Sábado, 29 Novembro 2014 13:27

A Intentona do Recife - 1935

 
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Sobre a Intentona comunista , tem-se mais notícias do que ocorreu no Rio do que o que ocorreu no Recife e em Natal.

Eu estava presente naquela hora, no Recife (eu então com 6 anos de idade) mas guardo dela algumas memórias .

Dias depois da Intentona, toda a família Gueiros estava de volta ao Recife, hospedada no Seminário Presbiteriano do Norte, que estava vazio por ser época das férias escolares. Esse seminário está localizado na margem do Capibaribe, fazendo face ao quartel da polícia militar do Derby, no outro lado do rio. Era um domingo (25/11/35), mas a família não fora à Igreja Presbiteriana, no centro da cidade. Os pastores da família permaneceram todos no Seminário: meu avô, meu pai e meu tio Israel, que era o decano daquela instituição. Em vez de ir ao centro, celebraram um culto num dos salões do velho casarão. Mas como eu era muito criança, esse detalhe me passou despercebido.

Ocorre que, depois do almoço, nós as crianças fomos arrebanhadas e levadas para dormir em um dos dormitórios do seminário, que fora uma senzala nos velhos tempos. Esperava-se uma revolução, pois essa já começara no Rio Grande do Norte, desde a sexta-feira, dia 23. Mas disso as crianças, evidentemente, nada sabiam.

Mal tínhamos começado a dormir, quando ouvimos barulho de explosões, que nos pareciam bombas e foguetes de São João. Essa impressão nos seria confirmada pelo barulho que ouvíamos, vindo do pátio lá fora. Era como o zumbido de muitas abelhas, e depois estalos que nos pareciam serem de “chumbinhos” de São João, daqueles que explodem quando são jogados ao chão.

Acordamos excitados com as “bombas e chumbinhos”, e queríamos sair para participar da festa de São João. O jovem tio Uziel Furtado Gueiros que nos guardava exclamou: “Começou a coisa”. Dito isso, ele passou chave na porta da entrada, montou uma espécie de casinha com as camas e colchões de palha disponíveis, e nos convidou a brincar escondidos do “lobo mau” que estava lá fora. Ali ficamos por várias horas, sempre querendo sair, não entendendo o perigo pelo qual estávamos passando. O zumbido das “abelhas” e o estalar dos “chumbinhos” continuavam. Ouvíamos muitos gritos, que vinham da fábrica de óleos comestíveis ao lado. Os operários tinham se apoderado da mesma. Desde o telhado do edifício estavam utilizando a fábrica como base para atacar o quartel da polícia no outro lado do rio. Dizem que tinham outro ponto de ataque ao quartel, na altura do Clube Internacional, fazendo assim uma triangulação quase que perfeita. Do quartel, os soldados respondiam o fogo, com fuzis e metralhadoras, e as balas se espalhavam por toda a vizinhança.

A fábrica pertencia à família da futura mulher de Miguel Arraes. Dizem as más línguas que Arraes, que era funcionário dessa mesma indústria, participou da rebelião. No entanto, isso é negado pela sua biografia oficial (ênfase em “oficial”). Arraes que casou com a filha do patrão, mais tarde atuaria na esquerda brasileira como um dos seus mais conceituados líderes. Foi preso na Revolução de 1964, processado, porém solto pelo procurador militar Eraldo Gueiros Leite, por falta de provas daquilo que o acusavam: de ter incendiado um quartel militar.

Em tempo, houve um cessar-fogo, naquela tarde de domingo, e correu a notícia que era para permitir que as famílias, presas nos cinemas do centro, pudessem voltar para casa. Nesse ínterim, vieram pessoas da casa grande, e nos levaram para lá.

No entanto, o tiroteio continuou por três dias. Havia um outro ponto que fora tomado pelos revolucionários: a Igreja do Largo da Paz. Da torre daquela igreja, o chefe comunista Coronel Muniz Faria, da Policia Militar Pernambucana, atirava com uma metralhadora contra a tropa que vinha de Jaboatão, para acudir a capital.

Nessa tentativa de revolução houve mais de 470 vítimas, entre mortos e feridos, no Recife e Jaboatão. Falava-se que cem dos rebeldes teriam sido mortos. Entre os feridos estava meu avô, o pastor Antônio Gueiros, que fora baleado desde o primeiro dia, ali mesmo no seminário. Durante o cessar-fogo, ele saíra pelo terreno do seminário para apanhar frutas e cortar cana, a fim de alimentar a família. Um dos rebeldes, no telhado da fábrica ao lado, deu-lhe um tiro, e ainda contou para os companheiros: “Matei um bode”. O termo “bode” era muito usado, naquela época, para designar os protestantes.

Meu avô, gravemente ferido, com a perna traspassada por uma bala, que lhe atingira a veia safena máxima, quase que morreu naquela hora. Foi levado a um hospital pelo sobrinho Nehemias Gueiros, com o auxílio do missionário americano Langdon Henderlite. O horror daquele momento me ficou gravado na memória para sempre.

Desde aquela tarde de domingo, e nos dois dias seguintes - até o fim do conflito - passamos todos arrebanhados numa pequena sala sem janelas, ao pé da escada que dava para o primeiro andar da casa. Minha mãe, de tanto medo tremia de “frio”, naquele calor de 30º C, do verão recifense. Ninguém se atrevia a sair daquela sala protegida. Não sei mesmo como foram preparadas as refeições naquele período, pois a cozinha tinha vários janelões que davam para o rio, de onde vinham as balas contra a fábrica. Como eu e meu irmão Manuel somos os últimos sobreviventes daquele grupo – ele na época com 4 anos apenas – não tenho com quem conferir os detalhes do que aconteceu conosco naquele momento.

Meu avô sobreviveu ao balaço recebido, tendo, no entanto, perdido a perna, gangrenada por falta de cuidados imediatos. Sem dúvida aquele foi um momento de grande perigo e angústia para todos nós, do qual nos salvamos pela graça de Deus.

Mas depois do tiroteio, os revolucionários pularam o muro do seminário, e buscaram nele refúgio. O meu tio Israel Gueiros, fez uma reunião com todos os outros pastores lá. Decidiram dar abrigo aos rebeldes, pois temiam que fossem fuzilados, caso fossem entregues às autoridades. Esse ato de caridade e amor cristão não foi retribuído, por aquela gente. O fato se comprova quando, em 1964, os documentos do Partidão, encontrados pela Exército, indicavam que toda a família Gueiros estava marcada para ser exterminada, como ocorrera pelo mundo afora com os ditos "inimigos" do comunismo, onde o mesmo fora imposto.

Lido 1021 vezes Última modificação em Sexta, 22 Maio 2015 09:06
David Gueiros Vieira

PHD em História da América Latina, Mestre em história dos Estados Unidos da América, conferencista e um dos maiores especialistas brasileiros em História da Questão Religiosa do Brasil.