Agradecimento da Profª. Drª. Martine Kunz à UFC Quando da Entrega da Medalha Cultural ao Jornalista Cláudio Pereira

Magnífico reitor professor René Teixeira Barreira, em nome de quem cumprimento as demais autoridades e convidados.

 

Fico lisonjeada com a medalha do Mérito Cultural outorgada pela Universidade Federal do Ceará ao meu Cherrizinho alias Cláudio Pereira. Fico envaidecida tanto porque integrante da UFC, a mais importante entidade cultural, cientifica e técnica de nossa terra, como por ter testemunhado a bela trajetória do meu marido na história recente da vida cultural cearense.

Quando cheguei ao Ceará em novembro de 1979, tinha na mochila o endereço do Cláudio Pereira, e foi ali, na beira-mar, numa casinha azul de bolinhas brancas, que fiquei hospedada. Era uma casa sim, mas cá com os meus botões ficava na dúvida se não era repartição pública, ofício de turismo, centro cultural, residência ou botequim. Tinha ali um enorme trânsito de pessoas, de segunda a segunda, de sol a sol. Um flanelógrafo com cartazes, avisos, panfletos, tomava uma parede inteira, nas outras paredes tinha quadros de Sergio Pinheiro, Luiz Hermano, Siegbert Franklin, Zenon Barreto, Isabel Lustosa, e pôsteres de Che Guevara e Aly Khan, um enigmático e folclórico astrólogo, amigo da casa. Tinha também uma pintura mural do Marcos Francisco, representação alegórica da alegria e da tristeza, pois emoções é o que tinha de sobra na casinha azul de bolinhas brancas.

Antes mesmo de saber ao certo se meu anfitrião era jornalista, bancário ou moleque genial, dono de bar ou animador cultural, já era apaixonada por ele.

Muitas coisas não entendia, mas o certo é que, ao meu modo, eu gostava. Ali tinha coisa. Poetas, compositores, artistas plásticos, jornalistas, homens políticos, vizinhos e viajantes, boêmios e intelectuais, ricos e lisos, alegres e tristes, cada um encontrava seu lugar. A casinha era por certo um lugar de circulação de idéias, de criatividade e solidariedade, onde foram planejados muitas exposições, lançamentos de livros, shows musicais... E o calendário de atividades não era só cultural, em novembro de 1979 começavam a voltar os primeiros beneficiados pela Lei da Anistia, me lembro de João de Paula e Rute, Moema Santiago, entre outros, passando por lá na volta do exílio. Em 79 ainda, quando a dinastia dos Somoza foi derrubada pelo partido sandinista, um boneco, enorme e feio, chamado Somoza, foi queimado no quintal da casa. Enquanto isso, era feito a arrecadação de roupas, alimentos e remédios para enviá-los aos guerrilheiros da Nicarágua. Em 1981, quando Andréas Papandreou formou o primeiro governo socialista da história da Grécia e quando o socialista François Mitterrand foi eleito presidente da República Francesa, houve comemorações ruidosas e festivas. Em tempo de ditadura militar, de obscurantismo e repressão, a casinha azul de bolinhas brancas encontrava o caminho difícil do riso, autorizava o sonho, encorajava a contestação, premiava a criação. Idéias e emoções andavam juntas, cultura e política também, na ânsia pela redemocratização. Cláudio Pereira encontrava sempre um modo de apoiar, incentivar, viabilizar projetos, quer conseguindo cobertura através da imprensa, ou patrocínios de empresas e entidades. Tudo informal, espontâneo, entusiasta, generoso, de graça, no intuito de valorizar o fazer artístico cearense.

Alguns anos depois, em 1986, Cláudio Pereira se tornava administrador cultural, integrando a administração popular da então prefeita Maria Luiza Fontenele. Quando assumiu o cargo de presidente da Fundação Cultural, cargo que ocuparia durante quatro diferentes administrações municipais, Cláudio saia com sua velha kombi por bairros e favelas de toda a periferia levando seu trabalho aos lugares mais remotos, sempre a querer contemplar a cidade como um todo e fazendo com que pequenos projetos viessem a ser concretizados, para que as pessoas perdessem sua inibição e ousassem mostrar seus talentos. É na nossa velha kombi que ele transportava a banda de música, o grupo folclórico e o madrigal para os diversos eventos da municipalidade.

Ao longo de sua atuação, com recursos muito escassos mas entusiasmo de sobra, Cláudio Pereira realizou verdadeiras façanhas, sendo muitas vezes considerado pelo Ministério da Cultura como exemplo para outras fundações culturais.

Alguns exemplos apenas para ilustrar seu espírito empreendedor e ousado:

- na época da Maria Luiza, iniciou campanha de prevenção da Aids, levando pequenas peças de teatro de rua para esclarecer a população acerca da doença. Foram conquistados tão bons resultados que tempos depois o exemplo de Fortaleza foi institucionalizado pelo Ministério da Saúde, servindo, inclusive, de exemplo para outros países. Paralelamente fazia-se distribuição de preservativos, as populares camisinhas, em plena praça do Ferreira, algo chocante então para os setores mais atrasados da sociedade, da imprensa, da igreja que se posicionaram contra o gesto.

- nessa mesma época, em 1986, a prefeitura enfrentava seríssimos problemas de toda ordem e o Salão de Abril daquele ano não iria acontecer, pois os cofres da Fundação estavam zerados e a prefeitura enfrentava a epidemia de dengue que apareceu violenta, ceifando vidas. Mas Cláudio batalhou até conseguir patrocínio com a Petrobrás e com a cervejaria Antártica para concretizar o Salão, um dos mais antigos do país em seu gênero, e devolveu o dinheiro que a prefeitura tinha liberado para assim ajudar nas campanhas de combate a dengue. Este fato, elogiável a meu ver, chegou a merecer até críticas negativas na imprensa.

- no decorrer de sua atuação, Cláudio conquistou vários títulos e honrarias de âmbito nacional, para a cidade de Fortaleza.

- Cláudio Pereira, grande carnavalesco, já desfilou em carro alegórico da Escola de Samba Girassol, isso bem antes de assumir qualquer cargo oficial, com coroa e fantasia de ouro, a cadeira de rodas trepada em cima de um caminhão. Quando Presidente da Fundação Cultural, ele coordenou doze carnavais nessa cidade, ampliando e revitalizando a maior festa popular de Fortaleza, levando o Maracatu ao exterior, inclusive à Europa. Todos os anos, Cláudio convidava autoridades e pessoas ligadas ao carnaval para ver o desfile do palanque oficial. Depois que deixou a prefeitura nunca chegou a ser convidado, nenhuma vez, para o palanque oficial do carnaval.

- É preciso evocar aqui certas omissões por parte do poder municipal, omissões, descaso, memória seletiva, seja lá o que for, se não nos surpreendeu, nos entristeceu bastante.

- quando o prédio onde funcionara a policia federal na época da ditadura foi adquirido para sediar a Fundação Cultural, Cláudio não permitiu que demolissem os cárceres existentes, memória penosa mas necessária de prisões políticas e barbaridades ali cometidas. Ele mesmo tinha sido preso e torturado naquele local que transformou em Espaço Cívico Wanda Sidou, numa justa homenagem a corajosa advogada dos perseguidos da ditadura. Consta que esse espaço foi desativado por administrações que o sucederam, e ele, que fora preso político no prédio da Fundação e Presidente da mesma em quatro diferentes administrações, nem chegou a ser convidado para ato alusivo aos sessenta anos do Frei Tito, comemoração que foi realizada no próprio prédio da Fundação.

- A sala Barrica, um memorial em homenagem a um dos maiores nomes das artes plásticas do Ceará, também por ele criada, foi desativada.

- O festival de teatro de Fortaleza, criado por projeto de sua autoria, inclusive sancionado pelo prefeito e publicado no diário oficial foi, simplesmente, esquecido e, posteriormente, um dos presidentes da fundação que sucedeu ao Cláudio, lançou um novo festival de teatro de Fortaleza como sendo criação dele, numa verdadeira ofensa a memória do movimento teatral de Fortaleza.

- E cadê a Sala Moreira Campos que saiu do noticiário?

- E o projeto Lazer Pedagógico que levava os estudantes mais carentes da periferia para excursões culturais pelo Centro Histórico em ônibus pintado, festivamente, por artistas plásticos da cidade. O ônibus também foi desativado e o projeto de Lazer Pedagógico deu um tempo para reaparecer depois com o nome de Divertimento Educativo. Pouca memória ou pouca imaginação mas muita vontade de não reconhecer o legado do antecessor.

Não vamos alongar uma lista que poderia passar de cômica a enfadonha.

Para terminar, quero dizer que o trabalho da memória é a principal arma de defesa dos povos, ela não é somente fonte de consolo e de reflexão, ela é também forma de resistência e de participação cidadã. Por isso mesmo, os nossos administradores públicos têm que dar o exemplo. Por essa razão quero agradecer ao magnífico reitor René Barreira e ao Conselho Universitário pela iniciativa de conceder esta homenagem ao meu marido, Cláudio Pereira, num gesto de reconhecimento ao seu trabalho desenvolvido ao longo dos anos. Esse gesto evidencia que a Universidade Federal do Ceará permanece antenada com tudo o que se passa na vida cultural de Fortaleza.

Obrigada a todos os presentes que, mesmo com a confusão feita acerca do horário da solenidade, estão aqui a nos prestigiar.