Sábado, 29 Novembro 2014 13:19

Barulho de Bonde

 
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Centro de Documentação do Transporte – Federação dos Transportes – Cepimar

 

 Quando era carnaval, o Seu Zé do Bonde tratava de arrumar um atestado de doente para mostrar ao chefe da Companhia dos Bondes e ficar de licença durante os dias de folia.

Ainda moço, o rapaz tinha se empregado na Ceará Light em 1935, graças a ajuda de um padrinho, dono de um importante magazine de Fortaleza. Farda impecável, boné aprumado, com quase vinte anos, Seu Zé do Bonde era o motorneiro mais novo da cidade.

Dirigiu bondes elétricos por doze anos. Gostava do trabalho, mas o salário era pequeno e as dificuldades do trânsito desanimavam um pouco.  Só saiu em 1947, quando a companhia inglesa deixou de fazer o transporte. E, no meio da confusão das ruas de Fortaleza, a alegria do motorneiro era mesmo o carnaval. Entre 1940 e 1950, ele foi o compositor dos sambas-enredo do Bando do Morro, o bloco carnavalesco onde tocava banjo. Brincando nas ruas e gazeteando o serviço, tinha que se esconder quando cruzava com um bonde lotado de foliões. E mesmo depois que o bloco e a Ceará Light desapareceram, ele continuou a brincar na Escola de Samba Luiz Assumpção.

O certo é que bonde e samba eram velhos companheiros. Há muitos anos o cotidiano das ruas por onde passavam servia de matéria prima para os músicos boêmios de Fortaleza. Em 1901, Ramos Cotoco cantou as moças namoradeiras e o galantes cocheiros de bonde:

Se o bonde passa,

Está na janela:

Se o bonde volta,

Ainda ‘sta ella...

Namora a todos,

É um horror

Aos passageiros

E ao conductor

No tempo do Seu Zé Bonde, as moças suspiravam pelos motorneiros de bonde. Ele mesmo lembrava que trabalhar na Light, só valia à pena porque arranjava muita namorada. Era na Praia de Iracema, era no Benfica, era em São Gerardo, na Aldeota, em todo canto... Elas pulavam em cima do bonde e iam andar de graça pra cima e pra baixo. Às vezes eram duas três namoradas sentadas assim perto e eu sem poder falar com nenhuma.

 Das janelas, valia o flerte à distancia, que não passou despercebido aos sambistas do carnaval:

Pega a cabrocha

Pisca o olho

E cai no samba

Nos anos de1930, a intimidade do bonde com o carnaval rendia marchinhas. Como em muitas cidades, a folia era de graça, espalhada pelas ruas. Logo no começo de fevereiro Fortaleza se preparava para receber o corso nas ruas do Centro e da Praia de Iracema, por onde passariam os carros pendurados de fantasiados, confetes, serpentinas e lança-perfume. Nesses dias, ninguém pagava o bonde:

Não pago o bonde, Iaiá

Não pago o bonde Ioiô

Não pago o bonde

Que conheço o condutor

Não pago o bonde, Iaiá

Não pago o bonde Ioiô

Quando estou na brincadeira

Não pago o bonde nem que seja por favor.

No Rio de Janeiro, o bonde era o salão. Os foliões se penduravam nos estribos, cantando os sambas do ano e batucando nos balaústres. A cidade parava. Embarcar no bonde já era participar da festa. Wilson Batista, compositor da velha guarda, lembrava que o Ipanema nunca viajava vazio, trazendo as lindas cabrochas do Rio. Mas com os ares do Estado Novo, pouco a pouco a galhardia das marchas foi dando lugar ao elogio do trabalho no país entrava nos trilhos do progresso. Mas os bondes ainda tinham vez:

Quem trabalha é quem tem razão

Eu digo e não tenho medo de errar

O bonde de São Januário

Leva mais um operário

Sou eu que vou trabalhar

Depois eles foram saindo de cena. A velocidade dos ônibus era mais adequada à selva de pedra que os arranha-céus erguiam nas cidades. Levaram com eles os sambinhas e a alegria do tempo onde todos podiam brincar.

Seu condutor, tintim

Seu condutor, tintim

Pare o bonde

Pra saltar o meu amor

O Seu Zé do Bonde, contudo, não abandonou o violão. Ganhou diploma da Ordem dos Músicos do Brasil. Montou casa e criou os filhos misturando noites de samba e forró com biscates e pequenos consertos nas casas da vizinhança. Andando sempre de bicicleta.

Fontes:

O Povo, Fortaleza, 11 de setembro de 1999.

A Rua, Fortaleza,10 de fevereiro de 1934.

MENDONÇA, Paulo e IGLESIAS, Alexandre: Bonde: um Bloco Carnavalesco, Trapiche Produções/Canal Brasil, Rio de Janeiro, 2008.

RAMOS, Raimundo: Cantares Bohêmios, Fortaleza, Museu do Ceará, 2006.

Lido 696 vezes Última modificação em Terça, 26 Maio 2015 19:09
Patrícia Menezes

Professora e historiadora.