Segunda, 09 Março 2015 05:33

Notas Sobre o Desenvolvimento da América Espanhola (Do Período Mercantilista ao Período Dito do Liberalismo)

 
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Na evolução da formação histórica, econômica e social da América Latina podemos observar nos seus primórdios ter havido sempre uma adequação à estrutura dos países europeus, ditos colonizadoras. Noutras palavras, o desenvolvimento da América Latina desde o descobrimento tem gravitado em função dos centos exteriores, tendo a Europa como ponto de partida até a influência dos Estados Unidos da América nos dias atuais.

 

Profª Drª Luciara Silveira de Aragão e Frota

  

          Na evolução da formação histórica, econômica e social da América Latina podemos observar nos seus primórdios ter havido sempre uma adequação à estrutura dos países europeus, ditos colonizadoras. Noutras palavras, o desenvolvimento da América Latina desde o descobrimento tem gravitado em função dos centos exteriores, tendo a Europa como ponto de partida até a influência dos Estados Unidos da América nos dias atuais.

          Durante o período mercantilista que podemos considerar de 1500 a 1750 aproximadamente, temos a forma de dominação escravista (1) e servil (2) como necessidade de suprimento da mão-de-obra e o motivo e métodos de produção conduzidos também, a realidade de colocação de produtos no mercado externo pelas potências então dominantes. Este período envolve não só a conquista da região, mas ainda a formação das instituições e estruturas sócio-econômicas dentro dos quais se apoiará o relacionamento das colônias versus metrópole. Nesse período inicial, temos estimativas populacionais nas Américas que variam de 15 a 30 milhões, (3) com áreas de concentração em parte da América Central, México, Colômbia, Peru, Equador e a parte norte da Argentina, habitadas por astecas e incas, respectivamente.

          As organizações desses impérios já são geradores de excedentes pela existência de uma elite diretora necessária ao funcionamento e organização do sistema em exercício. Aliada às atividades de economia urbana, caracterizada por produção artesanal e a proteção de serviços comunitário-tributário, o Estado “se apropria de uma parcela de seu excedente” (4) (tributando-a), dando-se através dos funcionários do Estado a distribuição de excedentes nos núcleos urbanos. Em outras áreas americanas, com a prática de uma agricultura de subsistência como entre os taianos e mapuches, temos vazios de baixa densidade populacional como os pampas e o chaco percorrido por nômades primitivos. Ora, usava a política mercantilista uma indução no aumento das exportações e uma diminuição de importações cujos caminhos seguidos para obtenção de resultados seriam redução no consumo interno; restrições quanto a importações; cultivo e exportação de produtos de fácil comercialização em outros países com conseqüente incentivo para as exportações, havendo, portanto, necessidade de um aumento de produtividade gerado por um aumento de populações. Assim, as colônias foram naturalmente às fornecedoras desses excedentes. De início com o ouro e a prata, através de apropriação dos estoques existentes, e, posteriormente, quando, esses se esgotaram, pelo controle da organização de produção, transportes, comércio e taxação. Quanto aos produtos agrícolas, quando de grande valor por unidade, tal também acontecia em razão do próprio desenvolvimento do controle dos meios de produzir, comercializar, transportar, e, ainda, pela taxação sobre os produtores.

 

(1) Basicamente a escravidão ligada à compulsão do trabalho utilizando o homem da terra como o

     caso dos maias, astecas e incas. Resguardando-se diferenciais de organização do trabalho ainda

     quanto ao Brasil e Antilhas e quanto à Argentina, Uruguai e Paraguai. Cf.maiores dados in Darci

     Ribeiro, As Américas e a Civilização – R.J.- Editora Civilização Brasileira,1970, p. 166.

(2) As formas de servidão foram múltiplas na América Latina. N.A.

(3) Darci Ribeiro. Op.Cit. p. 184. Estudos mais modernos dão estas cifras como controvertidas.

(4) Cf. Fernando Lopes de Almeida “A Especialidade da Diferença Entre a formação Social”.  

      Latino-Americana”, in Revista de Cultura VOZES, janeiro/fevereiro, nº 1, Brasília,1975.

 

          O relacionamento das regiões da América com a Metrópole está diretamente ligado a suas respectivas atividades de exportação, donde se poderá concluir que há variação de objetivos quanto ao tratamento dado às áreas de cultura de subsistência com falta de recursos naturais onde além da ocupação, desenvolveu-se a demanda européia relativa ao café, tabaco e açúcar, por exemplo, principalmente nas colônias onde melhor se implantou um adequado sistema de transporte(5). O ouro e a prata, os recursos humanos para sua exploração e uma agricultura de excedentes, características dos impérios asteca e inca, tiveram assim maior poder de concentrar as atenções dos povos colonizadores.

          O período de 1567 a 1650 marca a fase áurea do mercantilismo colonial quando o país colonizador toma medidas para suplantar problemas ligados não só a assegurar a obtenção de produtos agrícolas, mas ainda a manutenção da mão-de-obra. Criou-se a mita, que tomou no México o nome de quatequil, e ali se retiravam indígenas das reduções para serviços especializados nas minas, por um relativo espaço de tempo; e as “encomiendas”, seu correspondente na agricultura, em que o nativo presta serviços sem remuneração(6) ou, mais tarde, com direito a um salário praticamente simbólico, que em nada alterava as suas miseráveis condições de vida. Uma outra medida, foi ainda à concessão de terras.

          Para efetuar a transferência de excedentes, a Coroa Espanhola cria a Casa de Contratação através da qual só comerciantes devidamente credenciados podiam exercer o comércio com as Colônias.Era a instituição do monopólio.O transporte desses excedentes era feito, ainda, através de portes especiais tanto na Colônia como na Metrópole, utilizava-se o sistema de “frotas”. A participação direta da Coroa exercia-se através da produção do ouro e seu controle, bem como, através de impostos que se destinavam à arrecadação de excedentes e a proteção das manufaturas da Metrópole. Tal política possibilitou que se desenvolvesse a extração mineral e o aumento de produtos tropicais com vistas à exportação e ainda o suprimento das necessidades dos núcleos urbanos que congregavam a mão-de-obra disponível para o trabalho em minas e plantações.

          A toda estrutura produtiva, corresponde uma estrutura social que se cimentou no setor urbano por representantes dos interesses da Metrópole como burocratas e militares, clero, comerciantes, proprietários de minas e de estabelecimentos rurais e, por último, o grupo de artesãos e trabalhadores servis compostos de índios, negros e mestiços. Quanto ao setor rural, temos fazendeiros e empresários; ordens religiosas rurais e a massa de trabalhadores de minas e agricultores também não espanhóis. Note-se que na colonização espanhola as cidades tiveram em alguns casos papel de centro de gravitação das comunidades, enquanto fenômeno contrário se deu no Brasil, de colonização portuguesa.

          Era grande a importância do Estado e da Igreja. O Estado, através de uma estruturação de poder e hierarquia composta de monarca, vice-rei, governador e órgãos representativos dos interesses da Metrópole como Conselho das Índias, Audiências Reais e Casas de Contratação e ainda os que representavam os interesses das Colônias, como o Cabildo, destinado aos residentes importantes das principais cidades, e o Consulado, para tratar de interesses coloniais. A Igreja com funções estabelecidas entre a Coroa e o Vaticano com uma missão educacional-evangelizadora e o cumprimento de funções administrativas ligadas à direção de cemitérios e registro de nascimentos, tendo recursos oriundos de doações, tributação, vendas de terras e produção.

          Poder-se-á falar de um Modelo Colonial Espanhol que se liga fundamentalmente aos padrões econômicos, colimados através de medidas tomadas no campo social político. A área de maior concentração de interesse como já ficou dito correspondia a dos impérios asteca e inca, onde não foram tomadas medidas de substituição de grupos dirigentes oriundos da região havendo uma incorporação dos chefes índios, curatas, caciques que passaram a fazer parte da burocracia colonial (7).

 

(5) O Brasil com Portugal por exemplo – N.A.

(6) Fernando Lopes de Almeida, artigo citado, p. 50.

(7) Dados do Prof. Leon Pommerantz, prof. Visitante da PUC/SP – Entrevista pessoal – 27 de

     agosto de 1980.

 

 

A produção agrícola vai-se destinar principalmente ao abastecimento da área prioritária de mineração que regula os volumes das transações de comércio e o volume de transferência para a Metrópole, amortização da economia e o seu nível de renda, à arrecadação tributária e o nível das importações feitas. Em função dos núcleos urbanos e aumento de populações de origem ibérica foi aumentando o interesse de cultivo por produtos alimentícios como o trigo, arroz, centeio, gado, cevada e aveia. Há, aí, portanto, em exploração mínima o aproveitamento do potencial natural e do humano cuja necessidade de mão-de-obra vai interferir diretamente no equilíbrio econômico, com relação ao aproveitamento dos recursos produtivos nas áreas ditas de economia de subsistência, a que já nos referimos. Aí, a preocupação maior da Coroa foi, não só a sustentação administrativa civil e militar, mas o desenvolvimento de atividades de comércio ligadas à produção e comercialização de couros, vinhos, azeites e mulas, por exemplo. Nas áreas ou espaços cognominados vazios, como Uruguai e Chaco, a preocupação fundamental foi a de fortalecer o poderio militar e civil para reduzir e evitar não só a penetração territorial de outras potências, mas ainda reprimir o contrabando. O estabelecimento dessa burocracia repressora requereu financiamento do Vice-Reinado e de um comércio relativamente pequeno com outros recantos englobados para sua área de controle. Aí, se desenvolveu desde cedo a agropecuária para fins de exportação, que teve característica extensiva, correspondentemente à baixa densidade demográfica, sendo o campo um controle de atividade econômica e o criador de gado o principal elemento social. Daí uma mão-de-obra escassa e conseqüentemente cara.

          A variação, (8) a linha intermediária encontrada no modelo referido é uma modificação do mencionado em regiões tropicais. Como partes no Brasil, ou as Caraíbas, por exemplo. Houve aí uma economia repousada sob um grande número de escravos, voltada desde o nascedouro para a exportação de produtos agrícolas em grande evidência no século XVIII, com um fraco grupo de comerciantes e burocratas, e encimada por poderoso grupo de donos de terras e fazendeiros.

          Em resumo, podemos afirmar terem sido a mineração e a agricultura os principais geradores de excedentes e inversões.Excedentes que subvencionaram gastos de consumo dos proprietários, pagamento de impostos, remessa para a Metrópole e acumulação, que conduziu à expansão potencial da capacidade produtiva, a qual, para se efetivar, necessitava de um mercado para colocação de produtos exportáveis.Condição preenchida, pois foi eliminada a capacidade de absorção de metais em parte da Europa (9) e ainda a melhora da disponibilidade de mão-de-obra feita através de um aumento quantitativo, que poderia ser explicado pelo acréscimo mais ou menos constante de uma população, concentrando-se a mão-de-obra na mineração, atividade prioritária, e reduzindo-se na agricultura. Outras alternativas ligadas a este item seriam o aumento, quer na produtividade, quer no número de horas trabalhadas, e a diminuição no número de trabalhadores que precisavam ser utilizados na agricultura, o que chamaríamos de redução ao nível de subsistência.

          A demanda ilimitada de metais preciosos levou a uma demanda derivada sempre maior, especialmente de novos produtos agrícolas, e uma crescente necessidade de mão-de-obra para agricultura e mineração, a que se ligam como conseqüências as migrações internas, a reclamação de terras para plantação de novos produtos agrícolas e a concentração de população em povoados e “reduções”. Tais conseqüências levam à razão principal da decadência indígena do império espanhol do século XVI. É que os fatos mencionados prejudicaram enormemente a organização de trabalho em comunidade, o equilíbrio ecológico dos cultivos tradicionais primitivos e o sistema usual de irrigação.

 

 

(8) Variação que ocorre em áreas imprecisas – Lembre-se ainda as diferenciações da pecuária no

      caso brasileiro. N.A.

 

(9) Problemas ligados ao excesso de ouro na Espanha. A expansão do suprimento de metais preci-

     osos alcançou por volta de 1600 “um bilhão de dólares”. Parte dele era fruto das pilhagens fei-

     tas pelos espanhóis nas terras dos incas e astecas, mas o grosso provinha das minas do México,

     Bolívia e do Peru.

 

          O modelo econômico adotado para a área preferencial dos Impérios Inca e Asteca, bem como o adotado para os chamados “espaços vazios” encontrou o seu ápice, aproximada e concomitantemente por volta da segunda metade do século XVI e primeiras décadas do século XVII.

 

AS MUDANÇAS E AS CRISES NA ESTRUTURA INSTITUCIONAL

 

 

          Por volta de 1650 (10) até o final do século XVII, surgem alterações fundamentais no funcionamento da economia colonial de natureza mercantilista, que tem início no Peru com a crise de mineração causada pela falta de mercúrio, escassez de mão-de-obra e principalmente o esgotamento dos veios superficiais. Esta crise das minas do Peru, leva à crise de todo o sistema atuando como geradora de mudanças. Conseqüentemente, há perda da ascendência dos grupos ligados à mineração tanto no campo econômico como no político, que é substituído no poder por um novo grupo: - o dos exportadores de produtos tropicais e daqueles que se ligam às atividades agrícolas e pastoris. Novas atividades tomam vulto, havendo inicialmente várias restrições à produção manufatureira. É preciso diversificar para substituir, daí os conflitos entre os crioulos e a Metrópole, que terminaram na abolição de muitos privilégios e restrições. Entraves institucionais são assim removidos por pressão das colônias, necessidade de estímulo ao comércio entre a Espanha e América, crises políticas e de Estado ocasionadas pela crise na mineração, atividade da qual estava dependente a Espanha. É a época da ascensão econômica, política e militar da França e Inglaterra. De todos os fatores mencionados é justamente o problema da decadência da mineração, que leva ao enfraquecimento do controle centralizado da Coroa sobre as Colônias. Deste processo inicial vai surgir a fermentação da Independência a partir de 1808 (Quito e Caracas), com a substituição do monarca espanhol por José Bonaparte à época das guerras napoleônicas. Os movimentos pela Independência começaram justamente nas áreas ditas “Vazias” e nas de economia de subsistência. O movimento converge da periferia para o centro, tendo Buenos Aires, (1810) por ligação a potências como a Inglaterra e por estar sob controle menos rígido da Europa, conseguido a sua libertação.

 

 

O PERÍODO DO LIBERALISMO

 

 

          Diríamos que aí termina o período colonial e teremos até a década de oitenta a organização dos Estados Nacionais. Poderíamos conceituar generalizadamente o período de 1750-1870 como a época do liberalismo, quando há mudanças externas iniciadas com a decadência espanhola como centro comercial e imperial ante a Holanda e depois a Inglaterra. Isto marca não só a transportação de uma supremacia dantes espanhola, mas a superação do conceito mercantilista como maneira de organização política e econômica do Estado, substituído que foi pelo liberalismo, como mudança ideológica em profundidade representada tipicamente pela Revolução Francesa e a independência norte-americana, além da origem dos primeiros Estados Republicanos. Na época contemporânea, podemos enquadrar a supremacia britânica e a independência da América Latina no período de 1810-1824 dentro de um quadro de mudanças radicais de orientação político-social e econômica registrados pela História, no mundo exterior a que se vinculava a América Latina.

 

 

 

(10) Cerca de 1650, já há decadência na produção de minerais, de modo especial no Peru. O México

        conserva, entretanto, a sua produção até o século XVIII.Das notas de aula do Professor Emanuel

        da Veiga Garcia, Curso de Mestrado em História – 1973.

 

 

 

 

 

          A mudança do panorama mundial já enunciado conduziu a modificações políticas também nas Colônias Espanholas, onde se formaram as juntas governativas para representarem o monarca deposto; excetuando-se os Centros da Colônia onde havia concentração de poderes em mãos do Vice-Rei. A própria maneira de evolução da crise denota a falta de coesão entre periferia e centro na cidade. As  juntas governativas, formadas por crioulos e espanhóis, traziam principalmente ao plano local a resolução de problemas da colônia e Metrópole, que antes eram resolvidos na Espanha, e os do centro e periferia coloniais, antes resolvidos em Lima ou no México. Quando, após as guerras napoleônicas, a Espanha tentou, através de manobras diplomáticas a reconquista das suas colônias, a primeira junta de governo do Prata contou com certa simpatia britânica, alicerçado em laços comerciais relevantes, principalmente no que concerne ao Rio da Prata e as Caraíbas, e pelo interesse na transmutação do sistema mercantilista da Espanha em sistema de livre comércio. A luta pela libertação começou simultaneamente na Venezuela, na Bolívia, (naquela época Alto Peru) e no Prata iniciaram a guerra de libertação culminando com a queda da dominação espanhola do Peru na batalha de Ayacucho, em 1824. (11)

 

          Com a independência das colônias, há renovação de estrutura que dá importância especial aos aspectos da vinculação estabelecida com a Inglaterra, cujos condicionantes são o que poderiam render as áreas naturais inclusive do ponto de vista de transporte e a opção por estruturas anteriores vinculadas aos fatores geográficos, como já nos referimos, ao tratarmos do modelo colonial Espanhol. Como aspectos de estrutura interna, o essencial, é, o manter ou não, o ideal integracionista do Bolívar, firmado no exemplo norte-americano somado aos fatores da conservação do Império Espanhol que se manteve unido durante séculos e a criação de vínculos comerciais e econômicos que as colônias criaram entre si. A opção tomada pela América Espanhola foi a de surgimento de vários Estados. Motivada pela existência de caudilhos, cujo poder se estabelecera na colônia e fora consolidado durante a Independência e os conflitos de interesses entre periferia e centro, notadamente entre o Peru e os Países do Pacífico e do Rio da Prata. A criação de uma estrutura interna e o estabelecimento de vínculos externos é realizada aproximadamente até 1850. A adoção de estrutura interna foi influenciada pela ideologia liberal com base nos ideais de soberania que nortearam os movimentos marcantes do liberalismo. Praticamente tais ideais se expressaram através de um sistema jurídico, cujas normas operam só parcialmente, pois foi aplicada às relações entre membros dos grupos dominantes e as relações internacionais. O relacionamento entre grupos dominantes e grupos dominados, estes constituídos de negros, mestiços e índios, toma formas que remontam, muitas vezes, aos resquícios da época colonial e de seus métodos de produção.

 

          As nações recém-formadas sofreram mudanças cujo grau é variável em função do tempo de duração das lutas da Independência, pois onde o processo foi mais demorado, as modificações foram mais profundas.Modificações havidas desde a estrutura social já existente condicionadas pelo emprego de métodos de produção e características geográficas da área, até o surgimento e fortalecimento dos grupos novos, mormente dos importadores e comerciantes estrangeiros, notadamente dos ingleses, como foi o caso da Argentina e do Chile, onde os setores de exportação passaram dos crioulos para o controle inglês. Os reflexos deste sistema de estruturação interna e vinculação externa vão levar a corrente política dos liberais e conservadores. Poderíamos dizer até certo ponto que os liberais representaram os interesses exportadores e foram influenciados por idéias européias e americanas. Quanto aos conservadores, pretenderam uma política mercantilista de cunho nacional, apoiando-se nos comerciantes e fazendeiros importantes e na burocracia colonial. Há em muitas dessas vinculações irreverências aos conceitos de liberdade e igualdade perante a lei e principalmente quanto ao aspecto de concepção de contrato de trabalho.

    

 

(11) Terminou a dominação espanhola na América Continental, Cuba,, porém, continua sob domínio

        até quase o fim do século. Prof. Dr. Leon Pommerantez. Entrevista citada.

 

Naturalmente que do choque de idéias e interesses entre conservadores e liberais brotaria uma política compromissada e mista de alguns elementos liberais, como a liberdade de comércio, e de outros protecionistas, relacionados com a instalação de portos, estradas de ferro e fabricação de produtos para militares. Em síntese, temos que, até 1850, aproximadamente, as relações externas americanas se nortearam, pelos políticos liberais, mas também pela estrutura preexistente. Lembre-se ainda que o surgimento dos políticos liberais, aplicada ao comércio externo, surgiu primeiramente no Rio da Prata, estendendo-se depois ao Pacífico. Isto porque a região era não só mais afastada da Europa, o que por si só constituiria uma limitação como condicionamento de comércio, mas ainda pelo tipo de recursos disponíveis não ser o exigido para o consumo europeu. Alia-se a isto os problemas de desorganização interna. O processo econômico nesta fase foi decisivo para o período posterior que se estenderia até às vésperas da primeira guerra mundial, quando acontecerá na economia externa o fenômeno do chamado modelo de crescimento para fora.A estruturação da economia da época poderia ser classificada e sub-classificada obedecendo à especificação de áreas onde predominaram a agricultura de subsistência e aquelas onde as sociedades não sofreram modificações em sua essência. Como exemplificação nos casos do mencionado modelo de crescimento para fora, poderemos mencionar a Argentina, onde o desenvolvimento das áreas vazias se ligou à transferência de recursos humanos e de capital para estabelecimento de uma infra-estrutura de base, compreendendo uma série de transformações tecnológicas e aumento de produção cujo impacto interno foi, contudo, traduzido em termos de uma agropecuária extensiva. Altos salários e mais fixos foram ali pagos para atrair imigrante, dada a escassez de mão-de-obra neste período. Uma parcela do excedente ficava logicamente em mãos dos latifundiários, o que implica em dizer que, embora o imigrante desejasse terras, não lhe sobravam alternativas para possuí-las. Havia, assim, na Argentina, maciça concentração de renda. As atividades de comércio externo levavam aquele país a monetização da economia, ao aparecimento proporcionalmente crescente de um mercado interno, à inclinação do estilo europeu de agricultura, em último plano, à integração nacional. Integração que se fortaleceu quando já os grupos dirigentes se tinham pacificado e apropriado daquelas áreas de terra para criação de gado. Propriedade que produzia sob controle nacional, mas cuja comercialização obedecia à orientação estrangeira. O Estado não teve na Argentina atuação além do incentivo às imigrações, sua integração através de processo educativo, concessão de mais tarifas, fortalecimento da indústria do país e incentivo ao comércio através da adoção de políticas liberais. Este último item deveu-se ao fato de que os interesses de nacionais e estrangeiros se ligavam quanto aos gastos comerciais de importações e exportações, além de que a classe média se manteve arredia a estes interesses, composta que era por burocratas do setor de serviços e agricultores, não estando ligada à exportação. Vale lembrar que essa política liberal não sofreu interferência dos trabalhadores, que não tinham oportunidade no processo de ascensão ao poder, não só por ser difícil o sindicalismo em zonas rurais, mas, ainda, por serem em pequeno número nas zonas urbanas, excetuando-se o setor de serviços e frigoríficos. Ao longo do tempo, o desenvolvimento econômico levou a uma industrialização incipiente. Quando da Primeira Guerra Mundial e da crise de 30, alterou-se o modelo exportador, sem danos para a economia, que resistiu com novo sistema: a substituição da importação.

 

          O Chile representa um modelo diferente para análise e já por volta de 1830 era considerado nação com razoável estabilidade, dada sua consolidação institucional, política e econômica precisamente na primeira metade do dito século XIX, ou seja, por volta de 1830. Na segunda metade do dito século, tomou vulto a sua exportação de salitre, cuja demanda aumentou graças ao emprego como explosivo para a Europa e, também, como fertilizante. É, contudo, após a guerra do Pacífico (1879-1883) que as exportações chegam ao seu auge, quando a maior parte da área disputada como Peru e a Bolívia fica em mãos chilenas. A importância do salitre para a economia chilena foi, também em razão da grande utilização direta da mão-de-obra, A Primeira Guerra Mundial teve no salitre importante material bélico. Nessa época, era iniciada a exploração de cobre com capital e através de companhias americanas; na década de 20 acelerou-se a exploração do cobre e a indústria de salitre entrou em declínio. Contudo, na crise de 30, a economia resistiu e diversificou-se.

 

          Cuba representaria um outro tipo de estrutura com base no açúcar onde se empregou vasta mão-de-obra e onde as flutuações se ligaram aos períodos de colheita e entressafra.Destas flutuações surgia a estrutura latifúndio-minifúndio, mesmo quando se sabe que o minifúndio podia gerar mão-de-obra para o período das safras, gêneros alimentícios, permitindo surgir a substituição do escravo sem grandes problemas. Os progressos da economia internacional ao final do século XIX levaram a modernização do setor exportador para estabelecer competição com a beterraba norte-americana e a cana-de-açúcar do Havaí. A necessidade de exportação para os Estados Unidos, graças ao aumento da demanda neste país levou a inovação tecnológica na indústria de cana de açúcar e a exportação de algumas empresas. Estas conseqüências se fizeram sentir, em termos de uma maior concentração de propriedade, criação das centrais substituindo os antigos engenhos, e, causa da necessidade de terras para criação de gado, a criação de um estado competitivo que culminaria com a aplicação dos recursos dos pequenos produtores numa agricultura de subsistência. A expulsão destes pequenos produtores vai proporcionar abundância de mão-de-obra notadamente após a guerra da Independência (1898). Nos nossos dias, temos que as inovações tecnológicas aumentam a produtividade e conseqüentemente a receita, além da mão-de-obra abundante que determinam salários baixos por outro lado. Note-se que o sistema produtor exportador de açúcar gerou a criação de um sistema ferroviário e deu ma ampla rede de comunicação abrangendo todo o país, e, de um sistema financeiro e comercial voltado para o setor exportador. Após a Independência, a economia, que continuava especializada, levou a uma substituição de interesses espanhóis e, até certo ponto, cubanos por interesses americanos e a uma maior concentração de propriedade. A situação de dependência como colônia da Espanha seria assim trocada por uma dependência, econômica, política e jurídica dos |Estados Unidos que substituiu também a orientação mercantilista colonial espanhola. No século XX cresceu a renda per capitã dos cubanos, mas as reinversões praticamente inexistiram, por causa dos acordos tarifários com os Estados Unidos, feitos por grupos que favoreciam aquele país. Em Cuba, diferentemente do caso chileno, não captou o país grande parte dos excedentes produzidos pelo setor exportador e em virtude da especialização de sua economia, à época da grande depressão vai conduzi-la ao recesso.

 

          Quanto ao México e ao Peru, são países que desempenharam papéis de centros na época colonial e enfrentaram no século XIX graves problemas políticos internos ligados a guerras com vizinhos e a intervenções de estrangeiros, conseguindo, contudo, desenvolver um setor exportador. No Peru, tal acontece com o guano por volta de 1840-1880; possível de ser extraído das costas do Pacífico, e pouco sujeito aos efeitos da crise.

 

          É neste período que se verifica aumento de imigrantes das mais variadas procedências. Tanto chineses como polinésio nas várias razões impedem que o Peru rume para o desenvolvimento. São variadas as causas que deixam de gerar demanda adequada para uma infra-estrutura desenvolvimentista. Dentre eles podemos enunciar a própria localização geográfica, um mercado pequeno em relação a grande concentração de renda decorrente do recebimento de concessões pelos produtores para exploração do guano do Estado e venda aos exportadores por produto fixo. O aumento da taxa de lucro era feito com a exploração dos trabalhadores; a atividade se esgotava ao fim de 40 anos além de que o Estado durante o período pouco captou do excedente gerado por tal atividade de exportação, sendo uma parte utilizada para desenvolvimento das ferrovias e de modo até certo ponto improdutivo em melhoramentos cubanos. A falta de diversificação econômica faz com que o Peru entre em depressão na crise de 1929.

 

          Quanto ao México, desenvolveu as exportações de minerais e de gado, principalmente com a subida ao poder de Porfírio Diaz em 1876, e conseqüente restabelecimento da ordem. O capital estrangeiro, notadamente o inglês, o estadunidense e o alemão no setor de minérios, leva o país a um desenvolvimento maior estabelecendo-se aí uma situação diferente, tendo-se a atividade exportadora como motivo de desenvolvimento. É que a atividade agropecuária e de mineração volta-se para o setor exportador, abrangendo ambas uma vasta área e havendo criação de uma infra-estrutura adequada. Nem o fenômeno da concentração da propriedade no México impediu o surgimento de um razoável mercado interno. Concentração conseguida pela ocupação de áreas vazias e pela expulsão de índios e camponeses de seus territórios, em começo do século XIX. O impulso maior foi dado à época de Porfírio Diaz em 1880, tendo com resultado o fato de que a maior parte dos mexicanos ficaram sem terra, seguindo-se uma série de conflitos (12). Com a Revolução de 1910, foi mudada toda a estrutura mexicana, pois as terras foram divididas com a liquidação de fazendeiros nas zonas rurais, sendo o poder obtido pelos caudilhos da ordem burocrática. A bandeira hasteada passa a ser então a de distribuição, como ocorreu com o petróleo em 1937 durante o Governo Cardenas e o desenvolvimento planejado que também com ele se inicia.

 

 

 

 

(12) Com a Revolução de Yucatam, em 1847, a de Juarez, em 1857 e mesmo a Revolução

        Mexicana. N.A.

 

Lido 3513 vezes Última modificação em Quarta, 01 Abril 2020 12:56