Quinta, 04 Abril 2013 01:07

Venezuela X EUA: Longe do Espelho

 
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Embora Caracas tenha se tornado um problema contínuo para Washington à época da administração Bush, o significado do desafio venezuelano permanece um interrogante.  Definir o que o presidente Hugo Chavez pretende, enquanto está em construção o que se denomina “revolução bolivariana”, em seu país, poderia, talvez, ser uma investigação distante dos interesses norte - americanos.

O tema prende o interesse e sua análise está sempre - o que é ótimo - relacionado às mais diversas óticas.

Não se pretende ignorar que a Venezuela e os Estados Unidos, embora de modos diversos, têm um interesse comum a ligá-los: o fio do petróleo. Em primeiro lugar, a ligação Caracas-Havana tornou-se íntima com Cuba, e Chavez vem estimulando e influenciando muitos países latinos americanos, o que não parece ser do agrado de Washington.

Chavez chegou ao poder (1999) por uma eleição democrática. Na prática, desmontou o status quo vigente que dominava a Venezuela durante anos. Como oficial do exército, já havia conduzido uma tentativa fracassada de golpe, em 1992 ,e esteve na prisão por isso.  O seu caminho para a presidência, entretanto, não foi marcado por uma ideologia clara, além das divergências com o regime existente. Sua continuidade no governo foi um desmentido a convicção existente no momento de sua eleição, de que ele simplesmente seria o criador de mais um episódio sem solidez na América Latina. Mais além, pensava-se que seu linguajar abrupto e jactancioso era um tipo de modismo e eram alimentadas as suposições que Chavez seria rapidamente corrompido pelas oportunidades abertas a ele e aos que o levaram ao poder como presidente. A par disso, imaginava-se que cederia às tentações de enriquecimento ilícito, permitindo negócios irregulares dos quais se beneficiaria. Tratava-se de um engano, pois apesar de suas falas excêntricas e ausência de traquejo diplomático, a exemplo de outros presidentes, dentro e fora da América Latina, ele sempre percebeu a importância potencial da Venezuela, e não só como país exportador de petróleo.

A Venezuela é um dos principais exportadores do produto, com uma companhia nacional a Petróleos Venezuela S.A. (PDVSA), com domínio da técnica de refino, e a varejista Petróleo de Citgo Corp. O petróleo, contudo, não vem representando a redenção da Venezuela e, por isso, tantas vezes, seus governantes tentaram diversificar a economia nacional, mesmo permanecendo o petróleo como o seu grande esteio. Em outras palavras, o estado venezuelano continua a confundir-se com a sua própria indústria petroleira. Assim, não tem sido fácil ao presidente Chavez enfrentar um desafio de tal envergadura. O primeiro grande problema centrou-se na forma como deveria ser usada a renda do petróleo; o segundo a ser equacionado era o de estabelecer o nível permitido às companhias estrangeiras do produto, com respeito à influência na indústria no país. 

Ao ser eleito presidente, Chavez já havia prometido às massas venezuelanas uma melhor divisão e distribuição da renda do petróleo necessária ao financiamento de uma série de inadiáveis benefícios sociais. È provável que, do ponto de vista presidencial, o tema da divisão de renda do petróleo versasse em torno de uma possível apropriação indébita por parte da alta classe venezuelana e as companhias estrangeiras de petróleo. Assim, a política de benefícios sociais, na qual o governo apostava ,levou-o a mover o aparato técnico de PDVSA e a atuar contra as companhias estrangeiras. 

Aliada a uma oposição interna crescente, surgiu-lhe um dilema adicional vinculado às suas atuações na produção petroleira. É que, para fortalecer a sua base política, Chavez necessitava das rendas oriundas do petróleo e, por sua vez, de investimentos no setor. Sua política necessitava cumprir metas desfavorecidas pelo clima político, que lhe era adverso, o que não estimulava o investimento das  companhias  estrangeiras de petróleo no país. Por outro lado, a PDVSA e seus peritos técnicos tinham dificuldades em operar nos níveis anteriores de produção obtidos, dificultando a estratégia política de Chavez. 

Dois episódios o favoreceram e resolveram o dilema em favor dele. Em primeiro lugar, um mal preparado e curto golpe contra não vingou (abril de 2002).  Sua captura e envio para uma ilha, subestimaram e facilitaram, por disputas superficiais internas, a sua volta ao poder. Chavez voltou a Caracas e ao palácio presidencial de Miraflores, reassumindo o governo menos de 48 horas depois de iniciado o levante.

O golpe frustrado permitiu ao presidente Chavez a criação de uma plataforma contrária aos Estados Unidos. De fato, ele nunca se pronunciou a favor dos norte americanos, mas os rumores de inspiração daquele país  permitiu-lhe  reivindicar  o feito como uma tentativa dos  Estados Unidos  para o derrocar.  Não se pode comprovar a suspeita, mas as anteriores ações da CIA na América do Sul tampouco o desautorizam. Por outro lado, as ações da CIA na região resultaram competentes. Assim, a reivindicação de Chavez não era tão improvável. Seus seguidores acreditaram, e o feito fez crescer e ampliar a sua base de apoio, atraindo  patriotas venezuelanos  que, com justiça,  abominam a interferência americana nos  seus negócios  internos.

Afortunadamente, Chavez foi beneficiado, num segundo momento, pela alta de preços do petróleo. As especulações sobre ter sido possível o desmoronamento do se governo debaixo de pressão social, caso os preços mundiais de petróleo tivessem permanecido baixos, pode ser verdadeira. Embora a Venezuela tenha ainda problemas econômicos significativos e a tecnologia de ponta não presida a sua indústria petroleira, a receita do petróleo, contudo, confere-lhe espaço para muitas manobras.   

O conjunto desses fatos proporcionou o fortalecimento das aproximações com Cuba.  Com a queda da União Soviética, os cubanos tiveram cortados os subsídios de petróleo e não possuíam condições para compra frente aos preços ofertados pelo mercado mundial. Ao proporcionar o petróleo a Cuba, a Venezuela restabeleceu condições viáveis para sustentar a economia cubana. Em troca deste apoio, Chavez pode valer-se do maior recurso que Cuba pode ofertar. Refiro-me ao aparato de inteligência, racionalidade e segurança altamente profissional disponível. Os Estados Unidos não ignoram que Chavez usou peritos cubanos na construção de seu sistema particular de segurança, todo ele projetado para a sua proteção pessoal e a do seu governo, bem como o treinamento de pessoal venezuelano para os mesmos fins. Inclusive, o forte tom antiamericanista do presidente não dá sinais de inquietar aos EUA. O rude tom adotado parece pretender justificar algumas das atitudes repressivas do governo Chavez, como a censura à imprensa, medida que não se coaduna com um governo democrático.  O nível popular de aprovação do presidente baseia-se no melhoramento de algumas estruturas, como a da saúde, numa cópia de algumas experiências cubanas. Assim, a relação entre os governantes, antecedentes ao golpe contra Chavez, favorece a ambos.  Leve-se em conta nesta análise que uma “democracia” controlada pode apresentar índices de aprovação não confiáveis. 

A elevação de Chavez ao cargo de presidente da Venezuela coincidiu com um tipo de resistência à globalização na América Latina. No início dos anos da década de 1990, temas como livre-mercado, reformas, comércio e investimentos estrangeiros foram discutidos em quase toda região, forçando posições dos defensores da liberalização.. Países como a Argentina, Brasil e Bolívia vivenciaram problemas econômicos que se refletiram no seu quadro político, mas o antiamericanismo como bandeira permanecia subjacente. Na visão de alguns analistas  políticos dos EUA , o sentimento latino- americano e marxista aparecia mais quieto e silencioso nesse período, e ele só reaparece sob um cunho populista com suas  doutrinas fundamentais em  economias  com baixas possibilidades de evolução.  Ele volta com Chavez como bandeira. Acrescido da aliança com Cuba, a esquerda vê em Chavez um tipo de herói. Contudo, a impopularidade dos EUA na região pode servir como isca, para que não se tenha uma serena visão na verdadeira análise de situações como a vivida pela Venezuela.   Será Chavez um herói? Buscará estabelecer um tipo novo de liderança na América do Sul?  Quais são suas verdadeiras ambições?  Com certeza elas ultrapassam as medidas de ser declarado o mais popular governante da Venezuela.  Ora, a revolução Bolivariana não o transforma num novo Simon Bolívar.

Do ponto de vista concreto, a habilidade de Chavez para desafiar os Estados Unidos é limitada.  Pode existir a ameaça ocasional de corte das exportações de petróleo para os Estados Unidos, mas a Venezuela também se prejudicaria, pois o país é o maior mercado para o petróleo venezuelano.   Esta realidade torna um pouco sem sentido conversações com a China e com outros países sobre a criação de mercados alternativos. Os venezuelanos poderiam absorver os custos de transporte envolvidos na operação, vendendo para China ou para a Europa, mas também se pode esperar que os produtores que provêem, atualmente, esses países trocassem as suas próprias exportações para preencher as necessidades dos Estados Unidos.  Dificilmente a Venezuela poderá sobreviver muito tempo sem as suas exportações de petróleo. De fato, enquanto o governo Chavez controlar a Citgo e o governo dos EUA não estiverem tentando obter o seu controle, a tendência é a de que continuem a entenderem-se comercialmente. 

Aparentemente, Washington não se preocupa com o que Chavez deseja ou faz. Algo assim, como no final das contas, o que conta mesmo é a continuidade do fornecimento de petróleo aos Estados Unidos.  Do ponto de vista norte americano, Chavez , menos que Fidel Castro, é simplesmente um pedregulho no sapato de Washington, por não oferecer uma ameaça séria. Como regra geral, a América do Sul é tratada como zona fora de interesse de Washington.  Trata-se de certo ponto de consenso na política dos EUA, balizada pelo senso estratégico de sua política externa.  Assim, só na hipótese da América do Sul ou qualquer dos seus países integrarem uma forma de poder que os ameace diretamente ou aos seus interesses, a política dos EUA para o Continente se alterará, tal como aconteceu no caso das bases soviéticas em Cuba. Para eles, a Doutrina Monroe inteira foi construída ao redor do princípio de neutralizar uma possível e tão próxima ameaça e sua própria proteção.  Um outro exemplo  foram os acontecimentos na Nicarágua e no Chile quando a  interferência dos Estados Unidos ocorreu em razão das possibilidades de criação de oportunidades que os soviéticos poderiam explorar. Sempre na linha mestra de seus interesses estratégicos, podemos observar o interesse dos EUA com respeito à presença de elementos nazistas na Argentina antes do final da Segunda Grande Guerra, em 1945, e a sua indiferença com relação ao mesmo tema depois do final da guerra.

No reverso do espelho, onde se mira Washington, não se pode deixar de perceber que, apesar do foco do interesse dos EUA em Cuba ser  anterior a 1999, suas tentativas de desestabilização da ilha foram permanentes. Do mesmo modo, o governo Bush, costumeiramente, demonstrou seu desagrado frente à política estabelecida por Chavez na Venezuela. Não é segredo que a Washington seria agradável a sua retirada como presidente do governo.  Mesmo sem manifestar um interesse obsessivo pelos assuntos internos venezuelanos, os EUA, têm em Chavez um incômodo que gostariam de anular, notamente, agora quando se aproximam da vizinha Colômbia. À parte o fantasma das drogas e a atuação guerrilheira das FARCS, motivo invocado para o acordo de estabelecimento de bases americanas em território colombiano, o momento atual é de prudência.  Uma má atuação do presidente da Venezuela, em episódios na fronteira com a Colômbia, pode agravar os riscos de desavenças. O mal esclarecido caso de armas suecas compradas pelo seu governo irem parar nas mãos da guerrilha colombiana é um ingrediente inusitado.  Ao contrário do pensamento irônico de muitos analistas políticos, a entrada dos Estados Unidos no jogo independe da presença “de terroristas do Islã na Venezuela”. 

Do ponto de vista dos EUA, uma intervenção que derrocasse Chavez teria dificuldades em ser levada a cabo.  A necessidade e o fornecimento do petróleo venezuelano não são, porém, nenhuma garantia para que tal não aconteça.  Um golpe surpresa na Venezuela, certamente seria facilitado pelos norte americanos  e ,mesmo que assim não fosse, os antecedentes  criados pelos Estados Unidos  na região o tornariam suspeito. O aumento do sentimento antiamericano, na América Latina, pode não ser significante, mas é no mínimo desconfortável.  Obama sabe que, nesse momento, o aumento da hostilidade aos Estados Unidos faria aflorar os ressentimentos dos dias do golpe contra Allende, ainda uma recordação amarga. Os Estados Unidos têm, portanto, razões para tentar uma reconquista regional, com um mínimo de respaldo que seja. O país já tem  problemas com europeus, palestinos, árabes e não resolveram as situações de minorias como os curdos, em nome das quais permitiram a forma bárbara de justiçar Saddham Hussein no Iraque. Isto sem mencionar a cupidez pelo petróleo iraquiano.

A política norte americana idealizada para a Venezuela parece se encaminhar para uma tentativa de levá-la ao isolamento.  Apesar das considerações de não poder a Venezuela “ferir os Estados Unidos”, as coisas não são assim tão simples. A premissa de que se toda a América Latina aderisse ao ideal bolivariano de Chavez tal não se constituiria um problema para os EUA é no mínimo jactanciosa. Mesmo estando ausentes como um poder global significante para desafiar os Estados Unidos, a ideologia de Chavez, propagada por toda a América Latina, claramente aumentaria a distancia com Washington, revelando-se não se constituir em assunto puramente só de interesse latino americano.  As ameaças dentro do quadro de política externa também repousam, só para exemplificar, na ausência de cooperação, na s reticências de adesão a um acordo de interesse externo, no não cumprimento de compromissos acordados, na não votação acompanhando as posições de uma grande potência, dentre outras dificuldades e restrições. Assim, os atritos verbais com Bush e as indiretas do presidente Obama, dirigidas a Chavez demonstram um mal estar crescente entre os dois países e a falta de hábito dos EUA de se verem diretamente “alfinetados”. A ameaça que a Venezuela possa representar aos Estados Unidos, portanto, pode se distanciar dos riscos da não oferta do seu petróleo, independente dos prejuízos para o país. Isto explica, em parte, o endurecimento das relações entre a Venezuela e os Estados Unidos e o fato da manutenção de uma relação fechada e restrita à compra e venda do petróleo.    

Para os venezuelanos, os preços altos do produto, subsidiam os seus programas sociais e fortalecem a sua posição como aliados regionais. Para a paz regional, é do interesse sul americano o bom andamento desse acordo mútuo entre os EUA e a Venezuela na área do petróleo. A nenhum país do Continente interessa uma guerrilha no Amazônia Ambos os países podem continuar fazendo desse interesse comum os cernes de suas relações, pois esta é a parte do assunto no qual eles concordam. Visto por um ângulo, longe do espelho, realmente não há um problema significativo.

Lido 1269 vezes Última modificação em Segunda, 01 Junho 2015 00:06