Sábado, 29 Novembro 2014 13:29

O Dalai Lama: Educar o Coração

 
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Vi-o de perto. Trajando sua típica roupa vermelha e amarela, bem humorado e alegre, humilde, sem ser submisso, e de coração leve, mais parece um jovem sábio do que um líder espiritual de 75 anos, que já escreveu 72 livros e é respeitado por milhões de pessoas.

 

Enquanto o presidente da universidade falava, apresentando-o ao público e agradecendo-o pela visita, descontraidamente ele limpava com um lenço o suor do rosto e se curvava para desabotoar e retirar os sapatos, sem se importar com as câmeras de televisão que o filmavam nem com os fotógrafos e as centenas de pessoas que, fascinadas, o observavam. Depois levantou-se e de mãos juntas, baixando a cabeça, curvou-se várias vezes em sincero e reverencioso agradecimento budista, sentando-se com as pernas cruzadas num pequeno sofá individual, para responder às perguntas que lhe faziam cinco educadores e líderes comunitários, duas mulheres e três homens, que estavam sentados a seu lado no palco da Universidade do Norte de Iowa ( University of Northern Iowa), onde fui ouvi-lo: o Dalai Lama. "Educando Para Um Mundo Não-Violento" era o tema da palestra.

Ele advertiu que não possui poderes especiais de curar nem de conceder graças e que sua a mensagem não era sofisticada, nem política, mas era uma mensagem simples de compaixão. Confessou achar saudável conversar com pessoas que têm opiniões diferentes da sua e que se dá o direito de mudar de opinião, se ouvir argumentos que o convençam de que ele não está certo. Afirmou acreditar que, essencialmente, todos os seres humanos nascem bons e que são exatamente iguais nos seus direitos e desejos individuais. Disse ser otimista em relação à resolução dos conflitos mundiais ainda neste século, se cada um de nós tentar conseguir a paz individual, a paz nas nossas famílias e nas nossas comunidades. Dissertou sobre a importância do amor desde o início da vida da criança e afirmou que o mal e a violência têm raízes na pobreza, não só econômica, mas, sobretudo, na pobreza da alma. Comentou sobre a mídia que nos bombardeia constantemente com noticias sensacionalistas e ruins, fazendo-nos crer que a maioria das pessoas é má e corrupta. Não, a maioria das pessoas é boa, ele acredita. Mostrou que precisamos nos desligar mais do barulho e dos estímulos tecnológicos incessantes para que, no silêncio, possamos buscar e cultivar uma certa paz interior, tão necessária ao espírito.

O tema que repetiu várias vezes foi o valor da educação desde cedo nos lares e, nas escolas, quando as crianças precisam ser ensinadas que conflitos não se resolvem através da violência, mas do diálogo. Enfatizou a necessidade de ensinar-se a ética do comportamento, que não deve ser baseada em nenhuma religião, mas no respeito que cada pessoa deve ter por si mesma, pelos outros e pelos direitos básicos e iguais que tem cada ser humano. Declarou que, acima de qualquer religião e acima da segurança nacional de cada país, devemos ter como prioridade o bem estar da comunidade global do planeta, do qual somos todos cidadãos. Emocionou-me quando, com a mão fechada posta sobre o lado esquerdo do peito, descreveu convictamente outra forma essencial de educação, fora a da mente: a educação do coração.

Ao encerrar, sorrindo com seus olhos escuros, que brilhavam como pequenas luas, o Dalai Lama agradeceu ao publico e ao presidente da Universidade, que mais tarde lhe outorgou um diploma de honra. Colocou o xale branco da paz no presidente da Universidade, nos cinco convidados que participaram dos debates, e na intérprete que traduzia a conferência para a linguagem dos surdos. Ao perceber a emoção desta ultima, pela inesperada honraria recebida, o líder espiritual colocou as mãos em seu rosto, num gesto público de delicadeza e afeto.

Sai da conferência refletindo sobre os monumentais problemas mundiais que nos desafiam e nos ameaçam, contudo, senti-me mais leve e em comunhão com o universo. Senti-me, sobretudo, grata pelo privilégio da educação do coração recebida deste simples monge do Tibete.

Lido 1275 vezes Última modificação em Terça, 26 Maio 2015 19:06
Monica Campos Hanson

Médica e articulista

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