Quinta, 04 Abril 2013 00:19

A Imagem do Brasil e os Negócios Internacionais

 
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A resposta brasileira de longo prazo ao dinâmico avanço das empresas e investimentos da PR China na busca de mercados e recursos naturais nas Américas, África e na Europa do Leste é a construção de uma nova imagem do Brasil - produtor de bens e serviços de excelência, com preços e qualidade concorrenciais ao que melhor existe no mundo.

Isto reverte, em parte, o atual foco empreendido pelas agencias governamentais de fomento as exportações calcadas no conceito de cadeias produtivas, útil para determinados segmentos, mas que não deve ser estendido aleatoriamente para o conjunto da economia brasileira, pois dadas as características únicas do Brasil - população culturalmente homogênea, língua, território e geografia - temos a necessidade de criar um modelo autóctone que espelhe tanto o potencial quanto as reais alternativas do empreendorismo brasileiro. Isto exige decisões políticas com repercussões de longo prazo. O que descartar, como reordenar a produção, administrar a extração das matérias-primas, como requalificar os empregados e principalmente como priorizar financiamentos de longo prazo.

Pensar a inserção e os desafios do Brasil no cenário internacional num horizonte de 25 a 50 anos é o que necessitamos para não perdermos o atual espaço na corrente internacional de comércio, conquistar novas fatias e ampliar a diversificação de mercados, necessária a consubstanciação do necessário esforço de ampliação do Poder brasileiro no concerto das nações, em processo de reordenamento, de divisão das atuais fronteiras de Estados nacionais. O atual processo de relações internacionais é reflexo desta realidade que se espelha no incremento das características regionais, vis a vis, os esforços de integração que ocorrem desde o final da II Guerra Mundial. É neste processo antagônico, no qual o local e valorizado em detrimento do estrangeiro, mesmo que este seja produzido a  menos de trinta quilômetros de distancia - claramente observado na União Européia, na África e na Ásia - que fortalece a necessidade da qualidade e da diferenciação. É tão somente a "não commoditie" que pode ampliar as oportunidades de crescimento orgânico do comércio exterior brasileiro.

O Chile, no contexto da América do Sul, através de suas elites, no transcurso dos últimos 30 anos, modificou sua estrutura econômica, sem abrir mão da amplitude e qualidade do seu aparelho social, de forma a fazer frente a necessidade de externar a Poder econômico de país com limites endógenos: população, economia e geografia. Em contrapartida, na maior parte dos nossos países lindeiros não houve a adequada discussão e concretização das mudanças econômicas inerentes a nova configuração das relações internacionais. Em particular, após o início da década de 90, do século passado, as questões de cunho ideológico, em boa parte dos países, perderam espaço para a constatação que cada unidade nacional necessita preservar e ampliar sua capacidade de externar Poder, de forma a ampliar suas vocações econômicas (obviamente não estão limitadas às  unidades produtivas no conceito marxista). Da oferta de commodities às empresas especialistas na prestação de serviços há a ampliação das oportunidades de inserção internacional, que se refletem em ampliação do externamento do Poder, além fronteiras e continentes. É isto que a RP China, por decisão de suas elites (parte delas recuperada aos cárceres), esta desenvolvendo nos diferentes quadrantes.

A RP China, por não ter a capacidade de externar Poder militar além de suas fronteiras, por necessitar abrandar os focos de instabilidade decorrentes de suas 53 etnias e idiomas, por ensejar recuperar seu espaço no influência para além de seus vizinhos geográficos, bem como impulsionar as relações com sua diáspora de mais de 70 milhões de chineses étnicos, espalhados, a mais de 800 anos por boa parte da Ásia, fez com que suas elites, na lógica confusiana, empreendessem, desde a década de 80 do século XX,  a retomada do processo que visa a recuperar a importância que a China tinha no mundo até o século XVII. Neste sentido, existe um planejamento orquestrado de extensão do Poder chinês em várias frentes, tanto no sentido de garantir o fornecimento de petróleo oriundo da África quanto de fomentar, como investimento de longo prazo mercados para suas manufaturas. O que ainda não se observa, dado o embrionário estado deste cabedal de produtos na própria China continental, é a busca de alternativas chinesas no mercado mundial de serviços, que tende a ser implementado com auxilio dos empreendimentos de chineses étnicos da sua diáspora. É neste universo que existem as melhores possibilidades do Brasil externar seu Poder, desde que haja um esforço, que se inicie de pronto, neste sentido.

O Brasil esta atrasado em mais de 15 anos em fixar sua presença na Ásia Meridional. Perderam-se fantásticas oportunidades de marcar presença na construção das economias dos Estados oriundos da dissolução da URSS, ocupado por empresas da União Européia, dos EUA, da Índia, da Coréia do Sul, do Japão e nos últimos anos da própria China. Até a pouco o único empreendimento empresarial brasileiro era uma franquia da H Stern em Alma Alta -Cazaquistão. Em relação a África a situação não é muito melhor, apesar deste continente ser desde a década de 70 foco de ações pontuais, geograficamente localizadas, do Estado e de empresas brasileiras - Petrobras, Camargo Correa, Odebretch, MarcoPolo, etc. Nas demais regiões geográficas o fato se repete. São poucas as iniciativas continuas de fixar o Poder brasileiro por meio de ações empresariais. Quando isto ocorre dá-se pouca atenção as iniciativas no setor de serviços - o maior cabedal de potencialidades de externar marcas e associação com a identidade de um país no imaginário da população consumidora deste ou daquele produto ou serviço. O Brasil, sem estratégia de longo prazo continua a ser identificado com o futebol e algumas commodities. Nem o café recebeu um esforço de identidade semelhante ao promovido pela Colômbia nas últimas décadas.

Dado o exposto, o que pretendemos frisar, é a necessidade de uma confluência de esforços dos empresários e do aparelho de Estado, no sentido que as ações de internacionalização da imagem do Brasil, e consequentemente, a ampliação do sua capacidade de externar Poder sejam rapidamente elevadas a prioridade zero. Não há mais condições de sermos conduzidos a ocupar espaços secundários no conjunto de ações que compõe as atividades internacionais, sem o risco de continuarmos a perder oportunidades e espaços e a conseqüente falta de novos postos de trabalho.

Para tanto exige-se que sejam alocados, pelos empresários e Estado, recursos e tempo para induzir a adequada inserção do Brasil dado seus diferenciais únicos.

A alternativa a esta necessidade de capacitar o Brasil a externar seus condicionantes de Poder, se dá em continuarmos, como empresas e indivíduos a copiar modismos e compreender o Mundo na ótica de um Europeu do século XV.

Lido 2786 vezes Última modificação em Terça, 26 Maio 2015 21:27
Jean-Claude Silberfeld

Economista, Pós-graduado em História e professor de pós-graduação em Relações Internacionais e Assuntos Econômicos;

Especialista em economia brasileira, Ciências Políticas e Relações Internacionais