Quinta, 04 Abril 2013 00:23

Como Trotskistas Bolivianos Traíram Che Guevara

 
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Resumo: O tiro dado em Che Guevara pode ter saído do fuzil de um soldadinho cholo qualquer, mas a responsabilidade de sua morte fora dos trotskistas bolivianos que o abandonara.

 

A morte de Che Guevara já teve mil versões, mas todas têm algo em comum: o fato inexplicável de os revolucionários bolivianos não terem dado apoio ao revolucionário argentino, companheiro de Fidel Castro na Sierra Maestra. Qual teria sido a razão dessa falta de apoio? Pelo que fui informado, na Bolívia, houve uma disputa ideológica entre o stalinista Che, e os trotskistas bolivianos. Em que fundamento essa minha asserção?

Em 1973, sete anos após a morte de Guevara, fui à Bolívia, várias vezes, para negociar contrato de trabalho geológico em La Paz, para uma firma de geologia e fundações em New Jersey , com a qual eu trabalhava. La Paz foi construída em solo instável, composto de cinzas vulcânicas, e sofre freqüentes deslizamentos de bairros inteiros. O secretário de obras da capital boliviana era o engenheiro Francisco Carafa, que estudara na Universidade de Córdoba, na Argentina. Carafa é um sobrenome antigo na Bolívia, desde épocas coloniais, nome este dado à capital do Departamento (Estado) de Cochabamba. Esse engenheiro boliviano era um marxista exaltado mas tinha grande orgulho de seu nome italiano, e também do fato de ser "descendente colateral", assim afirmava, do cardeal napolitano Gian Pietro Carafa, eleito papa em 1555, com o nome de Paulo IV.

A repressão política do governo militar da Bolívia, naquela época, era muito grande. Todavia, Carafa fora nomeado secretário de obras de La Paz e miraculosamente se mantinha fora dos cárceres. Depois descobri que sua proteção "política" na verdade vinha de ligações românticas, mantidas com secretárias dos vários ministérios ligados à repressão. Essas senhoras, algumas delas de idade bem avançada, e de aparência nada agradável, destruíam todos os documentos que lhes passassem nas mãos, nos quais Carafa fosse acusado de subversão. Assim, o secretário de obras de La Paz se mantinha livre. Mais ainda, mantinha até ligações cordiais com o embaixador americano, sendo freqüentemente convidado às festas daquela embaixada.

Professor de engenharia da Universidade de San Andrés, o professor Carafa criara um programa de aliciamento de estudantes, para a causa trotskista. Era também muito popular entre os trabalhadores indígenas aimará, que sempre o recebiam com palmas, quando visitávamos as obras da cidade de La Paz.

Carafa era casado com uma professora argentina, que conhecera na Universidade de Córdoba. Os dois tinham um filho de 5 anos, chamado Tupac, em homenagem a Tupac Amaru, o famoso índio rebelde boliviano de época coloniais. Hoje encontro o nome de um professor Tupac Carafa, no site da Universidade de Córdoba, e imagino se não seria o mesmo Tupac, que conheci em 1973, quando ele tinha ainda 5 anos de idade.

Naquela época de 1973, já divorciado da professora argentina, o professor Francisco Carafa estabelecera relações com uma enfermeira, também argentina, que trabalhava num hospital de La Paz. Foi através dessa enfermeira que descobri a história real da morte de Che Guevara.

Essa amiga do professor Carafa, em um jantar, reclamou ter ele liderado uma recente "revolução inútil" dos estudantes da Universidade de San Andrés. Os alunos tinham se apoderado da universidade, localizada em um alto edifício no centro de La Paz. Tendo aprisionado inúmeros soldadinhos cholos (como derisivamente os índios são chamados), os estudantes os levavam ao último andar do edifício da universidade, e os jogavam pelas janelas, para vê-los estourar na calçada, lá embaixo. Verdadeiros humanitários, prontos para salvar a Bolívia e o mundo.

Mais ainda, a enfermeira amiga do professor contou-me, na presença do mesmo, como ele fora "responsável pela morte de Che Guevara"! Perguntei então a Carafa como isso acontecera. Replicou-me que de fato ele e a liderança trotskista boliviana tinham convidado Guevara a liderar a revolução naquele país. Criam eles, assim me asseverou, que Guevara fosse um "marxista autêntico". Porém, quando este chegou à Bolívia, descobriram que não passava de um "stalinista enrustido", em quem não podiam confiar. Tentaram "educá-lo" no caminho do "marxismo autêntico", mas este se recusava a discutir o assunto. Deram-lhe então livros de Trotsky e outros sobre o trotskismo, para que descobrisse a "verdade" por ele mesmo.

"Sabe o que ele fez?", exclamou Carafa indignadamente, "rasgou os livros de Trotsky y los echó en la basura (jogou-os no lixo). Não tínhamos como manter um diálogo com Che Guevara. Então o abandonamos. Não foi nem necessário denunciá-lo às autoridades. Elas mesmas o encontraram e o mataram".

O revolucionário professor Carafa se sentia totalmente vindicado, pelo que ele e seus amigos trotskistas tinham feito à Guevara. Fora uma disputa ideológica, entre Che e seus companheiros bolivianos, resultando na morte do herói argentino da Sierra Maestra, de acordo com a versão daquele professor da Universidade de San Andrés. O tiro dado em Che Guevara pode ter saído do fuzil de um soldadinhocholo qualquer, mas a responsabilidade de sua morte fora dos trotskistas bolivianos que o abandonaram. "Bem feito", lia-se nas entrelinhas do que Carafa me contava. Não ouvi dele nenhuma palavra de arrependimento pelo que fizera.

Lido 1647 vezes Última modificação em Terça, 26 Maio 2015 21:23
David Gueiros Vieira

PHD em História da América Latina, Mestre em história dos Estados Unidos da América, conferencista e um dos maiores especialistas brasileiros em História da Questão Religiosa do Brasil.