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Sexta, 28 Novembro 2014 16:15

Quando em Roma...

 
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“Quando em Roma, de cócoras com eles”, já dizia um conhecido meu, que sempre misturava os ditados populares. Dai ele misturar “Quando em Roma, faça como os romanos”, e o outro mais pedestre: “Em terra de sapo, de cócoras com eles”. A ideia era a mesma: de se viver de acordo com o ambiente. Mas a mistura era hilariante.

 

Lendo agora um livro que me fora dado, tempos atrás, sobre um fictício complô dos Iluminati maçônicos, para destruir Roma e a Igreja Católica, todas as descrições ali me trouxeram lembranças das duas vezes em que lá estive: em 1970, pesquisando minha tese de doutorado no Arquivo Secreto do Vaticano, e anos depois com minha mulher Heloísa, durante viagem que fizemos à Europa. O mencionado livro do autor Dan Brown, intitulado “Anjos e Demônios. A primeira aventura de Robert Langford” dá detalhes de Roma, que são realmente fascinantes.

A descrição que Brown faz do Arquivo Secreto é bem diferente, da minha experiência. Ele realmente penetrou no Arquivo, ao passo que eu fiquei limitado a uma pequena sala de leitura, lendo a correspondência dos Núncios e Internúncios no Rio de Janeiro, dos tempos quando a Igreja Católica era a igreja oficial do “Império do Brazil” (com “z” e tudo). Sentado a uma ampla mesa de madeira, com apenas folhas de papel em branco, e um punhado de lápis – canetas de qualquer tipo são proibidas ali – eu recebia os pacotes (“busta”, em italiano) de correspondências que me eram trazidos por um atendente, e podia copiar o que quisesse, porém sempre supervisionado por um Monsignor, que ficava sentado em uma plataforma bem elevada, vendo que ninguém surrupiasse nada, ou agisse de maneira suspeita.

Eu obtivera acesso ao Arquivo Secreto do Vaticano através dos bons ofícios do Professor Manoel Cardoso, da Catholic University de Washington, DC. Não sei o que Cardoso mandou dizer a eles, mas fui recebido com muitas gentilezas pelo estabelecimento do Vaticano, inclusive obtendo hospedaria em uma pensão para padres, de custo bem accessível, localizada duas ou três quadras de distância da Basílica de São Pedro. Era Natal e Ano Novo, de modo que o arquivo fechava nos dias sagrados, de modo que tive de passar pelo menos duas semanas por lá, para completar as pesquisas, e teria ficado mais tempo, se não me faltassem as tão necessárias verbas. Vida de estudante é difícil. Sem mencionar que os horários do arquivo eram quase que “brasileiros”: abriam à 10:00hs e fecham às 13:00hs! Eu mal começava a trabalhar, e já estavam recolhendo o material. Mais ainda, foram madrugadas atordoantes naquela hospedaria, pois os sinos da Basílica de São Pedro e de todas as igrejas ao redor - existem 470 delas em Roma - batiam seus sinos toda alta madrugada nos dias santos.

Outro benefício que obtive, foi um convite para visitar as dependências do Vaticano, acompanhando turistas eclesiásticos católicos, tendo passado uns dois dias vendo aquelas magníficas coleções de arte que lá existem: de pinturas e esculturas, dos mais extraordinários artistas do mundo. Fui também levado a um passeio pelas catacumbas, abaixo da Basílica, que se estendem por toda a zona subterrânea do Vaticano, onde fica um túmulo que fora naquela época recém-descoberto: localizado imediatamente abaixo do altar da Basílica, e marcado apenas com a letra “P”. Este foi de imediato declarado ser o túmulo do Apóstolo São Pedro. Em a minha ignorância protestante perguntei: “E porque esse “P” não quer dizer São Paulo?” Responderam-me: “Porque o túmulo de São Paulo já é muito bem conhecido, e está situado em local bem longe do Vaticano”.

Poucas pessoas que não tenham recomendações especiais, como as que eu tive, teriam o privilégio de visitar todos os recantos do Vaticano, que me foram então disponibilizados. Por isso, tenho de postumamente agradecer ao Professor Manoel Cardoso pela gentileza que me fez, e à equipe do Vaticano por me ter recebido com tanta amabilidade.

Lido 892 vezes Última modificação em Domingo, 03 Maio 2015 20:22
David Gueiros Vieira

PHD em História da América Latina, Mestre em história dos Estados Unidos da América, conferencista e um dos maiores especialistas brasileiros em História da Questão Religiosa do Brasil.

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