Uma Opinião Sobre Artes

A História das Artes no Brasil, tomadas em seu conjunto,não é ainda tão conhecida na Europa, em particular na França, como gostaríamos. Refiro-me as artes “primeiras” até as artes plásticas atuais, inserindo a arquitetura, passando pela música, a fotografia e o cinema. Há uma série de referencias fixas no que se refere a nós. Quando se fala em música brasileira a idéia de nossa produção é a mesma de décadas atrás. Isso sem em nada diminuir as maravilhas de músicas como Aquarela do Toquinho, de fato, uma das mais belas composições da música popular brasileira. Só falo que temos mais do que samba e bossa nova como contribuição à música. mundial...Ainda porque, se não fora o André Rieu, nem se faria mais menção ao dulcíssimo Tico Tico no Fubá do inesquecível Zequinha de Abreu.

 

No campo da pintura, índios e paisagens e na arquitetura Brasília ainda é o que mais se conhece. Certamente, criadores originalíssimos como Oscar Niemeyer e Sebastião Salgado tornaram-se mais famosos porque trabalharam ou moraram na Europa, no exemplo citado porque moraram na França. Sem dúvida, a experiência européia facilitou o conhecimento, a publicação e a divulgação regular de suas obras. Não desconhecemos que em qualquer de suas manifestações, a arte, independente de sua especificidade, tende a se firmar e a se tornar conhecida como um movimento artístico com destaque na mídia, em torno de um corifeu como foi o caso do Cinema novo, centrado numa personalidade tão marcante como a de Glauber Rocha.

Decerto, o papel de artistas e cientistas sociais não pode ser negligenciado na divugação de nosso patrimônio artístico e cultural. Temos como inestimável o papel de pesquisadores como Lévi-Strauss em antropologia, abrindo novos caminhos ao conhecimento e a abertura dada pelo historiador de arte, Germain Bazin, que nos anos cinquenta, levou aos franceses, o conhecimento das obras do imortal Aleijadinho. O fruto desse labor trouxe como benéfica consequência , o conhecimento da própria arquitetura religiosa brasileira, no relicário de Ouro Preto ,dos séculos XVII e XVIII.

O reconhecimento internacional do tesouro de nossas artes, e o que isso representa paece exigir que seja preciso, a partir de nós mesmos, a provocação do interesse pela nossa história, o amor à história das nossas artes. Ao partir, em primeiro lugar de nós o interesse pela preservação e divulgação de nossas ates facilitaremos as possibilidades de surgimento de mais pesquisas e divulgação nacionais e mesmo um maior número de intercâmbios com países e instituições facilitando a divulgação das nossas obras e estimulando o conhecimento dos nossos tesouros artísticos.

As próprias publicações em língua portuguesa sobre temas de nossas artes, assim também como as publicações em língua inglesa, surgidas nos últimos quarenta anos e que são relativas ao surgimento das nossas cidades coloniais é parca. Pode-se dizer o mesmo daquelas publicações referentes à decoração de interiores, ao mobiliário e a adornos como a escultura. Ainda é pobre no campo dos estudos e divulgação a ourivesaria e a pintura recente do tão próximo século XX. Isto apesar dos grandes nomes de nossa pintura como Antonio Bandeira que viveu e produziu na França. Quando mencionamos a bibliografia sobre a arte brasileira,em língua francesa, temos que ela é praticamente escassa, apesar de Bazin e de Yves Bottinea. Partndo de um exame mesmo superficial da bibliografia existente no que diz respeito ao que se tem publicado na própria América Latina, ou mesmo à arte portuguesa, oferecem-se resumos bastante superficiais repetindo-se as mesmas referencias e lugares-comuns já existentes o que demonstra que ninguém tem acurado intresse sobre o tema.

A inexistência de uma obra relevante sobre a atualidade artística brasileira precisa ser suprida. A importância da Bienal de São Paulo, e outros esforços de várias exposições são concernentes apenas a um punhado de artistas e muito mais precisa ser feito.

O próprio catálogo Modernidade, que fornecia parte da cronologia das artes plásticas no Brasil no século XX, é raro e desatualizado. Embora exista um recenseamento dos catálogos e mesmo de exposições e muitos outros catálogos esparsos eles precisam ser codificados e melhor divulgados. O que o material existente demonstra, no exterior ,de modo geral, é que permanece o interesse regular pelas artes indígenas, no terreno etnológico e antropológico.

Do ponto de vista de uma história social das cidades, uma visão artística ampliada, ainda é um desafio.Do ponto de vista histórico,sociológico, geopolítico ou sobre qualquer outro enfoque, o grande tema das Cidades comporta também uma dimensão estética, no melhor sentido da precisão e do belo. Brasília é o exemplo clássico de um caso excepcional de criação de uma nova capital. Isto contribuiu para um melhor conhecimento das obras de Oscar Niemeyer na França e para a inovação que elas representam.

As grandes e pequenas cidades podem ser um objeto privilegiado de estudos e teses e tudo isso facilita a divulgação de material guia para estudos turísticos e fotográficos ,principalmente quando os álbuns fotográficos demonstram uma verdadeira postura artística. Sobre este ponto, um desejo comum é a reedição da versão francesa do Guia de Ouro Preto escrito pelo grande poeta Manuel Bandeira, que foi publicado em 1948 e que é praticamente restrito a colecionadores e de impossível alcance aos mortais comuns. Como sabemos, a fotografia é uma fonte inesgotável para a história e suas publicações são um documento invejável, um retrato mesmo de um período e uma época. É certo que entre as melhores estão as que não se destinam meramente ao mercado turístico, produzidas por grandes fotógrafos e as fotografias históricas.

Na França, as exposições e publicações do ano Brasil, Brasis, resultaram em contribuições positivas e recentes, dignas de continuidade e imitação.

No que concerne ao cinema, historicamente, o cinema brasileiro foi introduzido na França em primeiro lugar pela “Mulher Rendeira”, música do filme O cangaceiro (1953) de Anselmo Duarte o qual permaneceu mais circunscrito ao Cinema novo entre as revelações do famoso Festival de Cannes. A história da cinematografia brasileira desde os nascedouros até os anos oitenta, é a obra fundamental organizada por Antonio Paranaguá. Publicada pelo Centre Pompidou constitui-se numa magnífica exceção que engrandece a sétima arte entre nós. Admirados pela crítica e o público francês como um todo, os trabalhos do nosso Glauber Rocha e os de Nelson Pereira dos Santos, são respeitados e divulgados nos circuitos de cineclubes. Novos cineastas, como Walter Salles são conhecidos pelo público francês e norte-americano, a partir dos anos noventa. Nada se sabe também sobre os esforços da poetisa, atriz e roteirista Bruna Lombardi tão conhecida em Los Angeles. Sobre os novos cineastas,faltam análises mais profundas de suas obras, pois,essas críticas e análises estão mais restritas a revistas e periódicos e quase nada sai na imprensa especializada.

As Telenovelas,folhetins televisivos tem certa difusão entre canais franceses e podem interessar os editores, mas faltam temas e desmpenhos que impulsionem a arte e motivem um trabalho sobre a importância das grandes redes de televisão no Brasil. Em geral ,esses folhetins manifestam ,numa síntese, uma visão que distorce a compreensão da sociedade para a qual elas são produzidas e as finalidades da sua transmissão.

Na música erudita, Heitor Villa-Lobos é autor importante nos Estados Unidos, onde também se conhece o maestro Eleazar de Carvalho que lá viveu e estudou por um bom período de sua vida, chegando mesmo a tornar-se autor de uma ópera. Na França, porém nada se conhece sobre, a ópera brasileira. O compositor Carlos Gomes (1836–1896) cujas obras são executadas e reverenciadas por grandes maestros na Itália e nos países do Leste Europeu e também nos Estados Unidos é praticamente um desconhecido. Os dicionários franceses de música não lhe fazem referência o que é lamentável para um país de tão vasta cultura e amor às artes, ao mesmo tempo em que se constitui numa restrição ao mais importante autor brasileiro do gênero.

A partir do reconhecimento de ser a nossa música um elemento influenciador do jazz e da própria música erudita francesa, verdade reconhecida por um musicista como Darius Milhaud sentimos falta de uma história da nossa música erudita. A bibliografia existente pesquisada vem seguindo os interesses ditados nos interesses do mercado de discos, fruto de uma vasta discografia, já conhecida,sugerindo um certo conservadorismo tradicional.

O entusiasmo pela música barroca de um certo número de gravadoras principiaram o despertar de um interesse que pode resultar no descobrimento da riqueza do patrimônio musical brasileiro. Composto desde os fins do século XVII, poucos brasileiros o conhecem e pouquíssimos estudos o divulgam.

O interesse pela dança brasileira no caso dos franceses é incipiente apesar de grandes bailarinas brasileiras que muito devem a Tatiana Lescwhova. Apesar das várias publicações, algumas, pouco conhecidas da autoria de Augusto Boal, que viveu longo tempo na França, as expectativas pela propagação da dança parecem ser maiores do que a realidade.