Luciara Silveira de Aragão e Frota

Luciara Silveira de Aragão e Frota

          A política exterior sofre as influências de fatores que conduzem a mudanças profundas, caracterizadas por crises que englobam problemas políticos, econômicos e sociais.

          Os interesses políticos e econômicos mundiais são, em grande parte, os responsáveis pela forma e pela condução da política exterior Sul-americana. Estes interesses impedem ou facilitam que os interesses de países como Argentina e Brasil, sejam expressos adequadamente na ordem internacional e no funcionamento das relações interamericanas.

          Sem nos aprofundarmos na discussão do significado da palavra integração, usada muito freqüentemente na linguagem política no cenário latino americano, devemos discutir também a situação dos dois países a partir do contexto natural da região.

          A integração, desde uma perspectiva binacional e tendo em conta o contexto mundial e seus reflexos em nossos países, pode chegar a ser um elemento que se introduza, no plano externo, em uma maior capacidade negociadora para a questão da dívida externa e outras tais como a do Atlântico Sul tema no qual coincidem os dois países quanto a sua manutenção como zona de paz e, por sua vez, fora da disputa leste-oeste.

          Certamente, a América Latina é uma zona subdesenvolvida do Ocidente, fato que mostra a importância de um programa de desenvolvimento econômico para o continente, elabora necessariamente a partir da complementação e integração o uso dos recursos disponíveis e existentes nos países da região.

          A experiência recolhida até o presente, através de distintos processos que se iniciaram seguindo a idéia da integração latino americana da década de 60 e o funcionamento de organismos de integração econômica ou viável deveriam estar estruturado a partir da complementação e posterior integração das economias daquelas nações que, por seu nível de desenvolvimento, tenham uma relativa similaridade de base. Este é o caso de Argentina e Brasil.

          Ainda que uma análise histórica da relação entre ambos os países, nos indique o predomínio das rivalidades sobre os acordos, “que têm perpetuado a separação da vontade em vez do concertamento político... e apesar desse desencontro em nível de seus governos, nada há podido impedir essa diplomacia de “povo a povo” que se consolidou em um comércio de grande importância... e uma vinculação a nível de suas populações que não conhece barreiras políticas artificiais” (Juan Archibaldo Lanús in “De Chapultepec al Beagle”. Emece, B.Aires, 1983, pág. 284).

          Assim, a nosso juízo, Argentina e Brasil adequando-se à realidade que oferece a conjuntura mundial atual, devem arbitrar seus recursos políticos e econômicos com o fim de lograr o equilíbrio indispensável em sua relação bilateral e em suas posições frente aos problemas de ordem política no âmbito continental e mundial.

          Este entendimento argentino-brasileiro tende a ter uma particular relevância no sistema interamericano. De fato, uma consonância em suas políticas seria condição para uma maior homogeneidade na América Latina. Estas idéias já foram expressas em 1958 por Hélio Jaguaribe (“O Nacionalismo na atualidade brasileira”, ISEB R.Janeiro, 1958, p.279 , quando nos diz que “um entendimento argentino-brasileiro levaria quase automaticamente a articulação da América Latina”.

          Consideramos que o antecedente desse processo de integração da Argentina e Brasil está na “Operação Pan-americana”, iniciativa formulada pelo Presidente Juscelino Kubitscheck. Como se recordará... “A Argentina lhe prestou apoio entusiasta desde o começo e esse apoio se foi convertendo em uma ação coordenada e decisiva nas últimas conferências internacionais” (Carlos Florit in”Política Exterior Nacional, Arayú, B.Aires, pág. 44)”. Realmente, a operação pan-americana teve o apoio do Presidente argentino Arturo Frondizi com relação aos significado de “democracia, legalidade de desenvolvimento”.

          Esse programa para o financiamento do desenvolvimento latino-americano, necessitava da ajuda financeira externa, como o programa “Alimento para a paz” a fim de permitir aos países da região desenvolverem suas potencialidades com seus próprios recursos. Assim mesmo, a “Operação panamericana” concebia o esforço conjunto, quer dizer, “envolveram a todos os países latino-americanos, excluindo discriminações de estratégias limitada e puramente militar a fim de evitar, dentro do possível, encontrar dentro do panorama político social latino-americano, zonas de subconsumo ou de miséria suscetíveis de converter-se em focos de intranqüilidade para os demais”. (Carlos Florip, op.cit, p.42).

          Essa espécie de Plano Marshall para a América Latina foi defendida por Argentina e Brasil de forma conjunta na Conferência de Bogotá, do Comitê dos 21 da OEA celebrada em outubro de 1960.

          Sobre as bases do multilateralismo se fez possível a concretização do Tratado de Montevidéu, criando a Associação Latino-americana de Livre Comércio.

          Desde 1º de maio de 1958, a política exterior Argentina esteve a serviço de uma política nacional de corte “desenvolvimentista” – ligada ao aparato jurídico tradicional – com uma forte preocupação com a legalidade. Esse binômio “legalidade e desenvolvimento” do governo de Arturo Frondizi, intentava superar uma estrutura econômica que considerava ultrapassada e alterava as linhas tradicionais da política exterior Argentina. A proposta envolvia o câmbio de uma economia agro-pastoril por outra caracterizada pelo desenvolvimento independente dos setores básicos, tais como a indústria pesada, energia e tecnologia de ponta.

          Isto implicava um câmbio nas condições de relações políticas e econômicas tradicionais da Argentina, vinculada com a Europa e particularmente com a Grã Bretanha, e um tanto afastada da realidade política do continente americano. Isto não significa desconhecer que a Argentina durante os governos de Juan D. Perón havia intentado consolidar seus laços políticos e econômicos com os países de Cone Sul (Chile, Bolívia, Paraguai, Peru e Brasil).

          O conceito de desenvolvimento preconizado por Frondizi, engloba o da industrialização que, na realidade, foi um dos objetivos do seu governo. Sem embargo, houve quem “lhe reprovasse como um crime porque (a industrialização) envolvia o êxodo rural e a proletarização dos trabalhadores agrícolas (Alain Rouquié, in Poder militar e sociedade política na Argentina (1943-1973)” Emece B. Aires, 1982, p. 160).

          Frente aos problemas suscitados com o Fundo Monetário Internacional durante os anos 1959 a 1962, Frondizi teve atitudes inusuais para a época em matéria de política internacional, entrevistando-se com o Presidente Jânio Quadros, com quem acertou o chamado Pacto de Uruguaiana, e com Ernesto Guevara, na oportunidade da Conferência da OEA em Punta Del Este.

          O encontro de Uruguaiana foi uma conseqüência natural da política de Frondizi, que havia visitado o Brasil antes de assumir a presidência, tomando contato com o empresário e homem de letras, Augusto Frederico Schimidt e com o chanceler Negrão de Lima, homens de confiança do Presidente Kubitscheck. No Pacto de Uruguaiana ficou oficialmente subscrito o método da consulta prévia entre ambos os governos sobre as questões e política regional e internacional, que havia tido vigência prática durante o mandato Kubischeck.

          A renúncia de Jânio Quadros exacerbou os problemas de política interna no Brasil, fortalecendo nos militares os receios despertados por uma suposta aproximação entre Frondizi e Guevara, sendo este um dos motivos do golpe militar na Argentina (23 de março de 1962).

          A partir da renúncia de Quadros e da queda de Frondizi, as questões relativas às relações entre ambos países foram tratadas através dos canais diplomáticos tradicionais. Dessa forma, nada ficou da proposta de Quadros a Frondizi sobre o aproveitamento dos rios da Bacia do Prata.

          Em 1965, o governo argentino realizou consulta aos governos da Bolívia, Paraguai e Brasil sobre os aproveitamentos dos rios e ante as respostas positivas, o então chanceler argentino, Miguel A. Zavalla Ortiz, formalizou em 2 de junho de 1966 os convites para uma reunião e solicitou a colaboração do embaixador argentino em Tókio, Guilhermo Cano, para a preparação de um projeto conjunto dos recursos hídricos, antiga proposta de Quadros a Frondizi, porém outro golpe de estado na Argentina, dessa vez contra o governo de Arturo Ilia interrompeu este processo.

          Quatro anos mais tarde, sendo chanceler argentino Nicanor Costa Mêndez, firmou-se em Brasília em 23 de abril de 1969, o Tratado da Bacia do Prata mediante o qual o projeto de integração passou de um meio de cooperação entre os países da Bacia, a um objeto de tensão e comparação de forças, adquirindo “a partir de sua institucionalização e ainda antes, uma muito diferente significação para o governo da Revolução Argentina. Tal projeto passou a ser considerado na prática, como um instrumento para medir a política de rivalidade entre Argentina e Brasil, em tudo o que se refere à potencialidade energética dos rios e a construção de obras de estrutura física” (Lanús, op. Cit., p.298).

          Inclusive, durante o período de governo do Presidente Juan C. Ongania, a questão dos rios da Bacia do Prata foi nitidamente um jogo de competição geopolítica e as pressões argentinas no campo do direito internacional sobre a questão da consulta prévia, não conseguiram, contudo, frear o avanço das obras brasileiras.

          Durante o governo Alejandro Lanusse, os chanceleres, da Argentina, Eduardo Mc Loughlin e do Brasil, Gibson Barbosa, subscreveram o Acordo de Nova York, que logo se transformou em um projeto de resolução das Nações Unidas. A isto se seguiram em 1972, os acontecimentos sobre as denúncias Argentinas por supostas violações por parte do Brasil de compromissos internacionais, relacionados como o “princípio da publicidade”. Com a visita do Presidente Lanusse a Brasília, a situação imperante nas relações entre ambas nações não experimentou nenhum câmbio favorável. Tudo estava então submetido a uma solução da questão Corpus e Itaipu e no centro da mesma, estava o fato de que, com relação aos rios da Bacia do Prata, a Argentina era um país de águas abaixo, daí sua desvantagem frente ao Brasil.

          Durante os governos de Héctor Campora, Juan D. Perón e Ma. Estela de Perón observou-se uma mudança política na Argentina com relação ao Brasil, deixando-se de lado os esforços para ganhar batalhas jurídicas. Porém, sem dúvida alguma, a questão da Bacia do Prata coincidiu com um dos períodos mais tensos nas relações bilaterais entre Argentina e Brasil, causando não poucos prejuízos e demoras no processo de integração.

          Nos últimos anos da década passada, verificou-se uma aproximação em nível dos Presidentes Rafael Videla e João Figueiredo, que não esteve alheia às doutrinas militares vigentes entre os dois países. Pelo lado argentino, desde o começo de seu governo, o General Videla mostrou seu interesse em melhorar a relação econômica com o Brasil, porém a questão Corpu-Itaipú seguia latente e representava um “nó górdio” pelo qual passava toda a relação entre os dois países.

          Em 1978, o Ministro da Economia Argentina José Martinez de Hoz visitou o Brasil tentando uma aproximação com o setor empresarial brasileiro e gerar ema corrente de inversões privadas para a reconstrução da economia Argentina, porém os resultados dessa estratégia foram escassos.

          Foi somente a partir da assinatura do acordo tripartite de Corpus-Iatipú em outubro de 1979 que se gerou um clima propício para a aproximação entre ambas Nações, dentro de um contexto favorável já que o Brasil colocava ênfase nas suas relações com a América Latina.

          Em sua visita a Argentina, realizada em maio de 1980 o Presidente João Figueiredo subscreveu uma série de acordos que refletiam o câmbio profundo a nível político que se havia produzido nas relações bilaterais. Assim, foi que nessa oportunidade os dois governos decidiram avançar no caminho do entendimento político, mediante o memorando de consulta sobre questões de política regional e internacional; da cooperação tecnológica, com o Acordo de Cooperação sobre energia nuclear, integração física, com a reconstrução de uma ponte sobre o rio Iguaçu; comércio, com a consolidação das linhas de crédito recípocras abertas nos respectivos Bancos Centrais; energia, com o estudo da factibilidade para a venda do gás natural argentino no Brasil.

          Assim, o Presidente Figueiredo viajou acompanhado de cerca de 200 empresários brasileiros, interessados em investigar as possibilidades que oferecia o mercado argentino. Nessa oportunidade foi subscrito a “Ata empresarial Argentina-Brasil do IV Centenário de Buenos Aires”, onde se deixava à iniciativa privada um papel preponderante na condução dos negócios e se estabeleciam seis setores chaves dentro do processo de aproximação bilateral: agricultura, siderurgia, química, petroquímica, engenharia, bancos e consultoria.

          O Presidente Videla destacou nessa oportunidade a necessidade de estabelecer regras para o desenvolvimento do intercâmbio comercial sem vantagens de um sobre outro país, tendo em conta a situação relativa de cada país (Tiempo argentino, 31-1-1984).

          Na Argentina, o setor empresarial ligado a um projeto de desenvolvimento de extrema direita, fez sentir suas críticas identificando o Brasil como a Inglaterra do Século XIX. Para este setor, a Argentina assumia, através dessa associação, o papel de provedor agropecuário e de comprador de produtos industriais, criando-se com isto uma situação de dependências e uma diminuição de seu peso geopolítico.

          Já em janeiro de 1981, o governo argentino, cedendo às pressões de alguns setores empresariais do país, impôs uma sobretaxa de 20% aos produtos importados do Brasil.

          O governo seguinte, o do General Roberto E. Viola, tomou um compromisso com o crescimento industrial do país e foi identificado com o de João Figueiredo em função de seus projetos de abertura política. Assim, em Passo de Los Libres e Uruguaiana fortaleceu-se o processo de aproximação entre ambos países.

          Sem embargo, tratou-se de um curto “intermezzo” porque devido a outra mudança de governo na Argentina em novembro de 198, voltou-se a uma política econômica de corte tradicional, o modelo monetarista de 1976, o que em grande parte neutralizou os resultados da aproximação que se havia alcançado.

          Os efeitos negativos do conflito do Atlântico Sul sobre a economia Argentina, tiveram, contudo um lado positivo com respeito as relações argentino-brasileiras. Com efeito, o bloqueio, disposto pela Comunidade Econômica Européia, gerou um incremento no comércio da Argentina com a América Latina e de modo particular com o Brasil. Não obstante isto, fatores tais como a redução da capacidade de compra em função dos gastos bélicos argentinos e o fechamento do tráfico marítimo pelo estreito de Magalhães, que encareceu os preços das mercadorias, prejudicaram as relações comerciais brasileiras com Argentina, Chile, Equador e Peru.

          Para recuperação dos níveis de intercâmbio comercial, realizaram-se reuniões de empresários em Brasília, São Paulo e Buenos Aires e em janeiro de 1983 deu-se o encontro entre os Presidentes Bignone e Figueiredo, que teve fundamental importância para a questão das ilhas Malvinas. Nesse momento, as relações comerciais entre ambos países não tinham muita relevância e por outra parte, o saldo da balança comercial era nitidamente desfavorável para a Argentina.

          O quadro econômico verdadeiramente desestimule na ordem internacional refletia-se através de um comércio deficitário para a maioria dos países latino-americanos e novas dificuldades surgiram nas relações entre Argentina e Brasil.

          A restauração da democracia na Argentina em 1983 encontrou o setor do comércio exterior com o Brasil com uma reativação das medidas protecionistas, com uma engrenagem burocrática que trabalha a emissão das licenças de importação e a abertura das cartas de crédito.

          Com o advento da democracia, a Chancelaria Argentina recuperou um papel mais ativo na elaboração e execução da política exterior. No período militar, essa chancelaria havia tido uma função quase limitada como a de recolher informações.

          A partir de 1983, a política exterior Argentina esteve ordenada por objetivos tais como a defesa da paz e o desarme, a oposição a doutrinas que pretendem subordinar a América Latina aos fins estratégicos das superpotências e, com respeito à integração, o fortalecimento das instituições mediante ações orientadas à solução dos problemas regionais e o fortalecimento das formas representativas do governo.

          O Presidente Alfonsin defendeu o conceito de integração, dizendo que... “Triunfará em definitivo, se se apóia na democracia e na participação dos povos” (“Clarin”, 20-3-1983).

          No caso brasileiro, o retorno à democracia e a ênfase nas relações bilaterais com a Argentina se fizeram dentro do marco de uma política exterior que não sofreu grandes mudanças. Quer dizer que sempre tem existido uma linha de continuidade nessa política exterior.

          O fato de que a integração argentino-brasileira seja um projeto surgido em grande medida por iniciativa governamental, o faz em alguma medida menos sólida. Existem problemas subjacentes que necessariamente deverão ser negociados e resolvidos, não somente pelos governos, senão também pelos diversos setores que formam a sociedade de ambos países.

          Para que essa integração seja uma realidade, o processo deve aprofundar-se com o apoio explícito de todos esses setores, incluindo as Universidades.

          Essa possibilidade se coloca dentro de uma dimensão política em ambos países e compreende aspectos tais como a validez de uma cooperação militar-estratégia entre Brasil e Argentina, a continuidade dos objetivos propostos pelos governos e o próprio futuro dos mecanismos democráticos.

Quarta, 01 Abril 2020 13:20

História: Coordenadas e Questionamentos

Luciara Silveira de Aragão e Frota.

Profa. Titular. Fundação Universidade de Brasília.

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O historiador trabalha metodologicamente pela condição de exames de vestígios e de constatação das evidências, matéria prima da História. A reconstrução do passado, em suas séries de acontecimentos e situações, o refazer desse tecido com uma hipótese própria, fruto de uma base documental, geram um pedido de diálogo entre o historiador e o documento .O desafio dessa apreensão do passado nos remete a nomes,  correntes historiográficas, filosofias  e  teorias que a respaldam até o presente, fornecendo a explicação do homem e clarificando toda criação duradoura.

Palavras chave:   História. Teoria. Historiografia. Ciências Sociais

 

 Sempre que falamos ao passado e pensamos no homem e nas formas de progredir da humanidade, nos reportamos aos restos encontrados, vestígios, evidências, temos um tipo de seriação contínua, um tempo de obras e ações onde se embute o progresso. Bem sabemos que o mundo técnico, em seu sentido estrito, desde os utensílios conservados até as máquinas e a tecnologia moderna não representa uma síntese do mundo instrumental humano, pois o saber se estratifica a partir de tudo o que ele pensa, comunica e expressa, somando-se como um todo adquirido em sua trajetória. É a escrita o instrumento decisivo que se última e mais tarde, o advento da imprensa. As tradições orais, o desejo de perpetuar e divulgar o que se pensa torna-se um caminho para livros e aberturas de bibliotecas rumo a aventura do conhecimento .Este saber se torna disponível ,um tipo de fatia do mundo instrumental  de teorias e técnicas com o selo dos sinais codificados numa “ aventura técnica irreversível, todo pensamento novo se serve de maneira instrumental dos pensamentos antigos e trabalha na ponta da história”.(  1   )

Em tantos séculos observamos o percurso do homem dando continuidade a sua subsistência numa série de registros e aprendizagem contínua. Do ponto de vista da metodologia, temos os segmentos da História que denominamos, história das invenções, história das técnicas humanas, história do progresso humano, na tentativa de entender  estas composições em sentido amplo e múltiplo compreendendo que nela se mesclam produções de homens comuns e  de gênios   das mais variadas culturas.

( 1 )  RICOEUR, Paul. História e Verdade, SP: Forense 1968, p.8.

 Trata-se da unicidade na História que torna comum os inventos, apagando muita vez os seus autores.

Mesmo quando a memória das técnicas, das ciências, do poder, conserva essas lembranças, mencionando-se crises, problemas e soluções encontradas, elas se situam  como uma preservação do que foi feito, tal como uma revisão possível em via de ser incorporada a novas propostas e hipóteses que venham a despontar.

     Observar  o conhecimento da condição do homem nos induz a refletir sobre um tipo de experiência moral e espiritual que diz de perto ao capital humano  e que se capitaliza como um tesouro e se espelha na arte, nos monumentos, nas liturgias, nos livros de cultura, formando um mundo à parte inserido no todo, fornecendo pontos de apoio como objetos e personificação de coisas que nos são exteriores. Faz-se preciso distinguir o plano das decisões, dos acontecimentos, o começo e o recomeço dos homens e mesmo seu fechamento às experiencias vividas, as que nos deixam no plano das evidências, os grandes e pequenos feitos que formaram a tradição. Mesmo quando a abstração desses atos e acontecimentos isolam o movimento da tradição, isto não anula a motivação histórica atuando como um fenômeno cumulativo que só pode ser diminuído ou desfazer-se em ruinas do temporal por eventuais incidentes catastróficos da História. Observe-se que o acúmulo de vestígios nem sempre vinculam o homem as suas obras, nem   invalidam o reconhecimento do progresso acumulado; um progresso que diz respeito ao espírito anônimo do homem, ao dinamismo das suas criações, em meio as civilizações que surgem e desaparecem. Este conjunto experimental de saberes, espiritualidade e obras de cultura, multiplicam as relações humanas em suas várias fases, aproximando-as entre si.

Ora, o que haverá de mais frágil do que uma visita do historiador ao passado? A reconstituição da imagem do homem constitui-se a realidade da cultura, mesmo sem a consistência das instituições políticas ou dos aparatos econômicos, pois apreendemos por meio dela uma realidade objetiva. O legado transmitido pelo homem na literatura, direito, artes, são todas elas imagens carreadas pela cultura e assim incorporadas em monumentos, estilos e todo tipo de obras, fornecendo uma visão de mundo que toma corpo e prospera como parte do material necessário a sua reconstituição na pena do historiador. São fontes que ele deve trabalhar para esculpir uma história mais além da abstração, e que ultrapassa as obras humanas, rumo aos caminhos de uma história concreta onde se privilegiam os acontecimentos e as decisões reconhecendo-lhe um  sentido global.  Isto  reforça o  fato de uma obra de arte poder ser um veículo de  comunicação porque “ mesmo quando não é a face humana  que se representa o que se veicula é ainda uma representação do homem; pois a imagem do homem não é apenas o   retrato do homem , é também  conjunto das projeções  do seu olhar sobre as cousas; nesse sentido, uma natureza morta é uma imagem do homem” ( 2 )

Este diálogo com o passado- cujo homem é o centro - é em princípio um diálogo sem resposta, pois como já nos disse o próprio Ricoeur, a condição primeira do diálogo é a que o outro responda, situando assim a História como aquele setor da comunicação sem reciprocidade. Temos assim um conhecimento inicial por vestígios e buscamos a constatação das evidências que nos confirmem as expectativas de estar no caminho certo. Os acontecimentos fazem a realidade da História, sustentam a sua racionalidade e respectivamente lhe dão sentido. São como centros organizadores, como tal centros que irradiam significações. Em torno desse centro volteiam os anseios da História, do que quer e se pode encontrar. Em última análise podemos dizer que ela busca explicar o homem. O passado distante não é senão o seu passado, assim como a distância temporal - vinculada ao fato - é o outro homem que permanece na memória coletiva. A História é  eivada de tentativas de encontro e de explicação que se expressa pelas manifestações das mais diversas culturas.

Na tentativa de examinar e selecionar fontes, elucidar problemas, o  historiador estabelece métodos para esquadrinhar o passado, obrigando-se a refletir, a definir-se ante as indagações que  surgem em seu mister, na busca de entender o homem e seu legado como agente de mudanças. Seu interesse pelo passado, pelo homem apreendido no seu devir temporal, permite-lhe ver o entrelaçamento das várias manifestações e vertentes do político, do econômico e do social fornecendo-lhe o ampliar da visão histórica e a interpretação das evidências. A história social  é o campo apropriado, pois  como quer Albert Soboul, nos Annales, ela tem toda a História, inclusive a mais tradicional dela faz parte,  independente  de  que  surja  muito ligada ao político e ao econômico. A predominância da intepretação, dando primado ao econômico, pode se revelar inconsistente, além de não excluir o fato de que os acontecimentos podem ter explicação própria.

 

( 2 )  RICOEUR.Op.cit.p.121.

 Por sua vez, a escolha deles e das suas explicações pode enfraquecer a própria factualidade daquilo que ele escreve, se perder de vista que uma leitura completa dos acontecimentos não pode desprezar as reações do social e nem excluir as iniciativas e a vontade dos homens, individualmente ou em grupo.

Isto não invalida o reconhecimento da aceleração do progresso técnico, seja a revolução industrial ou a revolução tecnológica recente. Ao mesmo tempo em que novos domínios são conquistados pelo homem, surge em paralelo, aos variados e múltiplos movimentos  característicos  do devir humano, o primado do econômico, o aceleramento das mass- mídias parecendo  captar e revelar a pobreza dos fins. Percebe-se que a eleição dos meios faz esquecer vários direitos que os fins precisam urgentemente recuperar. A intricada  disputa de poderes sublinha o conflito de esferas competitivas entre o político e o econômico podendo levar a uma redução dos acontecimentos e a uma perda da autonomia da História, pois nem sempre será fácil atingir, apreender o acontecimento. A informação que o historiador pode fornecer dá uma visão da profundidade dessas mudanças em curso  e abre oportunidades para a reflexão e a compreensão, bem mais do que a partir da interpretação de equações ou de uma atuação marcada como um artigo de fé. Significa dizer que a atuação do historiador não se liga a relevância imediata e que o uso da História estimulando o raciocínio a partir das analogias, pode levar a muitas tomadas de consciência, inéditas e súbitas, algumas imprevisíveis, podendo reencaminhar e reorientar o devir humano, levando a resultados surpreendentes..

Cabe aqui uma reflexão sobre o acontecimento, cuja observação não dispensa os níveis mais simples, algumas vezes, ao nível individual na descoberta desse acontecimento social, inovação “em que se pode encontrar por vezes o germe das transformações humanas fundamentais “( 3).

A noção do acontecimento leva assim  ao papel do indivíduo na História. Nesta perspectiva, não parece razoável sobrestimar a importância do acontecimento, dado que o ser humano é social e individual e em separado do que o precede e do que se seguirá, carece de significação absoluta.  Constatar o acontecimento não é de per si suficiente, pois é  importante perceber a sua gênese e a sua causalidade, enquanto “avaliar  um

( 3)  CRUBELLIER. Maurice. Colóquio de Saint Cloud-Sorbonne in A História Social-  Problemas , Fontes e Métodos. Lisboa: Cosmos, 1967. Discussão pós- palestra, p.63.

 

 acontecimento é estimar as chances que tem de se produzir”.(  4 )

Vilar nos diz que o conceito do acontecimento, as interrelações entre acontecimento e História e os laços entre o questionável conceito de micro e macro – história, deixam claro que “...os três métodos empregados na história social ,análise das estruturas, estudo das conjunturas, descrição, não permitem apreender diretamente o acontecimento” (  5 ).

Ele indaga se será possível ao historiador o supor na própria medida em que se indicam as transformações e identificam a sua gênese, que  nem todos os atos “voluntários e inovadores são acontecimentos, pois precisam antes manifestarem eficácia e serem aceitos como tais pelos que os cercam. Considera que na prática, o ato eficaz, mesmo     inovador, não terá acolhida. A proposta é distinguir o acontecimento, no sistema e na sociedade, que não quebra totalmente a sua coerência interna, e o acontecimento como sinal de passagem de um sistema ao outro, de um tipo de sociedade a outro tipo de sociedade.” ( 6  )

Sabemos dos registros da memória coletiva demostrando as mais variadas dependências humanas, desde as restrições climáticas, poderio dos seus senhores e escassas possibilidades de sobrevivência relativas a sua saúde e a resultados das pressões demográficas. Eles nos contam dos gostos e costumes revelando aspectos da vida privada e comercial.  Ao longo do tempo, suas conquistas sociais obtiveram o direito ao descanso e ao lazer, vencendo as transformações em curso da economia, levando ao reconhecimento da força das ideias na história humana, poderosa por força dos seus impulsos, para efetuar o processo de transformação que podem modificar as estruturas de que nos fala Braudel.  Neste caso, a estrutura social, considerada por ele como um conjunto orgânico de relações e de coerências, simultaneamente econômicas, sociais e psicológicas, que o tempo mal enfraquece e transmite muito lentamente  ( 7 )

(4 ) BLOCH. Marc . Apologia da História e o ofício do historiador ,R J: Zahar. 2001,p167.

 (5) LEFEBVRE. George. Un  Colloque pour l’ ètude des structures sociales,Paris: Annales 1957, p. 99.

(6) VILAR. Pierre, Histoire sociale  et philosophie de l’histoire. Caderno 47,1964.

(7) LABROUSSE. Ernest. INTRODUÇAO de A História Social, problemas, fones e métodos Lisboa Cosmos, 1967.

A escola histórica francesa, ao que parece, a mais antiga e mais profundamente social de todas as escolas históricas do mundo, abre ao historiador, o caminho das investigações históricas em todas as direções.  Labrousse nos fala que uma nova história social começa com uma história econômica renovada e uma sociologia em pleno progresso. Salienta ser, o objeto dessa história , para além do estudo dos grupos sociais e das suas relações, o estudo entre o econômico, o social e o mental e endossa o ponto de vista de George Lefebvre quando afirma que as  inovações   técnicas pressupõem um contato das ideias, sejam quais forem,  mantem sempre uma relação com a estrutura social do tempo e por conseguinte, com a economia que contribuiu para a criar.( 8 )

Para a Escola dos Annales, não é fácil caracterizar um acontecimento como motor, pois a história se faz ao nível do quotidiano no plano da estrutura. Quanto ao historiador precisa ainda evitar o crivo moral e psicológico do acontecimento e o não condescender a uma história moralizante e subjetiva , mais uma das tarefas que a ele se impõe. Isto sem esquecer o que é próprio da História,  o conter , ela própria, uma farta trama de fatos e acontecimentos sem que esta trama tenha necessariamente um dia posterior, o dia seguinte, que  na sua singularidade, pode trazer consequências possíveis e infindas. Nesta singularidade, a História busca raízes também.  Uma busca que equivale e que é um uníssono entre os adeptos dos Annales “o mostrá-la no tempo, na duração, ato elementar pelo que o porquê é substituído pelo como, e pode, no conteúdo desse último encontrar a sua resposta” (9) em consequências possíveis e infindas.

Braudel enuncia no primeiro capítulo do seu livro História e Ciências Sociais  ( 10 ) a existência de uma crise geral das ciências do homem, todas esmagadas pelos seus próprios progressos, mesmo que isso seja devido à acumulação de novos conhecimentos e à necessidade de um trabalho coletivo, cuja organização inteligente ainda está por se estabelecer. Assim, de uma forma direta ou indireta, todas se veem afetadas pelos progressos das mais ágeis dentre elas, ao mesmo tempo em que lutam contra um humanismo retrógrado, já  incapaz de lhe servir de  apoio ou referência.

 

(8) LABROUSSE. Idem. Ibidem.

( 9 ) BRAUDEL. Fernand. .História e Ciências Sociais, RJ,  Ed Presença 1976, p 7.

( 10 )BRAUDEL op cit. p.9.

Naturalmente o problema em foco é o como elas superarão as dificuldades, se em inúteis lutas a respeito de suas delimitações fronteiriças correndo risco de incorrer em falsos dilemas e falsos problemas. Alguns pesquisadores de modo isolado tentaram organizar e articular aproximações, como Claude Lévi Strauss, tentando agrupar a antropologia estrutural para os processos de linguística, “os horizontes da história inconsciente e o imperialismo juvenil das matemáticas qualitativas” ( 11  )

É fato conhecido que Braudel reconhece essa realidade, de quando as ciências sociais se impõem umas às outras nem sempre percebem a intromissão de território feita, na crença de continuar dentro dos seus próprios limites. Depois, talvez essas circunstâncias alarguem o solo das descobertas quando a economia descobre a sociologia e “a história-talvez a menos estruturada das ciências do homem  -aceita todas as lições que lhe oferece a sua múltipla vizinhança e esforça-se pôr as repercutir (.....)  Mas de momento urge nos aproximarmos uns dos outros. ( 12  )

Nos Estados Unidos, esta aproximação surge sob a forma de investigações coletivas a respeito das áreas culturais do mundo atual; de fato, as” international areas studies” são, antes do mais nada , o estudo por uma equipe de Social Science dos monstros políticos da atualidade: China, Índia, Rússia, América Latina e Estados Unidos. Impõe-se conhecê-los. Por isto é imprescindível, devido a essa colocação em comum de técnicas e conhecimentos, que nenhum participante permaneça, como na véspera, cego e surdo ao que dizem, escrevem ou pensam os outros” (  13   ).

Como outras ciências, a História sofre mudanças e interpretações a renovam .”A ideia de que os acontecimentos, poderiam ser suprimidos na visão de  Braudel e das Escola dos Annales não é importante para a nova história, segundo a qual, pelo contrário, tudo é acontecimento.” De fato , o que Braudel nos fala é sobre ultrapassar o acontecimento, o tempo breve que o contém, o do periodismo essas tomadas de consciência dos contemporâneos rápidas, em dia, cujos traços nos devolvem, tão vivo, o calor dos

 

( 11 ) BRAUDEL Idem. Ibidem.

( 12 ) BRAUDEL. Idem. Ibidem.

(13)FROTA. Luciara. História e Historiadores num mundo de conhecimentos, SP, Expressão e Arte, 2012 .p.130.

acontecimentos e das existências passadas” (14   )

A História e a historiografia  após a  sólida contribuição de historiadores marxistas. Recebe a inovação da  História Nova ou Nova História, fruto dos herdeiros dos Annales, corrente historiográfica mais ou menos correspondente à sua terceira geração. Embora com  proposta teórica  nascida  junto com a revista, a  Nova  História Francesa, “ nova inclusivamente em relação aos trabalhos de Fernand Braudel e à escola da revista Annales. Segundo Pierre Nora, nova também “porque põe em causa o próprio lugar do observador, do historiador, deixando de  falar  sob um ponto de vista absoluto - Deus, o progresso da humanidade, a luta de classes- tendo, pelo contrário, de justificar a urgência e a necessidade dos seus trabalhos”.  (15 )  Citando Michael Foucault como um bom exemplo da mudança de  objetos da História, ela sai do estudo dos grandes homens e das  grandes  sínteses e passa a História dos povos e das mentalidades. Esta renovação não se liga só ao estudo das épocas contemporâneas, mas na história antiga, na ideia que temos dos Hititas, dos Gregos e dos Romanos.

Muitos são os problemas, ambições e dificuldades dessa proposta de história e essa renovação inovadora  produz discurso sobre a sua função, o próprio funcionamento do discurso crítico e a incorporação de ferramentas que ajudem a esclarecer como vivem os homens no dia a dia. Uma novidade na historiografia atual, falar do homem desconhecido, daqueles ausentes de celebridade, dos quais nunca se fala nem se ouve a voz.

Nessa ótica, podemos falar da História Oral que surge nos Estados Unidos, depois na Grã- Bretanha e, mais tarde na França, sobretudo depois de 1975, sob denominações variadas sem esquecer que propriamente em termos de História, “ o recurso aos testemunhos orais é antigo. Já em sua  História da Revolução Francesa, Michelet   põe na palavra do povo o próprio fundamento da tradição nacional. No pós-guerra, em 1948, Allan Nevis da Universidade de Columbia, acrescentou as fontes orais captadas junto a testemunhos da História, aqueles que já constavam  de arquivos impressos e escritos. No Brasil, onde é comum o descaso pelos arquivos públicos e particulares, um grupo formado por profissionais da UnB, UFF/RJ e Fundação Getúlio Vargas R/J trouxe uma equipe de professores americanos e mexicanos para formar ali, os primeiros profissionais na área,

(14)  BRAUDEL. Op Cit., p130.

(15) ARIÉS. Philippe, Michael de Certeau, Le Goff, Le Roy Ladurie e Paul Veyne A História uma Paixão Nova -Mesa Redonda  in A Nova História, Lisboa: edições 70 S/d.

num Curso de Especialização envolvendo universidades como Paraná, Santa Catarina, Ceará e Rio Grande do Sul. Coube a PUC/SP o primado da História Oral no Brasil como matéria do currículo de pós -graduação, com o nome de Documentação Oral, sob a gestão   geral de coordenador Joel  Martins e na de História, Yvone Dias Avelino. De qualquer forma, o valor da incorporação desses testemunhos nada representaria não fora a proposta de através desta forma técnica atingir-se pela prática a etnológica retrospecção de um revisionismo que tem como propósito fazer construir uma História com nova base, dando a palavra a representantes de minorias culturais.”  ( 16  )    

Esta história não nega autonomia  ao historiador como um ordenador dos acontecimentos e reconhece o fato de que a “mass mídia” ao  trazer a ele um tipo de monopólio da história  pode implicar numa concepção não só de história, mas de ciência . Constitui a identidade na sua ênfase, como no passado, a oposição a determinados setores do historicismo e do positivismo da sua época: oposição ao historicismo não como um todo e sim ao que se chama história historizante. (  17   ). Pregar a cientificação do pensamento e do estudo humano a fim de obter resultados claros, objetivos e corretos, o positivismo acreditava no ideal distante da neutralidade cientifica.

Observamos que independente das mudanças, ao longo do tempo, se escreva sobre a história, onde o singular é um e se faz objeto, o que ela expressa é a consciência e o tratamento do fato singular. Nos limites do seu material fragmentário a História descobre o fazer e os acidentes do fazer. Assim, “atrás do sinal, descobre o ato e os gestos que compõem o ato. A confissão diacrônica desemboca no trabalho profundo e, até então misterioso da alma coletiva. Episódios, constituição de vocabulário ou de discurso de qualquer forma que seja, mutações lentas, impulsos abortados são outros tantos elementos de que se poderia chamar de vias de comunicação, atalhos, entre a fixação histórica dos sinais e a gestação silenciosa. Tornando vivas as opções e suas obras, a história empresta voz ao gênio profundo do grupo humano, revela o seu trabalho interior,  mostra o  coletivo em sua afirmação de existir, e o equipamento do mundo que lhe daria, ao mesmo tempo,  a sua certeza e, como as certezas guardam limites, a sua promessa de ultrapassagem”.(18)

 (16) FROTA, Luciara. Documentação Oral e Memória das Secas ( Estudos) Brasília - Senado Federal, 1984, p17.

 (17) DUPRONT. Alphonse, A religião : Antropologia Religiosa in História : Novas Abordagens,  p. 104.(18 ) DUPRONT. Alphonse, Op. cit.p 103

 

Nos referimos ao contato singular e individual da História com o seu objeto, implícito na duração do tempo, como se fosse um contato de participação. Gerando o conhecimento do singular dá inteligibilidade ao difuso, ao mesmo tempo que fornece é a mesma realidade histórica na trama dos seus acontecimentos. Termina-se por verificar que a História fornece uma explicação do existir humano e clarifica toda duração criadora. Temos que nas condições de pesquisa e produção histórica, o historiador pode descobrir, no interior da seleção dos métodos adotados, análise e limites que o norteiam e que se enraízam no passado anterior ao que elegeu como tema. A seleção e elucidação da historiografia que elegeu é, portanto, a chave por meio da qual se abrirá o conjunto de evidências na herança do que lhe ocupa. Seus limites já traçados poderão nesse momento alargar-se: analisar os o que obteve, os postulados sobre os quais se assentam, os procedimentos que adota, constitui um passo decisório propondo determinar as diferenças com relação ao seu propósito inicial.

Como filha do seu tempo, não se pode negar a confluência de correntes de interpretação as mais diversas asseguradas pela heterogeneidade dos pressupostos. De uma parte, influências literárias, religiosas e filosóficas, mas nada impermeável a correções de rota. Na Idade Média, os livros sobre filosofia de Étienne Gilson teciam comentários sobre o viés ideológico, com o uso de recursos implícitos a um princípio organizador ligado numa rede de relações de grande homogeneidade unificando os fenômenos daquela época.   A obra de Gilson foi marcante e ela é uma das resultantes da importância concebida à questão da mentalidade e as noções de influência ao se estabelecer uma comunidade de sentido. Mais tarde, Lucien Febvre, debruçado em novos problemas, censura em Gilson a falta de outras constatações sobre o capitalismo mercantil do século XVI. ( 19).

A posição minoritária do catolicismo no íntimo de uma sociedade secularizada, sem se pretender colocar a diminuição da força de um sistema de poder sobre a pesquisa científica, estabelece uma decadência de valores e contribui para o surgimento de uma disjunção do científico com a significação dogmática da prática religiosa e mesmo com os valores tradicionais.

A história econômica e social dos últimos anos, viu-se alimentada por modelos de análise marxista e rapidamente confrontada pelos variados problemas oriundos da estratificação

 

( 19 ) FEBVRE. Lucien. Combats pour l´histoire,  Paris: A. Collin, pp. 284-287

 

sócio- profissional como as relações pré-industriais. Colocando a luta de classes como força motriz da História e gerou uma revolução na perspectiva de visão sobre história e historiador. Finalmente, no marxismo, a história é o elemento útil de uma práxis transformadora de mundo que tem como meta o futuro. Trata-se, pois de uma filosofia pragmática da História. Os estudos frequentes sobre antagonismos sociais levam em  direção a indagações sobre consciência de classes em todas as épocas, e em seguida, ao estudo das prioridades entre níveis de cultura e grupos sociais. As várias pesquisas sobre temas similares demonstram a dificuldade do trabalho do historiador com a formulação e ligação de conceitos vinculantes entre infraestrutura e superestrutura. O simples reconhecimento dessa dificuldade não revela senão o postular de uma necessidade de explicação plausível. Não significa o mesmo que definir e estabelecer o tipo de relação entre os dois diferentes níveis.

Despido de um aparato que lhe permita a explicação do todo histórico, como lhe conviria, fosse pela intervenção ou significado de um fator compreensível e determinante, o historiador verifica os seus  graus da impossibilidade mesmo sem renunciar à ambição da totalidade. Nas armadilhas do seu trabalho, ele se debruça sobre temas que não lhe respondem a inquietação, algumas delas ligadas à questões de capital e trabalho, sociedade e ideologia. Sem dúvida, as questões abertas pelos métodos estruturais podem tornar aleatórios  a colocação de alguns fenômenos. É a interdisciplinaridade acenada pela Escola dos Annales quem pretende dar alguma resposta plausível, levando o historiador a lugares até então desconhecidos, mas preconizados por ela, tais como, a análise dos mitos, o estudo das linguagens, o esboço de uma arqueologia sobre a investigação científica. O interesse de Braudel por disciplinas vizinhas está  sempre sublinhado em seus escritos  a partir do reconhecimento de que outras disciplinas ligadas ao estudo do homem são vizinhas próximas e úteis ao historiador. Todos esses fatos, voltados  às tentativas de aproximação com outras ciências são importantes a partir dos registros sobre a fragilidade do conhecimento  moderno quando tentou compor entre sociólogos estruturais oriundos dos anos 50 e antropólogos behavioristas dos anos 70, posições de encorajamento para compor o suprimento de uma coesão às vezes expressa numa linguagem comum.

A interdisciplinaridade não afastou a História de crises. Alguns se questionaram  ao ler que a semiótica acolhida como ciência, de forma mais recente que a História, produziu interessantes descobertas e nomes como Umberto Eco, para nós de crescente familiaridade. Eco começou a sua carreira com trabalhos como Aristóteles e Thomas de Aquino. Trabalhou também com cultura de massa, televisão, romances populares, além de arte e literatura. Ele “traz à baila a questão de estrutura de mundos, que é preciso esclarecer e postula mundos possíveis construídos por um conjunto de indivíduos providos de propriedades, ações  e um curso de acontecimentos que nunca têm total autonomia em relação ao mundo real , mesmo no caso das narrações de ficção cientifica ou das narrativas fantásticas’ (20)  .

    Para o historiador interessado nas coordenadas do seu trabalho é importante o construto cultural, o  mundo dos seus textos, dentre outras  alternativas, mas quando os corpos  docentes das Universidades de Chicago  e Colúmbia dispuseram a História dentro  do domínio das Ciências Sociais, essa alocação foi conveniente aos economistas, cientistas  políticos e sociólogos visto que grande parte deles envolvia-se com o passado em busca de dados para os seus trabalhos. Para os historiadores pareceu uma forma de promover os seus interesses utilizando um arcabouço teórico já pronto, ao mesmo tempo em que promovendo a sua disciplina também promoviam a si mesmos.

Sem dúvida, o conhecimento englobado nas disciplinas denominadas ciências sociais não podem ser dispensadas, bem como os pertinentes pelo conjunto de disciplinas afeitas a área de humanidades. .Não cabe ao historiador somente participar de parte de fatias do conhecimento, nem mesmo sob a justificativa de depositário de um conjunto de técnicas que podem vir a beneficiar pesquisas futuras. A alternativa de independência seria a mais plausível para poder  fornecer resultados às tarefas próprias do historiador. Sempre plausível devem ser as conexões com as formas de prática existentes, como entre a política e o sistema produtivo, saúde e educação, arte e progresso. Os elos significativos podem ser produtos de estudo, ou então podem significar erros de omissão ou de comprometimento anterior levando a resultados alheios ao progresso que se pretende. As supostas conveniências se mostraram inconvenientes, ponto que requer algumas considerações como a natureza especializada da investigação histórica necessitar de certa iniciação, de fato inerente a ação investigativa. Sabemos que a denominada especialização técnica da história não tem  valor isoladamente, além de assinalar-se  que a sua contribuição não possui, por óbvio, a capacidade de absorção do conhecimento

(20) RALLO. Elizabeth. Métodos de Críticas Literárias, S P: Martins Fontes,2005, p. 202.

 

 

histórico. O historiador fornece a outras ciências do homem uma perspectiva enriquecedora sob a ótica da razão, permitindo  hipóteses e referências mais bem trabalhadas,  refletindo melhor a atuação humana nas situações especificas da história vivida naquele momento e daquela maneira .

 Estabelecer até que ponto as formas de sociabilidade triunfam nos grupos, pode levar a indagação de até que ponto se pratica uma história serial ou uma história quantitativa no universo das pesquisas apresentadas, esboço e a insinuação das curvas, ritmos diversos e  rupturas são um conjunto de desafios à espera do historiador. Os seus próprios progressos lhe colocaram armadilhas no percurso, embora seja fácil constatar que para os que querem pesquisas quase inéditas, não há falta de material bruto nos arquivos. 

 A par da escolha temática, pode-se constatar um fato real. A escolha do tema é guiada por um interesse próprio e se inspira numa interpretação que precede o objeto de nossa escolha fazendo ressurgir, no decorrer da pesquisa, os traços de um percurso subjetivo. A busca de fontes segue ao encontro de trabalhos mais antigos que somam e enriquecem o conhecimento do historiador. Ele se beneficia do conjunto de linguagem apresentada pelos textos, informações e análises recebidas, transmissão de crenças e a certeza de que alguém como ele, pensou no passado daquela maneira. É dessa leitura e dessa análise do historiador que flui a coerência interna, ideias e palavras, guiadas por uma estrutura intrínseca, pois o resultado ao nosso alcance é uma evidência, o final de uma pista seguida dantes por outrem.  A reflexão que o toma como testemunho não pode pretender esgotar o seu sentido. Por outro lado, o historiador segue  perseguindo a sua linha independente de intenção, diversa, mesmo que complementar a que se limita aos interesses próprios e respondidos de outra interrogação.

É evidente que todos os modos de pesquisa e interpretação não se equivalem., pois sabe-se que em matéria de fontes, independentemente de suas divisões, algumas surgirão como menos fecundas e menos esclarecedoras. Isto pode ajudar a demonstrar um grau maior de pertinência, pois os critérios na elaboração dos assuntos não têm a simplicidade de uma fórmula.   Certo é que cada vez mais que se alcança o resultado  proposto pelo objetivo temos um ponto de chegada mais próximo de uma totalidade, de nos permitir ver a composição dos elementos e as relações que o constituem historiador percebe que o objetivo alcançado serve a outras aproximações , mesmo que no momento elas pareçam fora de alcance A interpretação é livre para quem se aproximou de um resultado, o fruto de uma reconstituição escrupulosa e que leva a uma palavra convincente.

Apesar das muitas fontes disponíveis em História e dos muitos  esforços concebidos para fazer falar restos e documentos, o texto, como fonte, parece exercer uma atração maior sobre o historiador. Alguns consideram ser o texto, em geral, o que melhor apoia as dificuldades dos temas de estudo, por mais facilmente nos dá uma resposta forte e incisiva, insinua  encurtar a distância que dele nos separa, além de parecer convidar à aproximação do que fala a sua obra. Ele é importante referência no trabalho e está sempre disposto a corroborar ou não com o que dele dizemos. Quem o cita se obriga a dedicar-lhe a maior atenção. Localizado, oferece  recurso permanente de retorno ao que se leu, pois é um objeto disponível. Ele parece perguntar se foi convenientemente observado, compreendido, e se sua análise interna, da forma como se usa numa análise de texto, não limitou o uso e se não houve desconsideração aos dados externos.

A interdisciplinaridade  já referida, proposta pelos Annales e pela  recente História Nova, pode levar ao uso de línguas diversas na interpretação de textos e isto se constitui num maior desafio: o de funcionar como um agente de passagem, manifestando a integridade de uma mensagem, de uma citação, que não deve sofrer alterações. Starobinski nos aconselha sobre a liberdade com que pretendemos escolher “os nossos objetos e os nossos métodos, só o podemos fazer recorrendo a linguagem e aos instrumentos que nos transmitiu a História”. ( 21   )   

 As  dificuldades estão sempre no caminho do historiador comprometido com a seriedade do seu objeto e pedem, em alguns casos, conhecimentos mais específicos sobre artes, política, migrações, geografia, ,antropologia, entre tantos que requisitam alargamento de  domínios. No emaranhado das fontes  disponíveis, o fio condutor, o que  tem para guiá-lo é  a boa e velha evidência como nos assevera Handlin no seu tradicional estudo sobre  a  a verdade na História.( 22)

(21) HANDLIN. Oscar. A Verdade na História, S.P, Martins Fontes/ Editora Universidade de Brasília, 1982, Op Cit..p129.

(22)  STAROBINSKI, Jean in  A literatura: o texto e o seu intérprete - História : Novas Abordagens, pp130-143.

 

Sem dúvida, a contribuição da História e sua importância, frente ao conhecimento  evicissitudes humanas podem passar pela linguística histórica, permitindo, a exemplo de outras contribuições, o apelo silencioso ou exaltante de nossos dias  quando se recorre à História , para compreender  s gestação das profundidades do de atos coletivos , os atos humanos  das mais diversas naturezas. Funde-se na História os vários tempos, a vida do tempo, do que pode ser tecido com a linearidade  das continuidades históricas. Elas marcam ritmos e períodos sem nenhuma homogeneidade  percebida .Mensurar o tempo, periodizar o tempo são sempre difíceis desafios. Anúncios, acontecimentos,  mudanças sociais, crispações internas, tudo posto num tempo absorvido pelo nivelamento histórico, o suceder do homem na História. A vida na duração, não parece sensível a medidas, mas é plena de tensão ultrapassando a si própria na inquietação e na busca de uma dominação do futuro É  preciso reconhecer que a descrição da historiografia pode ser a única forma de tornar inteligível  o combate pelo exercício do poder e da sua busca por vencer o tempo, imaginando as contrações e perspectivas humanas  da existência coletiva da duração.

A História dá contribuições evidenciais, a partir do acontecimento que compõe a sua  trama. .A convergência dos documentos pode permitir o estabelecimento de variação e continuidade e destaca o individual na profundidade da criação coletiva . Na verdade, o trabalho  feito nesta profundidade  da criação coletiva  é um pouco o que a História faz e o seu sentido e linguagem, numa coerência aproximativa.

 As sequencias históricas, os limites do seu fragmentário destacam o modo de fazer a História  e o seu entorno .O conjunto dos elementos do discurso, transformações lentas, caminhos de comunicação em plena abertura, atalhos entre a gestação silenciosa e a fixação dos sinais, numa forma de fixar as opções, revelando o  trabalho interior  da História e o trabalho coletivo  do grupo numa afirmação do existir humano.

Muito difícil para a maioria dos historiadores é o confronto com os remanescentes de suas atividades passadas. Essa relação com o mundo de conhecimento onde elevada montanha de letras e ideias diluídas no papel ou na telinha do computador, foram geradas  por profissionais das mais variadas procedências e nacionalidades, expressam  e registram seus experimentos coloca a cada um deles numa relação bem diversa com o mundo do conhecimento. Aqueles emaranhados de fontes refletidas em relatórios e tratados formais, as anotações de experimentos, esboços de pintura, múltiplas anotações nas margens, rascunhos e mais rascunhos de projetos e pensamentos oriundos da mente humana atestam que em determinado momento aqueles restos tomaram forma e eram definíveis. Esses elementos são todas formas de reconstrução do passado, expandindo, de forma vertical ou horizontal, a soma de evidências que lança luz sobre novos problemas e equaciona luz sobre soluções. Apesar de na maioria dos casos, as técnicas usuais serem adequadas e suficientes para avaliação das evidências históricas, elas também são registros e as localizações de tempo e lugar, bem como o caráter de seus autores fornecerão os ajustes quando se passa ao plano de avaliação das evidências úteis. ( 23)  A incorporação de novas técnicas. o advento e disseminação dos computadores  e as facilidades de acesso à Internet, a uma rede mundial informativa requerem que os historiadores  estejam nela inclusos para facilidade das suas pesquisas e comodidade de seus trabalhos.

Naturalmente,  muito se espera da História e do trabalho do historiador, como uma certa objetividade, uma abertura retificando o grupamento da história oficial das sociedades tradicionais amealhadas sobre o seu passado. A objetividade em construção, como pretendia Marc Bloch, permite fases como a observação, no pleno sentido da palavra, pois observação não pressupõe só o fato, além da  a crítica e a análise histórica. Nesta linha, temos o pioneirismo de estudiosos brasileiros, como a historiadora da Universidade de São Paulo, Fernanda Pacca no uso de computadores no seu projeto Leviatã ligado ao uso de computadores na História, proposto em conjunto com o também historiador Davi Gueiros Vieira, da Universidade de Brasília, um avanço significativo  na área de documentação histórica voltada para a documentação  da Câmara e do Senado.( 24 )

 O fato de o historiador não poder se colocar em face do seu objeto do passado não desqualifica a importância do vestígio nem é um  demérito para a História. A reconstrução de uma série de acontecimentos do passado com base documental, supõe perscrutar, fazê-lo falar, aliada a hipótese de trabalho do historiador, elevando o vestígio a fato histórico.  

 (23) WRIGHT. Fernanda Pacca de Almeida. Computadores: uma nova experiencia na História. Notas da Palestra. Senado Federal ,.Brasília 2000. Apoia-se também na Escola do  Presentismo e no conceito de evidência nomeado por Handlin.

 (24) A historiadora Fernanda Pacca de Almeida Wright ( USP) e o historiador David Gueiros Vieira, (UnB) , ambos de formação norte-americana, ,já  falecidos, deixaram excelentes trabalhos históricos como, respectivamente Desafio Americano à Preponderância Britânica no Brasil e o clássico História do Protestantismo no Brasil, N.A.

 É a sua intervenção  que produz o documento e ao construir-se, configura-se numa atividade metódica, a crítica .As informações dadas pelos historiadores fornecem uma visão aprofundada, abrindo as possibilidades para melhora da compreensão de determinados assuntos, convidando para uma melhor apreciação dos fatos .

Os usos da História podem ser múltiplos. Empolgados  com o mercado sequioso por uma história desmoralizante e voltada para ridicularizar algumas das suas mais nobres personagens, alguns dos que se rotulam historiadores, escrevem  a chamada  contra história   irrestrita e voltada para um público esfaimado e  descrente dos seus próprios valores de coerência intelectual. Não falo aqui dos esforços para imitar o suspense dos romances ou das licenças tomadas por alguns romances históricos, alguns precedidos também de pesquisa histórica, como o recente romance sobre a vida da Imperatriz  Elizabete ,da Áustria-Hungria, de Alison Pataki. Refiro-me  ao equipamento de repetição usado, por declarações pouco cautelosas sobre assuntos históricos complexos como a Guerra do Paraguai, com a finalidade de pretensamente desmistificar figuras do império e militares como o Duque de Caxias. Certamente, os historiadores sabem que não é sua tarefa a reprodução exata dos fatos, pois não é próprio da sua disciplina o ressuscitar, o reviver integral do passado. A ele cabe  apenas interligar, recompor um eixo retrospectivo. O esforço inteligente renuncia a coincidências, analisa e apresenta resultados de análise  com base na explicação serial dos fenômenos de cunho econômico, político ou cultural entre outros. Decerto, lendo ou escrevendo o historiador  imerge “ num ato de crítica, pois ele está sempre avaliando a evidência. Todo aquele que falha como crítico, falha também como criador” ( 25 ). Sabemos que os que os escrevem , sejam homens ou mulheres, tomam a decisão com base no interesse, tendências ou expectativa de lucro. Ao fazê-lo, empregam uma fórmula a produzir um resultado almejado. Isto também pode explicar que nem sempre a História serve a fins imediatos. No passado mergulham, buscando a legitimidade da construção dos seus mitos e fantasias, ou mesmo de ambos, certamente não por meio dos caminhos legítimos de uma História escrita pelo credenciamento da responsabilidade dos  historiadores. Observemos a quem serve a desconstrução histórica  e o exagero de uma história midiática e pobre .Escrever a História não é uma permissão para ciar falas ou, como todos sabemos, também não o é para inventar o passado.

Composição e crítica são processos contínuos. O “registro literário de um encontro com a  evidência. Não há ponto preciso a partir do qual a pesquisa termina e a composição

(25) BLOCH. Marc. Apologia da História, p.130.

começa. Desde a primeira montagem de palavras no papel , e através das repetidas revisões que moldam a oração aos fatos, a luta para abordar a verdade sugere -exige-  material mais abundante, melhor e mais depurado. É a montagem da última linha que traz consigo  não a certeza de estar certa, mas a certeza de ter exaurido a evidência”.  ( 26 )  O  historiador  de nossos dias pode dispor de instrumentos pouco acessíveis no passado. Adentrar num campo de pesquisa já percorrido por outro significa que sob as mais variadas bases podemos usufruir dos guias construídos pelas pesquisas anteriores. É um processo triangular em auxílio aos pesquisadores posteriores nos saltos de imaginação que ele precisa efetuar quando necessita de um retorno ao examinar  evidências de um passado remoto

.Sempre útil ao historiador é a meditação sobre a importância e os usos da História  Pode ser que estudos desapaixonados sobre temas apaixonantes possam resultar melhores do que o que se possa sugerir sobre paradoxo. Alguns desses estudos podem ter o condão de propiciar  a compreensão de momentos políticos turbulentos como os que vivemos neste momento. Isto não torna o diferir em termos de orientação política, preferência de tema, diversidade do enfoque, bem como quanto  a qualidade do trabalho é louvável evitar a distância da verdade apesar de que isto possa representar pouco sucesso.

Podemos verificar que algumas dessas verdades não resistiriam ao teste das evidências se elas não estiverem reduzidas a um meio certeiro para entrar na lista dos mais procurados e vendidos da semana. Algumas vezes os cuidados devem se estender aos cenários sem a necessidade de uma alteração drástica para situar mais desfavoravelmente um personagem real .A significação do homem na História deve sempre evidenciar um sentido de tempo e lugar em que ocorrem os acontecimentos sem o desvinculamento do papel exercido e das circunstâncias do momento histórico vivido onde se insere a sua ação. O afrouxamento  generalizado das formas e maneiras no trato da narrativa não deve diminuir a importância e o valor da racionalidade e da coerência. Procurar a verdade ainda legitima os valores de uma sociedade sensata e  deve continuar norteando o historiador preocupado com o seu ofício.

Ainda se espera da História e dos historiadores  uma apreensão do passado , como algo distante  de uma força de atração mecânica com o pano de fundo manipulável por seus testemunhos. Uma ação construtiva  de primeira ou segunda mão talvez pudesse trazer o

(26) HANDLIN. Oscar. Op. Cit. p.129.

historiador, antes de tudo um homem moderno, à realidade de que não é de melhor sabor  o gosto pelo relativismo. As invenções e a imaginação às vezes podem ser venenosas e nem sempre vemos a tempo o que é lesivo para a História. Isto vai bem mais além do mister do historiador, oscilando entre a boa e a má subjetividade, diante da responsabilidade de reflexão e de discernimento que lhe cabe.

Sempre em processo de fazer-se, a  História tem a função da esperança num mundo de mudanças  mantendo um diálogo sempre aberto, preservando a sua autonomia e o seu valor. Nem sempre se poderá introduzir uma intenção fraterna nos debates que ela gera. De qualquer modo, é nesse sentido justamente que o ambiente vital da comunicação é perpassado por ela, a luz de todos os debates.

Há como um segundo nível de leitura, quando se dá a passagem da história abstrata onde são consideradas só as obras dos homens, a uma história com crises , decisões, ascensões  quedas e decadência , quando ele “se revela  na acumulação das suas pegadas, (,,,,)uma História concreta, onde existem os acontecimentos”. ( 27  ).De fato, ela permeia reflexões sobre o devir humano  e está sempre inseparável  das percepções éticas, sociais e políticas  das relações entre os homens e dos pressupostos de ordem cultural subjacente.

Espelhando-me no prefácio de Jacques Le Goff  à Apologia da História, onde diz esforçar-se por ser o discípulo póstumo de Marc Bloch, verifico  que a sua legitimidade da História, o problema epistemológico da História , além de um problema intelectual e científico, é um problema cívico e moral. Para ele, a civilização ocidental sempre esperou muito da sua memória e introduzindo o par História-memória, colocou  a memória  como uma das matérias primas da História, mas sem se identificar com ela. Essa atenção à memória é para o Ocidente .herança da antiguidade e do cristianismo e nela pode está o conhecimento de si mesmas. Bloch define ser  a História uma busca, portanto escolha, e seu objeto não é o passado. A própria noção de que o passado enquanto tal possa ser objeto de ciência lhe surge absurda. Seu objeto é o homem, ou melhor os homens, e mais precisamente os homens no seu tempo. Ele também nos ensina  ( 28)  que  a  ciência decompõe o real apenas a fim de melhor observá-lo, graças  a um jogo de fogos cruzados cujos raios constantemente se combinam e interpenetram. O perigo começa quando cada projetor pretende ver tudo sozinho ;quando cada canto do saber é tomado por uma pátria.

(27) BLOCH. March.,  Op. cit.p.130.

(27) BLOCH. March.,  Op. cit.p.131.

(28) BLOCH, Op cit. P.131.

NOTAS

( 1 )  RICOEUR, Paul. História e Verdade, SP: Forense 1968, p.8.

( 2 )  RICOEUR.Op.cit.p.121.

 ( 3)  CRUBELLIER. Maurice. Colóquio de Saint Cloud-Sorbonne in A História Social-  Problemas , Fontes e Métodos. Lisboa: Cosmos, 1967. Discussão pós- palestra, p.63.

(4 ) BLOCH. Marc . Apologia da História e o ofício do historiador ,R J: Zahar. 2001,p167.

 (5) LEFEBVRE. George. Un  Colloque pour l’ ètude des structures sociales,Paris: Annales 1957, p. 99.

(6) VILAR. Pierre, Histoire sociale  et philosophie de l’histoire. Caderno 47,1964.

(7) LABROUSSE. Ernest. INTRODUÇAO de A História Social, problemas, fones e métodos Lisboa Cosmos, 1967.

(8) LABROUSSE. Idem. Ibidem.

( 9 ) BRAUDEL. Fernand. .História e Ciências Sociais, RJ,  Ed Presença 1976, p 7.

( 10 )BRAUDEL op cit. p.9.

( 11 ) BRAUDEL Idem. Ibidem.

( 12 ) BRAUDEL. Idem. Ibidem.

(13)FROTA. Luciara. História e Historiadores num mundo de conhecimentos, SP, Expressão e Arte, 2012 .p.130.

(14)  BRAUDEL. Op Cit., p130.

(15) ARIÉS. Philippe, Michael de Certeau, Le Goff, Le Roy Ladurie e Paul Veyne A História uma Paixão Nova -Mesa Redonda  in A Nova História, Lisboa: edições 70 S/d.

(16) FROTA, Luciara. Documentação Oral e Memória das Secas ( Estudos) Brasília - Senado Federal, 1984, p17.

 (17) DUPRONT. Alphonse, A religião : Antropologia Religiosa in História : Novas Abordagens, Paris : Gallimard, 1976. p. 104.

(18)DUPRONT. Alphonse. Op. cit. P.104

(19 ) FEBVRE. Lucien. Combats pour l´histoire,  Paris: A. Collin, pp. 284-287.

 (20) RALLO. Elizabeth. Métodos de Críticas Literárias, S P: Martins Fontes,2005, p. 202.

(21) HANDLIN. Oscar. A Verdade na História, S.P, Martins Fontes/ Editora Universidade de Brasília, 1982, Op Cit..p129.

(22)  STAROBINSKI, Jean in  A literatura: o texto e o seu intérprete - História : Novas Abordagens, pp130-143.

(23) WRIGHT. Fernanda Pacca de Almeida. Computadores: uma nova experiencia na História. Notas da Palestra. Senado Federal ,.Brasília 2000. Apoia-se também na Escola do  Presentismo e no conceito de evidência nomeado por Handlin.

(24) A historiadora Fernanda Pacca de Almeida Wright ( USP) e o historiador David Gueiros Vieira, (UnB) , ambos de formação norte-americana, ,já  falecidos, deixaram excelentes trabalhos históricos como, respectivamente Desafio Americano à Preponderância Britânica no Brasil e o clássico História do Protestantismo no Brasil, N.A.

 (25) BLOCH. Marc. Apologia da História, p.130.

(26) HANDLIN. Oscar. Op. Cit. p.129.

(27) BLOCH. March.,  Op. cit.p.130.

(28) BLOCH, Op cit. P.131.

Quarta, 01 Abril 2020 00:00

Entrevista Dr. Guimarães Duque

Fortaleza, 05 de agosto de 1976

Entrevista com o Dr. José Guimarães Duque, agrônomo, detentor da medalha do pacificador, por serviços prestados ao Exército Brasileiro em 1960, do grande prêmio Moinho Recife em 1962, da Medalha do Primeiro Decênio da Sudene em 1970, da medalha da Abolição outorgada pelo Governo do Estado do Ceará em 1973 e Doutor “Honoris Causa” pela Universidade Federal do Ceará.[1]

 

Entrevista  concedida para o Programa de História Oral da Universidade Federal do Ceará em Convênio com o Arquivo Nacional.[2]

 

                                                                                       L.F. LUCIARA FROTAG.D. GUIMARÃES DUQUE

 

L.F.

Doutor Guimarães Duque, embora nós saibamos muitos dos seus dados biográficos, nada mais interessante do que o senhor mesmo contar para nós onde nasceu, o nome de sua esposa, dos seus filhos, algum episódio interessante da sua infância, ou qualquer outro dado que o senhor considere interessante ou importante a uma biografia do senhor para o futuro.

 

G.D.

Eu nasci a 20 de setembro de 1903, em Lima Duarte, Minas gerais. Sou filho de Manuel Jorge Duque e maria Pia Guimarães Duque. Fiz o curso primário em Juiz de Fora, em 1911 a 1915. Estudei no Instituto, Juiz de Fora, 1916 a 1918. Curso ginasial preparatório no Instituto Lavras, Minas, 1922 a 1924. Curso superior de agricultura, Minas, 1925 a 1928. Diplomei-me em Agronomia em dezembro de 1928. Sou casado desde 1935 com Maria Laura Moreira Duque. Tenho quatro filhos homens: Marcelo, economista; Sérgio, engenheiro civil; Sílvio, engenheiro civil; José Guimarães Duque Filho, engenheiro civil. Depois de diplomado em Agronomia fui professor na Escola Superior de Agricultura de Viçosa, Minas, nos anos de 1929 a 1932. Em janeiro de 1933 a convite do Agrônomo José Augusto trindade, quando era Ministro da Viação o Dr. José Américo de Almeida, eu assinei contrato e ingressei na Comissão de Serviços complementares da antiga Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas, onde trabalhei de 1933 até 1938. Naquele período foi a formação dos postos agrícolas nos açudes e eu cheguei no Nordeste em janeiro de 1933 e fui morar no açude Cruzeta, região do Seridó, Rio grande do Norte. Lá foi iniciado os primeiros viveiros aproveitando a água do açude que já estava construído. Em seguida foi iniciado o Posto Agrícola do açude Condado, ainda em construção, também com a formação de viveiros. Em seguida o açude de São Gonçalo, Sousa-Paraíba, também ainda em construção pelo engenheiro Estevão Marinho, foi iniciado os primeiros viveiros e trabalhos hortícolas com água de irrigação de cacimba. O serviço do Posto Agrícola de Lima Campos foi iniciado em março de 1934 também com o açude e os canais ainda em irrigação. No mesmo ano foi iniciado o serviço de irrigação no rio Parnaíba – Piauí próximo a Teresina, era uma irrigação por meio de ligação de água com bomba. No período de 1933 a 1934 foi feito também um trabalho extensivo de plantio de campo de palha forrageira por determinação do senhor Ministro José Américo. Este serviço abrangeu os Estados do Piauí até Bahia onde foram instalados em cooperação com as prefeituras duzentos e vinte e dois campos de palha. Outros serviços instalados foram também o serviço de açude de Mundo Novo, em Caicó e Dange, também em Caicó. O serviço de irrigação à margem do Rio São Francisco, no lugar denominado Icó, município de Floresta, 40 quilômetros acima de Itaparica foi iniciado em 1937 por uma irrigação por meio de bombas, e o serviço de lavoura irrigada propriamente dita começou em 1940, com o agrônomo Trajano Nóbrega. Infelizmente, no ano de 1941 faleceu o chefe de serviço, engenheiro José Augusto Trindade a quem o Nordeste deve assinalados serviços. Fui então chamado a me tornar chefe de serviço da Comissão dos Serviços Complementares da IFOCSEC, no ano de 1941. Para ser justo devo lembrar que em 1939 eu fui professor de Hidráulica e Topografia na Escola de Agronomia do Ceará. Em 1941, fim de 40 e o ano de 41, fui Secretário de Agricultura do estado da Paraíba. Esse período eu estive fora do Departamento de Secas. Com a morte então do saudoso Dr. José Augusto Trindade, em fins de 1941, eu assumi a chefia do serviço e continuamos então os trabalhos da instalação do Instituto José Augusto Trindade em Sousa - Paraíba, obra começada em 1937 e inaugurada em 1941 onde trabalharam até 1960, cinco químicos na análise de solos, de águas e de plantas. Aquele laboratório prestou relevantes serviços ao Nordeste pela análise dos levantamentos agrológicos das bacias, 25 bacias de irrigação do Nordeste no total de 180.000 hectares. E, na análise de plantas forrageiras no total de 120 espécies de plantas. Também a água de muitos açudes e poços profundos foi analisada naquele laboratório. A instalação da irrigação do Posto Agrícola de Cocorobó, no município de Euclides da Cunha na Bahia, foi feita um pouco mais tarde, logo que terminaram o açude e a construção de canais foi iniciada a irrigação. No Ceará foi iniciada a irrigação também na era de... tempo de Guerra, 40 a 45, no açude Santo Antônio de Russas, próximo a Fortaleza e açude de Joaquim Távora no município de Jaguaribe-Mirim. A irrigação do antigo açude do Cedro passou para o serviço após 1950. Ele, foi iniciado, falo da construção, no tempo do Império e terminado nos primeiros dias da República. Começou a irrigação logo em seguida, mas passou à administração do nosso serviço somente muitos anos depois. No Ceará foi iniciada a irrigação também no açude Araras, no município de Sobral e outro açude, próximo a Sobral que eu não me lembro o nome agora. Durante estes anos, de 1933 até a aposentadoria em 1964, tomamos parte ativa em cinco secas: a de 1933, a de 41, 51, 53, 58. A tragédia das secas com a ocorrência de flagelados e suas famílias aos açudes em procura de trabalho e de alimento e de água é um fato impressionante que somente pode sentir e avaliar aquelas pessoas que assistiram na poeira e no calor aquelas lutas. Nem sempre tudo corria bem. Muitas vezes o afluxo de flagelados e famílias aos açudes e às obras era muito superior à capacidade de emprego de ferramentas e mesmo de abastecimento de gêneros. Naquela época o pagamento não era em dia, então havia os fornecedores que forneciam gêneros aos operários, mediante uma tabela de preço aprovada pelo serviço. Mas havia demora muito grande nos pagamentos. No ano de 1939, por exemplo, eu me lembro que não só os operários, mas também os agrônomos e o próprio chefe do serviço passaram nove meses sem receber salário. Ou melhor, o salário de janeiro de 1939, foi recebido em fins de setembro de 1939. As secas... há muito desconforto na população, principalmente, o problema de habitação, porque falta material para casas e as latadas com galhos de árvores, o abrigo debaixo de árvores, não permite uma satisfação de comodidade, está muito longe disto, e naquela época, antigamente, havia ocorrência de doenças, principalmente tifo e verminoses. Houve naquele período muita emigração de flagelados de um Estado para outro, a contaminação de doenças em regiões onde dantes não havia.

 

L.F.

Dr. Guimarães, o senhor fez referência ao Sr. Trajano Nóbrega. Este senhor foi ou pode ser considerado um pioneiro no método da irrigação de açudes?

 

G.D

O Doutor Trajano Nóbrega ingressou no serviço, ele era agrônomo do Departamento de Secas, trabalhava em serviço de estrada de rodagem. Ele ingressou no serviço já o serviço iniciado, mais ou menos em fins de 1936, salvo engano, iniciou o serviço. Agora, ele foi no nosso serviço o pioneiro de irrigação no Rio São Francisco, quer dizer, pioneiro por parte do Departamento de Secas, no Rio São Francisco. Ele fez a instalação lá num período muito difícil. O período em que Lampião atravessava aquelas caatingas constantemente e ele trabalhava com os operários de metralhadoras. Mas era um homem valente, e era um homem muito corajoso e trabalhador, e conseguiu iniciar a irrigação lá naquelas terras muito despovoadas à beira do Rio e muito áridas. O êxito que foi em vida e ação nas margens do Rio São Francisco é sem dúvida devido ao agrônomo Trajano Nóbrega.

 

L.F.

Isto é notável. O senhor teve algum tipo de contato com o cangaço ou com cangaceiros?

 

G.D.

Pessoalmente nunca tive contato com cangaceiros. Embora sabia que entre os flagelados e entre operários do meu serviço havia alguns homens que em tempos passados haviam sido cangaceiros.

 

L.F.

E nunca estes homens levaram ao senhor algum tipo de problema ou lhe causaram algum problema ou ao trabalho que o senhor desenvolvia?

 

G.D.

Não; eles eram homens pacíficos. Eles tinham verificado que o cangaço não compensava. Agora, havia alguns do tempo de Lampião, havia ainda os seguidores de Lampião, principalmente nas caatingas de Pernambuco, Alagoas e Bahia. Aquele reduto continuava sendo vítima do cangaço de Lampião, porém, nos Estados de Paraíba, nos Estados do Rio Grande do Norte e Ceará, devido à construção de estrada de rodagem e redes telegráficas, o cangaço não existia.  Existia ainda homens que tinham pertencido ao cangaço, como já falei, mas que estavam pacificados e estavam trabalhando em obras do governo. Eles não causaram nenhum distúrbio nas obras.

 

L.F.

E  quando de fato o senhor iniciou as suas experiências profissionais no nosso Estado, aqui no Ceará?

 

G.D.

O serviço do Posto Agrícola de Lima Campos foi o meu primeiro trabalho feito no Ceará. Foi iniciado ainda com um viveiro da produção de mudas, porque o açude de Lima Campos, antigamente chamado açude Estreito, ainda estava em construção e os canais também estavam em construção. As atividades dos primeiros açudes, Santo Antônio de Russas, Cedro, açude Joaquim Távora, açude Forquilha,  no Norte, perto de Sobral e açude Aires de Sousa, também perto de Sobral, começaram posteriormente.

 

L.F.

O senhor se referiu ao papel do intermediário na época das secas, rapidamente o senhor falou sobre o assunto. Eu gostaria que o senhor detalhasse mais alguma coisa, como vê a figura do intermediário à época da seca, em termos de sua vivência pessoal sobre o assunto?

 

G.D.

No tempo antigo em que o governo não pagava em dia, o único recurso era atender à alimentação dos flagelados, mediante fornecedores particulares de gêneros alimentícios, com tabelas aprovadas pelo chefe de serviço de cada local. Aconteceu muitas vezes que o pagamento atrasava e o fornecedor fixava sem recursos, mesmo bancário, para comprar novas partidas de gêneros, surgiam muitas dificuldades. No caso de fome, algumas vezes, os flagelados atacavam os barracões de fornecimento e tiravam alimento para comer, mas isto sem haver combate sangrento, sem uma luta mais cruenta. O fornecimento era feito na base de 80% fornecido em mercadoria e 20% ficava para o operário receber quando viesse o pagamento em dinheiro. Acontecia muitas vezes que o trabalhador  não tendo o dinheiro, mas tendo a facilidade de tirar gêneros no fornecedor, ele comprava alguns gêneros, vendia fora e comprava aquilo que ele queria. Isto não era possível fazer o controle, dada a multidão de gente que trabalhava nas obras.

 

L.F.

Eu gostaria de saber o que  pensa a respeito das frentes de serviço, que de uma maneira ou de outra, me parece, favorece o surgimento do intermediário.

 

G.D.

Bom, em toda frente de serviço vão os negociantes ambulantes, os biscateiros e intermediários para vender produtos aos flagelados, principalmente nos dias de pagamento. Não se pode evitar que esta venda, este comércio, às vezes, a preço exorbitante se faça junto das obras, porque a fiscalização é muito difícil. Antigamente, houve alguns casos de indivíduos que compravam as cadernetas dos operários. O operário tinha uma caderneta de fornecimento de gêneros alimentícios. Eles compravam estas cadernetas para receber depois o dinheiro do governo. Isto era punido, mas nem sempre era possível evitar dada a quantidade de gente para atender, a escassez de engenheiros para as obras e a escassez de pessoal administrativo. A senhora pode pensar, um açude, uma obra com 10.000 homens fora,  as famílias, 5.000 homens, 8.000 homens, é muito difícil evitar estas irregularidades. Quem viu, quem assistiu, quem tomou parte numa seca, sabe o que foi isso no tempo antigo. Hoje, a situação da frente de serviço está muito melhorada, há mais pessoal administrativo, há outra organização e o pagamento é feito em dia. Neste ponto de vista melhorou muito.

 

L.F.

O senhor considera que a organização melhorou, mas como? Qual foi o nível de melhoria sofrido pela organização?

 

G.D.

Porque os flagelados são selecionados quanto aos seus serviços. Os doentes, as mulheres são dados serviços proporcionais, quando podem trabalhar. Aqueles que não podem trabalhar recebem assistência do governo. Além disto, hoje, numa frente de serviço, quando chegam os flagelados, há mais ferramenta, já tem gente esperando para determinar o serviço, já tem o escritório montado para fazer a classificação e as listas do nome de cada um para figurar em folha de pagamento, e sendo o pagamento feito em dia, vamos dizer, não há oportunidade de haver fraude porque o flagelado é o primeiro a se defender, porque ele recebe dinheiro em espécie e compra como quiser a quem ele quer. Tem esta liberdade. Ora, se existe mais planos de obras de emergência, se existem mais engenheiros e mais pessoal técnico para atender, mais pessoal administrativo e escritórios organizados, então o serviço corre de uma maneira mais harmônica, sem os atropelos de antigamente em que o afluxo de gente às obras era feito muitas vezes sem ter ainda escritório organizado e sem controle adequado.

 

L.F.

O senhor presenciou algum indício desta mudança já na seca de 1958?

 

G.D.

A seca de 58 foi uma grande seca. Tinha mais organização do que as secas anteriores, é verdade, mas também houve algumas fraudes porque a ocorrência de gente atingida foi muito grande, foi maior do que nas secas anteriores. E por mais que se fizesse, a classificação, a ordenação de serviços, não foi possível evitar aqui e ali algumas falhas. Então podemos falar que não foi como o esperado.

 

L.F.

O senhor se deteria na apreciação de alguma destas fraudes?

 

G.D.

Bom, uma delas é a compra de caderneta, outra delas são cadernetas que muitas vezes não significava realmente aquilo que o operário comprava, mas era gente demais, não era possível fiscalizar tudo.Foi uma falha abrangente do tipo conjuntural.

 

L.F.

Pelo visto, esta nova organização, ela diminuiu o valor do papel do intermediário. O senhor concorda?

 

G.D.

Ah! Sem dúvida, nas últimas secas a influência do intermediário sobre a vida e o trabalho do flagelado diminuiu muito. Foram problemas de outra natureza.

 

L.F.

Bom, penso que estamos concordes quanto ao fato de que as secas geram problemas políticos,  econômicos e problemas sociais. Dentro dessas repercussões quais o senhor reputaria mais importante? Quais destes fatores, o fator econômico, o político ou o social? Acha que eles estariam superpostos, acha que algum deles seria mais importante que o outro dentro da vivência do senhor sobre o problema?

 

G.D.

O mais importante deles é o econômico. É o fato de o sertanejo perder as colheitas, ficar sem sustentação e ser obrigado a sair de sua casa para procurar trabalho, emprego. Isso afeta não só ao operário como ao proprietário, à Economia como um todo. Agora, do ponto de vista social é o problema do congestionamento dos transportes, o problema da transmissão de doença, é aquele em que muitas vezes no desespero, ou por razões quaisquer o pai abandona a família e aparece então um número incontável de crianças abandonadas. O político é aquele em que na época de eleições, outrora, os prefeitos, os políticos locais não queriam que os flagelados se locomovessem para fora do município, para não perder o voto nas eleições. Mas, não era possível estabelecer frente de serviço em cada município. Era desumano ver isto

 

L.F.

Dentro deste critério a gente estabeleceria então uma ligação entre seca e política?

 

G.D.

Sim. Havia consequências políticas nas secas, sem dúvida, esta movimentação de gente, o esvaziamento do município, esvaziamento de cidade do interior, essa questão de eleições e muitas vezes até rixas, xingamentos ,acusações, tantas coisas,  por razões que ora eram de origem econômica, ora eram por razões sociais e má compreensão da política. Isso havia.

 

L.F.

O senhor poderia acrescentar alguma coisa referente a este problema, dentro de sua visão pessoal de vivência do assunto das secas, ,nos dizer mail  a respeito do assunto?

 

G.D.

O que aconteceu nas cinco secas que eu tomei parte, o que vi foi o seguinte: estávamos trabalhando, veio a seca, como se seca fosse um improviso e as obras  se encheram de flagelados, suas famílias e tudo. O governo deu assistência, demos trabalho, todo o disponível e evitamos a morte de muita gente, mas, na realidade, depois da seca aquele pessoal voltou à mesma condição antiga. Não foi providenciada uma forma de colonização ou uma forma de trabalho para uma vida permanente aqui ou em outros lugares .Nada de política

 de fixação ao solo.

L.F.

O senhor teria alguma sugestão a propor dentro deste esquema que o senhor termina de expor?

 

G.D.

Os inquéritos feitos nos períodos de secas demonstraram que 87% dos flagelados vêm de fazendas, eram agricultores de milho, feijão e arroz, em que não tendo chovido eles ficaram sem a safra. Então, a lavoura antiecológica de milho, feijão e arroz, na terra seca, onde não há irrigação é a grande geradora de flagelados. É preciso dar trabalho permanente, trabalho fixo, lavouras que deem safra quer chova ou faça sol, são as lavouras resistentes às secas, são as lavouras xerófilas. Enquanto no Nordeste não se estabelecer na terra seca um grande programa de plantio de arvoredos, de bosques, de árvores xerófilas para produzir alimentos e matérias primas que deem estabilidade financeira ao lavrador, e melhoramento de pasto ao criador, enquanto não houver isso, nós teremos flagelados embora o progresso das cidades seja grande.

 

L.F.

O senhor tem publicado muitos trabalhos em que levanta problemas de solos, problema de água na nossa região. Eu pergunto como o senhor vê os solos no Ceará e se também dentro de sua experiência de Nordeste observa alguma diferença em termo de agravante para o Estado do Ceará com relação aos outros Estados do Nordeste?

 

G.D.

Os solos do Ceará, grosseiramente, podem ser classificados em dois tipos: o solo arqueano de origem granítica gnáissica e os solos de formação sedimentar. Os solos do tipo arqueano são os solos da região central do Ceará, onde o solo é raso, duro, muito seixo rolado, muita pedra. Este solo tem escassa capacidade para guardar água, seca muito depressa. São solos ondulados e são solos aqui e acolá desnudos, onde a erosão cada ano se acentua mais. Os solos sedimentares são aqueles da Serra de Araripe, parte do Cariri a Serra do Apodi, alguma parte do litoral e parte dos solos da Serra da Ibiapaba. São os solos formados de areia. Solos arenosos, mais profundos, porém, mais pobres quimicamente. O Ministério da Agricultura dez um levantamento agrológico de todos os solos do Ceará a tipo de classificação internacional de solos porque eles são muitos e de tipos variados e de um modo geral, falando sobre solos arqueano e solos sedimentares a gente dá uma visão geral do Estado. Quanto à devastação de vegetação no Ceará ela é mais ou menos igual à do Rio grande do Norte e da Paraíba. Há uma devastação muito grande na vegetação nativa. Nos últimos vinte anos não tem havido aumento da produção de lavoura por hectare. O aumento de safra cada ano é devido ao aumento de área plantada, cada ano mais 3% do solo é cultivado, então as caatingas são derrubadas para fazer novas lavouras e este sistema de agricultura nômade está cada vez mais empobrecendo o Estado. A forma de agricultura xerófila seria um meio de revestir o Nordeste com árvores produtoras de alimentos, de frutos e de matérias primas para a indústria. As xerófilas são plantas de mais de cem anos de duração, são árvores nativas adaptadas e esta região seca e úmida que dão safras, faça sol ou chuva. A cobertura dos solos, como meio de proteger os solos, não só contra o sol, mas também contra a erosão é um dos meios de conservar os recursos naturais.

 

L.F.

 Existe,  uma teoria de que a maneira indígena de queimar o solo seria adequada. O que o senhor pensa disso dentro de sua formação profissional?

 

G.D.

A tese da queima está em discussão ainda no Congresso de Ciências do Solo, no Paraná, há alguns anos passados um agrônomo apresentou uma tese favorável à queima dos solos. Na minha prática de agrônomo de 44 anos eu digo o seguinte: há casos em que a queima é recomendável e há outros em que ela não é recomendável. Isto é um problema local.

 

L.F.

Poderia exemplificar quando ela é e quando ela não é recomendável?

 

G.D.

Quando há um excesso de vegetação alta, quando há um excesso de espinhos, quando a queima é feita em condições moderadas, nas horas não mais quentes, também, não nos dias mais quentes, quando não se deixa a vegetação queimar de todo, pode-se fazer a queima porque será uma queima parcial e a matéria orgânica fica em parte em cima do solo. Quando a queima é feita sem obediência de uma certa técnica, o solo é calcinado superficialmente, a matéria orgânica é toda ela incinerada, só fica a cinza que o vento carrega. Então ocorre um empobrecimento da fertilidade do solo no segundo ano, porque no primeiro ano há um aumento de produção. A queima traz um aumento de produção no primeiro ano. No segundo, terceiro e quarto a produção começa a cair.

 

L.F.

Então seria o caso de se tomar medidas de prevenção de solo e de orientar corretamente o lavrador, não? O senhor, no início da entrevista se reportou ao ex-ministro José Américo de Almeida. Como era o José Américo de Almeida como homem, como ministro, como profissional que o senhor conheceu de perto?

 

G.D.

O ministro José Américo de Almeida era um homem enérgico, ele impunha muito a disciplina, visitava constantemente as obras e cobrava o serviço que ele mandava fazer. Ele sempre fazia questão de ver as obras “in loco” para ter uma opinião pessoal, ele não se baseava somente em relatório. Após a Revolução o Ministério da Viação teve um papel muito preponderante no Brasil, principalmente na parte relativa a transporte, correios e telégrafos, em grande parte se deveu à ação não somente enérgica, mas também vigilante do Ministro José Américo de Almeida.

 

L.F.

E as relações pessoais do senhor com ele?

 

G.D.

O senhor ministro José Américo de Almeida não era meu chefe direto, ele se entendia com o chefe de serviço José Augusto Trindade, e eu como inspetor do Serviço de Irrigação do Nordeste, me entendia com o Doutor José Augusto Trindade, mas tive diversos contatos com ele em viagens, e no Rio de Janeiro, no Gabinete, e sempre pude apreciar não só a bondade e o caráter humano daquele homem como também a sua energia.

 

L.F.

Doutor Guimarães Duque, o que o senhor recomendaria para a propagação e melhoria das lavouras xerófilas no Ceará?

 

G.D.

Nós temos no Ceará e no Nordeste árvores nativas como o cajueiro, a oiticica, a carnaúba, o umbuzeiro, o faveleiro, o pequizeiro, a maniçoba, a manipeba, uma variedade de mandioca muito venenosa e muitas outras que resistem às secas, ou melhor, resistiram há 34 secas nos últimos 400 anos que o homem branco está aqui no Nordeste. Ora, tendo estas árvores sobrevivido a este longo período de estiagem e continuando a produzir, é possível a aplicação da genética e dos instrumentos modernos e dos agentes mutagênicos para provocar mutações hereditárias, modificações, transformações nestas árvores para torná-las mais produtivas e com frutos de melhor qualidade. A oiticica, por exemplo, foi estudada desde 1937 a 1941 no Laboratório José Augusto Trindade e lá está produzindo todos os anos. A plantada em 41, a partir de 45 começou a produzir. A plantada em 1950, em 1956 começou a produzir e produz todos os anos. E a oiticica nativa não produz todos os anos. Ela falha dois, três, quatro anos sem produzir. Então, nós podemos transformar um umbuzeiro numa ameixa, reduzindo o caroço do fruto, diminuindo a casca, aumentando a polpa e secar lá na caatinga para fazer ameixa seca e exportar. A favela, uma árvore que dá um óleo alimentício de primeira ordem, já analisado no Instituto José Augusto Trindade, uma torta depois de tirado o farelo, uma torta tem 36% de proteína, quando a carne verde de boi só tem 22%, e mais, esta tem 4% de ácido fosfórico.  Ora, uma planta que ocorre nativa numa área de cerca de mil km2, no Nordeste e produz estes valiosos produtos, por que não melhorá-la? O trigo não era um capim perdido lá no centro da Ásia e hoje não é um cereal que alimenta a humanidade? O café não era um arbusto perdido nas montanhas e hoje não é a lavoura mais extensiva do mundo? O tomate e a batata inglesa eram duas ervinhas venenosas entre os altos dos Andes e hoje são as maiores culturas em peso do mundo! Se o homem transformou estas plantas, se todas as plantas que o homem hoje utiliza na agricultura vieram da natureza, eram selvagens, por que o Nordeste desperdiçar estas árvores nativas que são fontes de produto de alto valor alimentício e matéria-prima para a indústria, por que? Alegam alguns que demora, mas o que são dez anos numa civilização nordestina? A oiticica em oito anos estava reproduzindo todos os anos. A mesma coisa pode-se fazer com as outras plantas selvagens. Hoje, que a genética tem muito mais conhecimento, a citologia está muito mais avançada, a troca de cromossomos é muito mais conhecida, os agentes mutagênicos estão surgindo cada dia nos laboratórios, por que esta ciência que levou o homem à Lua e desintegrou o átomo não pode ser aplicada para na agricultura matar a fome de milhões de pessoas no mundo, por que?

 

L.F.

 O senhor diria que estes entraves que não são de fato limitações científicas, seria então má vontade dos homens que dirigem o governo, seria falta de esclarecimento dos líderes, seria falta de dinheiro ,vontade política, a que o senhor atribuiria?

 

G.D.

Cada governo tem seus planos e estes planos eles querem levar até o fim de sua administração. O problema das plantas xerófilas é mais um problema de compreensão para os técnicos, de um modo geral de todos os técnicos do Nordeste, para fazer ambiente, criar ambiente junto as administrações das autoridades federais e estaduais para que sejam feitos trabalhos experimentais. Um agrônomo pregando as lavouras xerófilas, como eu estou pregando durante vinte anos, não consegue nada. É preciso haver uma multidão de gente que se entusiasme por isso. Por exemplo, o desenvolvimento econômico é mais um mito de um povo que decide arrancar de si todas as forças para vencer as pedras do caminho. Enquanto não houver o mito das lavouras xerófilas, não haverá cultura xerófila no Nordeste, porque estes grandes movimentos de grandes áreas, porque são mais de 10 regiões naturais são mais de 10 espécies de planta, cada uma adequada a uma determinada região. Não adianta melhorar uma e deixar as outras, porque as outras regiões também merecem. Então, é preciso um programa amplo, um programa grande. Atualmente, o governo criou o Centro de Estudos do Trópico Semiárido com sede em Petrolina. Essa entidade que começou a trabalhar agora, vai ter sede em Petrolina, Pernambuco e está cuidando de organizar um programa para estudos das plantas xerófilas. Eu acredito que com uma medida deste porte é possível se obter alguma coisa nos próximos 10 anos.

 

L.F.

Como sente, onde foi que o senhor percebeu uma maior sensibilidade às suas ideias?

 

G.D.

É difícil dizer. Nas conferências, livros e entrevistas que tenha dado e eu não sei onde foi que houve maior repercussão. Na última reunião, no Rio, do Centro de Estudos do Trópico Semiárido, a ideia teve muito boa receptividade. Eles vão adotar o programa e eu senti que naquela reunião já havia mais compreensão do problema.

 

L.F.

O senhor nos falaria das dificuldades que encontrou com relação às suas ideias iniciais para encontrar, vamos dizer assim, receptividade, acolhida?

 

G.D.

Quando eu cheguei ao Nordeste em 1933, eu fui morar no Seridó, no Açude Cruzeta, eu tive um choque muito grande, porque eu vim de Minas e encontrei o Seridó muito seco, muito desnudo, muito erodido e muito cheio de pedras. Foi muito chocante para mim aquela estada no Seridó. Depois comecei a percorrer por necessidade de serviço de outros Estados, e durante os anos fiquei então com um conhecimento relativamente bom das condições do interior dos estados, desde a Bahia até o Piauí. E eu verifiquei então, comecei a verificar que o Nordeste não era uniformemente seco como diziam lá no Sul “Terra da Seca”, mas que o Nordeste tinha aqui e acolá ambiente ecológico muito diferente dos outros, ou melhor, tinhas regiões naturais bem diversas e que a solução do problema da seca, que foi primeiramente compreendida como uma solução hidráulica, uma solução pela água não era uma solução completa. A necessidade de resolver cada problema local como ele se apresentava, indicava que a água é importante no Nordeste, mas, não é tão importante como à primeira vista se julgava. Basta ver a quantos séculos o Rio São Francisco corre em terra semiárida e somente agora, muito recentemente, ele começa a ser irrigado. E lá, vive uma das populações mais pobres do Nordeste. O Rio Parnaíba corre no Piauí numa extensão de mais de 400 quilômetros, muita água! Ainda agora é que se está começando a irrigação porque o que nós começamos lá nos anos 30 e tantos, foi uma irrigação muito pequena e não foi continuada pelo meio do estado. Então, nós começamos a desconfiar que embora a água fosse importante ela não é tudo. Por exemplo: na época, o Estado do maranhão, chuvoso, tinha uma renda “per capita” mais baixa do que o Rio Grande do Norte, seco. Por quê? Então se um Estado chuvoso como o Maranhão tinha uma renda mais baixa do que um Estado seco, então havia fatores outros mais importantes que a água, no subdesenvolvimento da região. Era preciso procurar estes fatores. E eu, então, comecei a procurar esses fatores e com o auxílio de 15 companheiros elaboramos um mapa das regiões naturais do Nordeste com seus graus de aridez. É o mapa que acompanhou o livro “Nordeste e as lavouras xerófilas”, e cheguei à conclusão que a grande terra seca onde não chega a água da irrigação carecia de uma forma de agricultura típica nordestina. Uma forma de agricultura que gostasse deste solo e deste céu como eles são: eram as lavouras xerófilas. As lavouras que já os índios aqui aproveitavam os frutos e ainda hoje aí estão, árvores seculares, o umbuzeiro é uma árvore secular, a oiticica é uma árvore secular, a carnaúba é uma árvore secular que estão dando safra desde que o homem branco chegou aqui e estão aí, não morreram. Então, por que não as aproveitar? Então, daí nasceu a ideia de uma agricultura, de uma região semiárida ou regularmente seca que desse arbitrariedade ao agricultor e o sistema de melhoramento de pastagem nativa que desse garantia da alimentação do gado aos criadores. Com isso é possível enfrentar os impactos de uma seca, porque nós estamos aproveitando o solo ecologicamente. Conhece o mapa das regiões naturais do Nordeste com os graus de aridez? Já viu? Pois bem, aquele mapa nos diz que nós temos vinte milhões de hectares adaptados para lavouras xerófilas, que nós temos mais de quarenta milhões de hectares adaptados para melhoramento de pasto. O Piauí até a Bahia, tem uma área de 120 milhões de hectares, ou seja, um milhão e duzentos mil quilômetros quadrados. Desta área, 75% dela, é semiárida, a área úmida é a Região da Mata da Bahia até a Parnaíba. Litoral é a região do agreste, serras e bacias de irrigação. Nessas terras úmidas não intensificaríamos a produção de gêneros alimentícios e na terra seca, no interior, onde periodicamente falta chuva, onde não chega água de irrigação, esta grande área, extensas levas, nós encheríamos com lavouras xerófilas já melhoradas, já selecionadas e formaríamos grandes bosques. Então, nós tornaríamos o Nordeste mais verde, além de mais produtivo e mais agradável e estas árvores cobririam o solo para evitar a erosão da chuva e a erosão do vento.

 

 

L.F.

Então, a irrigação seria uma solução parcial, não?

 

G.D.

Sim, a irrigação é uma solução parcial porque nós não podemos elevar a água a uma altura maior do que aquela que a economia indica. Segundo: as áreas planas do Nordeste são limitadas. Terceiro: a irrigação é de instalação muito cara e sendo de instalação muito cara é preciso aproveitá-la com lavouras de grandes rendimentos.

 

L.F.

O senhor concorda com o fato de que o Ceará está por inteiro dentro da área do Polígono das Secas?

 

G.D.

Sim, isto é verdade porque a seca vem até a onda, até a praia, aqui. A seca de 1941 aí em Messejana, cacimba de dez, doze metros de profundidade secaram. Nunca tinham secado. Além disto o Ceará não tem uma região como a Região da Mata de Pernambuco, não tem uma Região de Agreste como o Agreste Pernambucano, que seja frutífera não tem. Tem o Sertão, tem a Caatinga, tem o Cariri que é parcialmente seco e tem as áreas úmidas da serra, onde há lavouras de cana, lavoura de café, mas áreas pequenas, de modo que eu considero todo o estado do Ceará incluído no Polígono das Secas, ecologicamente, está e deve estar no Polígono das Secas.

 

L.F.

 Haveria algum planejamento de aproveitamento do caroço de jaca, o senhor  tem algum conhecimento....

 

G.D.

Que eu saiba, não. Pode existir aí algum curioso trabalho em laboratório, mas eu desconheço qualquer trabalho de pesquisa nesse sentido. Agora, a jaca é uma árvore de clima úmido, quente-úmido. Ela não é uma árvore para plantio em larga escala aqui no Ceará, salvo nas regiões úmidas das serras .Então, à primeira vista não parece viável

 

L.F.

 Poderia ser uma solução de aproveitamento para as áreas úmidas da serra, se resolvessem industrializar o caroço como a exemplo do que se faz com a castanha do caju?

 

G.D.

O cajueiro dá muito bem no litoral do Ceará. O cajueiro é semi-xerófila, ele resiste à seca aqui nas condições de litoral do Ceará. E, essa faixa de 30 Km de largura por 400 Km de extensão na costa cearense, adapta-se muito bem à cultura do caju. Agora, há problemas com a cultura do caju. É o fungo que ataca a flor e reduz mais da metade das safras cada ano. É preciso selecionar um tipo, uma variedade de cajueiro imune à doença e ao fungo. Com a  jaca, as possibilidades reais parecem remotas. Só um aproveitamento local, mas não voltado à industrialização .Decerto  na fabricação de doces , servindo a um pequeno comércio.

 

 

 

 

 

 

 

 

L.F.

 Uma outra coisa que eu gostaria de colocar para o senhor é que eu  vi na Revista Manchete o nome do senhor citado por um ecologista pernambucano que eu não consigo lembrar agora.

 

G.D.

Vasconcelos Sobrinho?

 

L.F.

Vasconcelos Sobrinho, este!. E, eu gostaria de saber até que ponto o senhor partilha das ideias dele a respeito da situação ecológica do Nordeste, da possível progressiva baixa de nível da água do Rio São Francisco?

 

G.D.

É verdade que está havendo um lento xerofilismo, uma lenta condição de  saarização  no Nordeste e de sobrevivência da espécie no ambiente regional. Nesse ponto o Doutor Vasconcelos Sobrinho tem razão. Ele tem alertado para este problema porque não só a erosão como também a devastação da vegetação tem contribuído muito para a diminuição das fontes d’água que abastecem os rios. Daí porque a vazão do Rio São Francisco está diminuindo. Acontece que partes do Rio São Francisco em Minas está muito devastado. O Rio está diminuindo de curso, então, ele diz que a saarização  está penetrando no Brasil Central através do cerrado. Eu creio que em parte isso é verdade, embora eu não conheça bem o cerrado de Goiás, mas acredito que o cerrado é uma região meio seca, que sofre de períodos de pouca chuva. É possível que essa saarização esteja também penetrando na região do cerrado.

 

L.F.

Quem o senhor diria é um outro grande ecologista do Brasil?

 

G.D.

O professor Ferrer da Universidade de São Paulo tem escrito muito sobre, não só cerrado, mas sobre as caatingas do Nordeste. Ele, em mais de um período esteve aqui estudando a transpiração das plantas e a razão da resistência das plantas às secas. Eu esqueci de dizer que no período inicial do nosso trabalho, de 1933 até 1939, nós tivemos o concurso, xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx Felipe  xxxxxxxxxxxxxxxxxx que foi quem melhor estudou o xerofilismo da vegetação nordestina. Ele tem trabalhos notáveis que foram mandados para a Alemanha e um grande xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx que foi mandado para Nova Iorque e a outra parte desse trabalho está na Escola de Agronomia do Ceará.

 

L.F.

Doutor Guimarães, eu sei que o senhor inclusive já representou o Brasil em Davos, no Colorado, na Califórnia, participando de congressos internacionais, participando de simpósios. Que contribuições o senhor acha que esses congressos deram para aumentar não só a sua experiência, os seus conhecimentos, mas a título de emprego prático para a solução do problema regional, nossos problemas, problemas do Ceará?

G.D.

Nos Congressos internacionais, principalmente aqueles realizados em países adiantados, como foi o caso do IV Congresso Internacional de irrigação e depois o Congresso feito quando do Jubileu de Ouro do departamento de Secas dos Estados Unidos, esses congressos cientificamente avançam muito os conhecimentos. Mas acontece que, nas regiões subdesenvolvidas, como é o caso do Nordeste, quando a gente volta, a gente sente a diferença de meio. Nem sempre tudo pode se aplicar aqui. O técnico que frequenta congressos internacionais precisa ter muita prudência quando volta, na adoção de trabalhos aqui, porque o que é bom para os Estados Unidos nem sempre é bom para o Nordeste. O progresso tem que obedecer a realidade das comunidades nos seus anseios, nos seus deveres, nas suas necessidades prioritárias.

 

L.F.

Sempre se fala na importação de modelos para a solução dos problemas brasileiros, quer regionais, quer se tomando o Brasil como um todo. Quando se fala em seca no Ceará, ouve-se que não se soluciona o problema porque há uma falta de interesse geral e de esforço individual e ouvimos sempre: “ Olha o caso de Israel onde há macieiras no deserto”. O que é que o senhor pensa disso?

 

G.D.

Israel é um país muito pequenino, que está sendo colonizado por homens de alta sabedoria. Médicos, advogados, agrônomos, cientistas, professores, homens de alto nível que estão imbuídos Da mítica de formar a sua pátria, que estão imbuídos do ideal de criar lá a terra deles a  todo vapor. Recebem dinheiro, contribuições de todos os judeus do mundo. Então, as condições de Israel são muito diferentes das condições do Nordeste, porque aqui o que nós temos é um conjunto de homens do governo, um conjunto de homens técnicos de administração, mas uma grande massa de população de escassos conhecimentos para corresponder aos planos do executivo do governo. Nós não temos aqui os recursos por área que tem Israel. Então, não se pode comparar Israel com o Nordeste. O que nós precisamos é de um processo de agricultar a terra que seja típico do Ceará e do Nordeste. Não adianta nós querermos trazer de fora as soluções que muitas vezes não podem ser aceitas e em geral não são aceitas pelo nosso povo do sertão. Porque muitas vezes quando o agrônomo inadvertidamente aconselha uma determinada prática ao lavrador, ele diz: “Isso é bom, senhor, mas não é bom para as minhas condições”. Então, o que é preciso é ouvir o homem simples do sertão, nos seus anseios, nas suas necessidades e ajudá-lo naquilo que ele julga prioritário e não aquilo que o agrônomo ou o técnico julga prioritário .É uma questão de aceitação da realidade e aceitar transformá-la aos poucos.

 

L.F.

Então, o senhor veria fundamentalmente aí uma explicação não  técnica para o caso de Israel, concorda?

 

G.D.

É uma explicação em parte técnica, em parte política e em parte econômica, porque há um afluxo de dinheiro, há um mito político religioso e há um povo preparado e inspirado num objetivo..

 

L.F.

Será  que com relação ao diálogo do agrônomo com o homem do campo não haveria uma falha na formação do agrônomo? O que talvez sobrasse no cientista social, um possível relacionamento melhor com as pessoas do campo, talvez faltasse ao  agrônomo. Ele  está preparado muito bem  no aspecto técnico, mas quanto às relações humanas?

 

G.D.

Quando eu me formei, nos idos de 1928, o ensino agrícola era deficiente. As relações entre estudante e o homem do campo eram não muito boas do ponto de vista da prática agrícola. Através dos tempos houve pouca melhoria no ensino prático do agrônomo nas nossas escolas quanto ao seu relacionamento com o homem da produção, o lavrador. Via de regra, não só o agrônomo, mas também o engenheiro e o médico, porque todos têm influência sobre a agricultura, eles conhecem relativamente pouco as condições de vida da nossa gente, têm pouca habilidade e pouca diplomacia para angariar amizade, angariar a confiança e a cooperação da gente do campo. Um agrônomo recém-formado ele não deve ou não pode logo se transformar num extensionista. Ele precisa trabalhar primeiramente num setor que não aquele de relacionamento com o lavrador, para ele adquirir mais experiência e fazer um curso de relações humanas para melhor compreender as condições das comunidades do interior, e que aquilo que o povo mais deseja é aquilo que via de regra nós devemos auxiliá-lo, não aquilo que nós queremos, porque são eles que vivem lá e que sentem o problema na carne.

 

L.F.

Como professor universitário, acha que a Universidade tem desempenhado bem o seu papel? Quanto a extensão, por exemplo?

 

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.

Falo da extensão ligada à solução do problema que nós estamos falando, na criação dos técnicos e medidas  adequadas..

 

G.D.

As nossas Universidades herdaram um defeito antigo das Universidades primeiramente formadas no Brasil. Eram elas, Universidades de ensino muito teórico. Tem melhorado bastante o ensino teórico com o ensino prático, mas está demorando muito a harmonização da experimentação da Universidade com a extensão na parte agrícola. Eu acho que nós já devíamos a essa altura, termos uma experimentação universitária mais harmônica com a extensão ou com as práticas do lavrador. Na América do Norte a experimentação agrícola é feita pelas Universidades e o serviço de extensão é coordenado com as Universidades. No Brasil está custando muito. Eu não sei se são as sucessivas reformas de ensino que têm causado isso, talvez seja. Ou seja, também aquela falta de contato dos homens da Universidade com o ambiente sertanejo, uma convivência mais íntima para sentir melhor os seus problemas e a prioridade das questões do ruralismo é que tem dificultado esse entendimento.

L.F.

E quanto a ações ou sobre a ação de órgãos como o DNOCS, o BNB que  vê assim... os problemas do Nordeste de uma maneira bem geral, e não somente os problemas do Ceará e ainda a atuação da Sudene. Como o senhor situaria,  a atuação de cada um desses órgãos?

 

G.D.

Até onde eu sei no momento, a atuação da Sudene, do BNB, do DNOCS tem sido até um certo ponto satisfatória. Acontece que foram criados no governo central tantos órgãos lá em Brasília, e existem tantos órgãos financiadores, e aqui no Nordeste tantos órgãos executores que esse grande número de órgãos somados, está tornando difícil a execução dos convênios.

 

L.F.

Então seria um problema administrativo, de organização administrativa?

 

G.D.

Eu não sei se é um problema administrativo ou um problema político, o que eu sei é o seguinte: nós temos leis demais, nós temos decretos demais, nós temos órgãos administrativos, órgãos executivos, órgãos financiadores em número demasiado e quando aumenta o número para o brasileiro que é pouco amigo da cooperação, então, os trabalhos em cooperação tornam-se mais difíceis. Um projeto por exemplo, demora mais tempo a ser executado do que devia demorar, um projeto custa mais caro do que deveria custar e eu julgo que o número excessivo de órgãos talvez seja uma das causas.

 

L.F.

Há pouco falávamos sobre a questão da importação de modelos. O que me diria sobre a missão francesa, sobre a atuação da missão francesa no vale do Jaguaribe?

 

G.D.

A missão francesa, ela executou trabalho de estudos, fez estudo sobre água, sobre solo, sobre vegetação, organizou mapas, etc., e repentinamente os serviços foram suspensos e a missão retirou-se. Deixou trabalhos mimeografados sobre esses estudos, mas são estudos e não ainda realizações de obras. De modo que eu reputo muito parcial, não sei se a culpa foi nossa ou foi deles. Rendeu poucos frutos.

 

L.F.

 O senhor está entre os que  consideram que o conceito de minifúndio não é um conceito físico? O que r pensa a respeito da questão de minifúndios, dessa política de divisão de terras em Morada Nova?

 

G.D.

O minifúndio, ele tem um caráter físico. É o tamanho muito pequenino de uma determinada área ocupada por uma família. As consequências do minifúndio geram a pobreza da família, porque o minifúndio não pode dar rendimentos, “superávit”. É sempre deficitário. Ele resultou... o minifúndio é resultante das subdivisões de heranças, das compras de pequenas glebas. Com o aumento da população foi se adensando esses grupos como acontece no município de Caruaru, Pernambuco, em que a situação chegou a tal ponto que lá ou faz uma industrialização para dar trabalho, ou estimula o artesanato. Ou então, leva uma parte daqueles mini fundiários para a colonização do Amazonas e aumenta as áreas cultivadas por cada família sob o sistema cooperativista. É o que eu penso do minifúndio. Agora, nas bacias de irrigação o governo federal divide os lotes para as famílias. Tem uma parte que é irrigada e uma outra parte seca, fora da irrigação para efeito de pastagem, efeito de lavoura resistente à seca e  também fonte de lenha.

 

L.F.

E  quanto a pecuária, ao problema de pastos para a pecuária?

 

G.D.

A pecuária é muito importante no Nordeste e o melhoramento de pastos é decisivo para o bom êxito da criação de gado, porque é a fonte mais barata de alimentos. Nas secas o gado come farelo de algodão, mas a preço exorbitante, não compensa. Nas regiões em que a palma forrageira cresce bem. As regiões de noites úmidas, a palma oferece um meio de misturar com capim seco, misturar com o caroço do algodão para alimentar o gado. Mas, naquelas regiões de noites... de ar muito seco, noites quentes, a palma não prospera bem, então, o pasto seca mais rápido. O que é preciso é um melhoramento de pasto em escala muito grande. Nós temos mais de 40 milhões de hectares de pastos que precisam ser melhorados no Nordeste para sustentar a pecuária em crescimento. Se nós fizermos o melhoramento de pastos de 2 milhões de hectares por ano, nós gastaremos 20 anos para melhorar os pastos do Nordeste. E assim sendo, eu já calculei que começando agora, somente em 1987, nós teremos forragem bastante para o nosso gado em crescimento, que está aumentando. E somente em 1993 nós teremos forragem bastante para guardar feno e guardar silagem, alimentar o gado. Então, é um problema urgentíssimo, começar já, neste instante, o melhoramento das pastagens, porque está faltando alimentação proteica para o povo. A população está crescendo muito e embora a pesca também esteja aumentando, a pesca nos açudes, pesca no mar, mas a grande fonte proteica é ainda o pasto, através da criação de bovinos, caprinos etc.

 

L.F.

E a criação do gado próximo ao algodão, o que o senhor pensa disso?

 

G.D.

O fazendeiro usa cultivar o algodão e quando colhe algodão ele coloca o gado no algodoal para aproveitar a forragem e o capim entre os pés de algodão. Porque algodão mocó sendo arbóreo admite somente limpar o terreno antes da colheita e fica então a vegetação de capim para alimentar o gado. O êxito depende de quanto tempo aquele gado pasta dentro do algodoal. Levado a um longo prazo, no ano seguinte a produção cai muito. Se for de pouco tempo ainda há possibilidade com chuva, do algodão reabilitar-se. O fazendeiro muitas vezes é obrigado a colocar o gado entre o algodão, por necessidade, porque não tem mais pasto.

L.F.

O senhor estipularia esse prazo de tempo?

 

G.D.

Eu acho que o gado não... depois da colheita do algodão o gado não pode ficar no algodoal mais de dois ou três meses.

 

L.F.

Dentro dos trabalhos que o senhor publicou e dos pontos de vista que o senhor esposou nesses trabalhos, quais deles considera mais importantes, algum deles deveria ser reformulado?

 

G.D.

Sobre  que assunto, algum  específico? 

 

L.F.

Sobre.os trabalhos do senhor de um modo geral. Qual lhe parece ser o mais importante de seus trabalhos?

 

G.D.

Eu acho que foi o livro “O Nordeste e a lavoura xerófila” com o mapa das regiões naturais e seu grau de aridez. O livro “Solo e água no Polígono das Secas” é um livro de caráter mais geral. Pode ser sempre consultado e gostei de escrevê-lo.

 

L.F.

Com relação ao “O homem e a produção”, publicado pela Secretaria da Agricultura da Paraíba, muitos falam deste seu trabalho....

 

G.D.

Este foi um livreto em que, quando secretário da Agricultura abordei em parte, o problema agrícola da Paraíba, está esgotado. Foi só o problema de colonização do Vale úmido da Paraíba. Quem estuda a fixação do homem ao solo naquela região sempre se interessa por ele.

 

L.F.

Parece que acontece o mesmo sobre a apreciação feita sobre os solos do Nordeste que é Separata dos Anais do Instituto do Nordeste, 1950.

 

G.D.

Esse estudo procura uma primeira... vamos dizer... uma primeira classificação... ou não é bem assim... primeiro a apreciação sobre os solos do ponto de vista de que eles podem reduzir a fertilidade parcial de certas áreas, o problema da irrigação na bacia dos açudes, e a questão das áreas de formação sedimentar. Os solos nordestinos, considerando da Bahia até o Piauí, variam demais, desde os tipos intemperizados  até os solos mais ácidos das regiões sedimentares do Piaui.

 

L.F.

Alguma reformulação de algum ponto de vista do senhor nesses trabalhos? O senhor prepara algum novo trabalho?

 

G.D.

No momento, não. Eu já tinha começado um livro, já tinha bem avançado, mas não pude publicar e agora tenho que rever a parte estatística e por isso eu já perdi o ânimo de fazer .Sempre me ocupo com o aproveitamento racional dos recursos do Nordeste, tanto dos hídricos como os pedológicos do Nordeste. Fiz agronomia por vocação e é um desafio viver e trabalhar numa região  tão diversa da minha em Lima Duarte ,onde eu nasci.

 

L.F.

Sem dúvida.  E o assunto do livro que o senhor pretendia fazer, iria se prender a qual desses aspectos do Nordeste?

 

G.D.

Era a uma perspectiva do desenvolvimento do Nordeste, mas neste mesmo tempo a equipe do Banco do Nordeste fez um estudo muito profundo das perspectivas do desenvolvimento da região, de modo que eu parei com meu trabalho .Estou sempre me ocupando em externar as minhas ideias e esperando que elas se tornem úteis.

 

L.F.

Bom, já que o senhor iria falar das perspectivas de desenvolvimento do Nordeste, que tal o senhor nos dar uma alternativa para o desenvolvimento do Ceará, alguma sugestão?

 

G.D.

O desenvolvimento do Ceará está caminhando mais ou menos bem quanto à parte de industrialização, infraestrutura etc. O problema é o problema agrícola. A questão da produção de gêneros alimentícios e matérias-primas para a indústria. E o Ceará como Estado muito seco precisa desenvolver rapidamente as lavouras xerófilas e melhorar a pastagem para poder dar impulso ao setor primário. O setor secundário e o setor terciário estão se desenvolvendo, mas o freio do desenvolvimento do Ceará está no setor primário, que é o da agricultura e pecuária. É preciso cuidar muito seriamente de uma produção regular, mesmo nas secas, uma pecuária que não sofra o embate, que tenha bons pastos durante o período de estiagem para dar estabilidade. Porque enquanto houver a instabilidade haverá flagelados, embora as cidades estejam sendo industrializadas.

 

L.F.

O senhor acrescentaria alguma coisa nessa sugestão? Acha por exemplo que haveria ou deveria haver um melhor planejamento por parte do governo?

 

G.D.

Eu não estou a par dos últimos governos depois que eu me aposentei e eu não tenho acompanhado os planos dos governos. De modo que eu não estou capaz de fazer uma apreciação plena  sobre esses planos. Agora, uma coisa que eu lembraria é a necessidade de preparação de pessoal de nível médio e de nível inferior. Por exemplo, capataz rural, técnico agrícola de nível médio para ajudar o agrônomo nas suas tarefas junto ao lavrador. Temos poucas escolas de iniciação agrícola e de nível técnico e essas escolas às vezes precisam ser muito melhoradas para preparar o capataz rural, que não seja desambientado da fazenda, que faça seu curso, que aprenda lá e volte a trabalhar na fazenda. Isto me parece fundamental. 

 

L.F.

 O que o senhor mais gostaria de acrescentar a essa nossa conversa, o que  consideraria importante deixar registrado?

 

G.D.

Há um desejo muito grande da parte do governo, governo central e do governo dos estados, nos seus planejamentos, nos seus esforços de cima para baixo, de um desenvolvimento mais acelerado do país. Mas, eu noto que de baixo para cima, não  há uma correspondência por parte do povo, então não está sendo tão eficaz como deveria ser. Esse entrosamento dos planos governamentais com as necessidades locais depende muito de ouvir a população das comunidades. Nós fazemos um melhoramento num determinado princípio, não podemos fazer de acordo com o que o povo quer, e não aquilo que nós achamos que deve ser feito. Então, este entrosamento, essa harmonia entre o comando de planejamento de cima para baixo, do governo central, governos estaduais, ia de encontro à vontade, o desejo, os anseios do povo cá em faixo, precisa ser melhorado. Isso é o que eu noto de mais importante e eu penso que os governos estaduais, o governo central através dos seus órgãos, dos seus projetos, precisa ouvir mais os desejos, os anseios e as vontades das comunidades locais.

 

L.F.

Nós agradecemos a gentileza de sua colhida. Agradecemos a sinceridade das informações que o senhor nos prestou. Agradecemos a esta entrevista com o Doutor Guimarães Duque, no dia 05 de agosto de 1976, realizada em sua residência ,à rua Carapinima, em Fortaleza-Ceará.

L.F.

Doutor Guimarães Duque, embora nós saibamos muitos dos seus dados biográficos, nada mais interessante do que o senhor mesmo contar para nós onde nasceu, o nome de sua esposa, dos seus filhos, algum episódio interessante da sua infância, ou qualquer outro dado que o senhor considere interessante ou importante a uma biografia do senhor para o futuro.

 

 O meu entrevistado é um dos nomes mais renomados quando o assunto é a história da educação no Ceará. Trata-se do professor, advogado, escritor e memorialista Boanerges Cisne de Farias Sabóia. Nascido em Crateús nos sertões do Ceará e vindo desde muito cedo para Fortaleza, estudou no renomado Instituto São Luis do então Professor Francisco de Menezes Pimentel, depois eleito Governador do Estado, dentro de um período de intensa atividade partidária em luta pelo poder no Estado. Presenciou toda a efervescência cultural e política da década de 30 em fases de predominância de movimentos pró-comunismo e os de direita representados pelo integralismo. Ali, no São Luis, ensinou e integrou a diretoria da Instituição, o que depois faria no consagrado Liceu do Ceará. Dono de elevado prestigia por suas atuações na área de educação, o Professor Boanerges Sabóia, como é mais conhecido, é autor de um dos mais importantes livros sobre o velho Liceu, onde narra suas memórias  centrando-se nos aspectos históricos e em suas lembranças da Instituição. O seu livro, O Liceu do Ceará é um documentário  para a educação pública do estado do Ceará. Sua longa experiência no magistério e na administração tendo ingressado no Liceu em 1935 e ali permanecido durante 27 anos, sublinham a autoridade do seu testemunho sobre temas relevantes e correlatos como  a história do Liceu,considerado o berço da cultura cearense desde a sua fundação em 1845.

 

L.A. – Prezado Professor, Dr. Boanerges Saboia, sinto-me muito honrada em ser recebida tão gentilmente em sua casa e sei que muitos se beneficiarão das  suas informações  sobre a educação no Ceará. O senhor diz muito de perto ao meu coração ainda porque sei o quanto meu pai, Luis Rodriguez de Aragão ,o apreciava. Quero registrar aqui esta bela tarde de sol do  dia  25 de março de 2009  onde, da janela  do seu apartamento, temos uma bela vista do mar.  Desse ambiente tão acolhedor deixemos nesta entrevista o relato do  significado do seu trabalho,erudição e contribuição para a história da Educação no Estado.

 

B.S. - Fico feliz de que me considere assim, pois sempre soube do  do equlibrio dos seus julgamentos . Seu pai tinha grandes esperanças no seu futuro. Ele apostava em você  e assim, suas palavras me alegram. Sabe, eu nasci em Crateús aqui no Ceará e  la fiquei até 13 anos de idade.                        

 Noivei com a Edith no dia 25 de novembro de 1936 dentro do figurino dos costumes austeros daquela tempo. Saiamos sempre acompanhados e  no ano seguinte,em 28 de novembro nos casamos.

Fui estudante de Direito. Contudo, sempre desejei ser professor. Como professor do Liceu ganhava  como um desembargador, acredite. No inicio, a Faculdade de Direito funcionava no mesmo prédio da Assembléia, depois ela se muda para a Praça da Bandeira, onde está hoje.

 

L.A. Falando-se de educação no Ceará, cresci ouvindo falar sobre o Instituto São Luis do advogado e politico Francisco de Menezes Pimentel e sei que o senhor também lá estudou.....

 

B.S.- Realmente. Falando-se em educação no Ceará e na nossa falta de memória educacional, logo lembramos do Instituto, depois Ginásio São Luis. Foi um colégio e muito bem afamado  e era mesmo o único colégio particular importante funcionando com internato e semi- internato. Ali, havia rigor e disciplina tendo sido um marco na educação secundária do Ceará.. Ainda hoje, relembro os horários estabelecidos para o alunato.O período da manhã principiava as 7 horas e terminava às 11 horas. De 8 até 9 horas guardávamos uma hora de silêncio. No primário já se lia contos e poesias. Os nomes de Coelho Neto e de Olavo Bilac nos eram familiares ,bem como Casimiro de Abreu com Os Meus Oito Anos que nos soava quase como um hino à infância.. Posso citar grandes professores como José Valdo Ribeiro Gomes, Otávio Terceiro de Farias e Antonio de Menezes Pimentel. O professor Antonio Pimentel era irmão do Dr. Pimentel  um grande geógrafo chegando a publicar uma aclamada Geografia do Brasil.Havia também um outro professor, acho que era Luís Pimentel que foi lente no Ginásio Santa Cecília. Depois, o irmão dele, Antonio, ele foi para o Rio de Janeiro voltando para visitar o Ceará já casado com D. Rosalba. Lembro que no curso primário se estudava Português e História, Geografia e Francês.Ainda recordo parte do hino do São Luis:

“ Vem do saber / a vida do porvir/ que a resplandecr na luz se traduz.”..

 

 Outra coisa que não é uma novidade é a de que  o diretor do Colégio São Luis foi um dos interventores no Estado por ordem do Governo Federal. Para registro, digo que o  primeiro interventor no Ceará foi Fernandes Távora, mas ele governou por pouco tempo. Continuou com  o que hoje chamam de práticas clientelistas que  é o que era possível fazer pelas comunidades e quanto a corrupção que nunca foi sanada no Brasil, se ontem houve,no que se chamou República Velha , com certeza hoje está longe de está extinta. A propósito outros nomes  políticos se destacaram no período como o de Severino Sombra que  em 1932, foi perdendo parte do seu poder. Isto é quando ele voltou  do exílio, abandonou a LCT e fundou a Campanha Legionária, mas o sucesso foi pequeno.  A  Igreja  Católica quase toda  apoiava  à AIB e  já começavam a surgir  movimentos e entidades operárias de esquerda entre nós. Mais ou menos em1937,  as associações  tidas como de orientação fascista  como a LCT, AIB e a Campanha Legionária foram extintas pelo Estado Novo.

 Quero lhe dizer que os alunos eram bem informados sobre esse temas. Na revista Estimulo que lhe dei, há inclusive um pequeno artigo de um aluno de então, o Geraldo Pinto Magelem da 5ª, série sobre a guerra. Esse moço fazia parte do corpo redatorial da revista.Há um outro também sobre a guerra salientando a agitação continental, de um outro aluno, Valdemar Correia Lima. Assim, os assuntos se ligam e vou diretamente  puxando pela memória e voltando ao assunto do São Luis. Quero  aproveitar a oprtunidade para acrescentar que fui um observador das ações do Dr. Pimentel, digno diretor  e proprietário do Colégio São Luis, pelas sua maneiras gentis e elegantes,porte delgado e esguio e sempre muito bem trajado, aliás como era de se esperar de um homem na sua posição.Ele foi um precursor da educação privada em Fortaleza ,um tipo de  inovador em matéria intelectual e educativa. De fato, o colégio era para ter a sua memória preservada e ser citado como um marco na história da educação do nosso estado. O mais importante é que ele era um grande amigo dos estudantes e trabalhava com dedicação e desvelo. Todos nós, alunos e funcionários,tinhamos  por ele um grande respeito,nutrindo uma  grande admiração quanto  ao perfil intelectual do Dr. Francisco de Meneses Pimentel e do seu Instituto S. Luiz ,o qual, quero registrar aqui, foi fundado em 1º. de junho de 1907. Eram então  diretores, além dele  o Dr. Pimentel, o Dr. Otávio Terceiro Farias, erudito professor da lingua portuguesa. O vice –diretor era o Crisanto  Pimentel, filho do Dr. Pimentel, o qual apoiava bastante as atividades gremistas dos alunos e as atividades físicas da ginástica. Mais  tarde, coomo você sabe, pois sua mãe trablhou com ele la, fez concurso pra la, ele foi  Delegado Regional do Trabalho no Ceará. Quanto a mim eu era  o secretário do colégio e já me esforçava para tuar como um educador moderno, sendo amigo e orientador dos alunos, conforme a própia linha de trabalho que  a direção implementava. Tenho muitas saudades daquele estabelecimento escolar. Veja que o Instituto S. Luiz mantinha os cursos primário,admissão e secundário e ficava no centro da cidade, ali na rua do Imperador no no. 605 e os seus alunos estavam sempre com suas fardas em ordem e bem disciplinados.

 

L.A. - Sem dúvida as suas lembranças são muito enriquecedoras e ficarão registradas  por sua importância.E o que mais  me diz o senhor sobre as atividades literárias do colégio?

 

  B. A-O Instituto tinha essa  revista a Estimulo a que  me referi e que em 1941, contava com muitos colaboradores e com uma significativa tiragem de cerca de mil exemplares. O  inesqucivel Instituto S. Luiz,de fato, estimulava nos alunos o amor aos estudos. Veja só! Nós tínhamos um Grêmio Literário e uma Galeria de  Honra. Os artigos da revista eram os mais variados possiveis e incluiam desde poesias a pequenos artigos  dos alunos das várias séries . Esses  trabalhos dos alunos, não eram propriamente artigos  do ponto de vista formal, mas eram colaborações, produções  que refletiam o interesse dos alunos pelos colégio, pelos colegas  e algumas contavam dos seus progressos opiniões  e lembranças de férias. Pra que se tenha uma idéia da ebulição intelectual do alunato ,em 1941, em plena guerra prevalecia e era discutido no Gremio Pe. Tabosa  as ideias e pontos de vista sobre a sobrevivencia das civilizações, história e memória.Alguns alunos davam as suas impressões sobre as suas visitas as suas cidades nas férias, como eu já citei, enquanto outros narravam pequenos trechos de suas experiências juvenis e de sua chegada ao Instituto.  A revista  Estímulo foi muito importante como instrumento para despertar idealismos  e se mantinha por meio de anúncios.Era uma forma de aprender e de se praticar o exercício de liderança.Mas, como eu dizia antes, a revista necessitava de anúncos para manter-se. Esses anúncios eram os  de conceituados estabelecimentos comerciais  como as alfaiatarias. Havia a  do Manoel Bezerra Lima, A Elegância Cearense  que ficava na Rua São Paulo e era muito conceituada, mas haviam outras também como a Alfaiataria Rodrigues., imagine que ele era um alfaiate diplomado. É de se entender que  o vestuário masculino e mesmo feminino, pois era a época do uso dos tailleurs pelas mulheres, privilegiava as roupas sob medida. Também colocavam anúncios estabelecimentos como  a Casa Veneza de sapatos, os calçados Clark, a Casa Tupy, a Confeitaria Palmeira, a mercearia Santa Fé, além de anúncios de  vários consultórios médicos como o  do Dr. Otávio Lobo, especialista em tuberculose, uma das mazelas de então. Também outro médico  muito conceituado era o Dr. Fernando Leite que tratava de olhos, nariz e garganta. Ora, isso demonstra muito do interesse da sociedade, da interação melhor dizendo com os estudantes e a valorização de iniciativas culturais como a revista.

 

 

L.A.- Muito interessante. Pode falar um pouquinho sobre os aspectos de saúde em Fortaleza? Sempre se diz que educação e saúde devem andar de mãos dadas...

 

B.S.- O que sei sobre os aspectos de saúde na Fortaleza de então, já que você está tão interessada na memória das cidades, no caso, da cidade de Fortaleza, é que no problema da tuberculose, havia o sanatório de Messejana,emtão uma vila distante de Fortaleza cerca de sete quilometros,numa grande área de mais ou menos uns seis hectares. Havia então o Instituto de Previdencia do Estado do Ceará, hoje transformado. E os seus assegurados tinham direito a uma redução de preços, como é lógico..O que sei bem é que as freiras da ordem franciscana eram muito atuantes e tanto administravam como exerciam vários  serviços de enfermagem. Exemplo curioso é de que o Dr. Arnaldo Neves, por exemplo, que  foi diretor lá, morava,  no próprio sanatório. Apesar da minha área de trabalho, da  minha vocação ser a de magistério, fui professor por convicção, não  se pode negar a ligação entre saúde,as boas condições de saúde e uma mais efetiva aprendizagem.

   Há um episódio curioso que desejo relatar aqui, antes que me esqueça, referente  a uma assombração que era o assunto de ordem entre os alunos do Instituto, mais tarde Ginásio São Luiz. Tratava-se dos passos de uma alma penada que subia a escada todas as noites.Alguns achavam que era um sinal do além,segundo  outros tratava-se der uma brincadeira de mau gosto. O certo é que ficou resolvido que se faria uma surpresa a alma ou fosse la o que fosse. Tudo combinado entre todos, ficamos acordados com a luz apagada para  surpreendermos os passos súbito acandendo as luzes e descobrindo quem seria o autor ou autores das passadas. Assim, todos ficaram a postos para surpreender o brincalhão. Luzes apagadas, mas todos despertos  e prontos para pegar o espertinho. Ao soarem as passadas  de sempre, súbito todas as luzes se abriram,mas....la não estava ninguém. .... Soube-se que um padre ou ex- padre, não lembro bem, teria ali praticado suicidio segundo diziam. O certo é que  uma brincadeira programada para assustar os outros é que  não pode ter sido. Imagine que ninguém mais dormiu tranquilo. Também não era para menos.

 

 

   L.A. - Nossa! Imagino o nível do susto! Rsrsrsrs... Bom, o senhor foi ex- aluno e mais tarde, professor do Liceu do Ceará até as modificações sofridas, por volta de 1958, com Juscelino Kubitscheck como nosso presidente, sendo governador do Ceará o Dr. Parsifal Barroso. O que o senhor pensa do papel do então governador Parsifal Barroso quanto às políticas educacionais para o  Ceará nesse período?

 

   B.S.-  Bem, agora, estamos falando do final da década de 1950 quando de qualquer modo havia impulsos positivos e negativos para a educação no estado. Como positivo eu apontaria a construção de algumas escolas voltadas para o nível médio. Uma delas criada em Sobral, outra no Crato e ainda uma terceira na cidade de Quixeramobim. O interior ficou mais ou menos agraciado, pois com certeza havia necessidade de mais escolas desse gênero. Contudo, como sabemos a educação nunca foi uma prioridade em nosso País. No caso, Sobral é uma cidade de tradição cultural e foi muito bem acolhida a sua escolha. Não se pode esquecer que a interiorização da Universidade seria feita ali com a UVA- Universidade Vale do Acaraú, graças ao dinamismo do Monsenhor Francisco Sadoc Araújo. Veja, não estou falando que as cidades escolhidas não merecessem as escolas. Historicamente, o Crato é uma das cidades mais importantes do Ceará e o mesmo é o que se pode dizer de Quixeramobim.  Na mesma época as escolas de administração veterinária, em nível superior também foram instaladas. Já era uma tentativa de adequação ao momento histórico vivido como diz você, não é?

 

  L.A.- Sim. O que o senhor quer dizer que deveria ter havido um melhor planejamento nessas mudanças agraciando outras cidades?    

 

   B.S.- Além disso, sublinho a questão de um tipo de clientelismo, dando-se um jeito, certo  tipo de improviso clientelista eivado de uma ausência plena de planejamento. Não se pode negar que a falta de planejamento administrativo, as coisas improvisadas não dão bons frutos. Digamos que o efeito é quase imediato quanto à ausência de qualidade nas organizações de qualquer natureza. Observe como essas coisas não são práticas novas.

 

  L.A. - E quanto à menina dos seus olhos, o Liceu do Ceará propriamente?

 

  B.S. - Claro que também ali não poderia ser diferente. A mania de trocar nomes já foi indesejada e o velho e respeitável Liceu do Ceará, recebia à época, a denominação oficial de Colégio Estadual do Ceará.  Veja só! Como se uma mudança de nomes pudesse ter alguma eficácia. Sempre gostei de ser verdadeiro comigo mesmo, coisas que aprendi desde os tempos do Colégio São Luiz, uma excelência em matéria de educação no Ceará de então. Aprendi também a fazer com retidão o meu trabalho e a discordar se preciso for. Respeitar opiniões diversas, mas mostrar o incorreto quando se instala num sistema delicado como a educação oficial. Nomeações de professores não são negociáveis por clientelismo e isto me deixou indisposto, em alguns momentos com o que se queria fazer, então da educação...

 

 L.A. - Acredito ter sido este o motivo principal da sua exoneração do Liceu no início dos anos sessenta, não?  Sempre se tem dito que a eleição do governador Parsifal Barroso com o apoio do PTB- Partido Trabalhista Brasileiro teve um alto preço quando o partido cobrou o preço do seu apoio configurado em nomeações e cargos.

 

  B.S.- Assim é. O partido exigiu do governo nomeações para os seus apadrinhados para cargos na administração estadual, não sendo o Liceu uma exceção nesse quadro de investidas do PTB. Desejavam preencher as possíveis vagas existentes no corpo docente com nomes do seu interesse. Naturalmente, o governador tinha que nos participar os seus planos e não o fez. Assim, o tipo de pressão sofrida ficou evidente. Acompanhado do Secretário de Educação, Dr. Joaquim de Figueiredo Correa, e atendendo a uma convocação do governador rumamos para uma reunião no Palácio da Luz no centro da cidade. Um belo palácio onde hoje figuram importantes grêmios literários, mas infelizmente cindido em dois graças a nossa falta de memória histórica.  Ali fomos chamados para tratar de nomeações de professores do Liceu.  Dirigindo-me ao Dr. Parsifal expliquei-lhe que as aulas já estavam iniciadas e que, naquele momento, em pleno ano letivo, seria impossível o atendimento a solicitações dessa natureza sob pena de ter de dispensar e demitir colegas professores. Chamei a atenção para o ponto de vista ético, explicando ser tal fato não condizente com as normas até então seguidas pelo venerando Liceu. Como é de supor-se esse acontecimento deu inicio a um desconforto recíproco, a um mal-estar entre nós.  Infelizmente, o governador Parsifal Barroso não pode ter apreciado a minha atitude e o clima tenso continuou até o momento de minha exoneração ocorrida em março de 1962. Esclareço aqui que foi a pedido. Eu mesmo pedi para sair. Acreditei sempre na necessidade de se trabalhar num clima harmônico e visando o interesse maior do ensino.

 

 

L.A- Tem razão. Uma mudança de nome não reflete de fato uma mudança. É só uma roupagem nova. A propósito prefiro o antigo nome Palácio da Luz do que o novo batismo de Palácio da Abolição. Então, por sua exposição, Professor Boanerges, podemos concluir que o pedido do então governador Parsifal Barroso, por ingerência dos petebistas não vingou?

 

 B.S.- Pelo menos não cedi até a minha saída. Era uma prática a aprovação dos professores pela Congregação, então composta pelos professores catedráticos e pela própria direção. Não significa dizer que as tentativas de ingerência externa não existissem então. Elas, algumas vezes eram aceitas. Refiro-me principalmente a questão de contratação de professores. Havia normas internas e elas deviam ser respeitadas.

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   L.A.- Professor, e quanto ao fato de que durante o ano letivo de 1961 as aulas no Liceu tenham sido reduzidas há apenas cem dias, embora a legislação em vigor determinasse o mínimo de 140 dias letivos não significa um tipo de ingerência externa para o senhor? O senhor considera que o panorama nacional do período poderia justificar esse tipo de ação por parte do governo Parsifal?

 

 

  B.S- Bom... . Vamos por partes, não é? Em primeiro lugar não se pode negar a necessidade de ingerências dessa natureza em casos específicos como justificou o governador. De fato, o Governo Parsifal Barroso solicitou à Inspetoria Seccional do Ensino Secundário, órgão do Ministério da Educação, o exame da situação de ensino do Ceará no que tange à questão da infraestrutura em função dos permanentes e periódicos racionamentos de luz elétrica. À época, a SERVILUZ, deixava a cidade às escuras no todo ou em parte, impondo restrições à segurança individual e coletiva. Foi o inicio de alguns episódios dos chamados rabos de burro que amedrontavam principalmente, as moças da cidade de Fortaleza. Naturalmente, havia também o peso da crise político-militar que se esboçava após a renúncia do ex-governador de São Paulo, o presidente Jânio da Silva Quadros. Ninguém desconhece as dificuldades trazidas por uma greve e os movimentos grevistas ocorridos durante o segundo semestre letivo de 1961, trouxeram muitas dificuldades para os alunos, notadamente para aqueles que estudavam no período noturno. Do ponto de vista prático é evidente que as dificuldades tinham que ser contornadas. Claro fica, pois a incoerência. Como poderiam eles frequentar o colégio com a assiduidade pedida? Decerto, o então inspetor da seccional de ensino, o também professor Lauro de Oliveira Lima, deve ter analisado os motivos do pedido governamental e considerou de bom alvitre atender ao pedido. Não se nega que poderia ter havido um tipo de horário referente a um melhor aproveitamento dos alunos repondo-se as aulas, todavia o abono de 40 dias faltantes para complementar o ano  letivo  solucionou um impasse. Isto não só porque os alunos não quisessem perder o direito às férias escolares, mas cumprir a carga horária exigida em lei não pareceu propicio naquelas circunstâncias. Acresça-se o fato de que mais além do teoricamente falando, a aprendizagem era muito maior graças ao alto nível dos professores do Liceu do Ceará. Mesmo no inicio dos anos sessenta, a instituição sobressaia-se por um alto padrão de qualidade, sem favor um dos melhores do estado, quiçás do Brasil.

 

   L.A. - Naturalmente este alto padrão de professores está ligado ao estímulo proporcionado pelos seus altos salários. A uma política salarial voltada especificamente para eles ou o senhor não pensa assim?

   

 B.S. - Os salários dos professores do Liceu eram então, condizentes com os salários dos desembargadores. Em 1961, os professores do Liceu podiam discutir e até mesmo aprovar a nova tabela de níveis de vencimento para o magistério. Isto acontecia por meio de uma comissão designada para tal fim. A comissão opinava que um professor não poderá dar mais de vinte aulas semanais em um só estabelecimento oficial de ensino. Ora, este foi um dos segredos do bom funcionamento do ensino e do status de ser liceista. Os alunos do Liceu não precisavam frequentar cursinhos e passavam diretamente no vestibular. O respeito que o Liceu desfrutava na comunidade advinha não só da sua política salarial própria, em tudo diversa da dos outros professores da rede pública estadual de ensino. Eles eram preparados, estudiosos e renomados pelo saber. O liceu foi um grande aglutinador de ótimos professores a alunos talentosos e ali estudaram pessoas das mais variadas classes sociais.

 

 L.A.- Pelo que se examina aqui o Liceu foi um centro de saber e de projeção do saber, não é assim?

 

 B.S. -Sem dúvida. Os professores, em linhas gerais, eram bem remunerados e isto era de justiça: um professor catedrático podia ganhar em média cerca de Cr$ 32.000,00 e um professor de Função – Cr$ 26.000,00. A diferença salarial não era tão grande O professor também ganhava por aulas excedentes a razão de Cr$ 320,00 cada, ou seja, como pode ver aqui cerca de 1/100 do valor da cadeira que ministrava.. O número de aulas da cadeira era regulado bem como o da função exercida. Para que você tenha uma ideia, os demais professores da rede estadual de ensino, aspirantes a professores do Liceu, prestavam concurso de provas e títulos exclusivamente para ensinar no Liceu. Inclusive, não era permitido o seu deslocamento para outras escolas ou funções. O Liceu era detentor de alto padrão de qualidade. O Liceu e a política educacional ali aplicada refletiam-se no alto índice de aprovação nos vestibulares aos cursos superiores dos candidatos como já lhe afirmei. Enfim, era uma honra ser liceista.

 

 

L.A.- Mas, os alunos sempre se manifestavam, não? E quanto aos ecos do movimento estudantil liceista?

 

B.S.- Os alunos eram- em sua maioria- atuantes e contestadores. O colégio era tomado por um fervilhar de ideias e do ir e vir de tantos alunos, pois o colégio funcionava nos três turnos. Sempre existiram os que contestavam grandes e pequenas coisas passando pela rapaziada que se opunha ao aumento de passagens e se insurgia contra as empresas que serviam a linha de transportes. O corpo de bombeiros comparecia e a água fria desestimulava um pouco os gritos da estudantada. Coisas de estudantes. No fundo, o que posso afirmar é que a maioria daqueles estudantes estava ávida por aprender e professores que ali trabalhavam eram vocacionados para o ensino.

 

L.A.-  Pode nos falar um pouco sobre o quadro político de então?

 

 
B.S.- Bom, posso tentar uma retrospectiva. Principio por situar o  diretor do Colégio São Luis, Dr. Francisco de Menezes Pimentel, o qual,  foi um dos interventores no Estado por ordem do Governo Federal. Para registro, digo que o  primeiro interventor no Ceará foi Fernandes Távora, mas ele governou por pouco tempo. Continuou com  o que hoje chamam de práticas clientelistas que  é o que era possível fazer pelas comunidades e quanto a corrupção que nunca foi sanada no Brasil, se ontem houve,no que se chamou República Velha , com certeza hoje está longe de está extinta.

     Os interventores  eram da elite intelectual e assim, não existiu uma   política de acomodação  com as elites locais e sim deu-se uma consequencia natural dentro de um quadro poítico. Ora,o  quadro político cearense esteve, nesse período, era influenciado pela  Liga Eleitoral Católica (LEC), que, como o nome diz tinha uma vínculação religiosa  e era apoiada pelos donos de terra ,agora arrolados com o pomposo nome de  latifundiários interioranos.O governo de Vargas apoiou de saída  os fascistas e o governo local seguia a política do governo Vargas Essa pergunta  eu devolvo  para voces complementarem. O certo é  que  se obteve em todo o Brasil um crescimento do Integralismo  que teve também grande penetração no eleitorado cearense. Agora, deixe-me  dizer que  esse integralismo de Plinio Salgado tinha um quê de nacionalismo e entusiasmava pelas bandeiras de amor à Patria ,uma noçâo que hoje se apaga do ensino e dos ensinamentos aos mais jovens.Agora, se a LEC  apoiou segmentos fascistas  aqui em Fortaleza e no resto do estado era normal que participasse da  organização da  Ação Integralista Brasileira (AIB) no Ceará, não? Todos devem ter direito a asumir suas escolhas. Pois se assim não fosse não existiriam lutas de opinião nem registros históricos sem os quais não se pode fazer história séria. Não acho que a  Legião Cearense do Trabalho (LCT),  que era uma organização operária deixasse de ter valor por ser conservadora  e contra o comunismo. Claro que os desejos da Igreja são diversos do comunismo  e quase todas as associações são corporativistas.Assim,essa críticas ao intervencionismo no Ceará  no governo Vargas  sobre   antiliberalismo  existente no Ceará  nese período de e 1931 e 1937 só pode ser vista dentro das concepções de uma época . Não é você que fala sobre a importância do momento histórico vivido? Nessas análises, alguns nomes tendem a ser esquecidos como o de  Severino Sombra, o qual após o   exilio por ter apoiado a Revolução Constitucionalista de São Paulo em 1932, foi perdendo parte do seu poder. Quando ele voltou  do exílio, abandonou a LCT e fundou a Campanha Legionária, mas o sucesso foi pequeno.  A  Igreja quase toda  apoiava  à AIB e  já começavam a surgir  movimentos e entidades operárias de esquerda entre nós Acho que foi em1937, que todas as associações que diziam ter orientação fascista  como a LCT, AIB e a Campanha Legionária foram extintas por Getúlio Vargas e seu Estado Novo porque o Brasil já se ligava aos aliados.Uma exigência interna depois de afundamento de navios nossos.  O fato é que com a deposição de Getúlio em 1945, o educador Parsifal Barroso elegeu-se deputado constituinte pelo Partido Social Democrático (PSD). Infelizmente abandonou o magistério, creio que em 1949 e passou a se dedicar só a política e foi eleito deputado federal pelo mesmo PSD. Depois, ele ingressou no Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), e foi senador naquele período difícil do suicídio de Vargas em 1954. Depois de cumprir o mandato de deputado federal em 1955, assumiu o Senado. Com o advento das tensões da renúncia de Jânio Quadros e a posse de Juscelino na presidência da República, foi ministro do Trabalho, Indústria e Comércio. O trabalho do ministério nessa fase conturbada da república complicou a definição política do Dr. Parsifal. Ele tinha compromissos estabelecidos com a coligação de partidos que levara Juscelino à presidência da República. A força das ideologias o levou a tentar evitar a uma maior participação política da classe operária. Para isso precisou usar o controle do governo tanto o da estrutura como o das   lideranças sindicais.Tomou medidas  para dificultar que os da esquerda assumissem o controle dos sindicato. Em 1958, tivemos uma das nossas grandes secas, numa reunião do presidente Juscelino com os governadores regionais, foi designado membro da comissão  para coordenar o auxílio.  Nesse ano, em outubro, elegeu-se governador do Ceará na legenda das Oposições Coligadas. Não sei se você sabe, mas elas eram  formada pelo PSD, o PTB e o Partido de Representação Popular (PRP).  Então  em 25 de março de 1959,  passa a ser governador do estado. O governador atravessou três presidências: de Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart e em 1964, retirou-se das funções públicas.

L. A.- Realmente, as coligações cobram grandes preços. Curioso é que o Dr. Parsifal Barroso com o currículo de contenção da esquerda tivesse se afastado no movimento de 1964. E ele só volta em 1970 com a ARENA não é?

B.S.- De fato. Olhe outra coisa, não se confie tanto na minha memória. Talvez seja bom verificar todas essas datas que menciono aqui. Falo disso para que fique claro como um professor e admirador do Liceu pôde modificar a situação vigente pelo peso dos pactos políticos vigentes.. O que eu não posso deixar de, hoje, sublinhar aqui é que desde os  seus  inícios, tanto o Instituto São Luis como o Liceu do Ceará consolidaram o seu grande prestígio, eu diria um prestigio reconhecido pela sociedade do Estado. Ambos, cada um na sua dimensão, foram colégios que se  empenharam  na formação do aluno. Assim, os que  lá estudaram constituíam um tipo de  elite intelectual aqui no Ceará. Posso até citar outras instituições de ensino que também tiveram destaque, como o Seminário ali na Prainha e o próprio Ateneu Cearense, mas na esfera do ensino privado e do ensino público esses dois foram os grandes expoentes. Depois, lamentavelmente, a memória dessas instituições de educação no Ceará não teve ainda os seus biógrafos. Tenho que ressaltar também que o São Luis tinha o sistema de internato. Certamente não havia como no Liceu, uma tão grande quantidade de alunos e o quadro de professores e de  funcionários, igualmente não poderia ser tão grande. Ressalto aqui, que naquele momento, a  maioria da população, de forma geral, não tinha maiores interesses pela educação formal.

 

 L.A.- Professor, e quanto à disciplina aplicada no Colégio São Luis e do Liceu do Ceará, elas se equivaliam, não? A minha impressão é a de que a o rigor da disciplina, embora houvesse certa camaradagem entre alunos e professores, conforme me narrava meu pai, Luiz Rodrigues de Aragão, era necessária para a aprendizagem e mesmo para a necessária ordem do recinto.

 

B.S.- A tônica da educação pedia uma disciplina rigorosa, mas não implicava em desrespeito nem em maus tratos. Havia o objetivo de garantir o bom funcionamento das aulas e certamente tentava-se preservar a tradição dos colégios. Aliás, isso vai bem avante inclusive os colégios para moças tipo o de freiras  como Dorotéias, Santa Cecília, Imaculada Conceição. Mesmo educadores como Filgueiras Lima, outro grande nome da educação no Ceará, mantinham um regime disciplinar interno que colaborava para a projeção, o nome do colégio e a de seus alunos. Estávamos falando sobre os ecos das movimentações liceístas e muitas vezes elas se ligavam ao problema do aumento de vagas e a oferta de horários dos cursos. Havia público para que a instituição operasse nos três turnos.

   No Estado Novo, o Liceu do Ceará já era um estabelecimento maior, com a ampliação do número de vagas, e oferecimento de turmas suplementares nos três  turnos  e o curso ginasial noturno.Isso respondia a uma tentativa de valorização do ensino dentro  de uma estratégia maior  para tirar o Brasil  do atraso, ausente que era de modernização Em suas dimensões e enquanto funcionou, o São Luis também mantinha uma demanda significativa, pois no meio de um processo de urbanização parte da sociedade já compreendia a necessidade e importância da educação. No caso do Liceu do Ceará a procura por vagas aumentou historicamente a partir da década de 1930. O crescimento populacional de nossa cidade contava com uma classe média emergente que via na educação, uma forma de conquista de melhores condições de vida. A experiência no Instituto e depois Ginásio São Luis, me ensinou o quanto a educação conferia prestigio e facilitava a ascensão, social, política e também econômica. Todos os colégios da época mantinham o desafio de manter a mesma qualidade de ensino e firmar suas  tradições.

 

 L.A.- Nesse sentido, respondiam-se as mudanças propostas nas reformas educacionais de dois dos ministros da Educação e de Saúde, Francisco Campos em 1931 e a de Gustavo Capanema em plena Segunda Grande Guerra em 1942. Aliás, Professor Boanerges, na chamada Era Vargas, tanto o ensino secundário como o ensino superior, estava sob o controle direto do Governo Federal, não é assim?

 

B.S. -Sem dúvida, o fato é que além dessa variação  estrutural, não se ligava como se pode pensar só  na condução da disciplina escolar ou só no papel dos professores . Os esforços para ampliar vagas e ofertar melhores serviços, nem sempre foram vitoriosos. No caso do Liceu, absorver toda a procura e ao mesmo tempo tendo que adotar os exames de admissão para os que pretendiam uma vaga ao curso ginasial não foi tarefa fácil. De qualquer forma, foi um processo seletivo útil para que entrassem, em tese, os mais preparados. Um tipo de seleção baseada no mérito e que mantinha certo nível de saber no ensino  secundário. Quero dizer aqui que uma boa parte dos alunos era atraída pela fama da instituição, grande parte dos alunos do Colégio São Luis
que procuravam cursar o ensino secundárioera não só daqui de Fortaleza, mas  alguns deles,vinham também  de outros Estados.O que não posso deixar de lhe dizer é que todos estes  meus anos de mestre, são anos são por mim lembrados com muito carinho e como um tempo de muito rigor na disciplina, pensava-se que uma certe austeridade combinava melhor com a receita do saber. Você conhece o meu livro sobre o Liceu do Ceará e continuo achando até hoje que nada igualou a importância do Liceu que foi no seu início uma instituição itinerante por quase meio século. Alegavam-se parcas condições financeiras e assim ele funcionou em, pelo menos cinco locais diferentes.

 

LA. - De fato, creio que a primeira sede própria foi por volta de 1849. A história do Liceu e do próprio Instituto, depois Ginásio São Luis está inserida, portanto, no movimento de valorização de um movimento maior, que era a valorização do ensino como estratégia de modernização estreitando o período de atraso. Concorda?

 

B.S.- Esclareço que essas ideias existiam também no plano federal. Havia a ideia, já por volta de 1887, e até os anos de 1910 e 1920, da expansão da rede escolar e do cumprimento de uma tarefa de diminuição do analfabetismo do povo.  Nos anos seguintes os de 1920 /1930, passou-se a dar uma ênfase maior aos aspectos qualitativos nas questões educacionais. Tanto era assim que em 1907, por pioneirismo do Dr. Pimentel em 1º de Junho já havia uma tiragem de 1000 exemplares da revista O Estimulo, órgão do Grêmio Literário Monsenhor Tabosa. A essa época eu era já secretário do Ginásio São Luiz fundado, como já disse em 1º de Junho de 1907. O Ginásio fundou e manteve os cursos Primário, Admissão e Secundário e mantinha um corpo docente idôneo e selecionado, funcionando na Av. do Imperador,605. Até hoje relembro o número do telefone do ginásio... 1511. Também O Estimulo recebia patrocínios como o do advogado Autran Nunes e do Banco Popular de Fortaleza S. A. O Banco fazia propaganda também pelo rádio e tinha um slogan: o banco da confiança. Isto vem demonstrar os passos gigantes dados em Fortaleza beneficiando como um todo a educação no Ceará. Também acho que esse interesse em patrocinar os órgãos literários do colégio como os grêmios indicam uma interação e uma participação, mesmo que pequena de parte da sociedade.

 

L.A.- Acredito que se sublinhava o valor da disciplina e do respeito aos mestres como medida educativa e valorização da aprendizagem. Como ela era mantida em momentos difíceis como vimos aqui?

 

B.S.- Os pais dos alunos se preocupavam com os internatos  e dentro de uma perspectiva preventiva a vigilância era vital. Raramente se falava em advertência e  suspensão. A autoridade dos mestres, a cordialidade com os alunos, o controle da direção direcionava-se aos mecanismos de como premiar e como distinguir.
 Dentro do Liceu a vigilância do diretor do Liceu meu  querido amigo  e parente, Otávio Terceiro de Farias, e o inspetor-chefe de alunos, João Pedro da Silveira era importante para manter tudo no lugar. O Luis Aragão, seu pai, foi inspetor de alunos no Colégio São Luis e depois deu também algumas aulas de matemática no velho Liceu. Acertadamente, o tio dele e fundador do São Luis, O Dr. Pimentel como era chamado, criou o Batalhão Escolar, em 1937. Foi mesmo uma recomendação que partiu dele, do Dr. Pimentel, então Interventor Federal no Ceará. O Dr. Menezes Pimentel, considerava inovador o batalhão aos quais muitos desejavam integrar. Eles vinham no início das aulas, acompanhando a entrada de alunos, às vezes no horário de aula, nos intervalos e também nos recreios. Isto foi muito usado no Liceu. Era comum que a fiscalização existisse extramuros do colégio, pois o aluno poderia ser identificado, pela farda ou pela identidade estudantil. As penalidades eram leves, e poderiam ser amenizadas quando o aluno tinha bons antecedentes. Havia cordialidade naquele tempo. O seu pai, por exemplo, era chamado carinhosamente Aragão. Ele era polido, brincalhão e não criava casos.

 

L.A.- Certamente, as ideias políticas de alguma forma, sempre ali fermentavam, não?


B.S.-  Sim. Havia mesmo como uma recomendação aos movimentos estudantis, com o golpe de 1937, e esta era a de que evitassem atividades de cunho político. As reuniões de alunos fossem ou não do Liceu, não era proibida, mas o controle, por parte da Direção, era certo e visava preservar o respeito à autoridade. Em vez de promover discussões políticas, o que na época poderia gerar instabilidade, estimulava-se uma formação literária de lideres e de amor ao civismo. De certa forma, estes movimentos colaboravam com o trabalho disciplinar da direção, participando da vigilância ou preparando os alunos para os eventos cívicos. Mais uma vez saliento que, se falando de penalidades aplicadas aos alunos, lançava-se mão daquelas mais leves, sempre que possível atenuada pelos bons precedentes do aluno. A cordialidade entre alunos e professores aproximava-os, tornando-se mais fácil formatar a ideia comum entre os  educadores  que era a de preparar e projetar líderes em vários campos de atuação. Essa ideia avança no tempo e vamos encontrá-la nos anos cinquenta no Colégio 7 de Setembro na mesma Rua do Imperador. Ali nós também vamos ter alunos para aprender e professores vocacionados para o ensino.

 

L.A. - O senhor gostaria de acrescentar mais alguma coisa sobre a história do nosso velho Liceu?

 

 

B. S- Quero registrar uma vez mais que todos os ex-liceistas falam dele com carinho, respeito e emoção. Neles se prepararam para vestibulares, concursos e outras atividades profissionaos. No período de 1959 a 1962, o Dr. José Galba Menezes Gomes me disse  que  as atividades de muitos liceístas mesclavam atividades de classe e as político –ideológicas. Ele, o Dr. Galba, trabalhou para a fundação da Cooperativa Escolar dos Alunos do Liceu e nisso foi ajudado pelo Tito Alencar, Dimas Barreto e pelo jornalista Antonio Frota Neto.

 

L.A.- O senhor acha que o Centro Liceal de Educação e Cultura, o CLEC que se destacava tanto nas atividades desportistas, também se envolveu nos temas político-ideológicos próprios daquela época?

 

B. S. -  A direção do Liceu era conservadora e tida como tal para o momento político que se vivia bem próximo da eclosão da ditadura militar. O liceu tinha uma estrutura rígida administrativamente falando.Creio que se envolveram e segundo me falou o Dr. Galba, mais com a esquerda.Mas, se justifica a estrutura, pois uma escola centenária não se manteria sem uma estrutura séria. Veja que foi a 13 de outubro de 1845 que o Dr. Thomás Pompeu expediu convites para a instalação e abertura do Liceu no dia 19 daquele mês e ano. Não começou com instalações próprias, pois circulou por diversos prédios indo da Santa Casa ao antigo Quartel da Força Policial. Foi só no governo do Coronel José Freire Bizerril Fonetenele que passou a ter prédio próprio,na praça dos Voluntários em 1894. Tudo isso que estou aqui falando está no meu livro sobre o Liceu  e anote que foi só em novembro de 1935 que por obra do interventor, coronel Felipe Moreira Lima o Liceu teve edifício próprio na praça Fernandes Vieira. E não foi só isso, pois o prédio na hoje praça Gustavo Barroso, só foi concluído por outro interventor, o educador Francisco de Menezes Pimentel. A história do Liceu é a história de muitas correntes políicas e visões de educação. Permanece o interesse em contar a sua história como o fez o historiador Mozart Soriano Aderaldo, ex-liceísta, numa série de reportagens no jornal O Povo.São muitos anos marcados pela inteligência e destaque de tatos alunos.

 

L.A.-  Sinto que é muito importante para o senhor fazer este registro sobre o Liceu e a educação no Ceará.Também não poderia ser de outra forma com tantos nomes ilustres que por ali passaram como Farias Brito, Clovis Beviláqua, Austregésilo de Atayde e governadores como Plácido Castelo, não é assim?

 

B.S. -Folhas e folhas de papel seriam poucas para nomear os nomes que passaram pelo velho casarão do Jacarecanga. Professores como Martins Filho, Thomás Pompeu de Sousa Brasil são intelectuais de renome. Lembrar o Liceu é refletir sobre o quadro atual da educação no Brasil. Dentro de uma perspectiva histórica, os governos federais investem pouco ou investem mal em educação. A educação é considerada custeio e não investimento. Não se trata de um problema novo, mas é de suma gravidade o nosso atraso edcacional.Quando pensamos nisso creia, sinto-me profundamente contrangido. Sou um educador e a situação da educação no Ceará é apenas uma pálida sombra do que foi no passado.

 

L. A.- O senhor gostaria de registrar  algo mais, alguma  coisa a mais a nossa entrevista?

 

B. S.- Gostaria de fazer um apelo à reflexão. Comparo a educação com um enorme edifício, com uma diferença: a sua grandeza maior não será atingida, mas a grandeza dos seus resultados estará sempre a serviço do povo.Quero agradecer a sua visita e interesse por mim e pelo meu trabalho. Desejo-lhe éxito. Sempre foi voltada aos estudos e isto é o fermento que liga todos os que amam a educação e o saber no nosso país. Obrigado. Fico feliz que divulgue as minhas ideias e o meu testemunho sobre o velho Liceu e a minha ótica do que foi a educação naquela época.

 

 

ADENDO :

 

O Professor  Boanerges Sabóia morreu aos 95 anos, em 14 de Novembro de 2011.

 

Professor Boanerges Sabóia com sua esposa Edith.

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