Quarta, 03 Abril 2013 12:36

Lazer e Terceira Idade: Mito e Preconceito em Relação à Velhice

 
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Ao dar inicio a esse artigo, a primeira tarefa foi procurar uma definição para a palavra lazer. “Fazendo levantamento nos dicionários de língua vernácula, lazer é encontrado como sinônimo de descanso”, “passatempo”, “ócio”. Estas três palavras parecem sempre relacionadas a “repouso”, “folga”, “divertimento”, até a “preguiça”. Observa-se, assim, que o lazer é compreendido preconceituosamente como tempo de não fazer, não trabalhar, não produzir. Em uma sociedade voltada para o trabalho e para a produção, o lazer não é visto como um valor psicossocial. No máximo pode ser encarado como um prêmio temporário. O verdadeiro valor é a produtividade, isto é, vale mais quem produz ou quem usa sua força de trabalho para produzir bens e capital. Portanto, os que não produzem ou os que se dedicam a atividades não produtivas tem seu valor social diminuído.

A produção como um valor social chega mesmo a nortear e decidir a sociedade social em faixas etárias. Assim, gerontologia social explica o uso do termo “terceira idade” como o período da vida em que a pessoa se afastou do trabalho (por conta da aposentadoria), estando em oposição a outro grupo adulto, porém produtivo – os jovens e os de meia-idade.

Fica evidente, então, que o trabalho ou emprego se constitui na maior fonte de identidade pscicossocial, exercendo influencia na auto-estima e no sentido de valor pessoal de cada um. Sem um vinculo com a produção ou um trabalho socialmente valorizado, as tende a reconhecer sua identidade. Vivenciando um vazio e ausência de sentido. Tal fenômeno ocorre freqüentemente com as pessoas que se aposentam.

Mais que papel, está destinado ao lazer no futuro das sociedades modernas? Segundo estudiosos de sociedades do futuro (Shaff e Toynbee) grandes transformações sociais ocorrerão no mundo do trabalho. Este tenderá a ser cada vez mais automatizado, dependendo cada vez mais da força física e mais do intelecto. Acabar-se-a a divisão de tarefas a partir não vitalidade e juventude dos corpos e sim pela criatividade e inteligência das mentes. Isto quebrará a fronteira que separa as pessoas pela idade. Além disso, segundo estes estudiosos das sociedades modernas, devido a essa mesma automação se trabalhara menos e os empregos serão temporários. Isso implica em aumento do tempo sem trabalho, até para os não aposentados. Assim, fatalmente as pessoas se voltarão para atividades não remuneradas, seja como passatempo, diversão e para gratificação emocional.

Segundo Adam Shaff, esse tempo não dedicado ao trabalho levará as pessoas ao desenvolvimento de dois novos pápeis: o primeiro ele chamou de “homo studiosus” isto é, o desejo de continuar aprendendo, experimentando coisas novas em um mundo em permanentes transformações. Em segundo lugar haverá o papel do “homo ludens”, definido como a busca do prazer, do bom, do gozo, de gratificação emocional, através de atividades desportivas, culturais, passeios, viagens, hobbies, passatempo, ou qualquer outro meio onde o objetivo seja a diversão e o entretenimento. Assim, usando as pressuposições de Adam Shaff, o lúdico ou o lazer pode ser tão necessário à vida quando o trabalho, pois ambos podem dar sentido a mesma. Existencialmente, a vida se acaba quando não há mais sentido. Somente as realizações, sejam elas com a finalidade de trabalho ou de lazer, promovem gratificação e dão sentido a vida.

Assim sendo, pode-se prever o resgate da importância do lazer ou das atividades lúdicas e criativas como uma necessidade existencial de auto-realização e satisfação com a vida, contribuindo para a formação de uma identidade psicológica mais singular, pois será fruto do desenvolvimento de potencialidades e atividades criativas, proporcionadas pelo tempo dedicado ao lazer. Como diz Angerami, o homem só existe a partir de suas realizações, não existindo isolado destas.

Como conseqüência das transformações no uso do tempo e dedicação ao lazer, o mito do idoso na “cadeira de balanço” tende a desaparecer, pois cada vez mais as pessoas de terceira idade, ao afastarem-se do trabalho por ocasião da aposentadoria, sentir-se-ão estimuladas a reconstruir suas identidades em busca desses novos valores que envolvem o lúdico e a aprendizagem de coisas novas, isto é, atividades de lazer, que não só servem de passatempo, mas de crescimento e reorganização da auto-estima e da integridade psicológica.

Finalmente, é importante enfatizar que as atividades de lazer para a terceira idade, que proporcionam gratificação emocional e integridade psicológica, devem tanto envolver atividades individuais quanto coletivas. Devem ser atividades ao ar livre e atividades que envolvam exercício, criatividade mental e distração repousante.

Lido 1109 vezes Última modificação em Terça, 26 Maio 2015 19:43
Vilma Maria Barreto Paiva

Mestra em Psicologia e Doutora em Educação.