Quinta, 04 Abril 2013 01:09

História, Globalização e Sociedade

 
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A todo momento, enquanto historiadores sentimos a necessidade, dada pela própria complexidade da realidade na qual estamos integrados, de dilatarmos os nosso horizontes teóricos, de ampliarmos as fontes de investigação, para atingirmos uma maior proximidade com a essência das motivações e mecanismo que justificam a dinâmica social e as formas de percepção e expressão dos seus agentes.

 

As sociedades atuais e os diferentes sistemas mundiais passam por acelerados processos de transformações sociais, econômicas e políticas, que acabam por colocar em xeque-mate teorias e conceitos, e sobretudo que, antes eficazes, resolviam as grandes crises sociais, e hoje não chegam a ser sequer paliativos.

A crescente miserabilidade de uma parte significativa da população mundial, as desigualdades sociais que se acentuam em todos os países, bem como as grandes devastações ambientais levam-nos enquanto historiadores e cidadãos, a pensar que, verdadeiramente, o que está em crise é o modelo de civilização adotado.

Vivemos uma crise global que assume formas distintas em cada um dos países, em função da sua historia, e da posição que ocupam no sistema mundial.

À medida que crescem as divisões entre os pobres, também a globalização provoca movimentos mais evidentes dos serem humanos que cruzam as linhas divisórias, entre regiões e classificações. Parece que vivemos num universo com uma fonte de problemas não resolvidos. Só a Historia pode responder a este espanto e reduzir, ou, pelo menos, limitar e precisar o absurdo do mundo, na medida em que responde aos problemas levantados pelo presente.

Quanto mais estudamos os problemas do século em que vivemos, mais percebemos que eles não podem ser compreendidos de forma isolada. São problemas sistemáticos interconcectados e interdependentes.

Dos países ricos, capitalistas, fontes fluem turistas para o Terceiro Mundo como jamais antes visto. A recíproca existe, em alguns aspectos, levando grupos à Europa dos museus e da cultura que se endividam com as facilidades dos cartões de crédito. Doce embalo de uma ilusão.

Na verdade quanto mais se estuda a situação, mais se percebe que, em última, esses problemas são apenas diferentes facetas de uma crise única, que é essencialmente uma crise de percepção. Ela deriva do fato de que a maioria de nós, e especialmente nossas instituições sociais importantes, subscrevem os conceitos de uma visão de mundo ultrapassado, uma percepção da realidade inadequada para lidar com nosso mundo globalmente interconectado.

A atual conjuntura econômica, social e política, mundial, vem gestando uma crise histórica a partir de uma idéia particular de mundo como “aldeia global”. Esta gestação é alimentada pelos contrastes sociais e desníveis econômicos que clamam por uma mais justa e humana distribuição de renda, o grande desafio político a ser enfrentado por um mundo sem fronteiras.

Os diferentes graus de grandeza das potências num fechado grupo de decisões mundiais, influenciado pelos interesses de blocos e correntes internas, tem tornado mais largo o fosso que os separa dos países quer em “desenvolvimento” quer os de “terceiro mundo”.

A falta de cumprimento de acordos diplomáticos, assinados, por vezes, em caráter meramente satisfatório, se distanciam, na prática, da igualdade social; abrem perspectivas incertas para o futuro da humanidade.

Essas grandes áreas de contradições de nossa época eclodem principalmente nos países menos favorecidos, gerando competições paradigmáticas entre poder e política, entre os vários itens componentes das transformações sociais e entre a própria noção espaço-tempo para a história.

Sem duvida, a História se renova, e mesmo tendo um fio condutor ela não conduz a uma linearidade de passado, presente e futuro, numa relação de causa e efeito. É desafiador para o historiador do presente analisar o processo recíproco e democrático que vem preenchendo o espaço das negociações entre os Estados. Entender e analisar a perda da sua soberania, em prol das organizações econômicas multinacionais melhor aparelhadas para efetuar tarefas que antes lhe eram próprias. Internamente, entre si mesmos, os grupos de modernos Estados negociam com organizações internacionais e transnacionais a perda de soberania externa. Isto se dá de tal modo que estes disponham de um conjunto de prerrogativas, de soberania, que lhes permita criar formas de atuação política transacional para os temas e problemas que não podem ser adequadamente resolvidos, nem a nível estatal, nem sequer a nível interestadual.

Para os grupos sociais atingidos pelas discrepâncias e desigualdades as formas de organização e resistências são múltiplas. Na América latina, as comunidades de base, serviços comunitários, agricultura familiar, unidades de produção e cooperativas são meios dos quais se valem para demonstração objetiva e subjetiva dos valores que representam. Às voltas com os padrões de consumismo, impostos pela mídia, nem sempre percebem o conflito que se estabelece, entre o individualismo da “modernidade” e os limites do próprio consumo. As leis do mercado são as únicas aceitas como instituição organizadora do consumo desenfreado em confronto com idéias que não se expressem somente através dos objetos desejados.

O historiador de hoje, a perspectiva de compreender um mundo globalizado economicamente, onde passado e futuro não podem estar divididos do presente, vê-se ante o desafio de articular ligações possíveis entre os episódios que antecederam a Primeira Guerra Mundial, a “era do ouro” de que nos fala Hobsbawn e a arbitrária desigualdade existente no mundo contemporâneo.

Do ponto de vista político, o colapso do comunismo soviético pareceu, inicialmente, ratificar o sucesso do capitalismo e da liberal democracia que, usualmente, alguns políticos tendem a confundir. Desde o final dos anos a única verdade demonstrável era a de que a ligação com a democracia organizada dava-se via um processo eleitoral, uma oposição, às vezes teórica, dando cada um “sua própria interpretação ao significado do termo”.

Naturalmente, países como a Espanha e a Inglaterra podem manter previsíveis as suas formas de governo, mas a futurologia, via controle das variáveis históricas, continua desestimulando prognósticos mais precisos. Isto invalida, pelo menos em parte, afirmativas que dão a globalização como fenômeno que tornou universais valores como a democracia e a liberdade.

Historicamente, constatamos pois que o enfraquecimento do Estado-nação, cedendo poder e perdendo funções para instruções supranacionais, anulou os seu privilégios históricos outorgando espaço ao capital privado no que concerne, inclusive, aos serviços básicos. Essa constatação, por si mesma, não passa de um atestado de eficiência, ou não, do Estado, embora a tecnologia permita estabelecer o controle da sociedade do ponto de vista técnico-financeiro-administrativo e dos meios de comunicação escritos, falados e imagéticos.

Assim, a globalização, que “envolve diversos processos simultâneos” como a “difusão internacional da notícia, redes como a Internet, o tratamento internacional de temas como meio ambiente e direitos humanos e a integração econômica global” guarda, em seu bojo, um lado perverso.

O decréscimo da importância da conjuntura social e política de cada nação na definição dos investimentos escapa cada vez mais ao controle das maiores corporações mundiais que decidem, basicamente, o que, como, onde e quando produzir os bens e serviços nos quatro cantos do globo. Essas definições são tomadas como base nas trocas estabelecidas entre unidades das empresas lideres transnacionais que tem seus próprios laboratórios financiando e direcionando parte significativa da ciência acadêmica, e, conseqüentemente, sua produção.

O processo técnico tornou-se, pois, cada vez mais difícil de controlar, na medida em que o declínio do poder o Estado deixava-os mais difíceis de monopolizar, notadamente, em regimes não autoritários. Ao mesmo tempo, os meios de comunicação visuais, falados e escritos revelam-se mais de comunicação visuais, do que os próprios partidos eleitorais, na formação de opinião, embora não pudessem ser qualificados como um meio para viabilizar um sistema democrático.

Aparente, isto pareceu por um xeque o próprio sucesso decisivo via governo e Estado. Por sua vez, a trajetória política dos Estados vem demonstrando a possibilidade real da mobilização popular contra governos impopulares – do Irã teocrático aos Estados unidos – centro do poder mundial, reforçando o surgimento do “povo organizado”, um novo e forte testemunho na História atuando em favor dos seus próprios e coletivos direitos.

Atuando de forma passiva, ou ativa, a política das autoridades deve levar em conta a intensidade dessa nova força da História, nos moldes em que hoje ela possa se organizar.

Na história da Humanidade o Império de Alexandre, o Grande, conquistou um grande espaço que se fragmentou com a morte do líder. Eram outros tempos, mas, o valor do homem, sujeito da História, não se perdeu no decorrer dos tempos que nos separam daquela época.

Só a partir da consciência do homem – sujeito da História – é que a tirania do processo tecnológico e econômico deverá ser rompida, avizinhando-se uma crise histórica para que no próximo milênio o mundo se distancie do capitalismo selvagem, que, como tudo na História não permanecerá “ad infinitum”. Como tão bem nos aponta “tudo que é sólido se desmancha no ar”. Esta é uma verdade que a História tem demonstrado nos momentos mais marcantes da humanidade.

Assim, isoladamente, “A expansão do capitalismo... não é propriamente o ator principal da História” no mundo de nossos dias.

Lido 1567 vezes Última modificação em Terça, 26 Maio 2015 20:58
Yvone Dias Avelino

Professora titular do Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC, coordenadora do Núcleo de Estudos de História Social da Cidade – NEHSC – da PUC SP.