Sábado, 29 Novembro 2014 13:25

A Condição da Mulher Amazonense

 
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Os eventos ocorridos em uma cadeia de Ananindeua, no Pará, onde uma menina de 15 anos foi colocada em uma cela com 20 homens, para servir de “pasto” aos mesmos, traz à baila uma série de questões a respeito da condição da mulher naquelas paragens. Vamos por partes: o próprio evento, os atores, e a reação das autoridades.

 

É bom lembrar, de início, que Ananindeua é uma cidade de uns 500 mil habitantes, e que antigamente era distrito de Belém do Pará. Portanto, não estamos falando de pequena povoação no meio da mata. Estamos falando de uma cidade, elevada a município em 1944, dentro de um círculo dito “civilizado”, e bem próxima de Belém do Pará, em termos amazônicos.

O evento: uma menina de rua, conhecida como “cheiradora de cola”, há muito prostituída pelos outros moleques de rua, foi presa por tentativa de pequeno furto. Foi colocada em uma cela com 20 homens, e passou a ser sexualmente explorada por eles, em troca de comida. A cela tinha janelas para a rua. A menina gritava, pedia socorro aos transeuntes, mas todos a ignoravam. Finalmente, alguns dos presos – com um mínimo de consciência - reclamaram ao delegado sobre que estava ocorrendo com a garota. O delegado “solucionou o problema”: mandou cortar os cabelos da garota, o que foi feito com uma faca, de modo a deixá-la parecida com um rapazinho. Mas a exploração sexual continuou da mesma maneira.

A Governadora do Pará, Júlia Carepa, petista e grande defensora dos humildes, declarou-se “chocada”, mas não tomou nenhuma providência imediata. O chefe de polícia do Pará, inquirido sobre o assunto, argumentou que a menina não era menor de idade, pois já tinha 18 anos. Conclui-se então, que o que foi feito com ela não foi de encontro ao Estatuto da Criança e do Adolescente! Portanto, qual é o problema, cara pálida?

Mas o que é isso, meu Deus? Em que país do mundo as mulheres são postas à disposição dos homens, para servir de pasto sexual nas cadeias públicas? Isso poderia até acontecer em épocas medievais, mas estamos em pleno século XXI! Ou será que o Brasil e o Estado do Pará estão vivendo em alguma época do passado? Tenho para mim que sim.

Em seguida, descobre-se que isso ocorre com freqüência nas cadeias do Pará. Tanto assim, que logo depois que a notícia se espalhou, apareceram vários outros casos de mulheres, submetidas a esse tipo de barbaridade, em outras cadeias do Pará. Será que esse estado pertence mesmo ao Brasil, ou será ele algum país estrangeiro, com leis próprias, diferentes das leis nacionais? E nos outros estados da Amazônia, isso estaria acontecendo também? E fora da Amazônia? Alguém já fez um levantamento do que ocorre com as mulheres nas cadeias, ou mesmo fora das cadeias, pelo Brasil afora?

A condição das mulheres na Amazônia – bem como em outras partes menos civilizadas do Brasil - sempre foi precária. Quarenta anos atrás, quando participei de um estudo para traçar a rodovia que vai de Cuiabá à fronteira do Peru, fui informado do desprezo total pelo qual passavam as mulheres naquelas paragens. As meninas, a começar dos 12 a 13 anos, eram “alugadas” pelos próprios pais aos seringueiros, para cuidar de suas cabanas no meio da mata, na época da coleta da borracha. Ao terminar a estação, voltavam para casa já grávidas (aos 12 anos de idade!). Depois de parir, eram novamente alugadas, e novamente engravidavam. Dessa maneira, uma mulher de 35 anos, naquelas paragens, já tinha toda aparência de uma senhora de 60 anos. Era uma mulher fisicamente exaurida, pronta para morrer, de tanto parir. Usando hoje as palavras que utilizei no meu relatório daquela época, as mulheres naquelas regiões eram (eram?) consideradas apenas como “vacas parideiras”. Aliás, as próprias bovinas, naquelas paragens, eram sem dúvida mais bem cuidadas do que as mulheres.

Foi nessa época, de 1966/67, quando o insigne Dr. Eduardo Lane, dono de uma famosa clinica de ginecologia em Campinas, passou a viajar com freqüência à Amazônia, em seu próprio avião, levando socorro gratuito àquelas mulheres. Entre outros procedimentos médicos, procurava sustar essas gravidezes anuais, colocando nas mulheres dispositivos intra-uterinos (DIU), altamente recomendados pela ciência médica da época. Isso por serem esses dispositivos permanentes, inclusive não requerendo aquisição de medicamentos, que não eram de maneira alguma disponíveis no meio da mata, medicamentos esses que seriam caros demais para aquela população, ainda que existissem farmácias por lá. Tal procedimento médico, no entanto, não era utilizado sem critérios. Requeria-se que a mulher tivesse um mínimo de 35 anos, e que já tivesse passado pelo menos por 20 gravidezes! Ao contar isso a audiências nos Estados Unidos e na Europa, a reação de surpresa total que encontro é sempre a mesma: oh... oh... oh!

Ocorre que um repórter carioca, que andava pela área, foi informado por um padre local que isso estava ocorrendo. A interpretação do religioso era que “os americanos” estavam “esterilizando” as mulheres da Amazônia, para poderem mais facilmente se apoderar da mesma. Dr. Eduardo Lane não era americano, era brasileiro da gema. No entanto era homem religioso, e o trabalho médico que fazia na Amazônia era sua contribuição pessoal à missão evangélica local. Pior ainda, ele tinha um nome obviamente inglês.

Houve um grande alarde sobre o assunto na imprensa nacional, sempre liderada pela esquerda, até que as autoridades investigaram o assunto, e constataram o que é acima indicado. Tratava-se de uma obra de caridade, conduzida criteriosamente por um respeitado ginecologista paulista. Não havia um programa de esterilização das mulheres na Amazônia, como alegava a imprensa.

Ocorre que ninguém, naquela época, e nem mesmo hoje, tomou conhecimento da condição de vida das mulheres naquelas paragens. Elas eram consideradas como vacas parideiras, e aparentemente ainda hoje continuam a ser consideradas da mesma maneira. Mulher é pasto sexual, para ser consumido e jogado fora.

Para mim, portanto, o que aconteceu em Ananindeua não é uma surpresa. O surpreendente é que a governadora petista Júlia Carepa, alegadamente tão dedicada aos pobres e humildes, não tenha de imediato tomado providências para exonerar aquele delegado medieval – que é provavelmente um dos seus indicados – e mandado fazer uma investigação em todas as cadeias do estado, para que isso nunca mais aconteça. Mas isso é esperar demais dos nossos salvadores da pátria, pois esse tipo de ação nada rende para os cofres do partido.

Pobre Amazônia! Pobre Pará! Pobre Brasil! Pobres mulheres brasileiras!

Lido 1393 vezes Última modificação em Terça, 26 Maio 2015 19:08
David Gueiros Vieira

PHD em História da América Latina, Mestre em história dos Estados Unidos da América, conferencista e um dos maiores especialistas brasileiros em História da Questão Religiosa do Brasil.