Sábado, 29 Novembro 2014 15:05

Entre o Rio e os Pássaros

 
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Em 2008, Iowa City, uma bucólica cidade do estado de Iowa, foi declarada pela UNESCO uma das três cidades literárias do mundo (as outras são Edimburgo, na Escócia,e Melbourne, na Austrália. Iowa City tem 70 mil habitantes,41 parques e um rio que verdeja a vida.

 

Situada nesta cidade, a Universidade de Iowa possui um conceituadíssimo programa nacional de criatividade literária, o Iowa Writing Program, que é o mais antigo dos Estados Unidos. Dele já participaram escritores e poetas laureados com os prêmios literários mais importantes do país, como o Pulitzer. Além dele, o Iowa International Writing Program reúne anualmente um leque de escritores estrangeiros renomados e desde 1967, mais de mil escritores de 120 países passaram por ele, desde o turco Orhan Pamuk, ganhador do Nobel de literatura de 2006, ao poeta e escritor brasileiro Affonso Romano de Sant’Anna, que ganhou o prêmio Jabuti por seu belo livro de poesias, Vestígios. Iowa City tem uma propagada alquimia literária e o festival literário de verão atrai centenas de aficcionados que participam intensamente de oficinas literárias de ficção, poesia e outros gêneros.

Além de programas literários voltados para o público em geral, a Universidade de Iowa oferece há oito anos um programa específico para médicos e profissionais da área de saúde, destinado a incentivá-los a escrever sobre as experiências e emoções vividas no desempenho diário de sua profissão. O programa "A Vida Examinada: a Escrita e a Arte da Medicina" faz parte de uma nova tendência de introduzir as artes, a literatura e as ciências humanas no currículo de algumas escolas americanas de Medicina como meio de humanizar a forma como os médicos praticam sua profissão. Pressupõe-se que a base geral e humanística dada ao médico pelas ciências humanas torne mais próximo o relacionamento médico-paciente e quebre os laços de autoritarismo muitas vezes presentes nesta relação. Objetiva-se ainda uma participação mais ativa e mais responsável do paciente em seu plano de tratamento, possibilitando a ele uma melhor compreensão de sua doença e maior êxito em sua cura.

Em abril de 2010, como médica, participei deste programa na companhia de outros profissionais americanos e estrangeiros. Durante estes dias de convívio literário, médicos, terapeutas e estudantes apresentaram seus trabalhos literários, poemas, reflexões ou textos baseados em suas vivências médicas. Uma médica que foi diagnosticada com câncer, outra que foi diagnosticada com uma doença neurológica degenerativa, um médico cirurgião que teve um derrame cerebral, não podendo mais por isso exercer sua profissão, e outros profissionais, leram depoimentos nos quais falaram sobre seus conflitos interiores, sobre suas lutas contra as adversidades criadas pelas suas enfermidades, sobre seus caminhos para reencontrarem o equilíbrio e para olharem outra vez a vida com esperança. Um terapeuta falou sobre a poesia e sobre a "terapia da amizade" como formas de ajuda para pacientes depois de receberem quimioterapia. Tomamos conhecimento de novos projetos em que pacientes escrevem nas salas de espera dos médicos, antes de entrarem para as suas consultas. Um médico cardiologista deu uma palestra intitulada "Os Ecos do Coração", em que revelou que escreve poemas para seus pacientes e vai a suas casas com sua mulher para fotografá-los. Depois os presenteia com a fotografia e com o poema. Assistimos a um documentário de estudantes de medicina que visitam e filmam pacientes em suas casas, na realidade de seu cotidiano. Desta forma, podem avaliá-los e compreendê-los de uma maneira mais completa, entendendo melhor a dinâmica de suas doenças e a influência do meio ambiente em suas necessidades físicas, psicológicas e sociais. Enfim, fomos incentivados a ouvir nossos pacientes não só com a razão, mas com o coração.

Enquanto escrevia este artigo, sentada próxima a uma janela de vidro do quarto de hotel onde me hospedei, eu contemplava o esplendor da primavera e as sombras dançarinas dos pássaros, que voavam entre copiosas árvores. Esta imagem de metamorfose e de liberdade fez-me refletir sobre o alívio que a escrita muitas vezes nos proporciona, sobre as portas que ela nos abre, sobre os labirintos que ela nos faz percorrer, sobre a importância da história de cada ser humano, não só como paciente, como médico ou como profissional de saúde, mas como pessoa. Escrever é um ato de introspecção, de reflexão, de busca. Quando compartilhamos o que escrevemos, não só expomos nossas vulnerabilidades, mas compartilhamos nossas esperanças

Lido 1257 vezes Última modificação em Terça, 26 Maio 2015 19:01
Monica Campos Hanson

Médica e articulista

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