Terça, 09 Junho 2015 09:48

Relatos Acerca de Campo Grande: Aspectos do Desenvolvimento da Cidade

 
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Uma cidade pode ser pensada de muitas formas. E a respeito de Campo Grande, atual capital política do Estado de Mato Grosso do Sul (MS), não poucas vezes denominada Cidade Morena, os exemplos são bastante diversos, para não dizermos contraditórios e conflitantes. Parte dos relatos aos quais tivemos acesso foi redigida por cronistas, educadores, religiosos, profissionais liberais, políticos, escritores, viajantes, ou meros observadores, que, cada um da sua forma, deixou suas impressões a respeito do desenvolvimento desta cidade.

Temos autores que falam de uma urbe desordenada e malsã, outros que mostram uma cidade repleta de progresso e civilidade. Há também os que externam os seus pontos positivos como decorrentes do trabalho e abnegação de alguns sujeitos e instituições, partidos e grupos sociais economicamente abastados; já os seus pontos negativos surgem quase sempre como um legado de fatores externos à realidade local, entretanto possíveis de serem superados devido à fertilidade da terra, o clima dadivoso da serra de Maracaju e a força laboral do seu povo.

O próprio cognome Cidade Morena é ilustrativo de uma ideia-força ainda muito presente na sociedade, se bem que as explicações sobre a origem da expressão nem sempre tendam para o mesmo ponto. Em linhas gerais, o sentido primeiro desse termo, pelo que indicam alguns registros, foi mencionado na década de 1910 por Francisco de Aquino Corrêa. Este religioso pensou a urbe como uma “terra roxa dos guavirais selvagens.” Por causa da cor vermelha ou roxa de sua terra, a cidade passou a ter esta denominação, sendo tal passagem inclusive documentada, embora não de forma literal, na obra Terra Natal. Campo Grande surge então como um lugar que tinha “terras tão roxas e mimosas.”1 Daí uma das formas para concebermos esta urbe como Cidade Morena, sendo que depois da criação do Estado de Mato Grosso do Sul passou-se a chamá-la também Capital Morena.

Luiz Amaral, em A mais linda viagem: um “raid” de vinte mil kilometros pelo interior brasileiro, obra publicada na segunda metade da década de 1920, mostrou-se surpreso com a cidade de Campo Grande e a sua evolução, que segundo ele muito devia à colônia de japoneses que se fazia presente nas cercanias da municipalidade. Nas suas palavras: “Não tem ainda quatorze anos a cidade, mas apresenta aspectos admiráveis. Ampla, muito bem traçada, ruas muito largas e muito retas, com duas ordens de postes para a iluminação elétrica, abundantíssima. Comércio intenso, população operosa.”2 No livro Garimpos do Mato Grosso. Viagens ao sul do Estado e ao lendário rio das Garças, o sertanista Hermano Ribeiro da Silva, que chegou em Campo Grande no mês de julho de 1930 e permaneceu na cidade até o início de setembro desse ano, relata que se deparou com uma urbe repleta de pessoas de outras plagas, sobretudo adventícios do Estado de São Paulo em busca de trabalho, e que muito contribuíam para que as hospedarias e os hotéis ficassem lotados de pessoas humildes. Difunde também a noção de que Campo Grande, nesse período, já era uma “cidade prodigiosa, que se criou e se desenvolveu milagrosamente no espaço de diminutos anos, atestando um progresso vertiginoso, talvez nunca dantes realizado em qualquer ponto do país.”3

Ainda nos anos 1930, Rezende Rubim não poupa elogios à Cidade Morena, adjetivando-a positivamente como uma urbe cosmopolita em Reservas de brasilidade. Viajante que se serviu dos trilhos da estrada de ferro Noroeste do Brasil para conhecer o então sul de Mato Grosso, Rubim assegura aos seus leitores que “Campo Grande já é uma cidade importante; núcleo de convergência de diversos municípios próximos. A cidade é bem traçada em ruas largas, sendo algumas calçadas a Mac-Adam. Possui um jardim muito gracioso e residências de primeira ordem. Nada fica a dever às modernas cidades paulistas do ciclo do café.” Informa também que o “campo-grandense sente-se naturalmente orgulhoso do seu progresso, sem perceber, todavia, que grande parte dele lhe vem da vizinhança com Maracaju, Bela Vista, Nioaque, Aquidauana e Ponta Porã.”4

Rubim externa também que a “bela cidade serrana, plantada à beira da Noroeste do Brasil”, já tem “vida própria; a cidade já possui elementos bastantes para esperar do futuro uma situação invejável. As cercanias são todas afazendadas e a localização de algumas colônias de japoneses tem concorrido para melhorar o padrão de vida dos habitantes, até a bem pouco tempo dependentes do produto paulista.” No livro Um trem corre para o oeste, Fernando de Azevedo endossa em grande medida afirmação semelhante, pois considera que na paisagem urbana de Campo Grande “se erguem, sem, no entanto dominá-la, numerosas casas confortáveis e prédios de cinco andares, se transfigurou a sociedade que lhe empresta, pelos seus hábitos, alguns dos aspectos mais amáveis das cidades modernas.”5 Este educador menciona que “a transformação, que se iniciou lentamente, está longe de atingir o grau de intensidade ou o clímax que alcançará não só pela fertilidade de suas terras e abundâncias de suas pastagens naturais, para o desenvolvimento da pecuária, como também pela riqueza de sua rede fluvial, constituída de amplos rios navegáveis que, associados à estrada de ferro e às rodovias, poderão assegurar a essas regiões a mais rica e fecunda combinação de transportes que já se engenhou em qualquer parte do mundo.”

Monteiro Lobato, escritor ainda dos mais conhecidos neste País, também teceu algumas palavras sobre Campo Grande no texto De São Paulo a Cuiabá. Quando esteve na cidade, provavelmente entre a década de 1930 e o primeiro lustro dos anos 1940, sendo que se valeu do transporte aéreo para chegar em Campo Grande, considerou-a não como uma “cidade de fim de civilização, de beira-sertão, como o viajante logicamente é levado a supor.”6 Para Lobato, Campo Grande é “cidade de começo de civilização, é a coisa mais reconfortadora que em tais alturas alguém possa esperar.” Para ele, Campo Grande tinha a potencialidade de ser a “futura São Paulo de Mato Grosso” devido às mentalidades e ambições trazidas ao lugar pelos migrantes e imigrantes que nela aportavam, e que eram provenientes de todos os lugares do mundo. Segundo suas comparações, “São Paulo é o que é por ser um atracadouro do pau rodado universal. Nova York é o maior centro de pau rodado do mundo inteiro. Campo Grande é também toda ela pau rodado.” No entender de Lobato, “o melhor de Campo Grande não é o que Campo Grande já é e sim o que promete ser. Reúnem-se nela todas as condições favoráveis para uma das grandes futuras cidades do Brasil. Subirá a 50 mil, a 100 mil, a 200 mil habitantes – e parece que o urbanista que lhe traçou as ruas e praças teve perfeita consciência disso. Tudo em Campo Grande é grande, espaçoso, arejado.”

Em período contemporâneo ao de Lobato, Nelson Werneck Sodré, autor que está longe de concordar com muitas das afirmações e análises antes mencionadas, considera, em texto que consta na obra Oeste: ensaio sobre a grande propriedade pastoril, que “Campo Grande tomaria um impulso poderoso”, sendo “centro distribuidor de primeira ordem, destinado a ampliar cada vez mais o seu raio de ação e a constituir-se em fulcro de todas as forças em jogo nos territórios do Oeste.”7 Para este militar, “Campo Grande tende a desenvolver-se continuamente e a ascender na via em que se acha, de centro poderoso, foco dinâmico da expansão humana e econômica, nas terras do sul mato-grossense.” “O caráter de mercado fornecedor, de verdadeiro entreposto, que já vai assumindo, distribuindo os artigos que o parque industrial de São Paulo ali coloca, afirma, com maior certeza, a possibilidade do crescente desenvolvimento dessa cidade e da sua importância cada vez maior.” Ainda segundo Sodré, a Campo Grande que ele conheceu, ao contrário da maior parte das cidades e dos povoados da região de Mato Grosso, não era uma cidade de madeira e de barro, indicativo de pobreza material, mas sim uma cidade de tijolo, portanto sinônimo de abundância e fartura.

Jacomo Vicenzi e Gilberto Ferrez, ainda pouco citados pela historiografia, também enfatizaram que Campo Grande era uma urbe de notável destaque, em particular nos aspectos do progresso econômico e da estrutura urbana. O cônego Vicenzi, na obra Paraiso Verde: impressões de uma viagem a Matto Grosso em 1918, afirma que Campo Grande, à época ainda vila, “se continuar no mesmo passo, será, dentro em breve, uma cidade e das mais movimentadas e progressistas.”8 Este autor, que em muitas passagens ironiza o cotidiano com o qual se deparou, adjetiva Campo Grande como uma “nova e florescente vila”, porém um lugar que merecia ser conhecido por causa do seu “recente e extraordinário desenvolvimento”. Segundo ele, Campo Grande “é a mais adiantada” localidade “do sul do Estado, tirando Corumbá.” Em viagem realizada no mês de agosto de 1955 à região sul de Mato Grosso, parte dela aérea e outra terrestre, o fotógrafo Ferrez, por seu turno, escreveu em seu Diário que Campo Grande era “nova” e que não havia “nada de interesse arquitetural há não ser a Matriz” de um templo religioso, contudo, não deixou de mencionar que Campo Grande era uma “cidade importante, com ruas largas, muito compridas, asfaltadas e arborizadas, progressista e que do alto parece bem bonita.”9

Por fim, não deixemos de pontuar neste texto que todas essas afirmações constituem, tal como o título indica, as “palavras de alguns autores sobre a cidade de Campo Grande”. Sendo assim, tenhamos sempre em mente a importância de realizarmos leituras que mostrem aspectos do que se passou, nem tanto para termos o entendimento do que literalmente ocorreu no passado, mas sobretudo para problematizarmos aquilo que é pensado como passado, não raro visto como sinônimo de matéria morta e sem ação, mas que ainda constitui o nosso presente e é utilizado para edificar projetos futuros.

 

1 CORRÊA, Francisco de Aquino. Terra Natal. 2. ed. Nictheroy: Typ. Salesiana, 1922, p. 95-96.

2 AMARAL, Luiz. A mais linda viagem: um “raid” de vinte mil kilometros pelo interior brasileiro. São Paulo/Cayeiras/Rio de Janeiro: Melhoramentos de São Paulo, 1927, p. 11-13.

3 SILVA, Hermano Ribeiro da. Garimpos do Mato Grosso. Viagens ao sul do Estado e ao lendário Rio das Garças. Rio de Janeiro: Saraiva, 1954, p. 60.

4 RUBIM, Rezende. Reservas de brasilidade. São Paulo: Nacional, 1939, p. 125-127.

5 AZEVEDO, Fernando. Um trem corre para o oeste. Estudo sobre a Noroeste e seu papel no sistema de viação nacional. 2. ed. São Paulo: Melhoramentos, [195-], p. 83.

6 LOBATO, Monteiro. De São Paulo a Cuiabá. In: ______. Mundo da lua e Miscelanea. São Paulo: Brasiliense, 1951, p. 245.

7 SODRÉ, Nelson Werneck. Oeste: ensaio sobre a grande propriedade pastoril. Rio de Janeiro: José Olympio, 1941, p. 113.

8 VICENZI, Jacomo. Paraiso Verde: impressões de uma viagem a Matto Grosso em 1918. [S.I.: s.n., 1922], p. 56, 59 e 292.

9 FERREZ, Gilberto. Diário de viagem de Gilberto Ferrez a Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Rondônia, Paraguai e Bolívia, em agosto de 1955. Diário integrante da exposição Família Ferrez: novas revelações: de 26 de março a 23 de maio de 2010, Galeria Olido, São Paulo, SP. [S.I.], 2010. 1 folder. Apoio Prefeitura de São Paulo, Cultura e Fazer Arte. Coordenação geral: Júlia Peregrino. Curadoria: Júlia Peregrino e Pedro Karp Vasquez. Consultoria técnica: Helena Dodd Ferrez.

Lido 2155 vezes Última modificação em Terça, 09 Junho 2015 10:03
Nataniél Dal Moro

Professor Visitante (CAPES) no Programa de Pós-Graduação – Mestrado em Desenvolvimento Local da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB)