Sábado, 29 Novembro 2014 13:02

A FIESP e o Nordeste Brasileiro

 
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Nosso objetivo é procurar trazer alguns elementos que esclareçam as relações existentes entre a classe empresarial paulista e o Nordeste Brasileiro na década de 90. A escolha do empresariado industrial paulista como objeto de estudo foi ainda reforçada pela verificação da impossibilidade de aferir-se sua situação através de trabalhos existentes.

Primeiramente, partimos da idéia de que a FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) se via, tal como hoje,como a representante de classe vanguarda da indústria nacional e, segundo, que ela procura invariavelmente configurar como harmoniosas as relações entre as várias indústrias regionais” (1).

É óbvio que o empresariado representado notadamente pela FIESP dá ao Estado de São Paulo um papel preponderante no desenvolvimento industrial das demais regiões do país. Esta visão fica mais nítida não só quanto a este papel líder (porque ela representa aproximadamente 50% da capacidade industrial instalada no país), mas ainda quanto à produção industrial. Do exame preliminar da documentação selecionada, nota-se por exemplo a ênfase dada ao papel que a FIESP tem desempenhado em diferentes congressos industriais que principiaram a realizar-se durante os anos quarenta e as constantes alusões feitas à importância de suas contribuições ao Estado.

De qualquer forma, utilizando entrevistas de História Oral, tivemos esta posição de liderança da FIESP questionada pelos próprios empresários paulistas que ela, em última instância, representa. No caso específico de incentivo à Sudene e do Nordeste Brasileiro, a presença da FIESP  é dada como falha “para não dizer nula”. A FIESP nunca aprovou ajuda ao setor industrial. Formou-se inclusive um conselho na área têxtil, o Conselho Nacional da Indústria Têxtil”, que a representa junto ao Governo porque nós nunca encontramos nem na FIESP nem na Confederação Nacional da Indústria, um órgão tão vago com sendo nosso porta voz” (2). Inclusive, a FIESP é vista em sua atuação como tendo uma função reformuladora de sugestões políticas e não uma função reivindicatória de medidas imediatas. Assim, ficou sugerida pelos empresários a formulação política industrial em longo prazo, preferencialmente aos problemas do dia a dia. Observamos ainda que muitos empresários em contato com as autoridades governamentais passam à margem da Federação. Fica claro pois que as deficiências da FIESP existem e são vistas pelos empresários ouvidos: “Não digo que não deveriam existir...associações independentes...Mas... o esforço que é empregado por elas seria melhor se fosse empregado dentro da FIESP, para fortalecimento da entidade” (3).

(1)- Cf. Maria José Trevisan – “O projeto de empresariado e a estratégia de industrialização,1956 1960.” Dissertação de Mestrado – USP, p.5. Esclarecemos que por indústrias regionais devem-se entender as federações e centros das indústrias estaduais coordenadas pela CNI (Confederação Nacional das Indústrias). Esta coordenação compreende o canal legal estabelecido pela CLT, qualificando o CNI como interlocutor máximo da indústria nacional junto ao Governo Federal.

(2)- Jacks Rabinovitch – Vicunha – Entrevista realizada em São Paulo, 20.1.82, Arquivo pessoal.

(3)- José Mindlin – Metal Leve – Entrevista realizada em São Paulo,19.01.1982,Arquivo pessoal.

Umas observações comuns aos empresários, quanto ao Nordeste, está ligada ao envio de matérias primas de São Paulo para aquela região: o importante “é desenvolver mercados lá, ter importantes fábricas lá”. Esta opinião é a dos empresários Keith Busch e Roberto Vaz, da São Paulo Alpargatas (4), os quais consideram que o treinamento do operário é fundamental para a rentabilidade do trabalho efetuado pelo nordestino.”Não há no Nordeste uma tradição industrial e é preciso paciência” (5). Quanto à Sudene, é vista como tendo um futuro mais promissor se apoiada em empresas do tipo da São Paulo Alpargatas, que fabrica no Nordeste produtos vendidos lá mesmo. O envio da matéria prima para ser processada no Nordeste, voltando o produto final a São Paulo, é tido pois como parte da falta de preocupação do Governo Federal no favorecimento das indústrias que realmente tenham mercado total.

Alguns erros básicos da concepção da política da Sudene são também apontados pelos empresários. Para o industrial José Mindlin: “Houve uma preocupação muito grande com a criação de uma indústria altamente sofisticada tecnologicamente enquanto a agroindústria e a agricultura ficaram relegadas a um segundo plano. Deu-se um incentivo ao capital que criou indústrias de capital fixo, em vez de se criar indústrias para mão-de-obra, de modo que não se resolveu no Nordeste o problema de criação de empregos”. Continua a haver um desemprego maciço(6). A concentração de empregados na indústria nacional examinada mais adiante neste trabalho encaminha-nos a esta mesma conclusão.

A própria mentalidade nordestina sempre em busca de auxílios, ontem imperial, hoje federais, foi também apontada. Contudo, para alguns dos empresários paulistas, já começa a haver por parte dos empresários nordestinos mais jovens uma certa consciência de que a saída dos problemas econômicos do Nordeste deve ser tentada através da solução econômica e não mais ligada a uma política de localismos e divisão de poder entre as oligarquias.O Nordeste é visto ainda como uma região da “indústria das secas”, embora só uma minoria dos entrevistados relacione a decadência de hoje com a ausência de um substituto econômico conveniente na época da decadência do açúcar.

A atuação da Sudene aparece em alguns momentos semijustificada em épocas de alta inflação, quando esta provoca uma perda de recursos em termos de seu recolhimento ficando a liberação nos bancos necessariamente doze ou mais vezes mais cara. Assim, uma inflação de 110% por exemplo, provoca um prejuízo para a Sudene, um prejuízo para o contribuinte e no fundo quem ganha com isso é a Secretaria da Receita...(7).Desta forma, é comum, entre os empresários ouvidos, a proposta de uma revisão na mecânica do 34/18 “para se ter certeza de que a totalidade das vantagens seria assegurada com a Sudene e com o projeto que ele está incentivando. Isto porque o empresário estaria pagando a metade do custo da instalação de sua indústria”. Outra crítica vai à realocação dos recursos que seriam dados à Sudene para outros investimentos como a Transamazônica... A Transamazônica foi um lapso em todos os sentidos. Pegou metade dos incentivos da Sudene e, comparando-se com o que era a situação há dez anos atrás, o valor econômico é parte do que era então... logo não houve vantagens para a região da Sudene (8).

Contudo, uma parcela do empresariado mantém simplesmente – como é o caso do empresário Paulo Villares – algumas participações nacionais na região. A indústria Villares operou em Salvador logo depois que a Sudene foi criada. Esta corrente considera que a existência da mão-de-obra mais barata no Nordeste é ilusória, pois “o que a gente quer é melhorar o padrão de vida da região e obviamente os colaboradores e empregados passam a receber melhores salários, e o custo de mão-de-obra sobe, é natural” (9).

(4) Keith Bush e Roberto D’Ultra Vaz – São Paulo Alpargatas – Entrevista realizada em São Paulo, 14.3.82, Arquivo Pessoal.

(5) Ibidem.

(6) Mindlin, entrevista citada.

(7) Keith Bush e Roberto D’Ultra Vaz, entrevista citada.

(8) Ibidem.

(9) Paulo Villares – Indústria Villares – Entrevista realizada em São Paulo, 17.01.82, Arquivo Pessoal.

O setor têxtil aparece como tendo evoluído dentro da melhor tecnologia industrial e comercial existente no Brasil. O Ceará é o exemplo mencionado pelo empresário Jacks Rabnovitch o qual considera que neste Estado há uma maior permeabilidade à indústria e às idéias novas (10).

De qualquer forma, não podemos esquecer de demonstrar aqui com alguns dados numéricos a situação de penúria atual do nordeste brasileiro. Do exame destes dados, verificamos que, na prática, a política de incentivos fiscais aplicada pela Sudene e a preconizada industrialização regional ainda não se realizaram.

Senão vejamos, o Nordeste é sem dúvida hoje a região mais pobre do Brasil e esta situação tem-se agravado a partir de 1980. Isto fica claro a partir do exame dos dados seguintes ligados à distribuição regional da pobreza:

REGIÃO

FAMÍLIAS POBRES

FAMÍLIAS NÃO POBRES

TOTAL DE FAMÍLIAS

ANO

1970-1980

1970-1980

1970-1980

Norte

3.3 – 5.0

3.5 – 4.3

3.4 – 4.4

Nordeste

4.9 – 50.0

19.0 – 22.3

28.3 – 27.2

Sudeste

33.1 – 26.0

53.6 – 49.49

44.6 – 45.6

Sul

17.5 – 14.3

18.7 – 17.3

18.2 – 16.7

Centro-Oeste

5.1 – 4.8

5.2 – 6.3

5.3 – 6.1

TOTAL

100.0 – 100.0

100.0 – 100.0

100.0 – 100.0

N=

7.322.4080 – 4.417.860

9.360.376 – 20.587.283

16.682.856 – 25.005.143

Fonte: Amostras dos Censos Demográficos 1970-1980, FIGBE. Tabulação de José Pastore, Hélio

Zylbernstajn e Carmen Silvia Pagotto (11)

O alto número de membros de uma mesma família no Nordeste (53% de concentração de famílias grandes estão na região em 1980) e a forma de inserção do chefe da família no mercado de trabalho (59% por conta própria, 52% como parceiro e/ou meeiro de 55% vinculado ao setor primário) (12) são indícios do tipo de atividade econômica desenvolvida, dissociada da indústria. Na prática, isto se configura também nas famílias pobres por uma necessidade mesmo de aumento de seus membros para preservação do nível mínimo de sobrevivência.

Esta discrepância acentua-se, quando se constata que, com 26 milhões de domicílios cadastrados pelo censo de 1980 (13), defrontamo-nos com a cifra demonstrativa de que, dos 10 milhões de veículos existentes no país, somente 5.900.000 residências possuem veículos automotores. Destaque-se que, destes, 2.200.000 estão no Nordeste, cabendo o grosso dos outros 70% ao centro-sul, o que reflete a concentração da renda e um desenvolvimento que se traduz a nível de riqueza individual.

Pelos dados do mesmo censo (os dados foram arredondados) observe-se que dos 6.900.000 empregados na indústria nacional, São Paulo concentra 3.100.000, estando quase todos ocupados na área da grande São Paulo.

(10) No Ceará deu-se a cisão da Federação das Indústrias e criou-se o Centro Industrial do Ceará.

Do ponto de vista legal, todavia, a indústria cearense é representada pela Federação dos Industriais do Estado do Ceará. Contudo, o Centro  Industrial  do  Ceará  congrega   os empresários atuantes no Estado.

(11) Mudança social e pobreza no Brasil 1970-1980 (o que ocorreu com a família brasileira), São

Paulo, Livraria Pioneira Editora, 1983, p. 82. Os dados fornecidos foram trabalhados com base na renda familiar de até dois salários mínimos.

(12) Ibidem.

(13) As cifras foram arredondadas para facilitar a exemplificação.Cabe ao NE, por Estado, o seguinte número: Pernambuco – 211.000; Ceará – 196.000; Bahia – 190.000; Alagoas – 64.000; Rio Grande do Norte – 63.000; Paraíba – 61.000; Maranhão – 56.000; Sergipe – 27.000. Verifica-se pois, pelas cifras mencionadas, o exercício do controle do emprego industrial no país.

No setor agrícola, esta defasagem também está presente, pois dos 531.000 tratores utilizados na agricultura brasileira somente 34.000 estão no NE, enquanto 137.000 estão no Estado de São Paulo. Isto posto, observa-se que no Nordeste a proporção é de 1 trator para cada 2.700 há, contra 1 trator para 148 há em São Paulo.

Entre 1970 e 1980 observou-se pois o aumento da disparidade regional. Isso significa que as regiões mais pobres passaram a ser relativamente mais pobres e as regiões ricas tornaram-se ainda mais ricas (ou menos pobres). Reproduziu-se assim, no nível regional, o mesmo padrão de crescimento da desigualdade interpessoal e interfamiliar (14).

Estes dados são no seu conjunto, como já vimos, indícios do aumento da desigualdade e um claro demonstrativo de que esta pobreza está ligada a um maior estágio de subdesenvolvimento nordestino. De fato, há desequilíbrio entre os próprios Estados componentes da Sudene: a Bahia, Pernambuco e o Ceará, hoje na esteira dos dois primeiros, estão em melhor posição. Isto pode ser demonstrado através dos dados da indústria de transformação no Brasil fornecidos pelo censo já mencionado.

Como conclusão, podemos afirmar que, após 23 anos de existência da Sudene e do desenvolvimento tecnológico do seu parque industrial, as relações existentes entre o empresariado industrial paulista e o Nordeste, não propiciaram, de fato, modificações de vulto capazes de serem mensuradas, como a elevação do grau de qualidade de qualitativa e quantitativa da população local. A inexistência de um mercado consumidor compatível com este parque industrial tornou a defasagem econômica ainda maior.

Enquanto São Paulo exportou para o NE uma grande gama de insumos industriais e produtos manufaturados, (as economias de escala impedem que sejam fabricados localmente no NE) este remete para o Sul quantidades de manufaturas e insumos insuficientes para contrabalançar a penetração paulista.

No caso das máquinas agrícolas mencionadas anteriormente, o conjunto dos custos que São Paulo vai cobrar por elas não tem comparação com o que é proveniente do Nordeste. Isto pode ser traduzido em termos de hora de trabalho.

Uma região mais rica tem capacidade de pagar maiores salários, estes salários mais altos incorporam-se logicamente ao valor dos produtos. Como os salários são muito mais altos em São Paulo, conseqüentemente o nordestino paga os produtos muito mais caros do que o paulista paga os produtos do Nordeste. Isto gera um círculo vicioso, pois excedente do Nordeste vem transferido para o sul sob a forma de preços e o Nordeste não pode pagar salários altos. Dá-se assim uma troca desigual em termos internos.

Notamos pois que a “reinvidicação de bandeirar” feita pela missão paulista que, a convite dos Governos dos Estados Nordestinos, foi ao Nordeste na década de 50, não encaminhou, na prática, a sonhada viabilização econômica regional.

Lido 1569 vezes Última modificação em Terça, 26 Maio 2015 19:33