Sábado, 29 Novembro 2014 13:26

Em Tempos de Ecologia

 
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Existe na Biblioteca Nacional, na Coleção Tavares Bastos, um levantamento das florestas do Brasil em meados do século XIX.

O Brasil era então uma grande floresta, até mesmo no Nordeste, na chamada Zona da Mata. Tavares Bastos foi um dos mais lúcidos e admiráveis deputados nos dias do Império, e queria preservar essas florestas. Ocorre que para o brasileiro de então (e muitos de hoje também) mata queria dizer atraso, selvageria. Era preciso derrubar tudo, para se parecer "civilizado". A floresta envergonhava.

E hoje? Lembro-me de um recado que a NASA mandou ao governo do Brasil, anos atrás, dizendo: "O Amazonas pegou fogo". Mandou também fotos tirados por satélites mostrando grande parte do Amazonas coberto de fumaça. Tratavam-se de centenas de km2 de terra que a Wolkswagen comprara, mandara colocar produtos químicos desfoliantes e tocar fogo. Tudo para transformar aquilo em pastagem. Talvez quisessem criar um novo tipo de vaca no Brasil, marca Wolkswagen. Não vingou, porque o solo fértil na Amazônia é puramente superficial. Um ou dois metros abaixo vem areia, correndo-se o risco de ficarmos com um grande Saara nas mãos, se derrubarmos toda aquela floresta. Isso pode ser visto muito bem nas áreas do alto Solimões, onde o rio é ainda estreito e onde se encontram barreiras altas: vê-se claramente ali que a parte superior de um metro ou dois é de solo preto, seguido de uma camada de areia, em cima de outra camada de argila vermelha. Isso eu vi nas dez ou doze viagens que fiz com a Society Expeditions de Seattle, Washington, entre 1980 e 1996, subindo e descendo o Amazonas.

Anteriormente (1973) eu fizera uma viagem ao Brasil (morava então em New Jersey) como tradutor de um senhor industrial americano, dono de uma indústria de produtos químicos, que produzia desfoliantes para uso das FA americanas durante a guerra do Vietnam (praticamente desfoliaram todo aquele país, para encontrar os viet-congs - inutilmente, pois esses estavam escondidos em buracos por baixo da terra, e não podiam ser vistos do alto). Com o final da guerra ele ficara com milhões de litros do produto, e veio comigo ao Brasil para vendê-los ao governo brasileiro, para uso "na abertura das estradas na Amazônia". E vendeu.

Tempos depois, (1982) certifiquei-me do mal que aquele homem nos fizera, vendendo seu surpluss de desfoliantes. Viajei de automóvel de Marabá a Porto Nacional, e me doeu ver quilômetros e quilômetros de terra arrazada: as árvores desfoliadas e queimadas, algumas ainda não totalmente destruídas - com troncos e galhos pretos como carvão, mais parecendo braços e mãos elevadas aos Céus em busca de socorro. Um horror! Tinham colocado desfoliantes e tocado fogo em centenas de km2 de terra, tudo isso para plantar capim. Tentamos visitar uma dessa "fazendas", mas fomos expulsos de lá por homens armados de rifles. Por pouco não levamos uns tiros. Mas pareceu-nos que o capim não pegara muito bem, e que não estava vingando como desejavam. Foi um desperdício. As terras pertenciam a um banco brasileiro (convenientemente, não me lembro do nome do mesmo).

Enfim, é tempo de se tentar reflorestar o Brasil. Mas será que uma nova floresta "pegará"? As florestas amazônicas se auto alimentam - suas folhas caidas servem de alimento às árvores mães. As árvores que morrem apodrecem, caem e igualmente servem de alimento à floresta. E isso ocorre há milhares de anos. Como será feito esse novo reflorestamento? Como sempre ocorre no Brasil, os mesmos destruidores da floresta, no país, vão provavelmente, agora, serem pagos para reflorestá-lo.

Lido 487 vezes Última modificação em Terça, 26 Maio 2015 19:07
David Gueiros Vieira

PHD em História da América Latina, Mestre em história dos Estados Unidos da América, conferencista e um dos maiores especialistas brasileiros em História da Questão Religiosa do Brasil.