nome da modernidade nas obras do inacabado metrô de Fortaleza. Não tive a intenção de produzir um documentário, contudo reconheço que ele deveria existir com a finalidade de preservação da história urbana da cidade. Gosto de escrever explorando idéias e sentimentos. Nas minhas lembranças tudo é tão claro como se fossem visões, mas sou consciente que só posso chegar até o redescobrimento de valores e belezas da vida, aparentemente perdidos no tempo. Espero que alguém possa escrever sobre a Rua Carapinima até mesmo um romance nos moldes de “Os Meninos da Rua Paulo” do escritor húngaro Francisco Molnár. Este livro que eu li rapazinho, tomado por empréstimo da Biblioteca Circulante do Colégio Sete de Setembro na Avenida do Imperador, onde também estudei, é a saga da meninada dos arrabaldes de Budapeste, em 1889, portanto, no final do século XIX. Esses meninos lutaram firmemente por um terreno, mas nas palavras do autor “ganharam a guerra, mas perderam a terra, porque ali devia subir um arranha-céu”. Gosto do registro do cotidiano, parte integrante da história humana. Gosto de preservar as tradições e os valores do passado, independente de que os fatos tenham contornos diversos e um maior ou menor grau de importância. Retratar o cotidiano é dizer como se comportam os habitantes das cidades. É tratar das múltiplas formas de comunicação humana, dos rumos e linguagens, neste caso, do meu tempo. Identificar a rua é também revê-la, revisitá-la... A identificação da área é somente uma parte da dinâmica de retorno à realidade. Esta dinâmica reforça, na forma e no conteúdo a fusão entre o tempo passado e o tempo presente. Ver uma parte da rua com a morte decretada pelo ritmo da expansão urbana, é verificar a força dos interesses por um sistema de transporte moderno contudo, não desapareceu o universo em transformação, aparentemente soterrados, pois persevera nos seus habitantes, a importância do humanismo bebido nos nossos lares e escolas e presente na formação de cada um de nós. Não desapareceu o denominador comum, o reviver em torno da Igreja dos Remédios e da Universidade que tanto modificaria o bairro do Benfica. Igreja e Universidade nortearam as aspirações dos bons pais em relação ao futuro dos seus filhos. Neste momento, a rua aprece um monte de areia e pó, mas examinada pelos olhos nostálgicos da memória dos que ali moraram ficam evidentes os fundamentos que a tornaram um traço de união de muitas famílias, ligadas tanto geográfica como afetivamente. Cheguei à conclusão que não interessam os rumos truncados desfeitos e desviados da vida dos moradores da Carapinima. Nenhum desses fatos pode anular a importância do acontecido. No próprio ato de fazer e refazer continuamente a ação humana complementando o curso de uma História maior. Extinguiram-se as serenatas e as canções de amor passaram a ser objeto de contratos. Onde foi parar o romantismo? Também se cantava na igreja em homenagem aos noivos e em louvação ao Senhor... Essas atividades não passam, hoje, de mais um meio de vida, de sobrevivência.

P: Você falou das pilhérias dirigidas a alguns personagens da rua. Isto não tinha a intenção da ofensa?

R: Não; de fato não. Acho que você está se referindo a “ágora”, não? As pilhérias dirigidas a alguns personagens que por ali passavam, não tinham a intenção de ofender. Alguns apelidos dados eram até bem pertinentes e às vezes incorporados pelo próprio personagem faziam com que tudo parecesse uma piada. O Ivan, impecável nas suas vestimentas, recebeu o apelido de Ivan Cabeção e nunca se aborreceu com isso. De fato tinha a cabeça grande...Claro que em alguns casos as pessoas não aceitavam o apelido,era o caso do Sr. José Rocha, chamado de Jacaré. Ao vê-lo a turma gritava: “joga o 15 na víspora ou no bingo porque hoje vai dar Jacaré”, e o tempo fechava...De qualquer forma, aquele espaço físico testemunhou relações sociais hoje dispersas, mas mantidas então mesmo com a influência de padrões culturais diferentes. A esquina era o próprio show, substituindo o computador e a influência da tevê. Aliás, falando-se em show, alguns tinham uma bela voz e cantavam no melhor estilo romântico de Pat Boone, canções como April Love, Bernardine, Jambalaya. Interpretava ainda canções de Elvis Presley (It’s Now or Never, Love me Tender), Nat King Cole (Unforgettable, Monalisa), Neil Sedaka (Oh Carol, Bad Girl) e dos Beatles (Twist and Shout, Help). Naquela esquina eram marcados muitos encontros entre os amigos para juntos irem às diversas festas de casamentos, aniversários e batizados. Claro que só iam os convidados. Marcadas pela animação essas festas aconteciam no contexto familiar, em alguns casos com festa dançante na sala da frente, e uma boa música na radiola. Mais fáceis de freqüentar, eram as festas de bairros como as quermesses e as festas juninas. No caso das quermesses, figura obrigatória era o irradiador, o que hoje chamamos locutor. O interessante aí eram os recados que ele dava antes de colocar as mensagens sonoras oferecidas por moças e rapazes. Dependendo da situação amorosa escolhia-se a música para esse tipo de comunicação. Nelson Gonçalves era quase sempre o cantor escolhido e as músicas preferidas eram: Boneca de Trapo, Fica Comigo Esta Noite e A Volta do Boêmio. Também Altemar Dutra fazia muito sucesso com Que Queres Tu de Mim, Contigo Aprendi e Brigas. Quando a moça ou o rapaz não queria se identificar, usavam-se as iniciais O.X., ou seja Ontoim Xofer ou então se usava chamar a atenção de alguém das iniciais 13-12-4-correspondente à quantidade de letras do nome da pessoa para quem a música era destinada. O alto-falante gritava e aumentava a pretensão de conquistas e, ao mesmo tempo, proporcionava o retorno de amores perdidos e o reatamento dos amores interrompidos.

P: Mas que divertido ! Com certeza essas radiadoras a que se refere eram alto-falantes de alta potência e como é que eles eram instalados?

R: Ora, em geral eram instalados tanto nos postes como nos galhos de árvores e eram usados não só nas quermesses, mas nos comícios eleitorais. Tentou-se mesmo colocar alto-falante nas festas do sábado de Aleluia quando do animado julgamento do Judas. Dois estudantes de Direito, Expedito e Afonso Nunes de Sena este mais tarde juiz exercitavam-se na oratória. Ao julgamento do Judas, seguiam-se festas no bairro, principalmente na casa de Dona Julia Bandeira e em todas as casa da redondeza havia várias iguarias como também acontecia nas festas que homenageavam Santo Antonio, São João e São Pedro. Aliás a Semana Santa era celebrada com rigor. Na Semana Santa as imagens eram cobertas tal como hoje com tecido roxo. A Páscoa era sacrossanta. Os pais , em sua maioria mandavam os filhos confessar-se na igreja e o jejum e abstinência não podiam ser violados. As rádios tocavam músicas sacras e a visitação ao Horto da Igreja dos Remédios, reproduzia as cenas da Paixão de Cristo. Fazia-se a Via Sacra recordando-se a Paixão de Cristo. Nesta época de pesar não se jogavam peladas na rua e nem havia reuniões na “ágora”. Farra mesmo era o dia de Sábado de Aleluia, quando se queimava o Judas não sem antes se fazer à leitura do seu testamento. A festa do Afonso se realizava num terreno baldio ao lado de sua casa e na leitura do testamento já se sabia que alguns iriam ser atingidos pela rima popular e iriam figurar no rol dos herdeiros. Mesmo com a vigilância dos pais, sempre se podia provar às escondidas um pouco de vinho ou então um pouco de sangria que era o vinho com água e açúcar.

P: Bom, você estava falando das festas juninas. Imagino que faziam fogueiras nas ruas e como você já começou a relatar havia muitas comidas típicas. Imagino também a animação e os ruídos provocados pela queima de fogos. Calculo que nesta época os balões e fogos eram permitidos, ou não?

R: Já havia advertências sobre o perigo do uso dos balões, contudo eles não eram rigorosamente proibidos até porque não eram tão modernos como os de hoje. Por força dos ventos, os balões vinham da Gentilândia e passavam pelos céus da Carapinima. Com o céu estrelado era um espetáculo maravilhoso, ainda porque cortar papel de seda colorido e pedaços de bambu para armar os balões era um acontecimento na vida da meninada, tal qual fazer as bandeirolas para enfeitar os terreiros onde se dançava a quadrilha. Por conta dos ensaios anteriores das quadrilhas, muitas vezes os flertes já se fazia namoro. Em volta da fogueira a festa era armada. Eram montadas com pedaços de madeiras nas coxias da calçada, e nelas eram assados milhos e batatas doces. Também se levava muito a sério, a escolha de padrinhos e madrinhas de fogueira e pelo tempo afora os afilhados tomavam a benção aos padrinhos. De fato era uma beleza ver a rua toda iluminada com fogueiras e com as roupas típicas e alegres com estampas coloridas. Nessas festas evitava-se o uso de bebidas alcoólicas. Serviam-se sucos, refrigerantes e aluá de abacaxi resultado da imersão das cascas num pote de barro com água pura por cerca de três dias. Depois de coado podia ser adoçado com açúcar ou rapadura. Em torno da fogueira, cadeiras na calçada a conversa fluía sem fim...Comia-se canjica de milho verde, totalmente diferente da servida no Sul do Brasil, o pé-de-moleque tipo de bolo de massa de mandioca com ovos, manteiga, castanha e açúcar preto, ficando com uma cor escura. Daí o seu nome. Às vezes acontecia um pequeno acidente com os fogos de artifícios mas eram usados foguetes, traques, estrelinhas e os rabos-de-saia, pois não tinham direção certa e soltavam fagulhas. As músicas que animavam festas e conversas eram por toda a cidade de Fortaleza os baiões, xotes e xaxados inspirados em temas do sertão e quase sempre cantados por Luiz Gonzaga, o Rei do Baião.

P: Creio que você ao falar da Rua Carapinima se dá conta da complexidade do espaço, marcado pela transitoriedade e das transformações acontecidas na cidade de Fortaleza...

R: Claro que sim. Com essa história da minha rua e do bairro onde ela se inseria como núcleo polarizador associado às peculiaridades da Fortaleza de então procuro contribuir para a reconstituição dos costumes, linguagens e fatos da época. Tempo em que o retrato da namorada guardado na carteira de notas tinha escrito o tradicional “não me esqueça”. Estou ciente de que muitas coisas não se pode restaurar, mas o meu propósito ao falar da Rua Carapinima é falar dos tempos de uma cidade mais segura e de um tempo compartido e dividido entre a casa e a rua. O interessante é que nessa rua, nesse bairro conviviam pessoas de vários níveis intelectuais. Ali viveram a escritora Marta Brasil, autora de livros didáticos, a Professora de Canto Dona Guilhermina, o Dr. Antonio Ferreira Antero, um dos engenheiros fiscais da obra do Cristo Redentor no Rio de Janeiro, o famoso farmacêutico José Arthur de Carvalho e Dona Almerinda fundadora do Colégio Santa Cecília, mais tarde entregue as Damas da Instrução Cristã. Isto sem falar do meu pai Luiz Aragão contador, professor e autodidata em botânica, além do famoso filósofo Antonio Viana o famoso fotógrafo Fernando Leitão e o erudito ecologista Guimarães Duque, um dos maiores estudiosos das xerófilas em todo o mundo. Tinha também o Dr. Carlos Ribeiro, proprietário de grande parte dos terrenos do bairro, avô do atual senador e ex-governador do Ceará, Tasso Jereissati e que era simples, caridoso e generoso. Era um dos tipos mais querido do bairro, chegando a distribuir frutas de seu sítio com os moradores da rua, havia também a Dona Estela, professora que educou muita gente no bairro, irmã de um jornalista, o Sr. Murilo que escrevia para o jornal “O Nordeste”. Não posso esquecer o também jornalista, deputado e presidente do Conselho de Finanças do Município, Antonio de Pádua Campos que morava num bairro que se confundia com o Benfica que era a Gentilândia. Bastava atravessar a Avenida Visconde do Cauípe que já estava na Gentilândia. O estudioso de piscicultura Rui Simões de Meneses e sua mulher Mariana, uma grande bióloga. O poeta e professor Antonio Damásio da Cunha e o professor Moreira Campos da Academia Cearense de Letras e Conferencista na Universidade de Colônia, na Alemanha, sua obra daria um livro. O professor de desenho e trabalhos manuais Jaime Alberto da Silva, pai da folclorista Elzenir Colares. É uma lista inumerável falar de tantas pessoas que tiveram sucesso profissional e moraram naquela rua e naquele bairro. Ali viveram também, grandes jogadores de futebol como Airton Monte e Jombrega, este vítima dos fanáticos do futebol, ao ser responsabilizado pela derrota da Seleção Cearense frente à do Pará. Isto sem falar na beleza das moças do bairro culminando com a Miss Brasil, Emília Correia Lima. Os concursos de beleza que movimentavam a cidade provocando uma maior venda de jornais, como Rainha do Algodão, Glamour Girl, Rainhas de Colégios, Rainha dos Jornalistas, os mais belos olhos da cidade, eram sempre ganhos por alguma moça do Benfica. Isto sem falar do Renato Aragão que já estudava na Faculdade de Direito, trabalhava na TV Ceará e namorava a Marta que era nossa vizinha. Também o Tom Cavalcante morou na Carapinima, bem em frente à casa da Marta na modesta Vila das Irmãs. Era filho de Sr. Hugo e sua família veio de Sobral. O outro comediante Chico Anísio que junto com os outros dois alcançou notoriedade no país, morou na Avenida João Pessoa também no Benfica. Sua casa dava fundos para a Rua Carapinima, onde funcionava a garagem da empresa de ônibus do seu pai. Não posso esquecer o Dilcimar Oliveira, grande comunicador que atuou no jornalismo local chegando depois a escrever no Le Monde e o inesquecível tenor Abel que atuou no filme “Ligações Perigosas”. Além do músico Zezinho que alegra ainda hoje as noites de Fortaleza. Como vê, uso a memória para registrar e celebrar todas essas pessoas que com sua linguagem erudita, professoral, escrita e oral contribuíram para a formação de jovens, o deleite de muitos como no caso dos três humoristas mencionados. Discursando, escrevendo substanciosos artigos, poemas, contos e traduções dignificaram suas profissões.

P: Você se referiu aos famosos e intelectuais da rua. Dentre eles citou o jogador Jombrega. Qual era o verdadeiro nome dele? É verdade que ele além de ter passado por essa situação injusta, ainda perdeu um filho de maneira trágica? Sei que essa tragédia foi descrita em versos conforme vi no seu livro...

R: Vamos por partes, Francisco José Róseo de Oliveira foi conhecido nacionalmente. Casado com uma senhora belíssima, a dona Cleide. De fato, perdeu o seu filho caçula o Luis Antonio Róseo que recebeu uma homenagem em poema do meu irmão, o cordelista Luis Antonio Aragão. Os versos eu sei de cor... A morte dele comoveu todo o bairro, pois se tratava de uma criança que fazia o curso primário . Vamos aos versos: Chorar, chorar... Nas minhas lágrimas Rolam os sentimentos Por alguém que jaz amor. Sem túmulo, sem um abrigo, Entregue aos mistérios Do Oceano que levou consigo, Seu corpo e minhas esperanças De encontrar meu grande amigo. Ó, mar, resolve meu dilema, Porque não vou odiar-te, Pois sei que inspiraste As frases deste poema. Mas livra de teus laços, Esta vítima inocente, E lança nos meigos braços De quem por ele chora e sente.

P: Realmente era uma rua exemplar e a solidariedade um traço de união entre todos. A partir de que momento você considera que sofreu profunda modificação os usos e costumes não só da rua, mas do bairro do Benfica e como você já explicou o bairro contigo da Gentilândia?

R: Isto aconteceu com a criação da Universidade Federal do Ceará que adquiriu grande parte dos bangalôs e sobrado do bairro. Muita gente mudou-se para outros locais e o bairro consagrou a fama de “intelectual”. Ficaram famosas as festas do CEU – Clube dos Estudantes Universitários. É claro que a Universidade estimulou a corrida dos jovens ao vestibular e o Conservatório de Música recebeu muitos alunos. É fora de dúvida que a Universidade continua tendo um papel importante em todo o Estado do Ceará. Mas não se pode negar que ela foi uma das responsáveis pela descaracterização do Benfica e da Gentilândia por causa da sua própria expansão e em face da construção de novos edifícios. Até a maravilhosa fonte que ficava em frente da reitoria da Universidade, antigo solar da família Gentil, aonde chegou a se hospedar Getúlio Vargas, foi retirada dali e hoje está no centro da cidade em frente à sede do Banco do Nordeste. Vale acrescentar que o bairro do Benfica, cresceu em importância com o advento da Universidade. As mulheres passaram a ter a oportunidade de ingressar em outras faculdades e não só na de Filosofia. Algumas vindas do interior e hospedavam-se em casas de parentes, ou ainda nos pensionatos para moças,que passaram a ser comuns naquela época e hoje quase não existem mais. Notadamente, o bairro do Benfica era todo verde parecia um parque ecológico enquanto que hoje, apesar da preservação do meio ambiente, ele já não é tão verde assim. A necessidade de modernização retirou os trilhos dos bondes, ruas foram alargadas e encolheu-se o espaço da casa. Hoje ela não vai até a rua. Algumas secretarias foram acrescentadas à prefeitura e ao governo do estado. A SUMOV por exemplo, pertinente a Superintendência de Urbanização, entre outros órgãos, transformaram ruas em avenidas modificando a paisagem urbana. A violência se reflete em várias facetas. É o caso da Igreja dos Remédios hoje protegida por uma infinidade de grades e há ausência de cadeiras nas calçadas para as longas conversas de outrora. As televisões e os computadores, estabelecem um novo tipo de comunicação. Os debates sobre política e economia feitos na ágora foram substituídos por conversa fúteis sobre novelas e programas sem nenhum conteúdo cultural e são duvidosas produções artísticas. O escoamento de gêneros in natura, faz-se hoje muito mais por caminhão. Não se ouve mais “lá vem o trem”. O trem que antes transportava gente do povo, fardos de algodão, mamona, feijão, farinha, oiticica e bovinos, eqüinos e suínos, vindos de outras cidades cearenses como Cedro, Iguatú, Senador Pompeu, em vagões chamados gaiolas. Observe-se que a modernização do Porto do Mucuripe em Fortaleza e a inauguração do Porto do Pecém deram novo ânimo às exportações do estado. Virou história o início do Porto do Mucuripe quando à distância se avistava o grande guindaste Titã e da Maria Fumaça trazendo as pedras para o porto. Nós meninos da Rua Carapinima, meninos dos bairros do Benfica e circunvizinhos fomos levados para conhecer o “Passatempo”, precária estação de passageiros, local onde ocorreram os primeiros embarques e desembarques. Na Cia. Docas do Ceará empenhei-me muito pelo tombamento do Titã na ponta do quebra-mar e também do Passatempo, mas não tive êxito. Ainda bem que ainda resta a Ponte Metálica onde essa operação de embarque e desembarque já havia existido entre 1920 e 1952. Claro está que numa cidade banhada pelo mar não se pode esquecer dos passeios na orla. Assim, a criançada toda e os jovens do bairro, eram vez em quando premiados.

P: Bom professor Paulo Aragão acho que além do Direito o senhor termina se revelar um excelente narrador e contador de histórias. Percebi pelas suas narrativas, o tanto que a cidade foi se modificando com o advento do progresso. Fiquei ciente também do quanto essas brincadeiras na casa e na rua favoreceram o processo de socialização. Foi muito bom ouvi-lo falar sobre a Rua Carapinima que uniu bairros diferentes, como no caso do bairro de Granja e Porangabuçu quase não se percebendo a linha de separação, exceto uma placa de ônibus...

R: Sobre isso, quero dizer que vocês foram muito felizes na escolha desse tema tão amplo e tão atraente como Cidades e Linguagens. As pessoas estão mais individualistas e mais afastadas umas das outras, mas penso que na essência elas continuam as mesmas. O adágio americano “tempo é dinheiro” parece que se incorporou à realidade nossa de todo o dia e não nos damos conta do quanto nos faz falta à solidariedade, o bate papo, a interação com os demais. Tive imenso prazer em lhe conceder esta entrevista. Falar sobre ruas e bairros de nossa cidade é colaborar para que não se perca a história e a memória dela.Fortaleza é hoje uma grande cidade e com os problemas que o progresso impõe. São muitas as formas de se expressar e de falar e como as pessoas também utilizam a linguagem mímica e gestual bem que fica difícil para você obter e registrar fals e sotaques, não?

P: De certa forma tem toda razão... Obrigada.

---------------------------------------------------------------------

Regina Stela Ferreira Moreira, formada em Jornalismo pela Faculdade Celso Lisboa – RJ, correspondente da Publicação Mensal Bob’s Brazil – Washington DC. Especialista em Formação Política, formada pela  Escola Universitária de  Formação Política para Cidadania – UFC.