Quinta, 04 Abril 2013 00:47

Terrorismo

 
Avalie este item
(0 votos)

O terrorismo pode ser identificado como meio de manutenção, conquista e desmoralização do poder. O primeiro caso, o da manutenção do poder, associa-se à prática estatal, em que, mediante o recurso à violência, procede-se a deportações e à matança indiscriminada.

Tende-se a citar o governo de Stálin, na presidência da ex-União Soviética, como exemplo de terrorismo de Estado, ainda que esse conceito imbua-se de controvérsia  O segundo caso, por sua vez identifica movimentos de resistência nacional, a exemplo  da ação dos separatistas bascos, com terrorismo. A ação do ETA, na Espanha, traduziria  essa concepção, em que o embate pelo respeito à autodeterminação se afigura objetivo político.  Por fim, tem-se a atuação de atores não- estatais, para desmoralizar o poder, em que o atentado patrocinado pela Al-Qaeda contra o World Trade Center, em Nova York, centro financeiro dos Estados Unidos, reveste-se de aspecto simbólico. Observe-se que é exatamente essa diversidade da ação terrorista que não apenas cria empecilho a sua contenção, mas  também dificulta  consenso quanto à definição do termo no âmbito das Nações Unidas.

Ainda que o fenômeno do terrorismo, historicamente, remonte a períodos, como o do século XIX, em que anarquistas promoveram vários atentados, os desafios atuais, trazidos pela ação terrorista,  diferenciam-se dos do passado  e revelam-se sistêmicos. A ascensão do fundamentalismo islâmico, sobretudo, desponta como uma das principais preocupações da comunidade internacional por encerrar guerra assimétrica, travada em redes,  que não podem ser combatidas apenas pela força das armas. O fundamentalismo, como ideologia política, enseja o desafio de deslegitimá-lo  no seio das comunidades muçulmanas e requer, portanto, medidas mais abrangentes do que as convencionais. Sob esse aspecto, conquanto não se possa vincular imediatamente extremismo e pobreza ou ausência de canais legítimos de expressão social e fundamentalismo, sabe-se que a ação de grupos, como a Irmandade Islâmica no Egito e a  Al–Qaeda, por exemplo, encontra-se reforçada, em meio a condições socioeconômicas precárias das populações e a governos ditatoriais pró- Ocidente. Os fundamentalistas tendem a atuar na base da sociedade civil, prestando serviços elementares e politizando a religião. A ausência de revolução no plano das mentalidades, a exemplo do Iluminismo ocidental, exacerba o uso da religião como instrumento de ativismo político, porquanto permeia toda a estrutura social e  todo o Estado.

A esse respeito,  verifique- se que a situação geopolítica no Oriente Médio  concorre para o fortalecimento da crise dentro do Islã , que se fraciona  nessa versão extremista e obtém apoio de segmentos da sociedade.  Um dos argumentos mais defendidos para justificar ações terroristas  centra-se na questão árabe-israelense. A ocupação dos territórios palestinos – Jerusalém Oriental e Cisjordânia, desde a guerra de 1967, aliada à indefinição sobre direito de retorno dos refugiados, favorece o sentimento de rancor e de humilhação. Além disso, a posição dos Estados Unidos , durante os dois mandatos do presidente Bush, no bojo da "guerra ao terror"  evidenciou-se como pró- Israel e, dessa forma, alienou parcela significativa das comunidades muçulmanas nos territórios, estimulando o apelo dos fundamentalistas. Outros importantes aspectos geopolíticos que se afiguram como conducentes à proliferação do extremismo dizem respeito à questão do Iraque e do Líbano. No Iraque, a invasão efetuada, sob pretexto de que o governo de Saddam Hussein dispunha de vínculos com a Al Qaeda, transformou um país estável, ainda que mediante a dominação da etnia sunita sobre a minoria curdo e xiita, em um território fragmentado com população vulnerável ao discurso do martírio. No Líbano, por sua vez, a problemática revela-se, talvez, um pouco mais complexa, por englobar países como a Síria e o Irã, com potencial desestabilizador para toda a região. Somadas às tensões sectárias no interior do Líbano, existem  alegações de que o Irã, que desenvolve programa nuclear, e que a Síria, cuja influência no território é significativa, apóiam o grupo xiita Hezbollhah, considerado terrorista pelos países ocidentais e percebido como movimento de libertação nacional, prestador de serviços comunitários, com representação do parlamento libanês, pela opinião pública de parcela significativa do mundo árabe. Uma dimensão significativa da sociedade civil, seja na Palestina, seja no Iraque ou  seja no Líbano, encontra-se vulnerável ao discurso político da religião, em meio à ausência de uma solução coordenada para a problemática mais ampla  do Oriente Médio.

A realidade geopolítica do Oriente Médio e a virulência dos ataques terroristas demandam ações que se orientem pelo fomento aos direitos humanos , contrariamente ao que tem ocorrido, conforme ilustra o caso de Abu Ghraib no Iraque,  transcendendo aspectos meramente repressivos.  No  Ocidente, leis anti-terrorismo, como as aplicadas na Inglaterra, ou o Ato Patriota, nos Estados Unidos, configuram-se de pouca valiaem face de uma fenômeno de amplitude global, que se prolifera, facilmentecomo resposta ao sentimento de alienação cultural, à crise socioeconômica e ao crescimento demográfico sem oportunidades, entre outros, nos países árabes. Ademais,  a ausência de medidas no seio das  comunidades muçulmanas que habitam em países ocidentais e a dificuldade de integração e de tolerância, dada a chamada "islamofobia", também concorrem para a formação de células terroristas. Saliente-se que  há intérpretes da crise no Islã, a exemplo de Edward Said, que culpam o Ocidente pela turbulência. Em O Oriente como Invenção do Ocidente,  Said  afirmou que o Ocidente criou imagem artificial do Oriente , hostil ao mundo muçulmano , que dificulta a integração em uma estrutura justa. Sobre essa interpretação, contrastante com a de Bernand Lewis, que aponta o Islã como preso ao rancor e à violência, verifica-se, na linha do pensamento de Said, que o imaginário artificial criado dificulta tanto a mitigação da "islamofobia" quanto o desenvolvimento do Oriente, sujeito historicamente a intervenções ocidentais, o que colabora para a maximização da crise atual do Islã na vertente fundamentalista.

Note-se que a elaboração de uma estratégia abrangente, preventiva e defensiva, contra o terrorismo internacional precisa levar em conta os múltiplos aspectos relacionados à questão e as diferentes interpretações da atual crise no Islã na busca de soluções adequadas. Qualquer país  se encontra, hoje, vulnerável a ações terroristas e, portanto, necessita-se de ações coordenadas, para além das armas, e sem prejuízo do respeito ao direito humanitário. No caso específico do Brasil, existem comunidades árabes que professam a fé muçulmana na região da Tríplice Fronteira com o Paraguai e com a Argentina e, com regularidade, há discursos norte-americanos de que há riscos à segurança nacional pelo potencial de foco de células terroristas. Inexistem, porém, até o presente momento, evidências que comprovem o recrutamento de membros ou o financiamento de ações terroristas na área. Há, entretanto, necessidade de cautela, no plano mais amplo da subregião, evidenciada pelos atentados, na Argentina, contra a embaixada israelense (1992) e contra a Associação Mutual Israelita–Argentina (AMIA-1994).  Por fim, saliente-se que a facilidade de transportes e de comunicações, no bojo da globalização, impõe, além de medidas de coordenação preventiva com os parceiros da União Sul Americana, pelo menos, discussões mais abrangentes acerca do tema, no Brasil.

Lido 3119 vezes Última modificação em Quarta, 20 Maio 2015 09:35
Aline Alícia de Aragão F. Gabriel

Coordenadora de Relações Internacionais

Advogada, consultora e analista de relações internacionais