Quinta, 04 Abril 2013 00:00

Amazônia: Afinal uma Boa Notícia

 
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De 1982 até 1996, participei de mais de uma dúzia de viagens ao longo do rio Amazonas. Partindo de Macapá, no Amapá, íamos até Iquitos no Peru, e de volta a Belém do Pará. Essas viagens em geral duravam um total de 45 dias.

 

Destarte, conheço todo o percurso do Amazonas, praticamente palmo-a-palmo, ao longo daquela rota. Não apenas subíamos o Amazonas, como também vários dos seus afluentes. Viajava como "lecturer" das chamadas "expedições", da Society Expeditions, de Seattle, Washington, que promovia viagens de "turismo ecológico" pelo mundo afora. Os viajantes eram na sua maioria "turistas inocentes", mas entre eles havia sempre pessoas, ou grupos de pessoas, que defendiam uma tomada do Amazonas pelos europeus ou americanos (dependia de quem fazia tal proposta), em defesa do que chamavam de "um bem comum da humanidade".

Em minhas aulas para eles, sempre fiz o máximo para apresentar o ponto de vista brasileiro, e demonstrar que esse desejo de se apoderar da Amazônia era antigo, vindo desde os dias coloniais, e como os colonizadores portugueses tinham defendido a região ferozmente, fechando o rio a toda e qualquer incursão estrangeira, fosse de natureza "turística", comercial, ou o que seja. Graças aos portugueses, a Amazônia permanceu brasileira.

Lembrava-os ainda como o Secretário da Marinha Americana Matthew Fontaine Maury, em meados do século XIX, defendera uma possível invasão do Amazônas por "um povo másculo e civilizado", que soubesse e pudesse explorara suas riquezas, ditas "infindas" (os norte-americanos, evidentemente). Salvou-nos a Guerra Civil Americana (1860-1865), que desviou a atenção americana para outros empreendimentos. Tivesse a proposta de Maury prevalecido, a Amazônia teria sido destruída por levas e levas de colonos, sem a menor noção da fragilidade do meio ambiente amazônico. Com o agravante que a mesma teria se tornado um grande centro de escravagismo africano, pois era isso que Maury propunha: usar a Amazônia como um "dumping ground" de escravos africanos, tirados dos EUA - "livrando-os" assim da população negra - para fazer o trabalho dos brancos nas selvas amazônicas.

Não apenas os americanos tinham olho grande na região. Em um dado momento, o Imperador Napoleão III quase que matou o embaixador brasileiro de susto, em Paris, quando muito casualmente o informou de que a França em breve ocuparia a região, mas que isso não deveria preocupar os brasileiros, pois esses ainda ficariam com um grande território, maior do que a maioria dos países europeus!

A "abertura" da Amazônia, foi feita de maneira alvoroçada, e logo essa virou campo de atividade dos seringueiros, o que tornou aquele lugar numa verdadeira "casa da Mãe Joana". Meu avós, ambos paternos e maternos, participaram da migração nordestina para terras amazônicas, de modo que meu conhecimento daquele período foi adquirido de "primeira mão", daquilo que eles pessoalmente me contaram. Muitos parentes nossos ainda ficaram por lá, e se distiguiram na jurisprudência e no governo do Pará.

O que vi e ouvi falar, em minhas andanças por aquelas regiões, foram coisas inacreditáveis. Constatei a presença de estrangeiros se apoderando de áreas com depósitos minerais de todo tipo, que são "exportados" de avião e por barco, sem o conhecimento das autoridades brasileiras. Encontrei barcos de traficantes estrangeiros, vindos do Tabatinga, inclusive cometendo crimes comuns contra a população ribeirinha, centenas de quilômetros adentro do território nacional.

Certa feita, enviei relatório ao Ministro do Interior (com quem trabalhava) sobre um crime contra uma certa senhora, estuprada e depois despedaçada com facões, cometido por traficantes "peruanos", evidentemente drogados, mas que a Polícia Federal, encarregada da segurança na área, alegou ser mentira minha. Passei por mentiroso, e "mitômano", e achei melhor calar a boca, e nunca mais relatar coisa alguma do que encontrava de errado naquelas paragens.

O que ocorre de errado naquela região, em geral ocorre com a conivência das próprias autoridades, ditas "competentes".

Essa nova política, de controlar a presença estrangeira na Amazônia, já ocorre muito tarde.trata-se de seção notícias ,de 5 de maio, pag 16 do jornal inglês THE INDEPENDENT, da autoria do repórter Marco Sibaja relativa a sessenta por cento do território brasileiro pode se fechar para estrangeiros que não obtiveram uma autorização especial para visitar a maior floresta tropical do mundo,mas, quem sabe? Talvez venha mitigar esse problema gigantesco, naquela região que é legalmente nossa, mas que ainda não é efetivamente controlada pelo Brasil.

E as Farc, hein? Quem fica de olho nelas?

Lido 3836 vezes Última modificação em Terça, 26 Maio 2015 21:36
David Gueiros Vieira

PHD em História da América Latina, Mestre em história dos Estados Unidos da América, conferencista e um dos maiores especialistas brasileiros em História da Questão Religiosa do Brasil.