Quinta, 04 Abril 2013 00:27

A Tragédia do Virginia Technological Institute

 
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Cada vez que ocorre algo inusitado no noticiário internacional, as tevês do Brasil procuram “especialistas”, para dar suas abalizadas opiniões sobre o assunto. Não deixou de ser diferente o noticiário sobre a tragédia ocorrida no Virginia Technological Institute.

 

A TV Globo logo buscou uma professora da USP, que opinou ter sido “o capitalismo americano” o responsável por aquela tragédia. A razão dessa tragédia, assim afirmou a professora, teria sido o capitalismo exigindo sempre  lucros, como o da venda de armas. Portanto, as armas vendidas nos Estados Unidos da América  seriam simplesmente vendidas pelo lucro que dão aos capitalistas e  armas nas mãos do povo sempre resultam em tragédias, afirmou.

Contudo, os antecedentes da luta pelo direito do cidadão poder portar armas, como estabelecido na Constituição americana, não foram sequer mencionados pela convidada. Muito menos a possibilidade, por exemplo, de o aluno assassino, Cho Seung-Hui, ter tido problemas mentais, como evidentemente ficou comprovado que ele tinha.  

De  fato, ela esqueceu de mencionar que na história americana, há uma grande e fundamentada tradição da posse de armas, inclusive, omitindo o artigo da Constituição norte-americana, que dá ao povo “o direito de manter armas”. Esse é um direito dado quase como “sagrado” e que tem mantido naquele país uma democracia, por 220 anos.  Na prática,qualquer governo norte- americano que pretenda impor uma ditadura encontrará pela frente milhões de cidadãos americanos, com armas na mão, prontos para derrubá-lo. 

Foi perguntado a um general japonês, depois da Segunda Guerra, por que ele não tinha invadido a Costa Oeste dos Estados Unidos, tão longa e desprotegida. Ele respondeu que aquela não era uma costa desprotegida pois  “estudei na Califórnia”, afirmou o general, “e vi o número de clubes de tiro que existem lá, e  vi como todas as pessoas possuem armas de fogo, e atiram muito bem. Uma invasão teria enfrentado milhões de cidadãos armados e de boa pontaria. Seria um desastre para nós”.

É bom lembrar também que o artigo III da Constituição americana, assim reza: ...“(Considerando-se que) uma milícia bem regularizada é necessária para a segurança de um Estado livre, o direito do povo de possuir e manter armas não será violado”.

 Por que razão esse artigo, tão claro e peremptório, foi colocado na Constituição? Ocorre que uma das razões pelas quais os americanos se rebelaram contra “a tirania do rei inglês” , como eles se expressavam, fora o decreto do rei, proibindo-os  de possuírem armas. Vivendo em zonas de fronteira, em constante conflito com os índios, os colonos sabiam que sem armas os das fronteiras mais afastadas seriam simplesmente trucidados. Mas, mesmo assim, o rei insistiu e os proibiu de possuir armas, e ainda obrigou-os a receber, em suas próprias casas, os soldados enviados para manter a paz na colônia. Esses soldados eram hóspedes inconvenientes e mantê-los, revelou-se medida de custo elevado, razão pela qual, os colonos se recusavam a tê-los em suas residências. Daí que, ao se libertarem e escreverem uma constituição para o novo país, o assunto das armas foi posto em discussão na Constituinte, que se reuniu em Filadélfia. Ficou ali manifesto que todos estavam de acordo com a necessidade de se dar ao cidadão o direito de possuir armas para sua própria defesa, livrando-os da dependência de um Estado possivelmente tirano, como aquele do qual há pouco tinham se libertado. 

Convém lembrar aqui, episódio que poderia ter gerado resistências,ocorrido no Brasil colonial, quando o príncipe D. João mandou esvaziar as casas dos brasileiros, para acomodar os membros de sua corte fujona. Outra foi  a atitude submissa dos colonos brasileiros que humildemente aceitaram tal imposição, e não pegaram em armas para defender seus direitos e suas propriedades. Os americanos, ao contrário, rebelaram-se.

Os constituintes americanos tinham grande fé no indivíduo e na sua capacidade de se auto governar. Mais ainda, tinham grande medo e desconfiança do governo, de qualquer governo, e especialmente de exércitos permanentes. Por isso, a Constituição se refere às milícias, ou seja, a grupos de cidadãos armados, convocados por um tempo limitado para solucionar algum problema de rebelião ou de desordem. Esses trariam consigo suas próprias armas, em defesa do Estado. Assim reza a constituição, no  seu Artigo 1, Seção 8, a saber: (O Congresso terá poderes de)...Convocar a Milícia para executar as Leis da União, reprimir rebeliões e repelir invasões. Prover a organização, armamento e disciplinamento da Milícia, e administrar a parte da mesma que for empregada aos serviços dos Estados Unidos, reservando-se aos Estados, respectivamente, o poder de indicar os oficiais e as autoridades para treinar dita Milícia, de acordo com disciplina a ser prescrita pelo Congresso ““.

 Note-se também que a Constituição, muito a contragosto da maioria dos constituintes em Filadélfia, fazia provisão para a criação de “exércitos nacionais”. As milícias estaduais passariam a ser denominadas de “exércitos”.

  Por isso, foram estabelecidas restrições para a formação desses exércitos, que na verdade não passavam de milícias com outro nome.  Dessa forma, de acordo com a Magna Carta americana, ao Congresso cumpria: “Prover e manter os exércitos nacionais, porém nenhuma apropriação de verbas para esse propósito seja feita por um termo mais longo do que dois anos”. Ressalte-se ser esta a provisão constitucional que tanta dor de cabeça tem dado ao Presidente George Bush, em sua constante busca de verbas para continuar mantendo a guerra no Iraque.

Naquela ocasião, debateu-se também sobre qual seria o tamanho desse proposto exército nacional, composto de milícias dos 13 estados que se uniam. Alguns sugeriram 800 homens, outros no máximo 3.000. Fazia-se ainda necessário criar um sistema “para controlar os exércitos permanentes, em tempo de paz”, conforme afirmou o constituinte Gouverneur Morris, da Pensilvânia. Destarte, todos os constituintes demonstravam grande medo de que algum presidente desvairado viesse a utilizar as forças armadas a fim de impor alguma forma de tirania à própria nação.  Foi o caso do constituinte Juiz Elbridge Gerry, de Massachussetts, de tal maneira teme roso, opunha-se à existência de um exército permanente, e, por essa e por outras razões, recusou-se assinar a Constituição.O entendimento comum era o de que  armas só podiam ser confiadas nas mãos dos cidadãos e nunca nas mãos do Estado; pensamento, predominante à maioria dos constituintes de Filadélfia, em 1778. 

Hoje, americanos de esquerda, defendem a proibição de armas em mãos dos cidadãos e argumentam que os constituintes de 1778 tinham em mente colocar armas apenas nas mãos das milícias. Mas essa não foi à maneira como os cidadãos americanos, da época, inclusive os próprios constituintes, interpretaram as cláusulas constitucionais  acima mencionadas. Afinal, as milícias eram compostas de cidadãos, que utilizavam suas próprias armas no serviço militar, trazidas de suas próprias casas. Assim, desde o início da República todos entenderam que os cidadãos tinham o direito constitucional de possuir e portar armas. Era mais do que um direito. Era uma obrigação, para rapidamente responder a qualquer convocação que fosse feita para o serviço militar. Assim, quando os colonos se rebelaram, e formaram um exército para lutar contra os ingleses, as armas utilizadas foram as que eles mesmos trouxeram de suas casas.

 No caso,uma luta contra as armas tem sido conduzida pela esquerda americana, por razões óbvias. Como modificar uma forma de governo republicano, e impor um sistema socialista, se o povo tem o poder de possuir armas? Um povo armado é um perigo para os possíveis tiranos, que se atrevam a tomar-lhes a liberdade. Mais ainda, hoje em dia o número de homens e mulheres que passaram por treino de guerra e/ou que serviram em guerras, desde a Primeira Guerra Mundial, chega a vários milhões – talvez a um todo de oito milhões, assim se vê na Internet. Por exemplo, a organização chamada de Veteranos de Guerra, vem conduzindo uma busca, pela Internet, dos últimos cinco veteranos sobreviventes da Primeira Guerra Mundial (1915-1918). Os sobreviventes da Segunda Guerra, da Coréia, do Vietnam e de todas as ações militares, conduzidas no último século, chegam aos oito milhões. Esses veteranos, na sua maioria, se sentem como herdeiros daqueles que, em 1774, se rebelaram contra os ingleses. Por essa razão esses veteranos continuam fiéis à idéia do direito do cidadão de possuir e portar armas em defesa do país, contra os inimigos internos e externos. Seu lema é o mesmo adotado pelos Marines: “Semper Vigilo, Fortis, Paratus et Fidelis”.

Lido 1452 vezes Última modificação em Terça, 26 Maio 2015 21:22
David Gueiros Vieira

PHD em História da América Latina, Mestre em história dos Estados Unidos da América, conferencista e um dos maiores especialistas brasileiros em História da Questão Religiosa do Brasil.